Mirella
Desloquei-me no assento sobre o frio chão da varanda com tela de proteção, tentando não fazer careta, mas dor era dor. Não importava o quão prazeroso tivesse sido o sexo — hoje eu havia aprendido o significado das consequências.
Dizer a Marco que eu o deixaria dez minutos depois de termos tido um momento íntimo provavelmente não foi a melhor ideia.
Mas será que o desconforto físico que eu sentia agora me faria recusá-lo se ele entrasse ali e me inclinasse sobre a mesa? Não.
Enquanto eu tomava o café da manhã, Ricardo colocou um cobertor de lã sobre meus ombros.
— Se você insiste em ficar sentada aqui fora, pelo menos se agasalhe. Não queremos que você pegue um resfriado.
— Tenho quase certeza de que não se pega um resfriado por sentir frio. — Terminei de comer minhas uvas. — Mas obrigada por cuidar tão bem de mim esta manhã.
É bom que alguém queira fazer isso.
Marco não voltou para a cama ontem à noite, e, por mais que eu jurasse para mim mesma que sua ausência, tão pouco tempo depois de estarmos juntos, não me magoava, eu estava mentindo. Isso me faria rejeitá-lo? A resposta continuava sendo não.
— Segundo a minha nonna — disse Ricardo —, uma mulher muito sábia, diga-se de passagem, o frio realmente faz m*l à saúde.
— Muito bem, obrigada pelo cobertor. — Ergui minha taça elegante, cheia de mimosa espumante. — E por esse café da manhã incrível.
— Com prazer. — Ele sentou-se à minha frente.
— Você passava muito tempo com sua nonna quando era criança?
— Eu ia para a Itália todo verão para visitá-la. Ela me ensinou a cozinhar.
— Minha avó morava conosco quando eu era criança. Ela não era muito boa na cozinha, mas adorava fazer compras. — Dei uma risadinha. — Passávamos horas na Quinta Avenida.
— Tenho certeza de que você aprendeu muito.
— Aprendi a gastar muito dinheiro em pouco tempo. — Uma habilidade muito útil.
— Quando meus pais se divorciaram, ela se mudou para a Flórida. Eu a visitei algumas semanas atrás. Ela está se candidatando à presidência da associação de moradores do condomínio.
— Acha que ela vai ganhar?
— Se meu pai intervier e pagar alguém, ela ganha. — Levei o dedo aos lábios. — Você não ouviu isso de mim.
— Meus lábios estão selados.
— Você é um bom amigo.
— Posso lhe oferecer mais alguma coisa? — perguntou ele.
— Estou bem. — Dei um tapinha na mão dele. — Faça-me companhia.
— Isso é… meu trabalho. — Ele sorriu. — O melhor que tive em anos.
— Você é tão doce. — Pisquei. — De um jeito intimidador.
— Eu te intimido?
— Eu? — Dei um tapinha no peito. — Não, mas consigo entender como você poderia assustar algumas pessoas. Se você me acompanhasse pela cidade, tenho a impressão de que ninguém me incomodaria.
— Eu jamais deixaria ninguém te incomodar. — Ele completou meu copo com mais champanhe. — Quem sabe um dia eu seja seu guarda-costas.
— Não sou uma pessoa fácil de vigiar. — Empurrei o prato para longe. — Eu me meto em encrenca e às vezes perco minha equipe de segurança.
— Você não me deixaria escorregar.
— Você nunca saberia. — Sorri. — Recentemente me disseram que eu sou… difícil.
— Você é — disse Marco.
Levantei os olhos e o vi encostado no batente da porta, com uma expressão séria, sexy, misteriosa e mais atraente do que nunca. Seria possível ele ficar mais deslumbrante a cada dia?
Há quanto tempo ele estava ali ouvindo?
— O que vocês dois estão aprontando? — Marco olhou para os pratos do café da manhã.
— Estávamos apenas terminando o café — eu disse. — Ricardo foi gentil o suficiente para me fazer companhia, para que eu não me sentisse sozinha.
Considerando que você não estava em lugar nenhum essa manhã.
— Era ele? — Marco cruzou os braços sobre o peito.
— Ele vai me levar para ver a propriedade mais tarde.
— Sério? — Ele lançou um olhar fulminante para Ricardo.
— Vou retirar os pratos. — Ricardo se levantou rapidamente. — Posso lhe oferecer algo?
— Privacidade — disse Marco.
Ricardo recolheu os pratos e se apressou para dentro.
— Por que você é tão c***l com ele? — perguntei.
— Sou mais intimidador do que ele jamais será. — Marco parou ao lado da minha cadeira. — Não se esqueça disso.
— Você estava ouvindo nossa conversa?
— Eu não sabia que era uma conversa privada.
— Não tenho nada a esconder.
Alcancei o livro que havia escolhido para ler naquela manhã.
— Fico feliz em ouvir isso, já que exijo total honestidade.
— Eu não trabalho para você.
— Para ser sincero comigo, não precisa trabalhar para mim.
— Também exijo algumas coisas nos meus relacionamentos — eu disse.
— Champanhe? — Ele apontou para a taça. — Onde conseguiu isso?
— O Ricardo me deu. — Terminei o restante. — Gosto muito dele.
— Vou matá-lo.
Ele está com ciúmes? Talvez eu consiga lidar com isso.
— Você não deveria estar de bom humor depois de termos transado?
— Talvez se sexo fosse a única coisa com a qual eu tivesse que me preocupar — disse ele —, mas nós dois sabemos que não é.
— Eu te ofereci uma solução.
— E eu te mostrei o que achei dela. — Seu maxilar se contraiu. — Não me irrite.
— Tudo bem.
Pensei que algo mudaria depois do sexo, mas eu estava errada.
— Como você está se sentindo? — Ele se sentou à minha frente e serviu água do jarro de cristal.
— Agitada.
— Eu quis dizer fisicamente.
— Não estou pronta para outro round, se é isso que você está perguntando.
— Hum…
Claro, se ele perguntasse…
— Orgulhoso de ser um homem das cavernas? — Abri o livro, fingindo ler.
— Não me lembro de você pedir para eu parar ou ir devagar.
— Você teria parado se eu tivesse pedido?
Nunca imaginei que minha primeira vez seria tão difícil, mas não mudaria muita coisa.
— Não posso responder isso agora — disse ele. — Você precisava entender como as coisas funcionam.
— Como eu disse… — servi mais champanhe. — Homem das cavernas.
— Algo te atraiu em mim.
— Você é bonito. — Coloquei a garrafa no centro da mesa. — Todas as mulheres na concessionária notaram você. Eu queria entender o motivo.
— Provavelmente gostaria que eu tivesse te ignorado.
— Minha vida não estaria tão complicada agora se você tivesse.
Ai. Essa não era a resposta certa.
Virei a página, focando na fonte em vez das palavras. Provocá-lo era prazeroso.
— Você precisa mesmo ler agora?
— O que mais eu deveria fazer?
— Você podia parar de se comportar como uma pirralha. — Ele arrancou o livro das minhas mãos e o lançou para o outro lado da varanda. — Podia facilitar minha vida por cinco minutos.
— Eu quero um telefone. Um roxo, com estojo combinando.
— Não.
— Por quê?
— Porque você não pode ter um. Para que precisaria de um?
— Todo mundo precisa de um telefone.
— Ei! — Ele bateu o punho na mesa. — Controle a boca.
— Você mata pessoas, mas eu não posso xingar?
— Sou um empresário legítimo, dono de uma concessionária respeitável — uma que sofreu um grande impacto ontem à noite. — Não gosto da sua boca suja.
— Há muitas coisas em você que eu não gosto. E, se é tão legítimo, por que não posso ter um telefone?
— Por que você é tão mimada?
— Deixe-me usar o seu para ligar para minha mãe. — Suspirei. — Isso já foi longe demais.
— Se ela te conhece bem, provavelmente acha que você está morta. É um milagre eu ainda não ter te matado.
— Você é um verdadeiro príncipe.
— O que isso deveria significar?
— Que você é insensível. Você não sabe nada sobre mim.
— Como poderia? Você não me conta nada.
— Conto o que você precisa saber.
— Como você acha que sua mãe se sentiria se você desaparecesse?
— Minha mãe morreu há mais de dez anos. — Ele se levantou bruscamente. — Mais alguma pergunta i****a?
— Não falei literalmente da sua mãe… Só tentei explicar meu ponto de vista.
Ele virou-se para o céu cinzento.
Aproximei-me e toquei seu ombro.
— Sinto muito por ter mencionado sua mãe. Você provavelmente sente falta dela.
— Isso não tem nada a ver com ela, nem com a forma como morreu.
— Não estou imaginando nada. — Passei-me entre ele e a tela, encarando seus olhos pensativos. — Se quiser falar sobre ela, podemos.
— O quê?
— Isso parece um tópico para o qual você pode precisar de alguém para ouvir — para conversar sobre isso —, eu disse.
— Agora você é psiquiatra? Aprendeu isso na NYU?
— Notei como você reage quando o nome da sua mãe surge na conversa.
— Eu não tomei nenhum rumo nessa conversa.
— Você se sente assim e, talvez, se conversasse sobre isso, se sentiria melhor. Depois que meus pais se divorciaram, fiquei chateada. Conversar me ajudou.
— Meus pais não se divorciaram. — Ele sacudiu a cabeça. — Não vamos ter essa conversa.
— Por quê?
— Porque não há necessidade disso. — Ele ergueu o dedo. — Não me pressione.
A aparência durona foi uma das primeiras coisas que notei nele. Ele não precisava fingir ser assustador. Ele simplesmente era. Mas aquilo era diferente. Quando olhei em seus olhos, vi um homem tentando ser forte. Um homem fugindo da verdade.
— Quando as coisas se acalmarem, pedirei a Matteo que entre em contato com sua mãe e avise que você está bem. Não me obrigue a matá-lo antes disso acontecer.
Revirei os olhos.
— Se eu não posso ter um telefone, eu quero outras coisas.
— Como o quê?
— Maquiagem e cuidados com a pele.
— Por que você precisa disso?
— Porque estou entediada e isso vai me dar algo para fazer. — Encostei a palma da mão na bochecha e olhei para as unhas. — Preciso de uma limpeza de pele e de uma manicure.
— Você não pode fazer essas coisas sozinha?
— Sou uma mulher.
— Vou providenciar o que você quiser.
— Obrigada.
— Mas não acho que você precise de toda essa maquiagem. — Ele estendeu a mão e acariciou meu rosto. — Você é linda sem isso.
Um elogio? Senti um frio na barriga.
— É muito gentil da sua parte dizer isso, mas maquiagem me faz sentir bonita. Gosto de preencher as sobrancelhas e contornar as bochechas, sabe?
— Não. — Ele passou a mão pelo queixo. — Diga-me o que você quer e eu providenciarei.
— Vou trabalhar na minha lista.
— Você pode fazer isso enquanto eu trabalho. Quero você sentada no escritório comigo.
— Por quê?
— Porque eu disse.
— Você não trabalhou a noite toda? — perguntei. — Quando não estava na cama comigo?
— Você não consegue evitar, consegue?
— Talvez seja você quem não consegue evitar. — Elevei a voz. — Você está tão ocupado gritando comigo e sendo grosseiro que não consegue ver o que está bem na sua frente.
— Ah, eu vejo muito bem o que está na minha frente. — Ele me encostou na parede, apoiando as mãos ao meu lado, me prendendo. — Vejo uma mimada que não para de exigir tudo de mim enquanto estou no meio da maior briga da minha vida. Vejo uma mulher egoísta que não consegue enxergar a maldita situação porque está ocupada demais pedindo coisas que não tem o direito de pedir.
— Como você se atreve!
— Cala a boca! — Ele bateu a mão na parede, fazendo os quadros tremerem. — Vou te lembrar que você veio atrás de mim mesmo quando mandei você me deixar em paz. Eu te disse que não éramos uma boa ideia. Nossas famílias se detestam.
Meu peito subia e descia enquanto eu tentava controlar o coração acelerado. Eu estava furiosa ou excitada com o jeito como ele falava comigo? De qualquer forma, eu ia explodir em três segundos.
— Você entrou na minha vida de repente e me trouxe mais problemas do que eu precisava — disse ele. — Decepcionei meu pai e estou deixando meu irmão lidar com mais do que a parte dele. Por quê? Por sua causa.
— Então me deixe ir.
— Você diz isso como se houvesse escolha. — Ele estreitou os olhos. — Você não faz ideia do que aconteceria se eu te deixasse ir. Você é o que chamamos de alavancagem, princesa.
— Isso ainda é um negócio para você? — perguntei. — Mesmo depois do que aconteceu ontem à noite?
— Não quero falar sobre isso agora. Tenho muita coisa na cabeça.
— Você acha que eu não tenho? Estou presa aqui sem poder avisar minha família de que estou bem. Já parou para pensar que meu pai atacou sua concessionária ontem porque você não me devolve?
— Sei exatamente o que está acontecendo. — Ele baixou o olhar para meus lábios. — É você quem não faz ideia do que está fazendo se acha que pode sair e tudo vai voltar ao normal.
— O que você está fazendo agora não é trabalhar.
— Não me diga como administrar meu negócio.
Ele avançou outra vez, e eu me abaixei, passei por baixo do braço dele e me afastei rapidamente.
— Não faça isso — avisei, erguendo a mão.
Ele parou.
— O que quer que estivesse acontecendo entre nós antes de anteontem era divertido — eu disse. — Mas agora mudou. Precisamos trabalhar juntos para encontrar uma solução. Não podemos ficar aqui para sempre brigando e…
— Fodendo?
— Por que você me provoca? — perguntei. — É você quem começa.
— Você não entende? Viemos do mesmo mundo brutal. Fomos forçados a situações sobre as quais não tínhamos controle.
— Você não sabe do que está falando.
— Não sei? — Apontei para ele. — Você nasceu nesse mundo para comandar um império e limpar a bagunça que seu pai deixou. Vive tentando estar à altura dele, fazendo tudo para não decepcioná-lo, mas não está nem perto de trazê-lo de volta do que estava antes de me levar.
— Se eu fosse você, ficaria calada.
— Por quê? Não quer ouvir a verdade? — A raiva borbulhava. — Você é obrigado a continuar de onde seu pai parou, e esperam que eu me case com um homem com quem não quero estar. Isso não é normal. Não escolhemos essas vidas, mas aqui estamos, vivendo elas.
Nunca percebi o quanto não tinha escolha até agora. Sempre colhi os frutos de ser uma princesa da máfia sem questionar a origem do dinheiro, até que isso me atingiu diretamente. Quando ele disse que eu me casaria com Oliver, reagi impulsivamente e corri para Marco como se fosse um jogo.
— Sabe de uma coisa? — Peguei a garrafa de champanhe da mesa e me virei para sair. — Não me pergunte por que sou mimada. Você, melhor do que ninguém, sabe no que precisamos nos transformar para sobreviver nesse mundo que nossos pais criaram.
— Mirella, não vá embora.
— Não me diga o que fazer.
Entrei na casa e desci o corredor com o coração martelando nos ouvidos. Talvez eu pagasse caro depois por ter falado demais e ido embora, mas, naquele momento, não me importava.