Capítulo 11
Julia narrando
— Mãe, estou com fome — Pedrinho reclamou, coçando os olhos sonolentos.
— Já vamos descer, meu amor — respondi, acariciando sua cabeça. Ele assentiu, resignado.
— Aqui a tia ainda tem bolacha — Maiara disse, oferecendo a ele. Pedrinho pegou e começou a comer, um sorriso iluminando seu rosto.
O avião começava a se aproximar do Brasil, e eu olhei pela janela, avistando o Cristo Redentor iluminado à distância. Um sorriso fraco escapou, e eu senti meu coração acelerar. Nem conseguia acreditar que estava pisando novamente no Rio de Janeiro. Apertei o cinto quando recebemos o aviso de que o avião iria pousar.
Desembarcamos, pegamos as bagagens e nos dirigimos à saída.
— Ainda bem que não trouxemos muita coisa — comentou Maiara, aliviada.
Eu segurava Pedrinho adormecido em meus braços, enquanto ela carregava o restante.
Quando tentamos chamar um táxi, a situação começou a complicar.
— Até o Morro da Rocinha eu não levo — disse o motorista.
— Por favor, estamos com uma criança pequena — Maiara insistiu.
— Lá eu não entro, e nem vocês deveriam entrar agora, a essa hora — ele respondeu, firme.
— Eu te dou mil reais pela corrida — ofereci, retirando o dinheiro da bolsa.
Maiara arregalou os olhos:
— Você tá louca?
— Precisamos ir até lá — suspirei. — Ou você quer ficar aqui e subir a pé?
— Podemos ir a um hotel e amanhã subimos — sugeriu Maiara.
— Vamos fazer o seguinte — propus. — Vocês vão para o hotel, e eu vou subir sozinha.
— Tá louca? Não vou deixar você ir sozinha — ela disse, preocupada.
— É melhor assim. Não sei o que vou encontrar lá, melhor não levar Pedrinho agora — expliquei. — Vou primeiro, volto depois para buscá-los.
O taxista ficou confuso, mas acabou aceitando a proposta. Antes de seguir para o morro, me despedi de Maiara e de Pedrinho, que ainda dormia tranquilo. Dei ao motorista os mil reais e desci em frente à Rocinha.
O morro estava iluminado e movimentado por causa do baile. Meu coração apertou, e uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Limpei o rosto e respirei fundo, tentando me concentrar. Cada viela, cada beco, parecia trazer lembranças do passado.
— Nome? — Um vapor me perguntou, olhando desconfiado.
— Julia — respondi, tentando manter a calma.
— Tem autorização para subir? — ele continuou.
— Sou moradora — disse firme. — Não lembra de mim?
Ele ignorou e falou no rádio:
— Rd, tem uma pessoa querendo subir.
Meu coração disparou. Ele estava vivo. Ph estava vivo.
— Libera, pow, ela é filha da Fernanda — alguém respondeu.
— Fernanda? A que morreu? — ele perguntou.
— Foi engano — corrigiu-se.
Comecei a subir o morro, cada passo aumentando o aperto no peito. Guiava-me pelo som do baile, e nada parecia ter mudado. Cada canto, cada beco, lembrava momentos do passado.
Ao chegar na frente do baile, uma cena me deixou paralisada:
— É claro que eu aceito! — ouvi Rosa gritar. — Estou grávida, quero construir uma família com você!
Ela estava nos braços de Ph, e ele sorria para ela. Meu coração se despedaçou naquele instante. Pensei em tudo que sonhei para nós dois, tudo que imaginei para nosso futuro… e ele estava vivendo isso com outra.
Ph narrando
— Você realmente vai casar comigo? — Rosa perguntou, radiante.
— Sim — respondi, firme. — Não me importo com o que os outros vão dizer. Estamos juntos, só nós dois.
Ela tremia de emoção:
— Estou tão feliz… — disse, abraçando-me.
Ajoelhei-me e perguntei:
— Quer se casar comigo?
— É claro que aceito! — ela gritou, abraçando-me com força. — Estou grávida, quero construir nossa família!
Olhei para o lado e vi Julia parada, seus olhos cheios de lágrimas, paralisada. Afastei Rosa e encarei Julia, sem acreditar que após três anos ela estava ali, presenciando esse momento.
— Julia — Rd chamou, ao lado dela.
Eu estava anestesiado, vendo Julia ali, depois de tanto tempo.
— Ph — Rosa chamou, segurando meu braço.
— Seu o****o — Maria Luiza disse, se aproximando de Julia. — Julia, por favor, fala comigo.
Julia continuava parada, e eu, imóvel, sem saber como agir.
— Vamos embora — Rosa disse, puxando-me. — Você me pediu em casamento.
Rd e eu nos entreolhamos, tensos. Julia saiu correndo, e Malu a seguiu pelos becos do morro. Rosa me puxava, nervosa e determinada:
— Não ouse me deixar sozinha, grávida!
Eu estava parado, ainda anestesiado, tentando processar a aparição de Julia após tanto tempo.