O espelho do quarto refletia mais do que o corpo de Rosa. Refletia anos. Fantasmas. As dores que dormiam sob a pele como raízes que insistem em não morrer. O vidro embaçado pelo vapor do banho parecia uma cortina entre ela e o mundo, entre o passado e o agora. E, ainda assim, cada gota que escorria pelo reflexo parecia uma lembrança voltando — o peso da vergonha, o medo da rejeição, a marca invisível do que Antenor havia deixado nela. Rosa respirou fundo, a toalha escorregando pelos ombros, revelando as cicatrizes que o tempo não conseguiu apagar. Elas eram finas, pálidas, mas gritavam. E naquele instante, o espelho não mostrava uma mulher — mostrava uma história. — Como ele vai olhar pra isso… — murmurou, a voz rouca, quase um soluço. Felipe estava no corredor, chamando baixinho seu

