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2405 Palavras
Marco. EU TIVE QUE DAR MEIA-VOLTA. Mas era isso o certo a fazer? Colocou-me em uma posição de força ou envolvi minha família ainda mais nessa batalha? O que meu pai vai pensar? — Marco — disse Lucas. — Há uma remessa importante chegando ao porto esta noite. Garcia está supervisionando tudo. — Aquela que eles estavam esperando para se mover — eu disse. — Isso significa que é importante para Esposito e Bello. — Matteo me ofereceu uma bebida. — Nossas informações indicam que os três estão trabalhando juntos para trazer essa remessa. A autoridade portuária vai fingir que não vê nada. — Essa operação lhes custou uma fortuna para ser montada. — Recostei-me na cadeira. — Estou começando a achar que o fato de os três trabalharem juntos não foi por acaso. — Alguém deu início a tudo — disse Lucas. — Estive analisando os documentos do seu pai e estou tentando ver se encontro algo que me chame a atenção. Algum pedido incomum que ele possa ter feito antes de partir. — Você acha que quem quer que esteja trabalhando com Esposito pode ter abordado nosso pai primeiro? — perguntou Matteo. — É possível. — Lucas olhou para mim. — Isso pode ajudar a explicar as ameaças que seu pai recebeu. — Me avisem se qualquer coisa sair do lugar — eu disse. — Esposito é uma ameaça, mas se ele não for a razão de meu pai ter sido forçado a se esconder, preciso descobrir quem é. — Precisamos lidar com Esposito — disse Lucas. — Você está preparado para essa tarefa? — Por que eu não estaria? Olhei pela janela enquanto Ricardo atravessava apressadamente o gramado molhado. Por que ele estava andando na chuva? Tanto ele quanto Mirella mantiveram distância de mim nas últimas vinte e quatro horas. Ou talvez fosse eu quem estivesse mantendo distância dela. Eu tinha dificuldade de me concentrar quando ela estava por perto. Dar o próximo passo em retaliação contra o pai dela exigia uma mentalidade que eu não tinha quando estava com ela. — Você já pensou em voltar para a concessionária? — Lucas olhou para Matteo e depois para mim. — Sua presença na cidade é necessária. — Nós já conversamos sobre isso — eu disse. — Chega. — Matteo pousou o copo sobre a mesa. — Se você não vai me ouvir, ouça o Lucas. Ele sabe o que o papai gostaria. Eu respeitava Lucas. E Matteo tinha razão quando disse que Lucas saberia o que nosso pai gostaria, mas nosso pai não estava aqui. — Lucas, vou te ouvir, mas tenho outros fatores a considerar. Não é tão simples quanto eu sair daqui e retomar minha vida. Tenho certeza de que você entende isso. — Você se meteu numa enrascada — disse Lucas. — Mas não é uma enrascada da qual não possamos sair. Provavelmente podemos negociar algo com Esposito. — Negociar o quê? Ele sabotou uma das minhas remessas e vandalizou minha concessionária. Eu deveria fechar negócio com ele e esquecer tudo? — Eu não disse isso. — Lucas ergueu a mão quando Matteo lhe ofereceu outra bebida. — Esse problema que você criou com a filha dele precisa ser resolvido. — Como você sugere que eu faça isso? — perguntei. — Deixe-a ir — disse Lucas. — Esposito e Garcia cuidarão dela, e você poderá voltar ao trabalho. Chega de distrações. Encarei Matteo com um olhar fulminante. — Eu não mandei ele dizer isso — disse meu irmão. — E se ela não quiser voltar? — perguntei. — Isso não é seu problema. — Lucas apontou para mim. — Já deixamos isso se arrastar por tempo demais. Ela não é sua responsabilidade. Ela tem um pai e um homem que está esperando para se casar com ela. — Não. — Bati o punho na mesa. — Ela nunca concordou em se casar com ele. Ela não quer se casar com Garcia. Eu não vou mandá-la de volta. — Marco — disse Lucas. — Seja razoável. Você não pode dividir sua atenção e se envolver em outra batalha. Se Esposito não for o motivo pelo qual seu pai teve que abandonar o território, então teremos que concentrar todos os nossos esforços em combater o verdadeiro inimigo. — Vamos ter que abordar isso por outro ângulo, entendeu? — esfreguei a têmpora. — Mesmo que Esposito não seja responsável pela situação atual do meu pai, ele definitivamente está vindo tomar o território, o que o torna uma ameaça. — Estamos lidando com a ameaça — disse Matteo. — Estamos neutralizando a carga. — Então foquem nisso — eu disse a Lucas. — Está entendido? — Ótimo — disse Lucas. — Farei o que você pediu. — Meu pai confia em mim para isso. Inicialmente, cometi um erro ao levar Mirella, mas essa ação pode ter aberto outras portas para nós. Podemos reverter essa situação. — Você precisa se concentrar em tudo, não apenas na filha do Antônio — disse Lucas, levantando-se e abotoando o paletó. — O que você está dizendo? — perguntei. — Que você ultrapassou os limites com seu refém. — Ele acenou com a mão para me impedir de falar. — Está estampado na sua cara. Você está emocionalmente envolvido, e eu sei que seu pai não gostaria disso. Matteo se remexeu na cadeira. — Isso não é da sua conta — eu disse. A posição do meu pai sobre sentimentos e negócios era cristalina. Eu havia quebrado suas regras e permitido que Mirella me fizesse fazer coisas que eu não deveria. — Você se desviou demais do caminho. Está colocando sua família no meio de uma guerra sem o benefício do conselho do seu pai. — Nós estamos aqui — disse Matteo. — Nós confiamos em você. — Você acha? — Lucas olhou para mim. — É claro que confiam. — Levantei as mãos. — Vocês precisam confiar em mim. — Estou tentando — disse Lucas. — Mas agora você está agindo por conta própria, e isso não me agrada. — Assim que reagirmos, teremos uma perspectiva melhor. Podemos desestabilizar Esposito, e Bello vai se adaptar. — E Garcia? — Lucas arqueou uma sobrancelha. — Ele é imprevisível. Não tem lealdade à nossa organização nem à nossa maneira de trabalhar. Ele não é do nosso tipo. — Então que se dane — eu disse. — Vamos destruí-lo. — Ele nem tentou esconder que atacou a concessionária — disse Lucas, balançando a cabeça. — Ele está atrás de você porque você tem algo que ele quer. Isso é um problema que você não precisa. — É isso que eu venho tentando te dizer — disse Matteo. — Chega de distrações. — Não estou distraído — respondi. — Só porque não estou na cidade não significa que não possa administrar as coisas. Ricardo entrou apressadamente no quarto, desgrenhado, agitado e encharcado pela chuva. — Desculpe, eu… — Ele gesticulou em direção à janela, olhando para fora como se procurasse algo… ou alguém. — Peço desculpas por interromper. — O que você quer? — levantei-me. A irritação na minha voz era óbvia; eu ainda não tinha superado o jeito como ele cuidava de Mirella. Ou como ela reagia a ele. Ela precisava dele de um jeito que não precisava de mim. Ele era amigo dela. Seu confidente. Isso não deveria me incomodar, mas incomodava. — Estávamos no meio de algo — eu disse. — Então seja rápido. — Provavelmente não é nada — disse Ricardo, olhando pela janela novamente. — Por que não deixa a gente decidir isso? — Matteo lançou-me um olhar. — Não precisamos dessa distração. Vai se f***r. — É… Mirella — disse ele. — O que tem a Mirella? — Dei um passo em sua direção. — Onde ela está? — Ela saiu para dar uma caminhada. Achei que já teria voltado. — Você é o guarda dela, p***a! — gritei. — Você devia estar com ela! — Não achei que seria um problema — disse ele. — Ela estava estressada e preocupada com a mãe. Queria tomar um ar. Prometeu que não iria longe. — Tomar um ar? — Eu o empurrei. — Que diabos há de errado com você? — Marco — disse Matteo, colocando-se entre nós. — Se acalma. — Há quanto tempo ela está fora? — Cerca de uma hora. — Uma hora inteira? — Bati a mão na parede. — E você só resolveu vir falar comigo agora? — Tentei resolver sozinho — disse Ricardo. — Vasculhei a propriedade, mas quando a tempestade chegou, tive que parar por cerca de vinte minutos. — Então ela está lá fora sozinha? — Cerrei os punhos. — Ou ela se perdeu — disse Matteo. — Ela não faria isso — respondi. Havia a possibilidade de fuga, principalmente depois da nossa última conversa. Mas ela seria tola se não percebesse que estava mais segura comigo do que com o próprio pai. — Conserte isso — apontei para Ricardo. — Vá lá fora e encontre-a. Se não a trouxer de volta, eu corto sua garganta. Ricardo assentiu e saiu correndo. — Qual é o sentido de ele estar aqui? — ergui as mãos. — Ele só tinha uma função. — Não eram essas as distrações que eu disse que não precisávamos? — Lucas olhou para o relógio. — Você diz que está concentrado, mas não consegue terminar uma reunião sem perder sua prisioneira. — Não foi isso que aconteceu. Se ela tivesse fugido, eu a traria de volta. — Como você sugere que eu explique isso ao seu pai quando ele perguntar que tipo de trabalho você está fazendo? — perguntou Lucas. — Você acha que ele ficaria impressionado? — Até onde sei, quem manda aqui sou eu, não você, Lucas. Meu pai não está aqui, e estou fazendo tudo o que posso para manter o controle. — Sabemos disso — disse Matteo. — Todos sabem que você está numa situação difícil. Eu odiava admitir, mas era verdade. Eu não conseguia me concentrar porque precisava encontrar Mirella. — Lucas — dei um passo à frente — eu o respeito porque meu pai valoriza sua opinião, mas você trabalha para mim na ausência dele. — Não estou contestando isso — respondeu Lucas. — Meu trabalho é garantir que você esteja preparado para qualquer coisa. — Então me respeite como respeita meu pai — eu disse. — Ou encontrarei alguém que faça isso. — Não será necessário — disse Matteo, pousando a mão no meu ombro. — Precisamos do conselho dele. — Continuarei oferecendo isso — disse Lucas. — Esta família significa muito para mim. — Preciso que executem o que combinamos — falei. — Certifiquem-se de que essa remessa não chegue ao destino final. Não me importa como. — Vamos resolver isso — disse Matteo. — Lucas, vamos voltar para a cidade. Acompanhei-os até a porta, tentando manter a compostura, mas tudo em que conseguia pensar era em Mirella. Ao abrir a porta da frente, Mirella tropeçou para dentro e caiu nos meus braços. — Oh! — ela se agarrou a mim. — Onde você estava? — examinei suas roupas e cabelos encharcados. — Fui dar uma caminhada. Fiquei presa na tempestade e esperei no celeiro perto do lago. — Que bom que tudo se resolveu — disse Matteo. — Você deixou a fera bem preocupada. — A fera? — perguntou Mirella. — Sim, como em A Bela e a Fera — riu Matteo. — Igual a vocês dois. — Saiam e façam o trabalho de vocês — rosnei, abrindo a porta. — Divirta-se com ele — disse Matteo. — Ele está de mau humor. Bati a porta. Quando me virei, Mirella subia as escadas. — Aonde você pensa que vai? — bloqueei o caminho. — Tomar um banho — disse ela. — Estou congelando. — Você tem ideia de como me fez parecer diante deles? — Não — respondeu, tirando os sapatos e as meias molhadas. — Eles pensam que eu sou distraído e não posso cuidar do meu negócio. — E isso é minha culpa, como? — Ela tremeu. — Eu fui para um… — Você não vai mais fazer isso. — Por que não? — A partir de agora, você levará Ricardo com você. Eu não sabia por quanto tempo Ricardo ainda estaria empregado, mas, por enquanto, eu precisava dele ali para vigiá-la. — Não que ele consiga cuidar de você —, eu disse. — Isso não é culpa dele. Eu precisava de alguns minutos sozinha. — Ela enxugou os fios de cabelo molhados que grudavam em sua bochecha. — Você não pode controlar cada segundo do meu dia. — Você quer apostar? — — Estou falando sério, Marco. — Ela olhou nos meus olhos. — Estou exausta. Estou cansada de discutir com você. — Então pare de tornar minha vida tão difícil. — Estou dificultando sua vida? Você não é quem está sendo mantido em cativeiro por um chefe da máfia brutal e insensível que não se importa com seus sentimentos. Ela tá falando sério? Quase perdi a cabeça na frente do conselheiro mais confiável do meu pai porque achei que ela tinha me abandonado. Como é que eu… aqui? — Fui dar uma caminhada para clarear as ideias porque, caso você não tenha percebido, você não é o único com problemas de família. Eu estou dormindo com o inimigo. — E eu não sou? Criei todo tipo de problema para a minha organização. Ela teve a audácia de ficar ali parada e agir como se estivesse fazendo algum tipo de sacrifício? Fui eu quem arriscou tudo para ajudá-la. — Eu estou fria, molhada e suja. — Ela colocou a mão sobre o quadril. Se ela quisesse ser desafiadora, eu lhe mostraria como lidaria com isso. — Não fiz nada de errado —, disse ela. — Fui dar uma volta na propriedade. Não tentei fugir, embora não saiba bem por quê. — Você não teria ido muito longe. — — Você tem razão. — Ela apontou para o buraco na calça jeans que deixava o joelho à mostra. Começou a chover e eu corri para me abrigar. Torci o tornozelo e caí, mas não se preocupe, seu bruto, estou bem. — Você não vai ficar bem quando eu terminar com você. — Apontei para a escadaria, porque eu finalmente tive o suficiente de qualquer que fosse essa situação. — Suba as escadas.
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