Capítulo sete (continuação)

2235 Palavras
A América era um lugar bem diferente da sua amada Irlanda. Não que não houvesse diversão lá, mas por ali as pessoas eram muito mais livres para ser quem elas quisessem ser. Modos, etiqueta e classe não eram necessários, principalmente em Royal Echo. Naquela cidade, o dinheiro e as relações falavam mais alto. Fergal ajeitou a gola da jaqueta, puxando-a para cima. Seu sorriso não saiu dos lábios, mesmo com as caras feias que foram direcionadas a ele. Isso, ele já estava acostumado. - MacCool? – James foi o primeiro a lhe dignar a dar uma resposta. – Que m***a está fazendo aqui? Sem se a****r, Fergal caminhou até a mesa dos mais poderosos de Royal Echo e apoiou as mãos nela. - Magoou meus sentimentos, amigo. – Falou, juntando os lábios em um bico infantil. – Descubro que vocês estão com um problema e é assim que me recebe? - MacCool... – James suspirou, cansado. Se Fergal estava ali, sua noite tendia a piorar. – Pega logo uma cadeira e senta aí. Jackson e Chuck trocaram olhares e voltaram a olhar do irlandês que havia acabado de chegar, para James e para Garret. Nenhum dos dois queria que o galã de novela chegasse para ajudar, já bastava os problemas com Garret, porém não havia outro jeito. Eles só queriam que pudesse ter sido outra pessoa. Fergal sempre estava ao lado de Lilith e isso enciumava os dois homens. Garret sorriu e cumprimentou Fergal antes que esse se sentasse. Era até estranho para Jackson ver a amizade entre ambos, pois se Fergal gostava de Lilith, por que Garret não sentia ciúmes? - Bom, seja bem-vindo, MacCool. – Falou Jackson, com certo tom desconfiado. Precisava agir como se não soubesse de nada. – Mas a pergunta é: como soube dos nossos problemas e como chegou tão rápido com a solução? Fergal se sentou, com as pernas levemente abertas. Ele era espaçoso e sabia que seu jeito irritava ainda mãos os gêmeos O’Brien. Ok, eles tinham de estar do mesmo lado, mas isso não significava que Fergal não podia aproveitar. - Porque, diferente de você O’Brien, eu tenho a chave mágica para abrir as portas da Europa. – Falou, Fergal como se fosse tudo tão simples. – Eu cheguei à cidade esta manhã. Vim visitar Lilith já que soube que ela está doente. – Ele olhou para Garret, colocando a mão no ombro dele. – Aliás, eu sinto muito. Minha mãe também sofre de gastrite e imagino o quanto nossa princesa tem sofrido com as dores. - Claro, Fergal. – Garret concordou de primeira, fazendo James arquear as sobrancelhas. Isso respondia muito suas dúvidas. – Assim que terminarmos aqui, te levo ao apartamento. - Ótimo! – Ele sorriu e voltou a se concentrar no restante dos homens. – Como eu dizia, cheguei a cidade hoje e logo fui informado do sumiço de Keith Speno. Então, pensei... Se eu já estou aqui, por que não estender minha mão e ajudá-los? James sabe que eu tenho contatos no porto da Irlanda. As mercadorias podem ir de lá para Inglaterra, sem problema algum. O modo de falar de Fergal e a resposta de Garret fez Jackson fechar as mãos em punho. Sim, ele sentia muito ciúmes de Lilith. Do que adiantava se livrarem de Garret, se tinha Fergal no caminho? Foi Chuck quem acabou despertando Jackson dos pensamentos com a sua voz. - Mesmo que James autorize você a mexer seus pauzinhos, vocês precisarão de pessoas para receber, assinar os papeis e checar a mercadoria. Com Garret cuidando de sua mulher nos próximos dias, talvez ele fique um pouco mais ocupado e é aí que entramos também. – Ele olhou para James. – Se você quer uma prova de que não somos os traíras que desvia mercadorias, você deve deixar nós dois assumir essa parte. E você sabe que não há ninguém melhor para isso James olhou no olho de cada homem ali reunido. Alguma coisa estava errada. Alguém aí estava tentando lhe passar a perna. Tendo pouco tempo para pensar, James teve que escolher entre o sócio mais fiel, os sócios que poderiam lhe trair mais fácil e o amigo de outras épocas, que o conhecia como a palma de sua mão. - Está bem. – Ele concordou. – Na próxima remessa, faremos desse jeito. O’Brien e O’Brien cuidarão das mercadorias e MacCool as recebe na Europa. Se der tudo certo, nos veremos de novo. Se não der... - Você vai nos m***r. – Fergal riu, mas pariu quando James o olhou com raiva. – Ei, calma. Eu estou brincando. Não é como se você matasse seus sócios só porque discorda deles. Garret ficou passando os dedos no copo vazio de whisky. Lilith tinha avisado. Sua mulher tinha demonstrado sua fidelidade e o avisou sobre aquilo acontecer. Agora, ele precisava saber onde estava pisando e Fergal ia ter que servir para alguma coisa, além de ser um amigo de Lilith. - Que seja. – Disse, entrando no jogo de James e aproveitando para espezinhar a vida de Jackson e Chuck, Garret bateu no ombro de Fergal. – Eu acho que isso facilita para todos nós. Bom, vou ligar para Martinez e saber se Lili ainda está acordada para você vê-la. Ela vai adorar. Fergal poderia vê-la e os dois não? Jackson e Chuck trocaram olhares e ficaram irados. Sem responder a James, Jackson se levantou e ambos saíram da sala, fazendo Garret sorrir. Este pegou o celular e foi para um canto da sala, fazendo a ligação. Já James foi para um canto, seguido por Fergal. - Ainda gostaria de saber como soube do sumiço do Speno e como veio tão rápido para cá. – Falou James, servindo dois copos de whisky e entregando um para ele. – O que falou na mesa não me convenceu. Quem te chamou? Fergal manteve seus olhos nos gêmeos O’Brien, enquanto eles saiam da boate. Se ao menos, os dois soubessem porque ele e Lilith eram tão próximos, as cenas de ciúmes não existiriam. Com um suspiro, Fergal voltou a se concentrar em James. - Meu amigo, quando eu te disse há anos atrás que eu nunca deixaria de saber quais são os seus passos, seus negócios, até mesmo a privada que você se senta, eu não menti. – Ele não tinha medo de James. Entre os dois, havia muita história. – Eu cuido de você, McLean. – Fergal apontou, sutilmente, para Garret ao celular. - Você tem alguns problemas de visão quando o assunto é confiança. Trai quem é leal, honra quem não é... Às vezes, me pergunto, o que seria de você, sem mim. James levantou as sobrancelhas, curioso pelo o que Fergal havia dito. Olhou de Garret para Fergal. - Você sabe alguma coisa? – Perguntou, de voz baixa. Se aproximou do homem. James era muito maior que Fergal, mesmo assim, o homem não se intimidava. – Brianna me falou algumas coisas e eu estou desconfiado, não quero que Garret saiba disso. Então, se tiver alguma coisa, meus ouvidos estão abertos. Com um sorriso, Fergal encerrou a conversa. - Eu já disse, James. Eu cuido de você e vou cuidar daquele que quer esfaquear suas costas. – O irlandês olhou para Garret que havia terminado ao celular. – E Lili? Garret não parecia nada bem. Tinha uma carranca de preocupação. - Luis disse que ela dormiu, depois de tomar os remédios. Você vai ter que voltar amanhã. – Falou, guardando o celular no bolso. – Pelo menos, Brianna conseguiu fazê-la comer uma sopa. A propósito, ela mandou avisar que ia te esperar no carro, James. James bebeu o restante do whisky e olhou para Garret. - Então, eu já vou. – E olhou para Fergal. – Espero que cumpra com a sua palavra. E com um aceno para Garret, saiu pela porta. Garret não parecia alguém que queria companhia, então Fergal se levantou e colocou a mão sobre o ombro dele. - Relaxe. – Disse ele, com simpatia. É claro que ele já sabia o real motivo da "doença" de Lilith, mas Fergal tinha de continuar movendo as peças do jogo. – Minha mãe tem sempre essas crises e com o tratamento certo, Lili também vai superar. Com uma troca de aperto de mãos, Fergal se despediu de Garret e se preparou para sair da American Dream. Algumas mulheres sorriram para ele, outras até se esfregaram em seu corpo. Fergal achou graça e até dançou. Algumas bebidas depois, ele finalmente conseguiu cruzar a saída da boate. Era uma noite fria em Royal Echo. O que era até engraçado, visto que a cidade passara dos quarenta graus na parte da manhã. Ao descer a rua, quase próximo a um beco escuro, Fergal percebeu que estava sendo seguido. Ele se encostou na parede de cimento do beco e levou as mãos a calça. - Isso é sério? – Perguntou ele, rindo. – Vocês estão me vigiando ou me espionando? Tudo o que Jackson e Chuck queriam era deixar as coisas limpas para Fergal. Aquele irlandês não ia ter nada de Lilith para ele. - Eu fico me perguntando o que você tem de especial para até aquele m***a do Ottman deixar ter contato com a Lilith. – Disse Chuck, se aproximando do irlandês. – Ela se sacrificou por nós e não podemos vê-la, mas o bonitão aqui, pode fazer o que bem entender. - Diga o que você realmente quer aqui em Royal Echo, Fergal. – Disse Jackson, levantando o queixo. – Porque se você quer a Lilith, pode ter certeza de que vamos acabar sem um dos nossos sócios no maldito plano do Mateo. Fergal coçou a testa, exausto dos acessos de raiva de Jackson e Chuck. Passavam da meia noite e os dois queriam discutir a relação... Que lindo. - Vocês entenderam tudo errado. – Começou ele, tentando não pesar nas palavras. – Lilith é minha amiga e, ao invés de ficar aqui me ameaçando, deveriam estar pensando em como consertar as coisas com ela. – Vendo a surpresa no rosto dos dois, Fergal continuou. – É, eu sei que Lili não está sofrendo de gastrite. Algum recado para ela amanhã ou vamos continuar deixando a ruivinha se acabar em lágrimas e tristeza? Em um impulso, Chuck pegou Fergal pelo colarinho e jogou contra a parede. - Eu acho melhor você tomar muito cuidado com o que fala, irlandês... Muito cuidado. – Falou, rude. – Ou eu juro que mando você pelos ares antes de voltar para a sua terrinha. Jackson colocou a mão no braço de Chuck. - Acho que ele entendeu bem. Nós resolvemos nossos assuntos com ela, muito obrigado por querer ajudar. Assim, os gêmeos foram embora, sem nem olhar para trás. Fergal ficou olhando eles partirem, balançando a cabeça de modo negativo. m*l enxergavam um palmo a frente do nariz. Idiotas. *** Lexi teve uma noite dos sonhos. Fofocou com as amigas, bebeu algumas margueritas e beijou a boca do homem mais gato de Royal Echo. Tudo estava indo bem, até claro, que a realidade bateu a sua porta e Tom precisou voltar a ser o capacho de James McLean. O que significava que ela precisava ir ao banheiro antes de sacudir as poeiras da American Dream. Lexi odiava aquele lugar. Odiava o que ele representava para sua amiga Lilith. Ela ajeitou o cabelo loiro, enrolando uma das mechas rosa no dedo indicador, saindo do banheiro, evitando esbarrar nas outras pessoas suadas e bêbadas. Luis fez de tudo para ficar de olho em Lexi enquanto Garret tinha a reunião. A baixinha não parava de dançar e nem de sair do lado de Tom. Ela realmente gostava dele, mas dentro de si, Luis não queria se dar por vencido. Depois de Brianna ligar e dizer que Lilith estava bem, Garret ligou, Luis terminou a ligação vendo Tom ir embora e Lexi indo na direção do banheiro. Colocou o celular no bolso e a seguiu. Não demorou muito e Lexi saiu. Ele a pegou pelo braço e levou para uma parte mais reservada da boate. Lexi se debatia e foi quando ele a colocou contra a parede. Luis não disse nada, ele só a beijou. Lexi até queria dizer que o beijo de Luis não mexeu com cada célula do seu corpo. Seu ouvido zumbia, seu coração estava disparado e os lábios de Luis se moviam sobre os seus atordoando seus sentimentos por Tom. Podia se sentir excitada por dois homens diferentes na mesma noite? Ela empurrou Luis, o bastante para que ele se afastasse e ela conseguisse de novo respirar. Ela tocou a boca com a ponta dos dedos e ficou olhando para o devoto da Santa Muerte a sua frente. - Por que fez isso? Luis sorriu de canto, olhando para a mulher a sua frente. Ele não queria assustá-la, só mostrar que ela poderia ser bem mais feliz com ele. - Acho que não precisamos de explicações, não é baixinha?! Ele se aproximou devagar, tocou o queixo dela e apenas depositou um beijo em seus lábios. Depois disso, Luis se afastou de novo, tomando rumo pela porta, sorrindo pelo seu feito. Lexi continuou encostada na parede, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. E, mais... Para onde aquilo ia levá-la? Beijar dois homens na mesma noite não era problema nenhum. Desde que, eles não fossem amigos e envolvidos com os escusos negócios da cidade.
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