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2272 Palavras
Mirella O começo da manhã estava inundada de sol através da grande janela do meu novo quarto. A noite tinha sido inquieta, mas não porque eu estivesse em um quarto estranho. Dormir ao relento, no meio do nada, nunca foi um problema para mim. Minha noite em claro foi resultado de saber que Marco dormia até mais tarde, no quarto ao lado do meu. Toda vez que eu fechava os olhos, imagens do olhar dele me assombravam. A lembrança do seu beijo estava gravada na minha mente. Por que eu queria mais? Meus lábios doloridos imploravam por mais uma rodada de beijos intensos. Ele não tinha nada de gentil, mas isso não me incomodava. Por que eu o desejava tanto? Eu o desejava. Queria que ele cumprisse as promessas mantidas naquele olhar escuro. Eu precisava que ele me tocasse como ninguém jamais havia feito, mesmo que eu não devesse desejar alguém tão grosseiro e c***l quanto ele. Será que ele sequer gostava de mim? Havia uma atração física entre nós, mas como eu poderia me sentir atraída por alguém que me desprezava tanto — que me fez refém e ameaçou matar meu pai? Remexendo nos pacotes que alguém havia deixado para mim enquanto eu tomava banho, devo dizer que fiquei impressionada com a seleção. Quem escolheu aquelas coisas tinha um gosto fabuloso e um cartão de crédito sem limite. Havia tanta coisa! As calças de moletom cinza-claro foram uma boa escolha por enquanto, e escolhi um shortinho rosa de renda e uma blusinha regata fofa para combinar. Será que Marco pensou em mim quando as comprou? Será que ele imaginou que eu as usaria para ele? A quantidade de roupas era excessiva, até para mim. Por quanto tempo ele planejava me manter ali? Por quanto tempo meu pai resistiria antes de me resgatar? Mas seria realmente um resgate se eu tivesse que voltar e me casar com Oliver? Entrei no corredor sem saber exatamente para onde ia, mas explorar a casa não me pareceu uma má ideia. Familiarizar-me com as janelas e portas poderia me ajudar mais tarde. Eu não planejava ir embora ainda. Daria alguns dias para ver como as coisas se desenrolariam. Marco me salvou de Oliver, mesmo sem saber o porquê. Talvez essa situação fizesse meu pai repensar o plano ridículo que ele tinha para mim. Quando cheguei ao fim da escadaria, lancei um olhar rápido para a porta da frente. A curiosidade levou a melhor, então girei a maçaneta. — Ainda está trancada — disse Marco. — Nossa! — Saí correndo da porta, com o coração batendo mais forte do que segundos antes. Ele estava encostado no arco que dava para a cozinha, parecendo mais descontraído do que eu jamais o tinha visto. Ternos caros, sapatos brilhantes e gravatas de grife eram o seu normal, mas a calça jeans desbotada e a camiseta preta justa, que deixavam à mostra as impressionantes tatuagens em seus braços, eram um arraso. — Você chegou bem a tempo do café da manhã — disse ele. — Você preparou o café da manhã? — Nós temos algo para comer, não temos? — Ele fez sinal para que eu viesse em sua direção. Enquanto caminhava pelo corredor, o forte aroma de café despertou meus sentidos cansados. A noite em claro tinha me afetado mais do que eu imaginava. Ele me impediu de entrar na cozinha. Quando olhei para ele, fui examinada de cima a baixo. — O quê? — perguntei. — Eu não imaginava que você fosse aparecer de moletom. — Não é como se eu tivesse que te impressionar. — Olhei por cima do ombro dele para a comida posta na ilha central da cozinha. Uma pontada de fome cutucou meu estômago. Eu não comia desde o almoço de ontem. — Eu me visto para mim, lembra? — Você vive dizendo isso. — Em que roupa você prefere que eu esteja? Em todas aquelas lingeries sensuais? — Foi por isso que eu as comprei. — Como você conseguiu trazer tudo aqui tão rápido? — Conheço pessoas. — Ele deu um passo para o lado e estendeu o braço para que eu passasse. — Pedi a homens de confiança que entregassem as compras hoje cedo. — Aqueles homens não vão contar ao meu pai onde nós estamos? — Não, se quiserem continuar vivos. — Ele puxou um banco. — Sente-se. — Você é muito exigente. — Oh, com licença, alteza real. Por favor, sente-se para que possa tomar o café da manhã que preparei para o senhor. — Ele me encarou enquanto apontava para a cadeira. — Agora. Resmunguei enquanto me sentava. No entanto, os bagels, as frutas frescas, o iogurte, o café e o suco à minha frente pareciam incrivelmente apetitosos. — Como você toma seu café? — Um pouco de creme não faz m*l. — Peguei um bagel e coloquei no prato. — Obrigada. — Eu não fiz muita coisa. — Ele despejou o café em uma caneca. — Só cortei algumas frutas e fatiei os bagels. — E comprou as roupas também. — Bem, não posso deixar você andando por aí nua com meus homens entrando e saindo daqui. — Por quanto tempo serei sua convidada? Um leve sorriso surgiu em seus lábios quando ele me entregou a caneca. O sorriso fugaz suavizou suas feições. Ele é bonito. — Considerando que já se passaram mais de doze horas e seu pai não entrou em contato com nenhum dos meus associados, prevejo que isso pode levar algum tempo. — Talvez ele esteja bolando um plano. — Será que meu pai me deixaria com Marco? — Se meu inimigo tivesse meu irmão, eu já teria negociado o retorno dele. — Ele se sentou ao meu lado. — Isso me faz pensar se seu pai realmente quer você de volta. — É claro que ele me quer de volta. — Dei uma mordida em um pedaço de abacaxi, e o olhar de Marco foi direto para meus lábios. — Talvez. — Ele deu de ombros. — É apenas surpreendente que ele ainda não tenha feito contato. — Minha mãe provavelmente está morrendo de preocupação. — Se você se comportar, posso pedir ao Matteo que mande um recado para ela daqui a alguns dias. — Comportar-se? — Balancei a cabeça negativamente. — Agradeço as roupas, mas se eu for ficar aqui, vou precisar de um computador e um telefone. Um tablet serve, mas um laptop é melhor. — Isso não é um hotel cinco estrelas. Você não está de férias. — Eu não consigo sobreviver sem eles. — Mesmo que tivesse essas coisas, talvez não sobrevivesse aqui. — Ele apontou para a comida. — Coma. — Você está me ameaçando? — De jeito nenhum, princesa. Dei uma mordida no bagel e mastiguei enquanto o encarava. — Isso é melhor. — Por que você me chama de princesa? — Dei um gole no suco de laranja. — Você não me conhece. — Quero dizer isso como um elogio. — Você escolhe palavras estranhas, hein? — Eu acho você bárbara, mas não te chamo de mulher das cavernas. — Pelo menos, não na sua cara. — Você pode me chamar do que quiser. Isso não vai ferir meus sentimentos. — Isso é porque você não tem sentimentos. — Claro que tenho. — Ele mergulhou um morango no iogurte de baunilha e levou até a minha boca. — Só sei como controlá-los e evitar que me coloquem em encrenca. Chupei o iogurte da fruta antes de cravar os dentes no morango suculento. — Você não conseguiu controlar muito bem suas emoções ontem à noite, quando me fez refém. Ele empurrou o resto do morango para dentro da minha boca, concentrando-se nos meus lábios. — Fazer você de refém será vantajoso para mim. — Ele lambeu o resto do suco do polegar. — Em mais de um sentido. — Você também não controla bem a sua raiva. — Minha garganta ainda doía por causa do aperto da noite anterior, mas lá estava eu, derretendo só de ver a língua dele. — Você devia procurar um terapeuta. — Um homem na minha área não pode fazer isso. — Ele enxugou as mãos com um guardanapo. — A raiva é uma emoção poderosa. Uma que eu posso controlar, se quiser. E acredite, você ainda não me viu no meu pior momento. — Eu também não vi você no seu melhor. — Continue assim e encontrarei outra utilidade para essa sua boca atrevida. Ele se afastou para levar a caneca à pia. Como seria estar com ele? Eu nem deveria pensar nisso, mas será que ele me surpreenderia sendo gentil se eu lhe contasse que nunca… Ele já esteve com alguém? Ou me veria apenas como uma conquista? A resposta não era difícil de imaginar. Por mais que eu tivesse fantasiado sobre perder minha virgindade, jamais pensei que isso aconteceria com um inimigo do meu pai, enquanto eu estivesse sendo mantida como refém. Por que essa ideia me intrigava tanto? — Me diga algo sobre você — eu disse. — Não. Ele se inclinou sobre a ilha, me encarando. — Por quê? — Porque não somos amigos. Não precisamos nos conhecer. — Eu não tenho muitos amigos. — Por que será? — Por que você me insulta constantemente? Eu não sou uma pessoa r**m. — Você não é fácil de lidar. Por que eu me importava com o que ele pensava de mim? — Cresci em uma fortaleza cercada por guardas — expliquei. — Poucos pais queriam que seus filhos brincassem na minha casa. Era difícil criar laços duradouros. Ele assentiu, e por um instante vi um lampejo de compreensão em seus olhos. — Pelo menos você tem Matteo — eu disse. — Eu não tenho irmãos. Tínhamos poucos primos, mas com o tempo nos afastamos. Dei um gole no café. Minha prima mais próxima ficou noiva há alguns meses e não me convidou para ser madrinha. Ela ia se casar com um policial e se afastou do meu pai depois do divórcio dos meus pais. A rejeição doeu. Empurrei o prato para longe. — Faço amigos facilmente, apesar do que você pensa. Mas quando descobrem quem eu sou, só enxergam meu sobrenome. Estou acostumada a não ter amigos. — Talvez eu não seja a pessoa ideal para te aconselhar a procurar um terapeuta. — Ele olhou o relógio. — Tenho algumas ligações para fazer. — Espere. — Levantei-me e o segui até a pia. — O que eu devo fazer? — Maratonar séries, ler um livro… não sei. — Eu não posso ficar aqui sem fazer nada. — Cruzei os braços. — Quero ligar para minha mãe. — Não. — Você é impossível. Quando tentei sair, ele segurou meu braço. — E agora? Ele apontou para o café da manhã. — Você precisa limpar isso tudo. — O quê? — Ri, mas ele apertou mais forte. — Ah, você não está brincando? — De jeito nenhum. — Você não tem pessoas para fazer isso? — Em uma casa segura? Quantas pessoas você acha que eu posso confiar aqui? — Nós temos que fazer tudo sozinhos? Olhei para a comida e depois para a pia. — Nunca precisei fazer isso. — E se pergunta por que eu te vejo do jeito que vejo. — Se você não gosta de mim, por que estou aqui? — Vi uma oportunidade e aproveitei. — Você não precisava ter ido atrás de mim ontem à noite. Poderia ter deixado Oliver me levar. — Era isso que você queria? — perguntou. — Você acha que teria sido melhor? — Não sei. — Balancei a mão no ar. — Você é um i****a. Não vou negociar com você. Ele avançou, e eu recuei até a parede. Meu coração disparou quando sua mão deslizou pelos meus s***s e subiu até a minha garganta. — Chega de desrespeito. Ele percorreu o lado do meu pescoço, entrelaçando os dedos no meu cabelo. Inclinou-se, roçando os lábios pela minha mandíbula até a orelha. A excitação umedeceu minha calcinha, e fechei os olhos quando ele puxou meu cabelo. — Já fui paciente o suficiente — sussurrou. — Vou pegar o que quero e te ensinar algumas lições no processo. Empurrei seu peito, mas isso só o fez puxar meu cabelo com mais força. Meus m*****s doíam em resposta à sua aspereza. — Vou te despedaçar quando te f***r, princesa. Não vou pegar leve. Sua respiração quente contra minha orelha fez meu corpo estremecer. — Vou usar tudo o que tenho até você aprender o seu lugar. — Eu te desafio. Eu queria exatamente o que ele ameaçava, embora não soubesse se conseguiria lidar com seu domínio. Tudo em mim gritava que aquilo era errado — e, ainda assim, eu não ligava. Por que meu corpo o desejava tanto? Por que meu coração também? — Não preciso de desafios para pegar o que quero. — Ele puxou meu cabelo, forçando-me a encará-lo. — Não sou o único que quer isso. Desviei o olhar, não querendo lhe dar essa satisfação. Ele deslizou os lábios pela minha mandíbula até minha boca, arrancando um gemido meu. Pressionou os lábios contra os meus, aprofundando o beijo. Retribui com a mesma urgência. Ele pressionou o corpo contra o meu, músculos duros, dominantes. Passei as mãos por suas costas rígidas, saboreando seu corpo sólido. — Você precisa aprender a pedir o que quer em vez de brincar comigo — disse ele. Soltou meu cabelo e se afastou, dando-me espaço para recuperar o fôlego. — Caso contrário, pirralha, você pode até conseguir o que quer… mas não vai gostar das consequências.
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