Capítulo três (continuação)

4750 Palavras
Andando apressado, Mateo Hale tentava ser mais um entre as pessoas que passeavam no shopping. Seu coração estava acelerado, suas mãos suadas e ele queria saltar de felicidade. Brianna e Joanne. Sua esposa. Sua filha. Juntas. Sorrindo. Como uma família. Ele quis chegar perto. Por isso, entrou junto com elas na lanchonete, conseguindo uma mesa no canto. Por várias vezes, ele desejou se aproximar, chamar por Brianna e olhar em seus olhos. Diria que estava vivo, que eles podiam fugir. Mas, Mateo não podia pensar só em si. Brianna jamais deixaria Lilith para trás e ele mesmo nunca abandonaria Jackson e Chuck a própria sorte. Já do lado de fora da lanchonete, Mateo observou Brianna recolher as bolsas de compras e pagar o garçom. Estava um pouco perdida, até trêmula, mas segurava a mão de Joanne como se a filha pudesse ser um bote salva-vidas que a manteria em pé. Mateo as esperou saírem da lanchonete, junto com o segurança de nome Tom. Mas, ele não as seguiu. Mateo ficou olhando-as se afastar, até que Joanne virou a cabeça para trás e piscou, diretamente para ele. *** Uma semana antes... Os últimos anos de sua vida foram gastos com fisioterapia. Nas sessões, Mateo teve que reaprender a andar, falar e até mesmo, comer sozinho. Fora muito duro acordar na cama de um hospital e descobrir que toda a sua vida tinha sido destruída por alguém que confiou. James era seu homem de confiança. Como ele pudera ter atirado em seu peito e o deixado para morrer? Se não fosse por Chuck e Jackson, Mateo estaria enterrado em um caixão. Agora, estava na hora de recuperar seu dinheiro, seu poder, sua cidade e, o mais importante, sua família. Mateo ajeitou a gravata do terno Armani, cumprimentando a funcionária do internato de meninas. Com sua beleza e sorriso simpático, além de um documento de identidade falso, Mateo conseguiu entrar no colégio e verificar suas instalações. Qualquer um que cheirasse a milhões de dólares seria tratado com tapete vermelho. - Sua filha vai gostar muito daqui. – Disse a funcionária, repetindo em seguida todas as vantagens do colégio. Mateo soube ser paciente, educado e galanteador. Chegou a flertar com a mulher, só para que conseguisse alguns minutos sozinho no jardim do internato. - Eu preciso fazer uma ligação de extrema importância para um sócio na Europa. – Mateo exibiu o celular na mão, balançando o rolex de ouro no pulso e confirmando que era quase onze da manhã. – A senhorita não se importa, não é? - Imagina, senhor Davenport. – A funcionária tinha as bochechas coradas. – Vou deixá-lo à vontade. Estarei na secretaria lhe aguardando. Mateo continuou sorrindo, vendo a mulher se afastar. Ele chegou a levar o celular no ouvido, se afastando do prédio principal. Se suas informações estivessem certas, a turma do sexto ano estaria voltando da aula de natação. Joanne já havia se acostumado a vida no internato. Eram cinco anos naquele lugar, longe da mãe e de sua tia, mas sabia que um dia, elas estariam juntas. Hoje, com onze anos, ela conseguia entender as coisas bem melhor do que antes. O internato não era r**m, ela havia achado seu grupo, a comida era boa, já que seu padrasto gastava muito bem o dinheiro com o lugar e os quartos eram confortáveis. Realmente, só tinha que reclamar da saudade que sentia da mãe. Depois da aula de natação, ela se arrumou e era hora da pausa diária. Ela gostava muito de ir ao jardim e pensar sobre muitas coisas. Ela não se lembrava do pai, mas sentia falta dele. Se estivesse vivo, ela não estaria ali. Com um suspiro, ela caminhou até o jardim. Sentou-se embaixo de uma árvore junto e sua lancheira, a abriu e olhou para os lados, sentindo que não estava sozinha. Ao olhar a sua esquerda, ela viu um homem de terno chique, celular no ouvido, olhando para os lados, como se procurasse por alguém. Se levantou, cerrando a sobrancelha, reconhecendo-o. - Papai? – Disse, um pouco alto para que ele escutasse. Mateo ouviu a voz de Joanne e seu coração disparou. Ela se lembrava dele! Ela sabia quem ele era! Seu amigo, Jackson havia lhe dito que Brianna manteve a memória dele intacta com fotos e vídeos. Sua menininha, sua pequena princesa, agora já era uma moça. Mateo guardou o celular, andando até a árvore sob o olhar confuso de Joanne. Ele estava tremendo, mas conseguiu se abaixar e colocar um joelho no gramado. - Meu amor. Minha filha. – Mateo não se importou de chorar na frente dela. Queria abraçá-la, mas era nítido que a menina estava a ponto de explodir em perguntas ou achar que estava vendo um fantasma. – Sou eu. Eu estou vivo, meu amor. Ele estendeu a mão para que ela pudesse tocá-lo. Joanne olhava para o homem, ainda muito confusa. Ela não sabia como reagir primeiro, se o abraçava, se gritava ou se começava a fazer as perguntas. Em um impulso, ela o abraçou. Tão forte como se quisesse apertá-lo para nunca mais sair dali, de perto dela. Ele era real, estava vivo. - Mas... Eu não entendo. – Disse, se separando dele, mas sem sair de perto. – Mamãe disse que você foi morto, mas se está aqui, então quer dizer que... - Se acalma, por favor. Se acalma. Mateo acariciava o rosto da filha, emocionado por ver o quanto ela crescera. Tinha tantas semelhanças com ele. O nariz, a boca, o contorno do queixo... Mas, o jeito, a forma de falar, era todinha de Brianna. - Eu não tenho muito tempo. – Ele agarrou as mãos da filha. Sorrindo, chorando, olhando para de lados para ter certeza que ninguém os via. Tudo ao mesmo tempo. – Eu queria te contar tudo, contar tudo o que passei nesses anos longe de você e sua mãe, mas eu não posso deixar que me descubram. Sua mãe não sabe que estou vivo e isso será um segredo nosso. Você precisa guardar esse segredo para protegê-la, está bem? Joanne cerrou o cenho. - Mas pai, ela está casada com o James e ela o odeia. – Falou ela, baixo. – Ele me mandou para cá, não posso ver a mamãe e nem a tia Lili, você precisa ajudar elas. James McLean... Mateo odiava o homem que um dia ele confiou a vida. Tentou não xingar o infeliz na frente da filha. - Sua mãe fez o que devia fazer para ficar viva e manter você segura. – Ele explicou. Não era fácil dizer a uma menina de onze anos que o mundo era injusto e cheio de estradas imundas que um ser humano precisa enfrentar. – Sua tia Lili também. É hora de nós fazermos algo para salvá-las. – Se apressando, Mateo pegou o celular e entregou a Joanne. – Guarde isso e entregue para sua mãe depois da festa do aniversário de casamento dela e do McLean. Mateo deu mais uma olhada para os lados. Nenhum movimento. Ninguém por perto ainda. - Não conte a ninguém que me viu, nem a sua mãe. – Mateo segurou o queixo da filha com uma das mãos de modo carinhoso. – Você entendeu, meu amor? A vida da sua mãe e da Lili dependem disso. – Ele pressionou o celular na mão dela com a mão livre. – Eu prometo que vou unir nossa família de volta, mas preciso da sua ajuda. Joanne sorriu e abraçou o pai. Estava feliz e com muita confiança de que aquilo ia acontecer. - Eu estou feliz que esteja vivo, papai. E nosso segredo será muito bem guardado. Eu odeio aquele homem, ele tenta ser você e não consegue. – E se separou do pai, guardando o celular para que ninguém visse. - Ahn... Eu vou te ver de novo? Mateo a puxou de leve, depositando um beijo em sua testa. Estava orgulhoso de Joanne e orgulhoso de Brianna ter criado a filha deles para ser tão forte quanto ela era. Também sentia uma pontinha de vitória por Brianna odiar James. O i****a nunca conquistaria a mulher de sua vida porque ela pertencia a Mateo. - Em breve, querida. – Ele a olhou por uma última vez. – Faça o que eu pedi. Não esqueça de nada, nem que eu amo você. Enxugando o rosto molhado, Mateo se levantou. Ele precisava incorporar de novo o pai que procurava um colégio de bom ensino para sua filha. Recuperando a postura, Mateo se obrigou a dar as costas a Joanne. Confiava na filha. Confiava de seu plano. Mais uma semana e James McLean ia começar a pagar por seus pecados. *** Lilith deu uma última olhada para o espelho, conferindo a maquiagem. Estava perfeita como sempre: olhos delineados, corretivo escondendo qualquer olheira, batom contornando seus lábios na cor vermelho. Ela jogou os cabelos da cor de fogo para trás dos ombros, tentando mantê-los controlados. Era engraçado pensar que mesmo perfeita aos olhos de todos, ela se sentia suja e quebrada. Viver com Garret nos últimos anos tinha lhe deixado cicatrizes muito profundas. Até o barulho de um copo quebrado, fazia Lilith estremecer com medo. Ela tinha plena convicção de viver uma relação abusiva e que não tinha outra alternativa. - O patrão está chamando, senhorita. – Avisou Martinez, surgindo por trás dela. – Ele quer que a senhorita sirva as bebidas para todos. Lilith olhou para o empregado de Garret e fez uma careta. - Agora, além de p**a pessoal dele também vou ser sua criada? – Perguntou, irritada. Sem jeito, Martinez deu de ombros. - Só estou cumprindo as ordens dele, senhorita. - Como um bom cachorro que é. Lilith saiu andando, tentando ignorar que Martinez a seguia. Desceu do apartamento, para o primeiro andar do prédio, onde ficavam as instalações da American Dream. Por causa da reunião, a pista de dança tinha sido limpa, as luzes acessas e uma mesa de madeira foi colocada no centro da boate. Três cadeiras dispostas em volta dela. Todas já ocupadas pelos donos e senhores de Royal Echo. Com raiva, ela seguiu para o bar, servindo doses de whisky e levando até a mesa. - Oh Lili! Pensei que estava com minha esposa. – Disse James, com um sorriso debochado no rosto. É claro que ele ia se aproveitar para provocar Lilith. A ruiva travou a expressão fria no rosto e não o respondeu. Garret sorriu de canto, sem olhar para a ruiva. - Falando em sua mulher, quero que fale com ela sobre o maldito vestido que ela comprou em meu nome, amigo. Custou quarenta mil dólares e ainda havia um bilhete dizendo que seria descontado de um dos pagamentos. – Ele pegou o copo e bebeu um pouco do whisky. – Sua mulher adora me provocar, James. O outro convidado da mesa era Keith Speno. Era sócio de James do lado oeste de Royal Echo. Ao ouvir o comentário de Garret, Keith, como era chamado, sorriu. - Não fique bravo com isso, Garret. Vindo de Brianna, pode ter certeza de que foram os quarenta mil mais bem gastos. Ela tem um gosto muito bom para tudo. – Ao perceber que James o olhava, levantou os braços. – Com todo respeito, James, mas eu conheço Brianna a muito tempo e sei que ela tem muito bom gosto. Lilith mordeu a própria língua ao olhar para o homem de bigodinho e sorriso de víbora. Um dia, ela achou que Speno pudesse ser bom, mas assim como os outros dois que ocupavam a mesa, ele não prestava. O pecado de Keith Speno sempre foi a inveja. James era ciumento ao extremo. Se nem o fantasma do ex-marido de Brianna ele tolerava, quem diria um ex que estava vivo. - Seu namoro com minha esposa foi coisa de criança. Ela não sabia nada da vida, nem o que era melhor para ela. – James rebateu, ajeitando o paletó. – E quanto a você, Ottman... O vestido é para Lilith, certo? Não vejo problema nenhuma em você agradar sua mulher. - Eu não sou a mulher dele. – Lilith rebateu, sem pensar. Às vezes, sua língua era mais rápida que o cérebro. Mas, com isso, vinham as consequências e ela não estava disposta a ter outro hematoma no braço. – Quer dizer, não nos casamos ainda. – Ela tentou consertar, se posicionando atrás da cadeira de Garret. – Quanto ao vestido, eu gostei dele. Vou usá-lo amanhã na festa. Garret sabia que ela mentia, mas acabou fingindo não se importar e que estava bravo por dentro. Pegou a mão dela em seu ombro e beijou. - Senhores, nós estamos aqui reunidos para falar de negócios e não de moda. Tenho certeza de que minha mulher ficará linda em qualquer coisa que usar. – E olhou para ela. - Agora dance para mim, querida. – Ordenou. Era nítido a raiva no rosto da ruiva, mas nenhum dos outros dois homens se importou. Lilith caminhou para o pole e começou a dançar. Garret havia colocado ima música suave para que dançasse. - Bom, não está faltando ninguém nesta mesa? – Perguntou Speno, surpreso. – Geralmente, O’Brien teria que estar aqui. James bufou. - Que diabos, Speno! Hoje você só está falando besteiras. – O irlandês não tinha paciência. Se havia algo que o deixava com raiva, era a simples menção de qualquer um que fosse ligado ao seu antigo inimigo Mateo. – O’Brien deve estar ocupado com aquele i*****l do irmão drogado dele. Isso não nos interessa. O que me interessa é saber quando as novas mercadorias vão chegar da Colômbia? De repente, a porta se abriu e Jackson surgiu, fazendo todos olharem para ele. Ele gostou da reação de todos. Garret se levantou, surpreso e logo olhou para Lilith, que parou de dançar e olhava para ele. James tinha uma expressão fechada, enquanto Speno, tinha expressão mais neutra. Mexeu em sua camisa com um sorriso. - Acho que eu deveria responder essa pergunta, não é, McLean? Já que essas mercadorias chegam pelo meu lado da cidade. O coração de Lilith quase veio a boca tamanho o jeito que ele batia. Jackson O’Brien, seu amado, o homem que possuía metade do seu amor, estava na sua frente. Dentro da American Dream. - O’Brien. – Speno se levantou para cumprimentar o recém-chegado. – Martinez, traga uma cadeira para o senhor O’Brien. Enquanto o segurança se apressava em cumprir a ordem, Lilith desceu do pole dance, pois não aguentava mais ficar em pé. Sua visão estava turva, seus braços pareciam feitos de pano. Garret ia m***r Jackson na sua frente? Jackson ia, finalmente, roubá-la daquele monstro? Observando cada reação e frustrado pela reunião não estar indo do jeito que ele querida, James passou a mão no rosto. - Da próxima vez que resolver aparecer, O’Brien, pelo menos responda minhas mensagens ou ligações. – Falou, segurando o copo de whisky. – Quer uma dose? Lilith, sirva nosso querido sócio. – Mas, a ruiva não se mexeu. Parecia ter visto uma assombração. – Ottman, acho que sua mulher está passando m*l. Garret olhou de Jackson para Lilith, que estava no chão perto da Pole. Aquilo só poderia ser para irritá-lo. - LILITH! – Chamou ele, mais alto e com um t**a na mesa. A ruiva o olhou assustada. - Sirva o senhor O’Brien com um whisky. – E voltou a olhá-lo, vendo-o se sentar na cadeira de frente para ele. – Um convidado muito ilustre como este não se deve perder. E me perdoe por ser tão rude com a minha mulher... – Garret fez questão de entonar o "minha". – Ela se perde as vezes quando leva alguns sustos. Jackson odiou ter que ouvir Garret gritar com Lilith. Ele lutou para que não atravessasse a mesa e enforcasse o homem, mas ele precisava seguir com o plano. Era por aquela mulher que ele estava ali. - Eu acho que você precisa rever seus conceitos, Garret. Já que eu nunca precisei gritar com ela quando estava comigo. Talvez não sejam as atitudes, seja a pessoa. Garret fechou os punhos e isso deixou um clima tenso no lugar. Keith fitou Jackson. - Você disse que as mercadorias da Colômbia ainda chegam pela sua área. – Começou tentando mudar o assunto. – Bom, então deve ter alguma novidade, não é? Jackson viu a ruiva tremer enquanto servia o whisky e seu coração quase pulou do peito. Respirou fundo. - Sim, eu tenho. – E olhou James. – Parece que sua carga sofreu um ataque e houve um atraso. A polícia local diz que pode ser alguns bandidos locais achando que fosse produtos de grupo rival, mas já está resolvido. Daqui dois ou três dias, tudo estará aqui. - Que bom que viver atrás do seu irmãozinho não te deixou menos eficiente. – James ergueu o copo como se fosse brindar com Jackson. – Aliás, falando nele, continua se arrastando pelas esquinas? Speno, percebendo que o clima estava indo de uma brisa de outono para uma tempestade de neve de tão frio que a pista da boate se tornou, tentou controlar a situação. - Acho que isso não vem ao caso, McLean. – Disse ele, estendendo seu copo para Lilith. – Me sirva mais uma dose, por favor, Lili. A garrafa não parava quieta nas mãos de Lilith. Por que, meu Deus, Jackson estava ali? Por que ele não continuou sumido e salvo do perigo? O cheiro, a voz, senti-lo tão perto bagunçou todo o autocontrole de Lilith. Tanto, que ela errou o copo de Speno e acabou deixando a bebida cair sobre as pernas dele, molhando a calça. - Me perdoa, Keith. – Ela largou a garrafa de whisky na mesa, agitada e perdida no que fazer. – Eu não fiz por mal... Eu... Eu... - Eu acho melhor você ir para o apartamento. – Falou Garret, já irritado com tudo. Ele se levantou. – É claro que a presença de O’Brien acabou prejudicando muito você. – E olhou para Jackson. – Agradeça ao seu ex namorado pelo castigo que receberá hoje. Aliás, não... Não terá castigo... – Falou ele, pensativo. – Acho que só uma boa transa comigo, mostrando quem é seu homem de verdade, vai ser o suficiente. Jackson queria muito m***r Garret naquele momento. Ele precisou se conter em alguma segundos para não fazê-lo. Foi quando ele riu e olhou para a ruiva. - Sabe o que é mais engraçado nessa história toda, Garret? – Perguntou, ainda olhando nos olhos da ruiva. Todos olhavam para ele. – Você acha que está a humilhando fazendo todos esses comentários, falando como se fosse a possuir, mas verdade, quem tem que se humilhar para ter o amor de quem nunca vai te dar é você. – Ele se levantou, apoiando os braços na mesa e seus olhos pousaram no de Garret. – Você se humilha para ela, a forçando a fazer coisas que ela não quer, porque sabe que nunca possuirá o que já tem dono... Ou melhor, donos. Garret abriu a boca, mas não falou nada. Apenas pegou sua arma e apontou para Jackson. - Maldito! – Ele gritou, apontando a arma para ele. – Luis, leve Lilith daqui. – Ordenou. O segurança foi até ela e sem tirar os olhos de Jackson, ele ainda falou. – Quanto a você, ruivinha... Vamos conversar mais tarde. - Não, Garret. Não, por favor. – Lilith começou a chorar. Seria uma matança, seria o fim de tudo que ela sacrificou. Martinez estava acostumado aos acessos de raiva do patrão e a lidar com Lilith. Mais forte e mais ágil, Martinez agarrou a ruiva, escondendo a cabeça dela em seu peito. - Está tudo bem, senhorita. Não vai acontecer nada. – Falou, arrastando-a na direção do apartamento. – Eu não quero machucá-la. Vamos. - Ele vai matá-lo! Ele vai matá-lo! - Não vai! – Martinez segurou os braços de Lilith nas escadas e olhou para ela com muita firmeza. – Se a senhorita quiser ajudar o senhor O’Brien, faça o que o patrão mandou. Desesperada e sabendo que nada podia fazer, Lilith parou de resistir. Odiava Luis Martinez e, nunca diria que ele tinha razão, mas não podia controlar nada do que acontecia na boate. Se jogar na frente de Jackson, além de irritar ainda mais Garret, poderia piorar tudo. Ela só podia rezar. Na pista da boate, os ânimos continuavam exaltados. Garret apontando a arma para Jackson que tinha as mãos nos bolsos, como se não se importasse. Como se desafiasse o rival. Speno se aproximou de Garret. - Amigo, abaixe essa arma. – Ponderou, passando a mão na cabeça raspada. – Estamos aqui para falar do nosso dinheiro. Essas brigas só nos atrapalham. - Tenho que concordar com Keith, Ottman. – James continuava sentado. Seria bom que Jackson morresse? Seria. Mas, isso poderia atrasar ainda mais o envio das mercadorias, o que causaria perda de dinheiro e isso já não era bom. – É uma ordem, Ottman. Vamos voltar para a reunião. Agora! *** A água quente do chuveiro não acalmou os nervos de Lilith. Usou a esponja de banho, se esfregando tanto que a pele ficou rosada e arranhada. Ela não queria que a noite chegasse, não queria ser tomada e beijada por Garret. O que será que havia acontecido na reunião? Lilith só tinha a certeza de não ter ouvido nenhum tiro. Se Garret tivesse matado Jackson, uma confusão teria se formado. Então, não. Definitivamente, seu homem estava vivo ainda. Lilith vestiu um pijama, o maior que achou em seu armário cheio de roupas que ela odiava e se sentou no seu lugar favorito: O parapeito da janela. As luzes noturnas de Royal Echo banhavam a rua e as estrelas disputavam o céu com algumas nuvens cinzas. O letreiro da American Dream brilhava embaixo da janela. Lilith abraçou as pernas e escondeu o rosto, chorando e soluçando. Até quando ela ia resistir, meu Deus?! Ela não aguentava mais ser forte. Ele não aguentou ver aquela cena tão h******l. Não sabia o que havia acontecido, mas viu quando o segurança de Garret levou Lilith para o apartamento. Ele estava escondido às sombras, atrás da porta. Ninguém poderia vê-lo ali. Precisava ficar em silêncio, esperando a hora certa. Não foi fácil entrar escondido na boate. A maioria das pessoas o conhecia, por isso, quando passou por elas e foi direto para o apartamento, achou que não encontraria barreiras. E encontrou, mas o bom é que a barreira estava do lado deles e o ajudou. - Eu odeio ver isso. – Disse, saindo de trás da porta e tirando o capuz. Mateo se aproximou da luz para que Lilith pudesse vê-lo. – Eu odeio ver você assim, Pimenta. Aquela voz... Lilith ergueu a cabeça, achando que estava ouvindo coisas. Ou melhor, vendo. Aquele homem enorme, parado a sua frente, com queixo quadrado, barba aparada e olhos de vingador era uma miragem. Lilith passou o braço pelo rosto, tentando desanuviar os pensamentos. - Mateo? – Indagou baixinho, sentindo-se louca. Mas, quando ele sorriu, ela correu para os braços dele. Se fosse um sonho ou uma ilusão, ia dar com os burros n'água. Mas, não. Caiu sobre músculos sólidos e fraternos. Voltou a chorar, dessa vez de felicidade. - Mateo! Meu Deus, você está vivo, você está vivo! – Chorava. Dava risadas. – É um milagre. Eu não acredito, eu rezei tanto, tanto! Mateo acolheu a ruiva em seus braços, sorrindo e fazendo carinho em seu cabelo. Ela estava bem mais magra que antes e sabia que estava sofrendo sozinha. - Sim, eu estou sim, Lili. – Falou, a levando para o sofá para que se sentassem. – E eu vou acabar com cada maldito que fez m*l a nossa família. – Disse, convicto, passando a mão nas lagrimas dela. – Não quero que chore, quero que aguente mais um pouco apenas, Pimenta. - Mas, eu não entendo. Lilith queria parar de chorar, mas não conseguia. Estava desnorteada. Apertou as mãos de Mateo para ter certeza de que não era mesmo um sonho. - Mateo, como você está vivo? – Perguntou, fungando. De repente, ela se alarmou e ameaçou levantar-se do sofá. – Garret! Ele está lá embaixo, você precisa sair daqui. Ele não pode te ver aqui. Já está irritado por causa de Jackson e James... Mateo, James também está aqui! Mateo apenas riu. - Você ainda não achou estranho o Garret não ter subido atrás de você, não é? – Ele perguntou, deixando a ruiva ainda em dúvida. – Jackson só está lá porque eu o convenci de distrair aqueles homens para que eu pudesse falar com você. Ele... Ele não conseguia vir aqui por tanta culpa que carrega. E respondendo sua pergunta, e graças a ele e Chuck que eu estou vivo. Brevemente, Mateo contou a história de como estivera vivo, de como foi sua recuperação e de como foi voltar para a cidade. - É claro que eu estou me corroendo por dentro para não descer e meter uma bala na cabeça de cada maldito traidor lá embaixo, mas o nosso plano é muito melhor, Lili. E eu espero contar com você para nos ajudar. Esperança. Havia uma esperança. - Eu faço qualquer coisa para ter nossa família de volta, Mateo. – Ela disse, já mais calma. Até sorriu. – Chuck está mesmo se tratando? – Mateo assentiu e ela levou as mãos na boca, contendo um grito de alegria. – Mateo, Garret tem um vídeo de Jackson matando um policial federal. Eu nunca consegui achar, não está em nenhum lugar nesse apartamento. Procurei em todos os lugares, descobri até a senha do cofre dele, mas não está lá. Mateo sorriu. - Ah Lili, nós já estamos bem mais adiantados do que pensa. – Falou ele, sorrindo. – Já vimos a fita, estamos com ela e vamos usá-la na hora certa... Mas infelizmente, você ainda precisa continuar fingindo que não sabe de nada. Temos que fazer tudo minuciosamente. – Ele pegou as mãos dela novamente. – Escute, preciso pedir um favor para você. – Respirou fundo. – Eu preciso estar na festa da Brie e James amanhã. Lilith arqueou a sobrancelha, pensativa. - Acho que eu sei um jeito. – E sorrindo, ela emendou: - Mas, vou precisar que você mande um recadinho para uma pessoa também. *** Mateo jogou o casaco sobre o braço da poltrona. Estava animado e feliz como há anos não ficava. Amanhã seria um grande dia e com a ajuda de Lilith, Mateo poderia finalmente reencontrar a mulher da sua vida. Mateo foi até a cozinha, encontrando Jackson em frente a uma caixa de pizza. - Recado para o senhor O’Brien. – Ele bradou, se sentando na ilha de mármore no meio da cozinha. – Senhorita Pimenta disse que da próxima vez que você a deixar as escuras, sem saber de nada sobre você ou Chuck, ela vai te castrar. E, não sei por que, irmão, mas eu acredito nela. Jackson havia chegado depois de uma reunião tensa e completamente r**m. Dava para perceber que aqueles homens estavam muito perdidos, mas o pior foi ter de fazer toda a cena com Lilith. Ele esperava que ela o perdoasse por aquilo. Quando Mateo lhe deu o recado, ele sorriu. - A muito tempo, eu não sinto uma adrenalina como eu senti, Mateo. – Disse, indo pegar outra cerveja e jogar para Mateo. – Ela está tão diferente. Nem parece a mulher que estava comigo. – Ele abaixou a cabeça. – Conversou com ela? - Conversei. – Mateo ficou sério ao se lembrar de ter acompanhado o choro angustiante de Lilith. – Ela não está bem, irmão. Não vou mentir para você. – Ele bebeu um gole da cerveja. – Quando isso acabar, tanto você, quanto Chuck, vão precisar curar muitas feridas. O que Garret faz com ela... É muito r**m, cara. Jackson abaixou a cabeça. - Eu me sinto um inútil. – Falou, batendo a mão no balcão. Respirou fundo. – Por que eu a deixei fazer isso? Eu deveria ter feito alguma coisa contra isso. Eu atirei naquele homem, não ela. – Jackson explodia, queria m***r todo mundo e fazer todos pagarem por seus erros. – Eu quero falar com ela. – Disse, se virando de volta. – Eu preciso falar com ela, Mateo. Com calma, Mateo abriu a caixa de pizza e pegou uma fatia. - Para isso acontecer, você vai precisar de um terno novo, meu irmão. Temos uma festa para ir.
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