A manhã amanheceu úmida, com aquele tipo de luz que parece hesitar entre o dourado e o cinza. A cidade acordava devagar, e as janelas da casa do juiz Matheus Diniz refletiam o céu opaco, como espelhos cansados. Dentro, o silêncio tinha o som de um coração contido, o de Ana. Ela estava sentada na varanda, os cabelos soltos caindo sobre os ombros, o olhar perdido nas roseiras do jardim que o juiz cultivava com devoção. As mãos trêmulas seguravam uma xícara de chá já frio. Tudo nela parecia fora do eixo: a voz, o corpo, o fôlego. O passado pesava como um manto que ela não sabia tirar. O juiz apareceu à porta, discreto, com um jornal na mão e um olhar que dizia mais do que as palavras ousariam. — Não dormiu, não é? Ana balançou a cabeça, o sorriso pálido. — O sono não me encontra mais, do

