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1086 Palavras
Capítulo 9 Julia narrando Pedro dormia pesado sobre o meu colo; o seu cheirinho de neném misturava-se com o tecido do meu casaco. Ao lado, Maiara havia conseguido pegar no sono também — respirações sincronizadas, o silêncio quebrado apenas pelo anúncio distante das companhias aéreas e pelo zumbido do ar‑condicionado do aeroporto. Eu, no entanto, não conseguia pregar o olho. Parecia que, a cada minuto, o coração pulava mais forte, lembrando que estávamos prestes a pousar naquela cidade que por tanto tempo habitei nos pesadelos e nas lembranças. A chegada estava marcada para as 22h de um sábado — horário de baile, quando o morro virava festa e movimento, quando rostos se espalhavam pela boca e histórias velhas ressurgiam em conversas altas e risadas. Decidi: sairíamos do aeroporto direto para a Rocinha. Não queria um hotel, não queria tempo para pensar. Eu queria encarar tudo de frente, saber, ver, medir o que restara do que um dia foi meu. — Vai dormir, Julia — Maiara cochichou, encostando a cabeça no assento e fechando os olhos. — Eu não consigo — respondi baixo. — Tô muito nervosa. Ainda faltam horas. Ela abriu um olho, olhou para o Pedro, sorriu e tentou me convencer de novo: — Descansa. Chegaremos cansadas, o fuso vai ferrar com a cabeça. Não é melhor parar um pouco? — Não — apertei os dedos na alça da bolsa com força — não hoje. Sinto que, se eu não for agora, vou deixar a coragem escorregar. A tia véia vai nos emprestar a casa. Ela sempre foi assim — vai entender, mesmo que tudo dê errado. Maiara fechou os olhos e dormiu de verdade. Eu fiquei ali, olhando para a pequena mão do Pedro apoiada no meu braço, pensando em tudo que deixei — nas brigas com minha mãe, em Fernanda, em como saí sem despedidas, em como me acostumei a guardar o perdão só para mim. Se eu soubesse que aquela discussão seria a última vez que veria minha mãe… teria dito que a amava. Teria ficado. Perguntas corriam na minha cabeça como tiros: e Ph? Ele estaria lá? Sozinho? Com alguém? Casado? Pai? Teria me esquecido de vez? Nada disso eu sabia. Três anos mudam tudo. Eu mudei. Meu coração, porém, continuava um lugar de dor e de amor por ele — uma contradição que me fazia sentir i****a e viva ao mesmo tempo. Porque, no fim, amar Ph me deu Pedro. E Pedro era tudo o que eu não sabia merecer, e a melhor coisa que me aconteceu. Com cuidado, limpei a lágrima que escorreu do meu rosto e fechei os olhos um instante. Era hora de me vestir de coragem. Maria Luiza narrando Era noite de baile. Eu sempre amei essas noites: o morro aceso, a música batendo forte, a sensação de que, por algumas horas, tudo podia ser menos pesado. Rd me acompanhava com suas mil recomendações — “não vai sozinha”, “não conversa com estranhos”, “não bebe demais” — e eu ria das recomendações porque, no fim das contas, fazia do meu jeito. — Eu não vou de forma nenhuma te carregar — ele disse, brincando, enquanto eu me arrumava. — Se você não me carregar, outro carrega — provoquei, e saí rindo. Joana estava com a tia véia — nós sempre a deixávamos por ali quando saíamos. Eu não bebia tanto quanto antes; havia passado da fase do exagero, mas ainda gostava da festa: uma vez por mês, era meu escape. — Me diz uma coisa — pedi, ajeitando a roupa — o Ph vai mesmo pedir ela em namoro? — Vai pedir em casamento — Rd respondeu, num tom que tentou ser casual, mas que me agarrou o estômago. Fiquei gelada por um segundo. — O quê? — não escondei a surpresa. — Sim. Ele disse que não faz sentido pedir em namoro, já estão juntos há dois anos — ele explicou. Eu fingi normalidade, mas por dentro uma pontada. Sempre esperei que Julia aparecesse do nada, uma espécie de milagre que trouxesse tudo de volta ao que eu achava justo. Eu sempre desconfiara de Rosa; algo nela era venenoso, mesmo que ela parecesse meiga em público. Ainda por cima, Ph, que eu conhecia desde sempre, agora se tornava responsável por promessas novas — e Rosa estava em seu lado, sorrindo. Chegamos ao baile e o barulho nos recebeu como um abraço pesado. Encontramos Ph com Rosa; Bn e Jn jogavam truco num canto; Laura estava por perto. Respiro fundo e digo um “olá” automático. Rd se senta, atento. — Você está linda — Rosa disse, com aquele sorriso que eu não podia confiar. — Obrigada — respondi, contida. A noite corria entre olhares e bebidas. Em algum momento, Rosa levantou e eu, instintivamente, fui atrás — não por curiosidade, mas por algo que apertava no peito. No corredor, a confrontação aconteceu do jeito mais previsível, mais c***l: — Está tudo bem? — perguntei, tentando soar serena. — Resolveu vir ao banheiro também? — ela respondeu, com falsa surpresa. — Você conseguiu o que queria, não foi? — soltei, direto, sem rodeios. O rosto dela mudou, ficou mais frio. — Não entendo o que você fala — disse, ensaiando a inocência. Explodi: falei da aliança, do desejo de Ph em assumi‑la, da minha revolta. Ela ripostou com acusações — que eu era interesseira, que eu só tinha sido fiel a Rd porque não dei um filho a ele, que Joana não era dele. As palavras cortaram como lâminas. Laura tentou intervir, mas Rosa continuou, fechando a porta do banheiro como quem selasse um destino. No momento em que ouvi Rosa insinuar que Joana não era filha de Rd — que ela até sabia a paternidade verdadeira — senti algo dentro de mim estalar. Fui tomada por uma raiva quente, primitiva. — Eu vou matar essa garota — gritei, sentindo a voz falhar pela adrenalina. Laura me segurou pelo braço, firme: — Para. Você precisa ficar calma. Se ela está grávida, se você bater nela e ela perder o bebê… você vai se arrepender pro resto da vida. Respira, respira. As palavras bateram em mim igual água fria. Minha garganta ardia; a vontade de arrancar aquela mulher dali se misturava ao medo real de perder o controle e transformar tudo em um desastre irreversível. Respirei fundo, tentando puxar a fúria para dentro, para não ser ela que escrevesse o próximo capítulo sangrento daquela noite.
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