No final da escada estava ela. Lena.
— Kara – Cat apertou a mão da garota ao lado, buscava entender se era um sonho ou se sua amiga estava realmente parada no final da escada, com olhos negros e um pequeno sorriso no rosto. As vestes completamente limpas, o cabelo n***o impecavelmente arrumado e os lábios em vermelho vivo. Sangue.
— Lena – Kara disse em estado de choque, seu coração batia com tanta força dentro do peito que arrebentaria sua caixa torácica. Os dedos trêmulos acenaram para Maggie e Alex, que observaram as duas amigas em frente a escada, completamente alheias e perdidas ao que estava acontecendo.
— Esses corvos estão enlouquecendo... – Maggie começou, mas Kara ainda olhava estática para Lena, que mais parecia uma estátua sorridente ao fim da escada – Kara?
— É-é a Lena – Cat disse com a voz esganiçada, apontando novamente os dedos trêmulos para o fim da escada. Kara virou os rosto para Maggie, seus pés m*l se moviam.
Maggie bufou irritada, indo até as amigas e puxando as duas pelos ombros ao mesmo tempo, fazendo com que a encarasse.
— Vocês estão em estado de choque! – gritou, sacudindo-as, enquanto lágrimas escapavam dos olhos da garota loira.
— Olhe!! – Kara soltou-se do aperto, apontando rapidamente para os últimos degraus.
Mas, para sua surpresa, não havia nada além dos móveis iluminados pela luz da lua e o assoalho bem polido de madeira.
— Olhar o quê?! – Maggie a puxou de volta, vendo Kara chacoalhar-se em seus braços – Pare, Kara! Pare!
— Isso só pode ser um pesadelo! Era Lena! Eu vi! – Cat puxou os fios loiros entre os dedos – Eu pensei que Kara estava ficando louca... Eu também estou...Também estou...
— Cat! – Alex puxou suas mãos, encarando os olhos azuis marejados da amiga – Talvez fosse mesmo Lena.
Os olhos da Sawyer se arregalaram ainda mais.
— Você também, Alex? – Maggie crispou os lábios – Eu desisto de vocês, seja quem for, nós iremos descobrir agora!
Antes mesmo que as amigas a impedissem, Maggie já descia os degraus às pressas correndo à procura da estranha que entrara na casa. Estava decidida a acabar com essa história. Alex tentou agarrar seu pulso, mas a garota foi rápida ao passar pelo corredor, indo em direção à sala.
— APAREÇA! – berrou, sua voz ecoando pelos cômodos – Quem quer que esteja aí, nós somos quatro e você apenas um!
Cerca de um minuto se passou sem nenhuma resposta, apenas a respiração acelerada das garotas. A porta em direção a cozinha continuava aberta, e Alex suspirou aliviada acreditando que talvez, apenas talvez, suas amigas estivessem tendo alucinações com Lena.
Primeiro fora seu sumiço, depois o fazendeiro Justin e agora o susto com os corvos. Certamente estariam todas sobrecarregadas.
— Não tem ninguém aqui – Maggie suspirou, caminhando até Kara com uma cara de desagradada – Acho melhor irmos pra casa, você precisa dormir um pouco... Foi muita coisa para um dia só, me desculpe por arrastá-la até aqui, a culpa é toda minha.
Kara negou com a cabeça. Acabara de encontrar Lena, como poderia ir embora?
— Maggie, Lena está aqui... Se não acredita em mim, acredite em Cat – ela tentou mais uma vez, mas foi interrompida por um barulho que parecia vir do lado direito do cômodo.
Alguém estava na cozinha.
Antes mesmo de tomarem alguma atitude, Maggie correu até o outro cômodo deixando as garotas para trás.
— Maggie! – Cat gritou no instante a passou pela grande porta de madeira, e antes que as outras três a seguissem, a passagem se fechou.
— Maggie! Maggie! – Kara gritou em desespero, batendo com força contra a porta e ouvindo gritos apavorados. A madeira era dura e a porta duas vezes maior que qualquer uma das garotas, imune aos chutes e socos – Pelo amor de Deus. Não! Não!
Alex a chutou diversas vezes, esmurrou até seus dedos latejarem e sangue aparecer em seu punho. Os gritos de Maggie silenciaram por um momento. Ouviram passos, algo debruçou-se contra a porta.
— Aquele cachorro e******o me mordeu – Maggie disse entredentes – Ai, minha coxa está doendo.
Alex tomou uma lufada de ar, assim como Cat e Kara.
— p***a, Maggie! – Alex gritou irritada – Pare de fazer isso... Pare de se separar do grupo.
— Eu não preciso do seu sermão agora, Danver, fui mordida por um cachorro e estou no escuro sem a lamparina... Dá pra abrirem a droga da porta? Eu não consigo.
Cat também forçou a maçaneta. Nada.
— Eu estou com medo – a loira confessou, ao que Alex também tentava girar a maçaneta sem nenhum sucesso.
— Não pare de falar conosco, Maggie – Kara gritou para o outro lado da porta. Estava apavorada com a ideia da amiga também desaparecer. E onde estava Lena?
'Oh, Deus!', Kara pensou 'O que está acontecendo com essa casa?'
— Minha perna dói – ela resmungou novamente. Kara foi em direção a porta principal, poderiam sair por ali e Maggie sair pela porta dos empregados como haviam entrado. Mas infelizmente a porta também estava trancada.
— Trancada? – Alex perguntou o óbvio, ainda ao lado de Cat que tentava inutilmente forçar a maçaneta – Só temos essa saída, como a porta se trancou?
— Depois da chuva de corvos, eu não consigo pensar mais em nenhuma teoria – Cat resmungou. Maggie continuava a choramingar pela mordida em sua coxa, e Kara se afastou até a lareira à procura de algo que pudesse ajudar a abrir a porta. Sua cabeça estava uma bagunça, Lena estava em algum lugar desta mansão, e cada vez que se lembrava disso sabia que precisava o quanto antes tirar as suas amigas dali.
A imagem do senhor Justin a assombrava, e se Lena estivesse fora de controle?
Demônio. Ela era um demônio agora. Não mais a sua Lena.
O barulho da fechadura foi ouvido. Kara rapidamente olhou para a porta sendo aberta por Maggie, que bufou apontando para a cozinha.
— Vamos embora logo – murmurou, estranhando por ter conseguido abrir com tanta facilidade – Estão esperando o quê? A saída é por aqui.
Alex passou pela porta e em seguida Cat. Kara seguiu em direção a passagem, mas antes que atravessasse, ela se fechou.
— Kara! – Cat gritou, e a garota caiu para trás com o susto, chutando a porta de imediato – Merda!
— E-eu estou bem! – ela gritou. Não estava bem, sua cabeça doía pela enorme pancada.
A maçaneta sacudia ao que Alex tentava inutilmente abri-la.
— Merda... As janelas! Tente sair pelas janelas! – Maggie gritou, e a garota concordou mesmo que a amiga não pudesse vê-la. Levantou-se rapidamente, virando de costas e caminhando até o outro lado do cômodo. Forçou as grandes janelas, nenhuma das quatro abriram. Pensou que talvez devesse quebrá-las, mas o barulho seria alto demais, poderiam chamar a atenção de alguém.
— Maggie! As janelas...
As palavras sumiram de sua boca. Um risinho fora ouvido próximo às escadas.
— Kara?! – Maggie chamou – As janelas o quê?!
Kara negou com a cabeça, mesmo que não pudesse ser vista por Maggie. Lena estava ali, debruçada no corrimão da escada enquanto girava os anéis em seu dedo, os cabelos bem arrumados deixavam algumas mechas em frente ao seu rosto, mas ainda era possível ver os olhos negros sem vida. Um sorriso mórbido, frio, brilhava em seu rosto, e em volta de seus olhos haviam olheiras fundas e escuras. Lena franziu a testa, arrumando sua postura e dando um passo em direção a Kara.
As pernas da garota vacilaram, acabou tropeçando no tapete ao que recuava de costas.
— Ah, mon amour – a voz rouca de Lena ecoou por toda sala, os dedos pálidos ajeitando seu terno preto tradicional – Eu senti sua falta.
Kara negou com a cabeça, desesperada ao bater as costas contra a porta. Forçou a maçaneta novamente, ainda sem tirar os olhos azuis assustados do ser em sua frente.
Não era Lena, não poderia deixar-se enganar.
— KARA! – Maggie gritou, e Lena rosnou para o som. Seus punhos apertados como em raiva – Lena, é você?! Oh, p***a! Onde você esteve?
Kara queria gritar para que Maggie se calasse, o demônio em sua frente parecia pronto para destruir a porta de madeira e atacá-las.
— Por que as trouxe? Por que não veio sozinha, eu só quero você – as palavras agora soaram ásperas. Além da voz rouca e costumeira de Lena, uma outra voz ainda mais forte e potente estava atrás. Como na noite no sótão.
— Do que está falando Lena? O que está acontecendo? Sou eu, a Cat e a Maggie também estão aqui – Alex bateu com força na porta – Diga a ela, Kara!
— CALE A BOCA! – o demônio gritou, em um surto de ódio. Kara forçou novamente a maçaneta, o pânico agora parecia apoderar-se de todo seu corpo.
— Le-Lena – Kara gaguejou, tentando distrair o demônio que demonstrava-se enfurecido – Fo-foi o seu pai que fez isso?
O sorriso sumiu de seus lábios. Kara arrependeu-se de imediato.
— Fez? – Lena retornou à pergunta, os olhos negros tornando-se ainda mais duros ao que as sobrancelhas se juntavam em uma careta de desagrado – Foi ele quem fez isso?
Kara não sabia o que responder, seus pensamentos pareciam escondidos e o medo ocupava todo seu corpo. Mais batidas na porta, Maggie parecia impaciente.
— Vamos logo embora, ninguém vai acreditar que a encontramos...
Lena contorceu a cabeça, trincando os dentes e fechando os olhos. Ela parecia sentir dor. Kara ouviu sussurros saírem de seus lábios, mas as palavras não faziam sentido algum. Temeu por sua própria vida, o que ela estava fazendo? O que estava dizendo? Os movimentos de sua cabeça lembravam-lhe uma cobra pronta para dar o bote, e a garota de olhos azuis trancou a respiração quando entendeu o último sussurro.
— Elas a querem... O que é meu... Elas a querem.
Kara não sabia como, mas conseguia sentir que Lena as machucaria. Algo dentro de si gritava desesperadamente para que salvassem suas amigas. O demônio em sua frente, ainda sussurrando palavras frias e desconexas, iria feri-los.
— Não! Elas são nossas amigas! – disse em desespero, vendo os olhos negros caírem sobre seu corpo – Eu não sei o que houve, eu estou com medo. Por favor, deixe-me ajudar. Todas nós podemos ajudar, este m*l que está em você pode... pode ir embora...
— Kara! – Alex gritou novamente, e a atenção de Lena voltou para a porta. Os punhos agora tremiam.
— Elas querem o que é meu! – gritou.
Kara tomou uma decisão. Precisava protegê-las. Precisava afastar Lena de alguma forma, não deixaria que Alex, Cat e Maggie se machucassem. Não deixaria que Lena fizesse isto.
Então correu, deixando as batidas altas na porta tendo a certeza de que Lena a seguiria. Seu coração pulsava acelerado tentando concentrar-se ao máximo para não tropeçar e cair. O nervosismo não ajudava, era óbvio que Lena como demônio era mais rápida e forte, sua decisão agora de defender seus amigos parecia falha. Como ela mesma se protegeria?
Correu o mais rápido que podia pelas escadas, negando-se a olhar para trás ou permitir-se parar para ver se Lena realmente a seguiria. A escuridão a engoliu logo que chegou ao segundo andar, correndo às cegas até a pequena escada do sótão. Tinha um plano, mas não sabia se funcionaria. Ao pisar no degrau pode ouvir os gritos das garotas chamando por ela, mas não pareciam estar sendo atacadas, apenas confusas.
Estariam seguras do outro lado.
O cheiro desagradável agora misturava-se com os corvos mortos no chão. Ela não se preocupou em desviar dos animais enquanto desesperava-se para entrar atrás de um dos armários velhos, mas antes que chegasse até lá, bateu a perna em uma das cristaleiras quebradas, sentindo sua pele latejar ao que a calça já se manchava de sangue.
Mancando, apressou-se até o último armário, reformulando todo seu plano e tentando ignorar a dor que já se alastrava para seu joelho. O que iria fazer se Lena não a seguisse? E se deixar suas amigas sozinhas no andar de baixo com o demônio tenha sido uma péssima ideia?
Kara estava desesperada, seus pensamentos cada vez mais confusos a embaralhados. A espera era agonizante. Por mais apavorante que o pensamento fosse, porque Lena simplesmente não aparecia? Esperar estava servindo apenas para se afundar em um choro silencioso.
Até que passos foram ouvidos.
— Eu posso ouvir seus batimentos cardíacos, Kaa – a voz soou rouca, tão áspera que fez Kara se encolher atrás do armário velho. Suas mãos suavam e lágrimas rolavam pelas suas bochechas. Por que tudo aquilo estava acontecendo? Estava tão apavorada que a dor dilacerante em sua perna era completamente nula – Vamos, Kara. Você sabe que esconde-esconde é minha brincadeira favorita, não sabe? Eu jogo muito bem.
Ela tampou os lábios com uma das mãos, contendo um choramingo. Seu corpo tremia por inteiro ao ouvir os passos lentos se aproximarem, a madeira rangendo e o coração bater forte em seu peito.
— E quando eu te achar, vai desejar nunca ter se escondido de mim.
Kara gemeu sofregamente quando sua perna moveu para não aparecer atrás do armário, e tinha certeza absoluta que com isso entregou seu esconderijo. Não poderia agora simplesmente correr e escapar de Lena, sua perna doía como o inferno.
— Lena – Kara sussurrou detrás do armário, os olhos fechados e apertados – E-eu não quero que você as machuque...
Kara, por mais insana que fosse, ainda pensava em suas amigas. Precisava ter a certeza de que ficariam seguras.
— Por quê? – Lena chiou, a garota detectou a raiva em sua voz – Por que se preocupa com elas?
Kara engoliu o nó em sua garganta.
— Elas são nossas amigas – sussurrou, mas Lena causou um estrondo forte, jogando mais uma das cristaleiras no chão.
— NÃO! – gritou – Eu vou matá-las, não podem ser importantes para você, não podem...
Kara estava completamente desnorteada, abrindo os olhos de repente vendo a calça completamente manchada de sangue. Sua perna latejava de dor.
— Elas são, Lena – Kara trincou os dentes – Assim como você.
Tudo ficou silencioso. Kara passou a mão por sua coxa checando se nenhum caco de vidro ainda estava em seu corte. Mas foi surpreendido por mãos circulando seu pescoço, olhos negros a encarando enquanto Lena cuspia palavras, sua garganta ardendo enquanto lágrimas rolavam por sua bochecha.
— Elas não podem ser importantes – disse pausadamente, apertando Kara cada vez mais alto, e o rosto da morena se aproximando da menor, seus lábios ficando próximos ao de Kara, prestes a selar os lábios que procuravam por ar desesperadamente da loira, suas costas batendo contra o armário.
Então, algo atingiu Lena pelas costas, o demônio estremecia soltando lamúrias de dor e Kara reconheceu a mulher que jogava algum tipo de líquido em Lena. Era Madame Prescott.
— Saia logo! – ela gritou para Kara, que juntava forças em sua perna para correr até a saída. Olhando para trás, viu Lena se contorcendo de dor próximo ao cofre e os corvos mortos, enquanto a mulher a seguia e a mandava descer as escadas de uma vez, jogando algo antes de fechar a porta com força.
— O que era aquilo?! – Kara estava assustada, gemendo logo em seguida ao que a mulher a empurrava para o corredor, desesperadamente até a escada.
— Ande depressa – disse. Um de seus cães esqueléticos a esperava próximo a escada. Ao descerem rapidamente, ouvindo os gritos amaldiçoados de Lena, Kara percebeu que suas amigas estavam todas na entrada da cozinha, sacudindo os braços para a entrada agora aberta.
Queria perguntar se todas estavam bem, mas a mulher já a empurrava para fora, fechando a porta com extrema força e tirando um grande saco do meio dos panos velhos do vestido. Kara reconheceu os pequenos grãozinhos brancos como sal, enquanto a madame fazia uma pequena linha em frente à porta.
— Corram de uma vez! Vamos! – ela esbravejou, assobiando para seu cão enquanto Maggie ajudava Kara a correr para fora.
Kara começou a se perguntar como Lena não as seguirá, como Madame Prescott conseguiu enfrentá-la e ter salvado a garota. Ao passarem pelo portão, a mulher o trancou com os grandes cadeados e todos ouviram o som de vidro se quebrando. 'O sótão' Kara pensou.
— Co-como ela não nos seguiu? – Cat quebrou o silêncio, debruçando-se com uma dificuldade enorme para respirar.
— Demônios são incapazes de cruzar uma linha de sal – a senhora suspirou, ajeitando o saco novamente em seu vestido – Pelo menos esse tipo de demônio.
Maggie ainda parecia perdida, mas Kara negou com a cabeça, sentando na calçada em frente a mansão. Estava tão cansada e sua perna latejava de tanta dor. Sua mente estava um caco.
— Agora vão para casa, e parem de ser crianças bisbilhoteiras. Estariam todas mortas se eu não estivesse aqui, imprestáveis – a mulher olhou para sua própria casa, acariciando a cabeça de seu cão.
— Mas... – Maggie tentou contestar, queria fazer perguntas, estava tão confusa e apavorada.
— Vão! E não abram o bico para ninguém, esse dia jamais aconteceu – Madame Prescott nem sequer olhou para trás ao caminhar até sua casa, vizinha da mansão.
Alex optou por ajudar Kara, todas cansadas demais e com pensamentos demais para falar. Havia muito no que pensar mas, no momento, um curativo e café forte iriam servir.
Kara precisava se manter acordada, ainda tinha muitas perguntas não respondidas.
CONTINUA...