Capítulo 19 - Distração.

1430 Palavras
Dom Castilla 06/05 | Barcelona, ES — Não acredito que uma bocetå tenha te deixado tão aéreo assim. — Leandro soltou, debochado, enquanto largava uma pasta sobre a mesa. Revirei os olhos, contendo a vontade de jogar o grampeador nele. — Vai se føder. Ele gargalhou alto, como se eu tivesse contado a melhor piada do dia. Em seguida empurrou os papéis na minha direção. — Aqui, o documento da carga. Já conferi tudo, fiscalizado e liberado. — disse, cruzando os braços. Assenti, passando os olhos pela papelada. Tudo certo. Ótimo. Talvez agora eu pudesse me concentrar no trabalho e não naquela mulher que não saía da minha cabeça desde… desde ontem. Inferno. — Ok. Mais alguma coisa? — perguntei, tentando encerrar a conversa rápido. — Tem, sim. — respondeu Leandro, se jogando na cadeira de frente para mim com um sorriso irritantemente presunçoso. — Na verdade, eu queria saber que droga aconteceu com você. — Como assim? — franzi o cenho. — Dom, você está completamente fora do seu eixo desde que chegou aqui hoje — ele inclinou o corpo pra frente. — Chegou mais calado que o normal, mais impaciente que o habitual, e com uma cara de quem… — ele piscou — tá com problemas. Suspirei, massageando a testa. — Não é nada disso. — afirmei — Você sabe bem o que aconteceu, não foi nada demais. — Claro. — ironizou. — Porque você sempre leva mulheres para sua casa. E sempre fica com essa expressão de quem levou um murro emocional no estômago. Lancei a ele um olhar afiado. — Eu não levei ninguém pra dentro da minha vida. Só aconteceu. Leandro ergueu a sobrancelha, triunfante. — Aconteceu. Essa é nova. Normalmente você até esquece o nome das mulheres que leva pra cama. — Eu nunca vou esquecer o nome dela — falei antes que pudesse evitar. Leandro abriu um sorriso lento, satisfeito, como um predador farejando sangue. — Quer dizer que a tal Atena é… especial? Bufei. — Não começa. — Especial o suficiente pra você buscar na academia. — enumerou nos dedos — Levar para ver o seu lugar preferido. Deixar ela entrar na SUA CASA. Transår por sei lá quanto tempo. E, veja só, ficar PENSANDO nela no dia seguinte. Meu maxilar travou. — Leandro, eu juro por Deus, se você continuar… — DOM. — ele me cortou, rindo — Você está obcecado pela mulher. — Eu NÃO estou obcecado. — rosnei, mais rápido do que pretendia. Merda. Leandro apoiou os cotovelos na mesa, me analisando como se fosse meu terapeuta — um péssimo terapeuta, i*****l e irritante. — Você está, sim. E sabe como eu sei? Porque quando um homem como você fica obcecado, ele tenta esconder. Igual está fazendo agora. — Eu não escondo nada. — falei firme. — Claro que esconde. — levantou-se, dando dois tapinhas na mesa. — E quer saber? Isso é ótimo. — Ótimo? — repeti, incrédulo. — Melhor você preso numa mulher do que preso dentro da própria cabeça. — deu de ombros. — E, convenhamos, se fosse pra cair na tentação, caiu muito bem. Ela é uma tremenda gostoså. Me levantei rapidamente e ele correu até a porta. — Sai! — rosnei. Ele riu, satisfeito, como se tivesse ganho a discussão. — Vou sair, vou sair. Mas não adianta fingir que não está surtando por dentro. — apontou para mim — Resolve isso aí. Ou ela resolve por você. E saiu, fechando a porta. O silêncio que ficou para trás foi quase ensurdecedor. Apoiei as mãos na mesa, respirei fundo e encarei meu próprio reflexo no vidro da janela. Obcecado? Não. Isso era exagero. Eu só… queria ela. Pensava nela. Lembrava do cheiro, do gosto, do jeito que gemiå meu nome. Do modo como saiu da minha casa sem sequer olhar pra trás. Meu peito apertou. Maldita. Ela havia entrado na minha vida num ritmo tão abrupto que parecia ter arrancado algo de mim no processo. Como se agora houvesse um espaço vazio onde antes só existia controle. Controle que eu sempre tive. Controle que, com Atena… desaparecia. Suspirei, sentindo a vontade absurda — quase irracional — de vê-la de novo. Leandro podia ser um i****a, mas naquele ponto… talvez não estivesse tão errado. Porque Atena estava na minha mente. Forte demais. Rápido demais. Fundo demais. Quase como uma obsessão. (...) Respirei fundo, tentando puxar minha mente para a rotina, para os números, para tudo que realmente importava. Mas minha concentração já estava uma merda quando ouvi três batidas curtas e firmes na porta. — Entre. — falei, massageando a nuca. Javier entrou. Terno azul-escuro impecável, expressão séria demais até para ele. Se o meu tio aparecia desse jeito, raramente era para conversa leve. — Dom. — cumprimentou, apenas com um aceno. — Precisamos conversar sobre a carga de Valência e… outras coisas. Ótimo. Como se meu dia já não estivesse fødido o bastante. Ele se sentou na poltrona em frente à minha mesa, empurrando um envelope grosso na minha direção. — A papelada está certa? — perguntei, abrindo. — Está. — respondeu, mas o tom dele não tinha nada de tranquilizador. — Mas não é isso que me preocupa no momento. Levantei o olhar, encontrando o dele. Javier raramente demonstrava preocupação explícita. Se estava fazendo isso agora… era r**m. — Fala logo. — pedi, impaciente. Ele respirou fundo antes de começar: — Recebi informações de Marselha. Parece que a máfia francesa está se movendo. E não é movimento pequeno. — apoiou os braços nos joelhos. — Estão se aproximando das fronteiras da Espanha. Meu maxilar travou. — Desde quando? — perguntei, a voz mais fria do que esperava. — Oficialmente? Há três semanas. Extraoficialmente? — deu um sorriso irônico — Desde o momento em que você começou a atrapalhar três dos negócios deles sem nem perceber. Revirei os olhos. — Se atrapalhei, foi porque entraram no meu caminho. — O problema é que franceses não gostam de “acidentes”, Dom. Eles preferem retaliação calculada. Cruzei os braços. — Eles não vão conseguir entrar aqui. — afirmei. — Não na minha área. Javier riu baixo, mas não por humor. — Você sabe tão bem quanto eu que território é relativo quando alguém tem dinheiro para comprar metade das autoridades corruptas da Europa. Silêncio. Uma parte de mim queria discutir, bater na mesa, gritar que ninguém tocaria no que é meu. A outra parte… estava ocupada lembrando que Atena esteve na minha casa ontem. Que meus seguranças a viram. Que meu nome — ou melhor, meu nome falso — agora fazia parte da vida dela. E eu odiava admitir, mas o pensamento de qualquer merda respingando nela me deixava inquieto. Javier me observou por longos segundos, até que inclinou a cabeça. — Você parece… distraído. Não respondi. Não poderia. Não com a imagem de Atena se arqueando sob minha boca ainda queimando na memória. Javier continuou: — Dom, eu sei que seu foco sempre foi impecável. Sempre. Mas agora você está… diferente. — estreitou os olhos. — Algo aconteceu? Minha garganta secou. Pensei em mentir, mas não tinha necessidade. Ele não precisava saber que o “algo” tinha olhos azuis, um corpo de deusa e o poder de me deixar fora de mim com um único olhar. — Estou bem. — respondi, frio. Meu tio claramente não acreditou, mas não insistiu. — Reforço de segurança nos portos começa hoje. — avisou. — E vamos precisar aumentar o monitoramento na fronteira norte. Se os franceses realmente estão testando o terreno, vão fazer isso devagar, esperando que a gente pisque. Assenti, apertando os dedos contra a mesa. — Então não vamos piscar. Ele se levantou, ajeitou o terno e deu um leve toque na madeira da mesa com os nós dos dedos. — Fique atento, Dom. E, por favor, tente não se distrair com… seja lá o que estiver ocupando sua cabeça. — disse, com uma sobrancelha arqueada. — No seu lugar, eu tomaria cuidado. Ele saiu. E eu fiquei ali, sozinho, encarando o nada por alguns segundos. Cuidado. A palavra ecoou na minha mente como uma ameaça silenciosa. Porque, pela primeira vez em anos, eu realmente estava vulnerável. Não por causa dos franceses. Não por causa dos negócios. Não por causa de Javier, Leandro ou qualquer merda interna da máfia. Mas por uma mulher. Atena. E isso, sim, era perigoso pra c*****o. Porque eu estava pensando nela mais do que deveria. Desejando ela mais do que queria admitir. Quase como uma obsessão. E obsessões… matam. E eu sabia disso melhor do que qualquer um.
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