Capítulo dois

4698 Palavras
O dia amanheceu na cidade e mais uma vez, Jackson desejou ficar ali, na sua cama para sempre. Desde que tudo mudou, ele não desejava mais nada ali, queria que aquela cidade explodisse, mas ele tinha alguns motivos para não abandonar seu posto de dono da zona leste da cidade. Um deles era “ela”. Com um suspiro, Jackson se levantou e fez tudo o que precisava fazer na sua manhã. Tomou café, se exercitou, tomou um longo banho. Pensou em várias coisas que haviam mudado nos últimos cinco anos e em como todo impacto com a volta de Mateo poderia causar. Sim, ele havia guardado aquele segredo há muito tempo. Jackson nunca desejou ter tirado Mateo de toda a jogada, mas era necessário. Graças a isso, eles puderam ver quem realmente era quem no comando. Pensando em Mateo, Jackson já tinha um destino em mente. Pegou as chaves e dirigiu por toda a cidade. Olhou pelas ruas, procurando por Chuck. Deveria estar caído em algum lugar de tanto usar drogas e beber. Balançou a cabeça, espantando o pensamento. Não queria se irritar logo cedo. Chegar à antiga mansão de Mateo não era difícil, mas precisava ter cuidado. Era quase saindo de sua zona, mas precisava de cautela, nunca sabia quem poderia estar de olho. Entrou na mansão que, depois do ataque e com a nova vida de Brianna e Joanne, ficou abandonada. Ninguém queria mais entrar naquele lugar, diziam ter sido amaldiçoado, mas não para Jackson. Ele entrou na casa, respirando fundo. O cheiro de poeira era grande, os restos de móveis que haviam sobrado estavam cobertos. E foi quando sua voz ecoou pelo lugar. - Eu sei que você está acordado. - Falou alto e tirando o terno. – Soube que você andou pelas noites de Royal Echo. Aposto que estava na American Dream. Das sombras, um homem com o capuz cobrindo a cabeça veio caminhando pelos móveis esquecidos que, outra ora, tiveram uma vida. As janelas estavam fechadas e as poucas cortinas haviam sido puxadas. A luz do sol tentava adentrar pela sujeira dos vidros. - Eu tinha que ver com meus próprios olhos, O’Brien. – A voz de Mateo saiu baixa, mas firme. Levando as mãos ao capuz, ele descobriu a cabeça e ficou em frente à luz. – Eu podia ter atirado no meio da testa do McLean. Ele estava tão perto. Jackson respirou fundo e passou a mão na cabeça. - Estava, mas confia em mim, se ele não te matasse antes, os amigos dele mataria. – Ele se aproximou olhando por uma das janelas. Dava para ver a cidade dali, mesmo na sujeira. – E eu não fiz você morrer de mentira para te ver morrer de verdade. Olhou para Mateo. Ele estava diferente. Passou quase um ano e meio em coma, quando acordou, só perguntava da mulher e filha. Foi difícil para Jackson ter que contar tudo ao amigo, mas era necessário. Mateo se recuperou, hoje, era um touro raivoso, um cão a procura de justiça. - Você não pode se arriscar assim, Mateo. Temos que planejar tudo direitinho, fazer tudo certo. James e todos que se juntaram para te m***r vão morrer logo. - Você sabe muito bem que para isso acontecer, precisamos ser mais fortes que eles. – Mateo rebateu com os olhos fixos no amigo. – Olhe para você, Jackson. Esse terno e essa cara de homem sem sentimentos não funciona comigo. Posso ver você desmoronando. Posso ver sua máscara de frieza rachando aos poucos. Um homem ferido reconhece o outro. Mateo podia ter fortalecido seu corpo, seu cérebro, mas seu coração contava oco. Tanto quanto o de Jackson O’Brien. - O’Brien é teu irmão gêmeo, cara. Falta um pedaço de você, eu sei disso. Jackson não falou nada por alguns segundos. A sua mente viajava. Ele se preocupava demais com o irmão gêmeo. Era seu sangue, prometera a mãe que cuidaria dele, mas Chuck era instável. - Chuck não vai poder nos ajudar, Mateo. Você sabe muito bem que se qualquer um oferecer uma boa quantidade de drogas, ele te entregaria muito fácil. – Suas mãos foram aos bolsos. – Eu não quero arriscar ele conosco e precisamos de aliados que nos ajude a colocar McLean e sua corja aonde merecem. – Sua mente viajou para o jantar, lembrando-se de uma cena. – Garret é meu, eu vou começar por ele. Mateo cruzou os braços e balançou a cabeça. - Não. – Ele falou, como há cinco anos antes. Como o líder que sempre fora. – Eu confio em Chuck. Ele está fudido, eu sei, mas eu confio nele. – Vendo o amigo irredutível, Mateo jogou a única carta que tinha para convencê-lo. – Lilith não vai agüentar muito mais tempo. – Mateo deu um passo na direção de Jackson. – Ela está mais magra, o bronzeado dela se foi. Continua linda, indomável, mas eu vi nos olhos dela o desespero, a dor... Quanto mais você acha que ela vai resistir? Quanto mais você vai agüentar sabendo que a mulher que ama se sacrificou por você e por Chuck? Nos olhos de Jackson estava à culpa de ter deixado escapar a mulher que tanto amava. - Foi minha culpa e eu preciso arrumar essa bagunça. – Respirou fundo e deu de ombros. – Eu preciso ir, preciso achar Chuck, não sei onde está, mas o trarei para cá e você conversa com ele. Aliás, ele vai te xingar ao saber que está na cidade e não o procurou. – Ele ia caminhando para a porta,mas se virou, olhando Mateo novamente. – É muito bom vê-lo de volta, meu irmão. Vamos dominar esta cidade de novo. Eu tenho certeza disso. Mateo assentiu para Jackson. O único modo de recuperar tudo seria se os três estivessem na mesma página de novo. Assim, ninguém os venceria mais porque a amizade os fortalecia. - Reúna o bando, irmão. A guerra vai começar. *** Mais uma manhã que Brianna acorda e sente m*l por tudo o que acontecia na cidade. Ela fitava o teto por alguns minutos se perguntando o porquê a felicidade fora tão longe dela e de quem amava. Levantou-se e pegou a foto dela e Joanne, dando um beijo na menina. Só assim para ela m***r saudades da filha. Tomava seu banho, se arrumava porque seu atual marido, James, exigia que ela ficasse linda para ele. Com a festa do aniversario de casamento se aproximando, era o que mais a distraia de todo seu estresse com aquele homem. No banho, lagrimas caíam e ela depois dava um jeito no olho vermelho. Sentia saudades de Mateo, queria que ele estivesse no comando de tudo. Mateo não era um tirano como James se tornou. A cidade não era uma bagunça. Eram todos bandidos, viviam do crime, mas os dois eram bem diferentes. Desceu para tomar café. James estava na mesa, lendo jornal. Ela se sentou, sem nem olhá-lo. Comeu seus pães e frutas. Até finalmente encontrar o olhar do marido nela. - Você poderia ligar para Garret e pedir que Lilith me encontre no salão da nossa festa? – Pediu, gentilmente. – Hoje chegarão às mesas e os arranjos de flores. A festa é daqui a dois dias e eu preciso de ajuda para deixar tudo perfeito. As refeições naquela casa não eram sinônimo de alegria. Ou se tornavam barulhentas por uma discussão ou eram cercadas de um silêncio profundo. James sabia que Brianna fazia aquilo para irritá-lo. Nem um bom dia, nem um beijo, nem um afago. Ele tirou os olhos do jornal e fixou-se nela. - E por que eu deveria te fazer esse favor, querida? – James abandonou o jornal e pousou sua mão sobre a da mulher, passando o polegar sobre a aliança no dedo dela. – Ontem, você me ameaçou. Por que eu devo esquecer aquilo? Brianna cerrou os olhos para ele, sem tirar as mãos, mas as fechou em punhos. - Não se esqueça que você é quem me ameaçou primeiro, meu amor. – Disse ela, sarcástica e recolhendo a mão. – Você sabe que eu não confio em ninguém nessa cidade que não seja a Lili, então eu gostaria de pedir isso. Se for preciso, estou pedindo, por favor, querido. James não era um homem de meias palavras e conhecia bem o deboche de sua esposa. Ele a agarrou pelo braço, quase a fazendo cair da cadeira. - Eu quero que essa festa seja lembrada por toda cidade. – Ele falou, entre os dentes. – Quero que todos saibam que você é minha mulher, que me pertence e que me ama. Incluindo sua filhinha m*l educada. Ela vai ter que se comportar. – Com a mesma brutalidade, ele soltou o braço de Brianna. – Estamos entendidos, senhora McLean? Ou devo mesmo cancelar a vinda de Joanne para casa? Brianna queria avançar no pescoço de James e não soltar até ele morrer, mas precisava fazer aquilo, pela sua filha, a pessoa que ela mais amava. Suspirou. - Está bem, James. Está bem, mas ainda quero a Lilith me ajudando para ser a festa mais lembrada da cidade. Pode fazer isso por mim, meu amor? – Perguntou, com um sorriso forçado. Ele sorriu, mas com vontade. Era uma vitória. - Ah querida! Quando você se comporta, você ganha tudo o que deseja. – James voltou a pegar a mão de Brianna e depositou um beijo nela. – Lili vai te ajudar e Joanne chegará amanhã. Vou até deixar vocês ir ao shopping e comprar o que quiserem. – Então, ele pegou o celular, mas antes de fazer a ligação, ele deu um lembrete. – Tom irá junto, claro. – E sem dar tempo de Brianna responder, ele pressionou o teclado numérico na tela do celular. – Ottman, eu preciso de uma coisa. *** Lilith odiava as manhãs. Cada vez que abria os olhos e constava que seria mais um dia em sua prisão, ela desejava morrer. Ao menos, o inferno do d***o não poderia ser pior do que o qual ela já vivia com Garret Ottman. Depois do banho para lavar qualquer cheiro ou fluído do homem que mais odiava no mundo, Lilith foi se sentir em seu lugar favorito de apartamento. O beiral da janela da varanda. Estava trancada com um cadeado, mas uma das loucuras de Garret, mas Lilith gostava de ver as pessoas transitando lá embaixo. Com uma xícara de café, ela passava boa parte da manhã, tentando descobrir quem eram aquelas pessoas e para onde estavam indo. A voz de Garret, falando ao celular, lhe chamou atenção. Ele entrava na sala e logo encerrou a ligação, olhando para ela. - O que foi? – Perguntou, sem entender. – Está chateado. Se existia algo que Garret odiava em James era seu jeito de mandar. Eles concordavam em muita coisa, mas detestava quando o sócio ordenava coisas como se ele fosse apenas um subalterno. Garret fitou Lilith, que ainda esperava uma resposta. - E eu estou. Parece que Brianna pediu que você fosse ao salão para ajudá-la na decoração da festa do aniversario de casamento deles. – Garret fechou o cenho. – Eu odeio quando McLean me dá ordens. – E voltou a olhá-la. – Vá se trocar e volte, vou chamar Luis para te levar até lá. O coração de Lilith disparou. Ela ia sair. Ia ver a vida além daquelas paredes malditas do American Dream. Momentos como aqueles eram tão raros que Lilith agarraria todas as chances, mesmo que fosse para ajudar em uma festa com James McLean. Tendo Brianna lá, era tudo o que importava. Lilith abriu o sorriso e saltou do parapeito da janela. Ia passar para o quarto, mas Garret a segurou pelo braço com muita força. - Garret. – Ela gemeu. – Está me machucando. Ele odiava ver ela toda animada para ficar longe dele. Lilith tinha que aprender a sentir falta dele, tinha que entender que ela era dele. Aquilo o cegava tanto, que não media sua força. Afrouxou o aperto no braço, mas sua expressão não mudou. - Você se anima tanto quando vai sair, mas não se esqueça que logo você volta e vai ser toda minha. – Ele sorri de canto. – E você só sai deste lugar depois que me der um beijo, daqueles bem gostosos. Meu Deus, como ela odiava aquele homem! Tantos anos e ele nunca entendeu que amor não se compra. Garret tinha seu corpo, mas nunca seu espírito, sua alma ou seu coração. Beijar a boca de Garret era um preço a se pagar por algumas horas de liberdade. E ela pagaria. Lilith se aproximou, tentando não demonstrar nojo e colou seus lábios nos dele. Tentou não rejeitá-lo. Foi difícil, mas conseguiu. - Posso ir agora? – Perguntou, fingindo uma voz carinhosa. Garret sorriu muito satisfeito. Soltou o braço dela e discou o número de Luis. - Pode. E use uma roupa comportada. – E já falando ao telefone, ele saiu de perto. *** Como uma criança fugindo de sua babá, Lilith saiu do carro, m*l Martinez estacionou em frente a prefeitura. Ela se vestiu como Garret ordenou. Usou uma roupa comportada: calça jeans e um agasalho. Não se importava se estava bonita ou não, ela só queria abraçar Brianna e ficar algumas horinhas em paz. - Senhorita. – Martinez chamou, já a alcançando na escadaria da prefeitura. – O patrão me deu ordem para não deixar à senhorita sozinha nem um minuto. Lilith revirou os olhos. - E o que raios Garret acha que eu vou fazer em um salão de festas, além de contar mesas e arranjos de flores, cachorrinho? O segurança pareceu pensar por alguns segundos e suspirou. - Tudo bem, mas estarei por perto. Lilith quase mostrou a língua para Martinez, mas engoliu sua infantilidade e rumou para o salão de festas. Estava uma confusão por lá com várias pessoas levando mesas, toalhas e bandejas de um lado para o outro. Uma general de longos cabelos pretos como a noite, ditava regras, recusando tudo e achando as provas da comida ruins. Lilith abraçou a amiga por trás, rindo. - Esse seu mau humor é por que as coxinhas estão ruins mesmo? Um sorriso surgiu no rosto estressado de Brianna ao sentir o abraço de Lilith. Ela se virou e agarrou a ruiva com todas as suas forças. - Você demorou demais, vou ter uma bela conversa com Garret. – E pegou uma colher de sobremesa e deu um pouco do doce que estava na mesa. – Me diz se isso não ta h******l? Só tem açúcar aqui. Lilith provou, descobrindo que a amiga estava exagerando um pouco. O doce não estava tão r**m. - Ok, eu cheguei e prometo que esse buffet vai funcionar. Meia hora depois, Lilith percebeu Brianna mais relaxada, a desaprovação sobre as comidas diminuiu e os garçons respiravam mais aliviados. - Quando Joanne chega? – Perguntou a ruiva, tentando alegrar ainda mais a amiga. A situação delas era h******l, viver com homens que tiraram suas liberdades parecia sufocante, mas enquanto Brianna e Lilith tivessem uma a outra, tudo era suportável. – Estou morrendo de saudade da minha princesinha. Brianna sorriu. - Ela chega amanhã à tarde. Vou tentar ao máximo aproveitar ela e você também poderia vir à mansão, assim você se livra daquele encosto por umas boas horas. Brianna viu Lilith sorrir e abaixar a cabeça. AS duas estavam mexendo em algumas toalhas. Então olhou para os lados, sem ver seus guardas costas por perto e a puxou para um lugar mais afastado. A prefeitura era um lugar grande e Brianna conhecia varias salas que ninguém as encontraria. Entrou em uma que parecia ser uma biblioteca e trancou a porta. - É inevitável eu ter que falar sobre isso. – Disse, mordendo os lábios em seguida. – Você tem notícias do Jackson? Lilith deu alguns passos pelas estantes cheias de livros e correu a ponta dos dedos por eles. - Exceto aquilo que ouvi de Garret e James ontem, não sei de mais nada. – Seu olhar era vago. A dor em seu coração voltou a incomodar. – Estou tentando não pensar em Chuck largado por essas ruas ou em Jackson se metendo em mais problemas. – Foi quando ela se lembrou da noite anterior, do s**o que Garret a obrigou a fazer. - Às vezes, eu perco as esperanças, Brie. Brianna permaneceu em seu lugar, cruzando os braços. - Não podemos perder, Lili. Senão essas pragas vão tomar conta de nós. Eu fico feliz que estamos aqui e não tendo que olhar para a cara deles, mais um pouco e eu vou avançar na garganta de um. Foi quando se aproximou da amiga e tomou suas mãos. - Eu tenho fé que vai surgir alguém e vai nos ajudar. Não é possível que essa cidade vá se curvar para esses pobres de alma e coração assim. Eu sei o que dirá, que já se passaram cinco anos, mas algo dentro de mim ainda diz que vão nos ajudar. Sem resistir mais, Lilith abraço Brianna com toda sua força. Se ainda estava viva, era por causa da amiga. Sem ela, Lilith perderia seu último conforto, seu ponto de apoio e paz. - Quem sabe, não é? – Disse ela, quando soltou Brianna. Sabia que não tinham muito tempo, logo Martinez ou Tom sentiriam falta das duas. – Você vai a igreja hoje? Preciso que reze por mim, preciso saber que está tudo bem. Você me entende, não é? Brianna entendia muito bem. - Eu posso ir sim, mas... Por que você não vem comigo? Poderíamos rezar juntas, sabe que seria muito melhor para nós duas. Lilith bufou. - O i****a do Garret nunca vai deixar. – Ela responde dando de ombros. – Como eu não aceito me casar com ele na igreja, ele diz que eu também não tenho o que fazer lá. De repente, a porta da biblioteca se abriu, surpreendendo as duas. Luis Martinez e Tom Alkmmar surgiram na entrada, com carrancas nos rostos. Martinez limpou a garganta. - Senhora McLean e senhorita Savóia, sabem muito bem que não podem ir a lugar nenhum sem nos avisar. Brianna revirou os olhos e imitou a frase de Martinez, o que fez Lilith rir. - Eu já vou, totó do Garret. Eu mereço aproveitar a minha amiga também. – E pegou a mão de Lilith. – Vamos voltar à organização e quantos aos dois cachorrinhos... - Apontou para os seguranças. – Os dois, lá fora. Não quero vocês aqui me atrapalhando. Vão ensaiando para serem seguranças. – E assim, dando as costas a eles e puxando Lilith. Martinez ainda abriu a boca para falar algo, mas Tom ergueu a mão para impedi-lo. Quando as duas estavam juntas, era impossível controlá-las. Seus patrões que lidassem com elas. *** Depois de passar a manhã e o almoço rondando a cidade atrás de Chuck, Jackson já havia perdido as esperanças de encontrá-lo. Ele passou pelas mesmas ruas sem nem saber as contas. Uma mensagem chegou em seu celular, fazendo ele parar em frente a um destino que a muito tempo, ele não ia. Pegou o celular e discou para Mateo, que não demorou a atender. - Eu sinto muito, irmão, mas não o achei em lugar nenhum. – Houve uma pausa, sem nenhuma fala dos dois. Jackson respirou fundo. – Eu devo ir ao necrotério? Mateo havia passado o dia tentando organizar o pouco que restou de sua mansão. As janelas ainda ficariam fechadas para evitar curiosos, mas a poeira dos móveis precisava ser limpa. Também aproveitou para repetir alguns exercícios que aprendera na fisioterapia. Seu corpo estava funcionando normalmente, mas ele ainda sentia um pouco de dores nas pernas. Com quase dois anos em coma, ao acordar Mateo precisou reaprender a andar, falar e comer. Estivera sozinho em uma boa parte de sua recuperação, mas tinha consciência que os amigos não tinham culpa. Chuck e, principalmente Jackson, fizeram o que deviam ter feito para sobreviver. A pergunta de Jackson, ao telefone, lhe trouxe de volta dos pensamentos. - f**a-se, O’Brien. – Mateo xingou, pegando seu agasalho com capuz. Eram pouco mais de quatro da tarde. – Chuck não está morto. Pare de pensar no pior. – Mateo deu uma espiadela por uma das janelas. Mesmo durante o dia, ninguém em sã consciência chegaria perto daquela mansão. Era assombrada e o fantasma estava bem vivo. - Procurou no bar do Lloyd, “The Beard”? O bode velho é o único que serve uma tequila decente nessa cidade. Jackson bateu na testa. - Ai d***a! Eu nunca me lembro de procurar naquele lugar. Ele se transformou em bar de esquina e nunca mais fui lá. – Respirou fundo e olhou o lugar que estava estacionado. – Só que infelizmente, não vou poder ir mais atrás dele, eu preciso resolver algo muito urgente. Espero que não se aborreça. Mateo estreitou as sobrancelhas. Qual a urgência de Jackson maior que o próprio irmão? - Tudo bem. – Mateo decidiu não pressionar o amigo. Sabia o quanto Jackson tinha doado de si para manter Chuck na linha. – Eu vou e, antes que comece com o sermão, eu sei que você mandou Nathan e Samuel me seguirem. Estou seguro com eles as minhas costas. Com um sorriso, os amigos encerraram a ligação. Mateo agora tinha uma missão: achar Chuck e convencê-lo a ficar limpo. Além disso, ele sentia saudade do cara alegre e cheio de piadas que Chuck um dia fora. Mateo cobriu a cabeça com o capuz e fechou o zíper do agasalho até o pescoço. Hora de pôr seus planos em ação. *** A vida dele era uma completa m***a e ele só afogava as mágoas em uma boa garrafa de whisky forte e sim, mesmo que tentasse parar, a sua melhor amiga era a cocaína. Chuck estava acabado há muito tempo, se sentia morto por dentro, sozinho. Ele não tinha mais ninguém e nada para lutar. Jackson não olhava na cara dele a muito tempo, a mulher da sua vida estava nas mãos do inimigo e seu melhor amigo, morto. Quer dizer, só não estava por perto. Tudo o que ele queria era explodir aquela cidade, junto de todos aqueles malditos que fizeram da vida dele um inferno. Mateo observou Chuck beber meia garrafa de whisky e discutir com alguns homens do The Beard. O lugar caía aos pedaços e a clientela também não era das melhores. A sorte de Chuck e do próprio Mateo, é que o bar ficava na zona leste, a parte da cidade que cabia a Jackson. De certo modo, eles estavam seguros. Por isso, Mateo ficou nas sombras, evitando olhar para o dono do bar. Ele o reconheceria na hora. Também ficou afastado de Chuck. Não era bom ser visto ao lado do loiro encrenqueiro. Quando o velho Lloyd, dono do bar, se encheu das provocações de Chuck e o salvou de mais uma surra de um grupo de jogadores de sinuca, pegou o loiro pela jaqueta e o arrastou para fora do bar. Mateo se aproveitou do tumulto e se esgueirou para fora, seguindo um Chuck resmungão e trôpego pelas ruas. Quando Mateo entendeu para onde o amigo ia, sorriu. A antiga fábrica de tecido da cidade havia sido abandonada desde os anos 80, ninguém sabia ao certo o porquê. Na infância, ele, Chuck e Jackson brincavam dentro daquela construção almejando e planejando quando se tornariam os donos da cidade. Mateo chutou algumas garrafas de cerveja vazias e torceu o nariz para o fedor de restos de comidas espalhados pelo chão. Chuck estava encostado em uma parede, as mãos tremendo para abrir um saquinho com ** branco. - Sabia que essa m***a aí vai te m***r? – Falou, retirando o capuz da cabeça. – Quem ainda tem coragem de te vender cocaína, Chuck? Ele escutou a voz ao fundo da sua mente e levantou os olhos azuis e vermelhos na direção de Mateo. Ele congelou por alguns minutos, se perguntando se o homem que via a sua frente era de verdade ou apenas mais uma das ilusões que a cocaína lhe fazia ter. Então ele sorriu, desistindo de abrir o saquinho de d***a. - Você está morto e deveria continuar morto, Hale. Eu odeio que me assombre. – Falou, passando a mão no rosto. – Que a Santa Muerte cuide de sua alma. - Eu não estou morto e você sabe muito bem disso, irmão. – Mateo respondeu, se abaixando e tomando o saquinho de Chuck. – Essa p***a aqui... – Ele balançou no ar. – Vai acabar, entendeu? Quero saber quem é o i*****l que te vende isso e, pode ter a certeza, que ele vai ser o primeiro em quem eu vou atirar na cabeça. Mateo não queria ver o melhor amigo naquele estado. Os dois e Jackson eram como unha e carne, uma trindade inseparável. Atingir um, era atingir os outros dois. Mateo agarrou Chuck pelo pescoço, forçando o loiro a olhar para ele. - Eu preciso de você, O’Brien. Temos que recuperar a cidade. Mais uma vez, Chuck riu, mas por estar bêbado, ele começou a bater em seu próprio rosto. - Ai Mateo! Mateo! Esta cidade já foi tomada há tempos pela escuridão. – Ele abriu os braços. – Ninguém tem salvação nesse lugar, meu irmão. Nem eu, nem você. – Ele viu Mateo balançar a cabeça em desaprovação e isso o fez segurar o amigo nos ombros e logo, o abraçar. – Diz que vai salvar essa cidade desse inferno... Diz que você voltou dos mortos para isso, irmão. – Ele começou a chorar, parecendo um menino. - Diz que vai nos salvar. Jure pela santa que vai nos salvar. O coração de Mateo estava partido ao ver o amigo assim. Chuck sempre fora o mais brincalhão dos três, o mais cheio de vida. O mundo não era justo e o destino era uma m***a. Mas, a vingança... Ah! A vingança seria perfeita. - Eu vou, Chuck. – Mateo abraçou Chuck de volta, deixando o amigo chorar até se acalmar. – Eu vou, cara. Mas, eu preciso muito de você. Preciso que você fique limpo, que volte a falar com Jackson. – Quando ele percebeu que Chuck ia negar, Mateo continuou. – Eu vi a Lili. Chuck olhou novamente nos olhos de Mateo. Ao ouvir o nome da mulher que mais amava, ele sempre paralisava. - Vo-Você a viu? Ah droga... Eu não posso... Não posso aparecer na cidade assim. Ele tentou se limpar, suas roupas estavam sujas e ele fedendo a bebidas baratas, seu rosto estava cheio de hematomas devido a muitas brigas. Tentou se equilibrar, mas acabou encostando-se à parede. - O que está acontecendo comigo? O que eu fiz comigo mesmo? O que eu faço, Mateo? Mateo ajudou Chuck, pacientemente, a se endireitar. Até puxou a jaqueta, sacudindo um pouco de terra. - Você tem que se tratar. – Disse, tomando cuidado com as palavras. – Ajeitar as coisas com Jackson e depois, quando estiver livre dessa cocaína, aí sim vai poder recuperar Lili e se vingar do Ottman. – Mateo olhou bem nos olhos azuis do amigo. Era impressionante como mesmo tendo compartilhado o ventre da mãe com Jackson, eles eram diferentes fisicamente. – Não é isso que você quer, Chuck? Não quer m***r o filho da p**a que tirou de você, a mulher da sua vida? Sim, era o que ele mais queria. - Você não faz idéia. – Falou com seu olhar em Mateo, mas era nítido que estava longe no pensamento. Ele respirou fundo, piscando para não cair mais lagrimas. – Que bom que está aqui, meu irmão. Eu... Eu vou me internar e desta vez, será a última. Eu não vou precisar de mais nada disso. – E apontou para as drogas e as garrafas de bebida no chão. – Vamos fazer essa cidade voltar a se curvar para você e enterrar esses desgraçados que acabaram com a nossa felicidade. Mateo grudou a testa na testa de Chuck e sorriu. - Está na hora da nossa caçada, irmão. Está na hora de fazer todos se curvarem a nós. ***
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