Maiara narrando
Eu comecei a ligar para Julia várias vezes. Cada toque que não era atendido aumentava meu aperto no peito. Desde que ela entrou no morro, não me deu mais nenhuma notícia, e eu não conseguia me acalmar. Olhei para Pedro, que dormia tranquilo, alheio à minha preocupação, e suspirei.
Saí para a sacada do hotel e fiquei observando o movimento da rua lá embaixo, vendo o tempo passar sem nenhuma ligação, nenhuma mensagem. As horas pareciam se arrastar. Meu coração batia acelerado, e eu não conseguia pensar em outra coisa senão no que poderia estar acontecendo com ela lá dentro.
Minha mãe me mandou uma mensagem no w******p:
— Oi, como está as coisas, filha?
Peguei meu celular, respirei fundo, abri e fechei a mensagem várias vezes antes de responder:
— Mãe, estamos bem. E você, aproveitando a viagem?
Ela começou a me mandar fotos da viagem, e eu respondia com corações a todas.
— Estou ocupada, mãe. Depois falo com você — mandei por áudio, tentando disfarçar a ansiedade que me consumia.
Tentei ligar novamente para Julia. Nada. Cada tentativa que falhava fazia minha preocupação crescer. Eu andava de um lado para o outro, incapaz de me concentrar. Olhei para a mochila de Pedrinho e comecei a arrumar algumas roupas, caso fosse necessário correr atrás de Julia. Eu não a deixaria sozinha naquele lugar perigoso.
Antes de sair, resolvi mandar uma mensagem dizendo que estava indo para a Rocinha. Assim, quando ela visse, saberia onde me procurar.
Rosa narrando
Ph saiu de dentro de casa, e meu coração disparou. A raiva me consumia. Como Julia tinha voltado justamente agora? Depois de tudo… depois de eu estar grávida dele? Eu não poderia perdê-lo.
Comecei a quebrar coisas dentro de casa, socando móveis e objetos, tentando expulsar a frustração que queimava dentro de mim. Não podia permitir que ele voltasse para ela.
Saí de casa, e vi Bn parado, fumando, junto com Jn.
— Vocês viram Ph? — perguntei, a voz tremendo de raiva.
— Vi não — Bn respondeu.
— Acho que ele foi para o topo do morro — Jn disse — lá onde ele costumava encontrar Julia. Provavelmente estão conversando.
— Não acredito — murmurei, saindo em disparada morro acima.
Cheguei ao topo, escuro e silencioso. Iluminei com a lanterna do celular, mas não havia sinal de ninguém.
— Vou matar aqueles filhos da p**a que mentiram para mim — resmunguei, olhando para Jn e Bn, que se afastavam.
Todos pareciam estar ao lado dela, todos torciam por Julia. Mas eu estava grávida dele, e ninguém iria me impedir.
Julia narrando
— Nenhum de vocês vai falar sobre Pedrinho para ele — falei, firme.
— Vai esconder dele? — Rd perguntou, surpreso.
— Não quero que ele saiba — respondi.
— Não está certo — Malu falou, preocupada.
— Eu vou embora. Não quero falar com ele! — disse, me virando, mas então vi Ph parado na porta, entrando devagar.
— Você vai ter que falar comigo — disse, sério. Eu o encarei.
— E se eu não quiser? — perguntei, com a voz trêmula.
— Você está aqui. Voltou de onde estava, veio ao morro… nós temos muitas coisas para conversar.
— Por que você me fez acreditar que estava morto? — minha voz se quebrou. Era a pergunta que mais doía. Por que me fez sofrer tanto, acreditar que eu havia perdido todos para sempre?
— Nós vamos deixar vocês conversarem — Malu falou, saindo com Rd da casa, nos deixando sozinhos.
— Por que você não me contou seu plano naquele dia? — perguntei, engolindo seco. — Sabe quanto eu sofri? Pelo que imaginei sobre a sua morte?
— Aquele dia eu descobri que sua mãe havia sido morta, que JK era o traidor — ele respondeu, aproximando-se. — Que Kaio poderia querer te fazer m*l.
— Aí você me manda embora e decide fingir a sua morte? — minha voz subiu.
— O plano foi para tirar o alvo da nossa cabeça — ele explicou. — Você não sabe tudo que aconteceu, como tudo mudou… Eu passei o tempo todo te procurando, querendo notícias suas, e quando encontramos você nunca respondeu.
— Eu nunca soube que vocês entraram em contato. Ninguém me contou nada — falei, sentindo o peso de três anos de sofrimento acumulado. — Passei três anos acreditando que você estava morto. Que todos vocês estavam. Sofrendo pela sua morte, desejando que você tivesse sobrevivido… pensando que eu poderia ter me despedido, me culpando por isso… me culpando por não ter insistido mais para você ir embora comigo.
— Me perdoa — ele falou, com a voz baixa.
— Agora não adianta mais — respirei fundo. — Eu recriei minha vida, abri meu negócio, e de repente vejo um vídeo da Rocinha com Maria Luiza… Aí percebo que vocês estão vivos. Corro atrás de você… e quando chego, descubro que você fingiu sua morte, está noivo, vai ser pai. Não fui eu que te abandonei, Ph. Eu pedi para você ir embora comigo, era o nosso plano… você deu para trás, me fez acreditar que estava morto, e eu passei três anos sem me envolver com ninguém.
— Julia, você precisa entender também — ele começou, tentando se aproximar. — Estávamos no meio de uma guerra, todos nos traindo. Tudo isso custou a vida do Perigo… como eu poderia largar tudo? Fingir minha morte foi também uma forma de te proteger, porque Kaio iria atrás de você.
— Chega — gritei. — Cada vez que você fala, tudo fica mais confuso. Vou embora. Vou voltar para minha vida, e você fica com sua noiva.
— Eu tentei falar com você, e nunca tive resposta — ele disse, com sinceridade. — Demorei anos para assumir alguém também. Eu errei por não ter ido embora com você, eu fui. Mas você precisa entender que aqui é a minha vida, nasci aqui, eu amo você e sempre amei. Nós dois temos motivos para a mudança que aconteceu. Você não pode apenas me julgar.
— Eu posso — respondi, com os olhos fixos nele. — Eu não fingi estar morta, você não chorou minha morte… eu me senti sozinha. Não sabe o quanto foi r**m descobrir que você estava vivo… e depois… — parei, engolindo o nó na garganta.
— Depois? — ele perguntou, confuso.
— Chorar sua morte — falei, evitando falar sobre Pedrinho por enquanto. — Quero ir embora. Não temos mais nada a resolver.
— Nós temos muita coisa — ele insistiu.
— Eu me n**o a falar mais qualquer coisa — disse, virando-me e saindo da casa.
— Julia — Ph chamou, segurando meu braço. — Precisamos conversar sobre tudo.
E então eu ouvi a voz de Pedrinho, doce e inocente:
— Mamãe…