Iara narrando
Minha filha é tudo para mim, é toda a minha vida. Lutei muito pra salvar a vida dela, os melhores médicos, os melhores hospitais, tudo, até a melhor peruca, cabelo humano, feito no melhor e mais caro salão do Rio de Janeiro.
Essa batalha de anos contra a leucemia dela não foi nenhum pouco barata, então eu tive que trabalhar muito, tanto quanto o meu marido, ele tem um bom negócio, mantém um padrão de vida um tanto quanto confortável, mas nunca almejou o luxo em excesso.
Só que eu não acho que muito luxo seja desnecessário, eu quero o melhor que a vida tem para oferecer sim. Lancei a minha campanha de vereadora com base na saúde da Íris, prometendo projetos que melhorassem a saúde publica no geral e no setor oncológico, pediátrico principalmente. No primeiro mandato, eu trabalhei com afinco mesmo, queria realmente melhorar as coisas, mas logo eu descobri a realidade e como é difícil fazer as coisas. Mas continuei, já estava lá dentro, não queria sair mais. Então eleição após eleição eu me mantenho ali com a mesma pauta, saúde, como conhecedora da causa, por ter minha filha paciente oncológica.
Querendo ou não, é o dinheiro que movimenta tudo, de bom ou r u i m. Então eu não ia largar o meu rico dinheirinho e nem entrar em conflito com os peixes grandes demais para mim. Hoje em dia eu faço o que posso, até pra poder continuar na bancada.
Em meio aos tratamentos, Íris estudou como deu, teve os melhores professores particulares, além de ter feito algumas boas viagens, tudo de acordo com a liberação do médico.
Quando a medula compatível surgiu foi um alivio, viver anos dentro de hospitais não é nada fácil, como uma adolescente que quer viver, menos ainda. Tantas festas e sociais e eu nunca conseguia ir com a família completa. A Íris chegando na idade adulta e eu doida pra apresentar ela para os filhos dos vereadores e deputados, torcendo para ela fazer um bom casamento, que fosse agregar mais na nossa família, mas do jeito que ela atava, não dava pra apresentá-la para ninguém, não, nenhum pouco atrativa. Quem vai querer alguém doente? Ter trabalho? É minha filha e a amo de paixão, por isso quero o melhor para ela, mas quem iria querer se comprometer com alguém que pode deixar esse mundo a qualquer momento? Me dói esse pensamento, mas é a realidade e por vezes eu precisei encarar, diversas vezes o médico nos deu ultimatos sobre a vida dela, é complicado, você aprende a viver um dia de cada vez e em vários deles a esperar o pior, mas um lado meu sempre fez planos dela viver plenamente com um bom rapaz de posses e preferencialmente com um cargo publico ou de família de políticos.
Então para o meu total desgosto, o doador, que claro que a Íris fez questão de querer conhecer, mesmo sabendo que eu não queria isso de jeito nenhum, é um rapaz da idade dela, cara de marginal, cheio de tatuagens. Bonito? Ok, bem bonito. Se mudasse o estilo de se vestir, de falar, fizesse um corte de cabelo mais arrumadinho, parasse de fazer tatuagens, talvez até iniciasse um processo de remoção de boa parte delas, ele poderia ficar bem mais apresentável.
O problema é aquele morro onde ele vive. Deus me livre da Íris enfiada lá, morro só em época de eleição e olhe lá. Sem contar que eu tenho certeza que ele é b a n d i d o, já vi o carro dele e ele tem algum dinheiro. Tudo o que ele disse é que o pai tem alguns negócios, porque, é claro que eu perguntei se ele esperava algum tipo de compensação pela doação da medula à Íris. Deus sabe que nada é de graça nesse mundo. Mas ele ficou todo bravinho, ofendido, negou veemente e foi embora e quando eu achava que não ia mais ver a cara dele, e estava dando graças a Deus por isso, ele tornou a aparecer.
Não só a aparecer, a ficar, estar com a Íris, se preocupar. Ela aprontava, ou dava trabalho e ele aparecia correndo, chamado pela própria ou pelo médico conivente dela.
A coisa cresceu.
Eu precisei intervir.
E tô até hoje no pé dela. Tudo, é claro, motivado pela saúde, bem estar e felicidade dela, monitoro tudo, seus horários, suas saídas, raramente sozinha. Ela foi fazer um curso de t. i., contra minha vontade né, mas era num dos cursos mais caros da cidade, só gente com posses se matricula ali, então deixei, pois ali pelo menos teria jovens do nível dela, bem diferente desse Murilo. Eu nem sei nada direito sobre ele, é uma incógnita, parece que quer mesmo esconder tudo sobre a sua vida. Na minha casa ele não vem, não quero e não aceito e segundo a Íris, ele não faz nenhuma questão, embora ela faça, o que ela deixou bem claro, mas ele não vem.
Agora passado um ano, Íris está bem melhor, eu já posso levar ela em alguns eventos comigo, apresentar algumas coisas, pelo menos t. i. é pra pessoas inteligentes, eu mesmo não entendo quase nada de computador, pelo menos pode ser que seja um assunto para ela e os filhos dos vereadores e deputados que eu quero apresentar para ela, ela vai parecer inteligente, e está bem mais bonita, ganhando corpo, o cabelo está curtinho ainda, mas já é o cabelo dela e na maioria do tempo ela não tem a cara de um paciente morrendo de câncer, até porque essa fase passou se Deus quiser, ela só tem que ser monitorada por mais quatro anos e então estará livre de vez.
A fase que não passa na minha vida é a do casamento borocoxô. Essa rotina com a Íris baqueou o meu relacionamento, o Cláudio é um homem muito bonito e bem sucedido até, mas a rotina de hospital fez a crise se instalar no nosso relacionamento e eu não sei quanto tempo mais eu vou aguentar.
Ainda sou jovem, não cheguei aos 50 ainda. Tenho um bom corpo, me cuido com alimentação, academia e procedimentos estéticos. Tenho olhos verdes e uso os cabelos loiros na altura dos ombros. Quero viver, aproveitar mais a vida, ter o coração balançado, ou é só as menininhas novinhas que podem? Não, eu também mereço, até mais que muita gente.
Olho as horas, já tá ficando bem tarde. Íris foi sair com o pessoal do curso. Eu sabia que devia ter contratado um segurança para ela, mais pra vigiar do que pra cuidar né. Um amigo vereador até me indicou uma pessoa que tem uma pequena empresa de seguranças, mas não queria esse gasto agora, tô economizando para uma mansão que estou de olho.
Cláudio como sempre já foi se deitar reclamando sobre eu falar demais sobre a Íris e as coisas que eu desejo para ela, que eu devo deixar ela decidir o futuro dela. Mas imagina só, se uma menina que nem viu nada da vida, só viveu reclusa num hospital, se é capaz de decidir alguma coisa. Vê se pode isso? Não, não, pode deixar que eu vou encaminhar toda a vida dela mesmo. É minha função de mãe mesmo.
Olho o contato que o meu amigo me enviou 'Comandante Almeida', amanhã mesmo vou dar uma olhada nisso, um segurança, não precisa ser fixo, pode ser um freelancer, pra acompanhar as saídas dela, assim fico sabendo exatamente onde ela vai e com quem e fico mais tranquila.
Iara: - Meia noite, meia noite. Essa menina acha que eu sou p a l h a ç a. Amigos do t. i. uma ova, rum, duvido. Ai como eu fui b u r r a! - resmungo em voz alta sozinha andando pra lá e para cá no meio da sala