Atena Oliveira
07/05 | Barcelona, ES
A luva bateu no aparador com força, arrancando de mim um sopro pesado. A cada golpe, tentava expulsar a bagunça que minha cabeça se tornou desde a ligação de ontem, mas, aparentemente, minha mente decidiu fazer greve.
E claro… Vicente — ou melhor, o meu aluno — não estava ajudando em absolutamente nada.
— Mais uma sequência. — falei, ajustando o aparador para ele.
Ele avançou. Rápido. A cada golpe, o impacto percorria meu corpo, mas não era isso que me desconcentrava. Era o jeito como ele me olhava.
O olhar dele hoje estava diferente. Mais pesado. Como se tentasse me decifrar, me despir com os olhos. E não era só isso. Tinha um quê de… frustração? t***o? Saudade? Talvez tudo junto e misturado em uma poção perigosa.
— Concentra, piccola. — ele disse, em um tom rouco que denunciava tudo que tentava esconder.
Arfei, irritada comigo mesma.
— Quem tem que se concentrar aqui é você. A guarda tá caindo de novo. — puxei o braço dele de volta pro alto. — Ganha uma surra se continuar assim.
Ele arqueou a sobrancelha, com aquele sorriso torto que, infelizmente, eu já sabia exatamente o que significava.
— Eu não me importaria de levar uma surra sua.
Quase deixei o aparador cair.
Pisquei, tentando ignorar. Ele estava impossível desde que nos vimos hoje. E nem tinha feito esforço para disfarçar. O clima entre nós estava tão carregado que, se a academia tivesse plantas, todas já teriam morrido eletrocutadas.
— Mais uma série. — ordenei, tentando soar firme.
Ele respirou fundo, como se tentasse se recompor, e recomeçou os golpes. Só que agora havia algo errado. O ritmo dele estava fora. Descoordenado. Totalmente diferente da última aula, quando parecia um atleta profissional escondido num terno caro.
E eu sabia que algo tinha mudado.
O que Elena disse martelava na minha mente:
“Eu tô falando sério, Atena. Vicente não vai largar do seu pé.”
Ridículo. Absurdo.
Mas… alguma coisa estava acontecendo.
A cada golpe errado, cada olhar que ele demorava meio segundo a mais, cada toque… sim, os toques. Ele ajustava a postura, mas sempre com a mão grande demais, quente demais, firme demais na minha pele. Como se estivesse com medo de que eu fosse desaparecer se ele soltasse.
Como se quisesse me sentir.
De novo.
— Atena? — a voz dele me trouxe de volta.
Percebi que estava encarando seus lábios. Merda.
— Sua postura — pigarreei — Você está uma droga hoje.
Ele sorriu. Um sorriso perigoso, como se estivesse adorando minha irritação.
— Talvez seja culpa da minha professora. Ela anda… desconcentrando meu foco.
Arregacei os olhos.
— Eu?
— Você. — respondeu, sem nem hesitar.
Virei o rosto, tentando disfarçar o calor que tomou minhas bochechas.
— Bom… — respirei fundo, tentando manter autoridade — Vamos refazer tudo. Desde o início. Mãos aqui, pernas assim…
Me aproximei dele para corrigir a guarda e imediatamente senti seu corpo enrijecer. Era impossível não notar o jeito como sua respiração mudou, como seus olhos desceram para minha boca por um instante rápido — mas não rápido o suficiente.
Fingi não perceber. Fingi muito m*l, provavelmente. Mas fiz.
Os dedos dele roçaram minha cintura quando levantou a guarda e, por um segundo, minha pele queimou onde ele tocou. Era só um treino. Só um toque. Mas meu corpo reagiu como se estivesse de novo naquela maldita pedra gelada, com ele quente, quente demais, me consumindo.
— Atena… — ele começou, baixo.
— Golpes. — interrompi antes que ele dissesse algo que eu não estava pronta para ouvir. — Cinco jabs.
Ele bufou como um animal enjaulado, mas obedeceu.
Só que os jabs eram fortes demais. Impacientes. Carregados de algo que ele tentava, sem sucesso, esconder.
E de repente me toquei.
Ele não estava distraído.
Ele estava lutando.
Contra mim.
Contra ele mesmo.
Contra o desejo absurdo que queimava entre nós desde ontem.
E eu…
Eu estava perdendo essa luta.
Respirei fundo.
— Vamos parar por hoje. — falei, antes que minhas pernas decidissem tremer.
Ele assentiu devagar, os olhos presos aos meus como se estivéssemos prestes a fazer algo completamente proibido no meio da academia.
E talvez estivéssemos.
Mas, para minha sorte — ou azar. O celular dele começou a tocar, ele olhou a tela e seu semblante ficou frio. Ele guardou o celular e se virou para mim, dando um leve sorriso.
— Até amanhã, piccola. — ele disse, e a forma como pronunciou aquilo quase arrancou o ar dos meus pulmões.
Fingi frieza.
Fingi controle.
Fingi tudo.
Mas conforme ele se afastava, a única coisa que ecoava na minha cabeça era:
Merda. Elena estava certa.
Ele não vai me deixar em paz.
E pior…
Eu não tinha mais certeza se queria que deixasse.
(...)
Peguei o celular, pedindo um carro por aplicativo, mas cancelei no meio do caminho. Eu já tinha decidido faz dias que precisava de um transporte meu. Algo rápido, veloz, prático… e que me ajudasse quando finalmente começasse minha caçada a Dom Castilla.
Respirei fundo, ajeitei o cabelo preso em um coque improvisado e tomei meu rumo para a loja de motos mais próxima. Eu já tinha pesquisado preços, modelos, já tinha feito as contas. As economias estavam lá, guardadas com carinho justamente pra isso.
Quando entrei na loja, senti aquele cheiro delicioso de borracha, metal e liberdade. Motos alinhadas como se fossem peças de arte. Potentes, brilhantes, elegantes. A sensação de estar naquele ambiente me trouxe uma pequena onda de adrenalina. Eu precisava daquilo.
O vendedor se aproximou com aquele sorriso treinado.
— Posso ajudar?
— Quero algo forte, rápido e confiável. — respondi, passando os dedos sobre o guidão de uma moto preta fosca que imediatamente chamou minha atenção.
Ele riu, como se eu estivesse brincando.
— Forte quanto?
— O suficiente pra deixar qualquer carro de luxo comendo poeira — respondi, cruzando os braços.
O sorriso dele aumentou ainda mais.
Me mostrou alguns modelos, explicou detalhes, potência, torque, frenagem, estabilidade… mas eu sabia exatamente qual era a minha desde o primeiro olhar.
A moto preta. Linhas agressivas. Bancada esportiva. Motor de arrancar suspiro.
— Essa. — declarei.
Ele piscou rápido, surpreso. — Tem certeza? É… intensa.
— Eu também sou. — assinei o documento sem hesitar.
Trinta minutos depois, eu estava com o capacete na mão, a chave no bolso e um sorriso que eu não lembrava a última vez que tinha dado.
Liguei a moto e o ronco preencheu meu peito. Era quase terapêutico.
Peguei a avenida principal, sentindo o vento bater no rosto, entrando pela jaqueta, arrepiando minha pele. A cidade parecia diferente vista dali. As luzes, o movimento, o cheiro de café e mar misturado com gasolina… Barcelona tinha um charme ainda maior assim.
Acelerei mais um pouco. O som do motor vibrava em mim, trazendo aquela sensação de poder, de liberdade absoluta. Pela primeira vez em dias, eu não estava pensando em Vicente. Ou tentando não pensar. Ou lembrando da noite insana que tivemos.
Eu estava simplesmente… viva.
Quando me aproximei do bairro onde Elena fazia um curso de informática, o impulso veio antes do raciocínio. Virei a moto pra lá e estacionei na calçada. Mandei mensagem:
Atena: Tô na porta. Sai rapidinho. Preciso te mostrar uma coisa.
Demorou uns segundos. Então:
Elena: Amiga, tô no meio da aula. O que você fez agora?
Sorri sozinha.
Pouco depois, Elena saiu pela porta do curso com a mochila pendurada e a cara de curiosa. Ela me viu encostada na moto e praticamente congelou.
— NÃO. — ela disse, colocando a mão na boca. — ATENA. VOCÊ NÃO FEZ ISSO.
— Fiz. — respondi, colocando o capacete no cotovelo.
Ela começou a pular igual uma louca, batendo palmas.
— Você comprou um MONSTRO desses! MEU DEUS DO CÉU! QUE COISA LINDA!
Atena, eu amei!! Ela é a sua cara!
Ri alto. Elena era a energia perfeita pra esse momento.
— Vamos dar uma volta? — perguntei, provocando.
Ela arregalou os olhos.
— Se eu morrer, saiba que eu volto pra infernizar sua vida. Mas sim. Vamos.
Entreguei o capacete extra, que a loja tinha me presenteado.
— Sobe aí, princesa do pânico.
Ela subiu, abraçando minha cintura com força exagerada.
— Atena, pelo amor de Deus, não acelera muito…
— Segura firme — falei, sorrindo, ligando o motor. — Ou vai cair.
E então arranquei, sentindo Elena gritar e rir ao mesmo tempo.
E depois de tanto tempo, eu também estava rindo de verdade. Livre. Leve. Sem medo.
Sem pensar em Vicente. Sem pensar em problemas. Sem pensar em vingança. Sem pensar em nada.
Pelo menos… por enquanto.