— Os médicos foram chamados, a empregada da casa quem achou o Lionel e Lillian – o homem disse, e Eliza viu as duas filhas gêmeas aparecerem na porta, choramingando.
— Saiam daqui, voltem a dormir! – disse ríspida, ignorando Kara – Aconteceu faz muito tempo?
— Os médicos chegaram a alguns minutos, a empregada ouviu falatórios e gritos, e quando chegou até lá os dois estavam ensanguentados. Mas ela disse à polícia que antes do senhor Luthor apagar, ele estava bem consciente.
— E Lena?! – Kara perguntou angustiada, seu coração parecia espremido dentro do peito e sua face horrorizada não passou despercebida pela mãe.
— Ela sumiu, eu não sei. Não a encontraram em casa.
— A garota pode ter matado os pais – Eliza deduziu, e Kara respondeu com toda a raiva acumulada.
— Lena jamais faria isso, jamais! – Kara gritou, assustando a mãe que estava prestes a lhe dar um sermão quando Justin continuou.
— Joanne, a empregada da casa, disse que o senhor Luthor só murmurava a mesma coisa, 'Não é a minha filha, não é a minha filha', e eu ouvi um boato de que foram sequestradores. Sabem como aquela família é rica, e nesse vilarejo todo mundo quer arrumar dinheiro de alguma forma.
— Talvez tenha sido o senhor o sequestrador, como sabe de tudo isso? – Caitlin questionou, e o vizinho pareceu ofendido.
— Isso lá são modos?! – Eliza repreendeu, e Justin voltou a colocar o chapéu e abrir a porta da pequena casa.
— Eu não sou nenhum sequestrador, menina. Mas esse vilarejo é pequeno, e se eu tenho ouvidos, posso muito bem usá-los.
Acenou para todos dentro da casa e saiu na madrugada.
Kara sentou-se no sofá, não conseguindo segurar as lágrimas que rolavam pelo seu rosto. Então Lena havia sido sequestrada? Os seus pais estavam mortos? O que aconteceria com ela?
— Hey, ela é sua melhor amiga, não é? Não chore – Caitlin sentou-se ao lado de Kara, abraçando a irmã pelos ombros. A de olhos azuis chorou alto, desesperada por notícias e pedindo aos céus para que Lena voltasse a salvo – Ela vai ficar bem.
Kara apertou o colar em seu pescoço, soluçando alto.
— E-ela vai ficar bem – a garota repetiu – Por favor, que ela fique bem...
◆ ▬▬▬▬▬ ❴✪❵ ▬▬▬▬▬ ◆
Kara não dormiu naquela madrugada, só conseguia pensar em Lena e se ela estava realmente bem. Caitlin até tentou fazer chá para que Kara se acalmasse enquanto a mãe não voltava com as notícias, mas Kara continuava aflita.
Podia sentir dentro de si que Lena precisava de sua ajuda.
— Já vai amanhecer e mamãe ainda não voltou – Caitlin disse, assoprando sua terceira xícara de chá. Kara estava agradecida por não ter sido deixada sozinha, Caitlin era uma boa companhia e deixava a irmã chorar em seu ombro sem perguntas nem desconfianças.
Alguém bateu na porta, a irmã mais velha se apressou para abrir.
— A Kaa está? – Kara reconheceu a voz de Maggie. Levantou rapidamente e correu até a porta, abraçando-a com tanta força e não segurando as lágrimas que voltaram a aparecer.
Kara sentiu mais braços se juntando, e pelo canto dos olhos marejados viu Cat também com a aparência abatida.
— Vocês tem alguma novidade? – Caitlin perguntou rapidamente, e Cat negou com a cabeça, esticando a mão para aceitar a xícara de chá que Caitlin oferecia.
— Nós só sabemos o que todo esse vilarejo sabe – Maggie disse ainda abraçando Kara, segurando em seus ombros para afastar a menor e olhar em seus olhos azuis – Vamos encontrá-la.
A garota queria acreditar naquelas palavras, na verdade, ela acreditava! Mas nem sequer sabiam por onde começar, nem se Lena realmente havia sido sequestrada. Quem a sequestraria? Quem seria tão frio e horrível a ponto de matar seus pais? Kara estava tão confusa e frustrada.
— Alex ficou na mansão, nós passamos por lá antes, e ela achou melhor ficar e tentar escutar alguma coisa, mas está difícil. Parece que o vilarejo todo se reuniu...
— Gente fofoqueira – Caitlin bufou, completando – Tenho certeza que mamãe está por lá.
Kara enxugou as lágrimas que ainda escorriam por sua bochecha. Seu coração doía dentro do peito, agoniado, implorando por qualquer notícia que fosse. Lena estava segura? Estava ferida? Eram tantas perguntas que rondavam em sua mente que sua cabeça já doía. Precisava dormir, mas naquele momento era impossível.
Prometeu a si mesma que não descansará enquanto não tivesse notícias de Lena.
— Caitlin, você pode fazer um pouco de chá para mim também? – Maggie perguntou, e Caitlin confirmou rapidamente. Kara sabia que isso estava sendo um calmante para irmã, já que passou a madrugada toda envolvida em esquentar a água. Maggie esperou até que Caitlin se distanciasse, então virou Kara de costas e chamou Cat para que se aproximasse.
— Estão achando realmente que Lena foi sequestrada pelos bandidos que mataram a senhora Luthor e o senhor Luthor – Maggie cochichou, e Cat rapidamente a corrigiu.
— Quase mataram o senhor Luthor, ele ainda, por incrível que pareça, está respirando – murmurou reflexiva, levando um tapa de Maggie por tê-la interrompido.
— Eu não sei, estou achando isso muito estranho – respirou fundo, checando por cima do ombro de Kara se Caitlin ainda estava entretida com o chá – O meu primo trabalha com a polícia, e disseram que não parece ter roubado nada. A caixa de jóias da senhora Luthor estava intacta, e nada foi revirado a não ser o quarto de Lena. Ele disse que o quarto está destruído, e é só lá. Ah, quer dizer, e o sótão onde acharam o senhor Luthor, eles acharam um cofre, mas não tinham como abrir por culpa da senha.
— Deve ser documentos velhos ou dinheiro, aquele velho mereceu o que teve – Cat disse emburrada, ganhando dessa vez um tapa de Kara.
— Não diga isso – murmurou, então pensou no cofre – Acha que os bandidos queriam abrir?
— Eu não sei, a polícia também não – deu de ombros – Talvez arrombem, ou...
— Arrombem o quê? – Caitlin chegou com uma xícara, olhando curiosa para a pequena rodinha que as três haviam formado.
Cat limpou a garganta e fingiu prestar atenção no relógio de pulso, enquanto Kara negava com a cabeça.
— Não é nada – tentou pensar rápido – Não acha que a mamãe está demorando?
Caitlin pareceu esquecer-se do assunto.
— Acho, eu vou acordar as gêmeas e Samantha, já volto.
Maggie respirou fundo, bebendo do chá que ganhara.
— O que acham de irmos ver a casa quando escurecer? – Maggie perguntou, e como um só, Cat e Kara negaram com a cabeça.
— Ficou maluca, Maggie?! – a loira gritou, tendo a boca tampada rapidamente por Maggie.
— Nós precisamos encontrá-la – insistiu, mas Kara continuou negando. Por mais que quisesse encontrar Lena, sabia que os olhos curiosos desse vilarejo estavam todos voltados aquela mansão, não seria nada fácil entrar sem serem vistas. Tentou explicar isso à Maggie, e sentiu-se aliviada quando a morena concordou.
— Você está certa, então iremos amanhã – puxou Cat pelo ombro – Eu vou buscar Alex, quero saber se ela sabe de alguma coisa nova.
— Eu vou ficar com a Kaa – Cat se prontificou, e Kara agradeceu.
Maggie acenou com a cabeça, apontando para o relógio e dizendo que antes das oito horas ela voltaria.
◆ ▬▬▬▬▬ ❴✪❵ ▬▬▬▬▬ ◆
Anoiteceu mais rápido do que Kara imaginava. Alex voltou com Maggie pela manhã, e diferente de todas as visitas que já fizeram à casa de Kara, a garota não tinha um sorriso no rosto. Estava tão abatida quanto as outras amigas, trocavam algumas palavras, suspiros, e Kara até tentava tossir para disfarçar o choro. Não estava sendo fácil encarar que faria vinte quatro horas que Lena havia desaparecido, ontem mesmo estavam todas juntas, rindo na clareira logo depois do almoço de aniversário da maior. Lena pegou algumas folhas secas e colocou arrumadas no bolso da camisa de Kara, e depois correram atrás de um coelho, com uma Alex desesperada atrás gritando para que não machucassem o animal.
Kara daria tudo para voltar no tempo. Queria ver Lena, queria modificar o que aconteceu e levado sua melhor amiga embora. Eram mais que amigas, é claro, e estavam apaixonadas. Kara já sentia tanta falta de Lena, que seus olhos transbordavam sem parar.
A mãe da garota voltou no horário do almoço, não trazendo nenhuma notícia. As amigas foram embora logo depois da sopa que foi feita no jantar, e Kara agora estava deitada no sofá olhando para o teto e acariciando o seu colar.
— Filha – Eliza o chamou, segurando uma grande travessa de sopa, bem embrulhada e com um laço amarrado em cima – Leve isto ao nosso vizinho Justin, ele nos deu leite de graça essa semana, e eu queria agradecê-lo com a sopa.
Kara queria dizer não, mas não adiantaria.
— Você não pode pedir a Caitlin ou a Samantha?
Eliza negou.
— Elas estão ajudando as pequenas, eu não permitiria que saíssem agora – empurrou a travessa para ela – Vá e volte logo.
Kara tentou não bufar, mas sentia-se extremamente frustrada e triste. A indiferença da mãe sobre o desaparecimento de Lena estava irritando Kara de uma forma inimaginável. Pegou a travessa de uma vez e se adiantou até a porta, queria entregar a sopa para o fazendeiro e poder voltar para casa.
A fazenda não era longe, era só uma pequena caminhada até avistar as cercas m*l feitas da fazenda do senhor Justin. Era bem pequena, ele criava gado e algumas cabras, até mesmo galinhas para a venda de ovos. Kara passou por debaixo da cerca como sempre fazia, assim não teria que dar toda a volta e entrar pelo local certo.
A noite de inverno estava fria, a garota de olhos azuis acariciou seus braços sentindo a sopa queimar em seus dedos, os olhos assustados procurando qualquer movimento estranho em volta dela. Os vaga-lumes eram vistos em volta das poucas árvores que ficavam em meio ao pasto, e a garota apressou-se para chegar finalmente na pequena casa onde o senhor Justin morava. Era bem pequena comparada aonde os bichos viviam, e Kara sempre achou o velho Justin muito miserável. Foi sim graças ao velho que Kara comprou os colares para ela e Lena, mas teve que trabalhar muito cuidando dos animais, e estava ganhando muito pouco.
Bateu na porta rapidamente, tremendo de frio e soltando ar pela boca, vendo aquela fumaça de frio saindo. A porta foi aberta num solavanco alto, fazendo Kara se assustar ao que o homem colocou apenas um olho para espiar quem estava ali. Viu que em uma das mãos ele segurava uma espingarda, e parecia tremer da cabeça aos pés.
— Era você quem está fazendo esse barulho no meu celeiro?! – gritou alto, erguendo a espingarda. Kara negou freneticamente com a cabeça, tropeçando ao tentar sair da direção em que o homem apontava.
— E-eu só vim trazer sopa... A minha mãe... – se engasgou com as palavras, e os olhos frios do fazendeiro observaram o objeto na mão da menor. Fechou a porta com força, e Kara não conseguia entender até que o barulho das trincas foi ouvido, e o homem abriu a porta de uma vez.
— Tem algo assustando os meus animais, deve ser um lobo – disse puxando bruscamente a travessa das mãos de Kara – Quer uma espingarda pra voltar pra casa, garota?!
Kara arregalou os olhos.
— Nã-não, obrigado – disse gaguejando, dando agora passos definitivos para trás – Eu preciso ir.
O homem já cheirava a sopa e nem sequer deu atenção a garota, batendo a porta com força novamente e deixando Kara no escuro, apenas com a luz da lua e dos vaga-lumes.
Kara tremeu em lembrar sobre a menção dos lobos, apressando-se para voltar até a cerca e ir para sua casa aquecida. A garota parou em um estalo, sentiu uma movimentação ao seu lado. Apertou os braços e olhou assustada para os lados, o coração batendo com força dentro do peito e a testa – mesmo com o frio – suando febrilmente em nervosismo.
Convenceu-se de que não era exatamente nada. Voltou a andar ouvindo a grama molhada entregar seus passos, e um mugido de outro animal a assustou. Pareceu vir do celeiro, como se algo tivesse acabado de atacar uma vaca. Kara estava estática, olhando para o celeiro que estava a bons metros de distância. Seriam os lobos? Mas como teriam entrado no celeiro? Kara sabia que o senhor Justin trancava tudo muito bem.
Ao se virar topou com um corpo frio e molhado, um grito desesperado escapou de sua garganta e rapidamente foi jogada na grama fria, se debatendo assustada e sentindo o cheiro de ferrugem. Algo pingou em seu rosto, e conseguiu enxergar com dificuldade mãos ensanguentadas segurando firmes em seus ombros, finalmente levantando o olhar apavorada para quem quer que estivesse à prendendo.
Estava escuro demais para enxergar o rosto da pessoa, e Kara se debatia, assustada demais até mesmo para pedir ajuda.
Sangue pingava em seu rosto por conta dos movimentos assustados. A pessoa acima dele estava sangrando? O pavor dominava todo seu corpo.
Ela pensou em gritar, mas o ser abaixou até sua bochecha, fazendo com que Kara ficasse totalmente paralisada de medo, e então aquilo lambeu a gota de sangue que pingou em seu rosto. Um disparo foi ouvido em meio aquele breu, o corpo em cima de Kara rapidamente ergueu-se, e por um momento a garota jurou ter visto cabelos negros. Com um solavanco Kara estava liberta dos apertos, o ser sumiu de cima de seu corpo, mas o sangue ainda estava espalhado por toda parte.
Kara estava apavorada! Aqueles cabelos eram de Lena?! Ela estava ficando louca?!
A garota levantou-se cambaleante, procurando Lena em meio àquela escuridão, mas não encontrou absolutamente nada. Então correu, disparou em passos e tropeços de volta à cerca, o peito doendo implorando por ar enquanto os pés escorregando e as mãos tremiam ao sentir o cheiro de sangue em seu próprio corpo. Ao chegar na cerca de madeira Kara vomitou, sentindo o estômago doer e seu corpo implorar por socorro.
Juntou as últimas forças e conseguiu pular a cerca, correndo de volta para casa e empurrando a porta em um só impulso, caindo de joelhos pelo desespero.
A primeira reação de Kara foi correr até o quarto da mãe, batendo na porta freneticamente nem sequer enxergando a madeira em sua frente.
Quem abriu a porta foi Liv.
— Kaa, eu não enxergo nada, é você? – perguntou confusa, tocando Kara com as mãozinhas pequenas. Kara teve um momento de lucidez, ouvindo a mãe chamá-la em confusão.
— O que está acontecendo? Qual o problema? – Eliza já riscando um palito de fósforo para acender a vela ao lado de sua cama, fazendo com que Kara negasse com a cabeça diversas vezes.
— Nada! – disse de repente, por que cargas d'água estava mentindo? – E-eu só estava assustada... Está escuro... O fazendeiro...
— Ele pegou a sopa? – a mãe levantou da cama com a vela em mãos, e Kara virou-se de costas para que não visse o sangue. Começou a caminhar até a cozinha.
— Pe-pegou – fechou os olhos tentando se concentrar – Eu vou me deitar.
Kara ouviu a mãe bufar em mandar a filha mais nova ir se deitar. Entrou de mansinho no quarto, ainda apavorada e confusa com tudo que havia acontecido. Apressou-se em tirar a camisa ensanguentada, escondendo debaixo de sua cama e correndo até os cobertores quentinhos. Por mais que quisesse manter silêncio e desejar que a mãe ou as irmãs não desconfiassem de nada, Kara não pode segurar o choro, abafando os soluços no travesseiro e desejando que tudo aquilo fosse um pesadelo.
◆ ▬▬▬▬▬ ❴✪❵ ▬▬▬▬▬ ◆
Alguém batia com força na porta, Kara insistiu em abrir os olhos inchados vendo as irmãs olharem sonolentas e confusas como ela. Vestiu uma camisa rapidamente, limpando olhando para as mãos a procura do sangue da noite passada. Eliza já gritava um estridente 'já estou indo' enquanto passava pelo quarto das filhas e amarrava seu robe apressadamente.
— Mas o que está acon... Jesus cristo! – a mulher gritou em desespero, fazendo com que Kara e suas irmãs levantarem e rapidamente e corressem até a porta de entrada. O sol estava prestes a raiar, e o vilarejo m*l deveria estar acordado há essa hora, o que deixava a garota mais curiosa ao se apoiar no ombro da mãe para enxergar quem estava na porta.
E Kara precisou tapar os lábios para não gritar.
— Deus! – foi Samantha quem se pronunciou, enquanto Caitlin tampava os olhos das gêmeas e as mandava desesperadamente para o quarto. Kara ainda estava estática, seus dedos trêmulos saíram dos lábios por um segundo, não acreditando que aquilo era realmente real.
— É-é o fazendeiro Justin? – Kara perguntou piscando com dificuldade, enquanto a mãe tremia e levava as mãos aos olhos para tapá-los daquela imagem horrível.
O homem estava virado de barriga para baixo, com as vestes completamente rasgadas e com sangue espalhado por todo corpo, sujo de terra e grama como se tivesse se arrastado de sua fazenda até a casa das Danvers. Parecia não respirar, e era isso o que mais assustava Kara, e a quantidade de sangue deixava seu estômago como na noite passada. Ela iria passar m*l novamente, aquilo tudo era demais. Perder Lena, e agora um homem morto aparece na porta de sua casa ao amanhecer?
O pânico agora parecia se espalhar. As mulheres já fofocavam umas com as outras pelas janelas, enquanto os homens ajudavam o fazendeiro ensanguentado até a casa do médico.
Maggie encarou Kara, como se soubesse que seus olhos aflitos escondiam algo.
— Vamos entrar, já basta tudo que aconteceu ontem, e agora mais isso em frente à minha casa – Eliza bufou, exausta. Levou as garotas para dentro de casa e Kara continuou olhando desconfortavelmente para todo aquele sangue em sua porta. As pessoas seguiram junto ao grupo de homens que levaram o senhor Justin até o médico, então tudo voltou ao silêncio.
Alex limpou a garganta, também olhando para a poça de sangue. Cat voltou correndo, parecia exausta e provavelmente teve de despistar seu pai para voltar as suas amigas.
— O que aconteceu, Kara? – Maggie perguntou de repente. Kara ficou tensa, olhando para os lados e decidindo falar com seus amigos em particular.
— Nós podemos ir até a clareira? Eu vou só pegar os meus sapatos – disse em um fio de voz, estava tão cansada por conta dos acontecimentos que desejava apenas desaparecer. Mas antes encontraria Lena, então poderiam desaparecer desse vilarejo juntas.
O pensamento fez Kara criar ainda mais esperanças, ela queria a morena de volta mais do que tudo.
— Onde pensa que vai? Tem um assassino solto e você quer sair de casa? Já não basta ter matado toda a família Luthor e quase o fazendeiro Justin. Nenhum de minhas filhas será a próxima vítima!
O sangue de Kara pareceu ferver.
— Lena não está morta! – vociferou para sua mãe, o rosto tenso e os punhos fechados – Não atreva-se à dizer isso nunca mais!
Todos ficaram em silêncio, Eliza parecia assustada com a atitude da filha, mas antes que dissesse alguma coisa a menor se adiantou.
— Eu não voltarei tarde – Kara disse, mais calma – Desculpe por ter gritado.
Então seguiu com as amigas para a clareira.
◆ ▬▬▬▬▬ ❴✪❵ ▬▬▬▬▬ ◆
— Odeio o inverno – Cat tentou puxar assunto, esquentando suas mãos com o ar quente de sua boca. Kara sentia-se arrependida por não ter pego um casaco mais grosso, estava realmente muito frio. Será que Lena tinha um casaco? Um cobertor? A mais nova estava se remoendo com tantas perguntas.
— Eu também – Alex murmurou, chutando galhos secos próximo a entrada da floresta. A clareira ficava ao lado contrário do lago, e por conta do inverno, não havia muita vegetação. As garotas sentaram-se nos troncos de uma grande árvore onde, quando eram pequenas, assinaram seus nomes e escreveram coisas bobas.
—Você está estranha, Kara – Maggie disse algo pela primeira vez desde que saíram da casa das Danvers – Eu não sei, você parece aflita e tem sangue seco em seu pescoço. Foi só eu que percebi isso?
Cat empurrou o rosto de Kara para o lado, recebendo um leve tapa de Kara para que a soltasse.
— Você se machucou? – perguntou a loira, com preocupação na voz.
Kara debateu internamente se deveria contar o que acontecera com ela na madrugada. Um m*l estar dominou todo seu corpo, se tivesse avisado sua mãe sobre a pessoa que a atacou ela poderia ter chamado ajuda e o senhor Justin não estaria agora nessas condições.
Era tudo sua culpa.
Lembrou-se também dos cabelos, do sangue manchando suas roupas e do peso em cima de seu corpo, à prendendo como um verdadeiro animal. Era uma mulher, uma mulher de cabelos negros. Uma mulher que estranhamente lambeu o sangue de sua bochecha. E por mais que tentasse pensar que fosse outra pessoa, todos seus sentidos apontavam para Lena.
Não fazia sentido algum, mas ela continuou a pensar sobre isso.
— Kara! – Maggie estalou os dedos em sua frente - Eu estou te perguntando.
Kara chacoalhou a cabeça. Ela resolveu ficar quieta e deixar que Alex falasse.
— Acho que esse ou esses assassinos estão atrás só das pessoas mais ricas do vilarejo. Não que tenham muitas – Alex deu de ombros – Quero dizer, primeiro a família de Lena, eles são muito ricos, e o fazendeiro Justin era tão miserável, que provavelmente tinha uma mina de ouro embaixo do colchão.
As garotas começaram a debater diversos motivos e ligações entre a família Luthor e o fazendeiro. Nenhuma delas parecia fazer algum sentido.
Então, Kara lembrou-se das palavras da madame Prescott em sua casa em uma das noites de chá e fofocas com sua mãe. Ela disse as palavras 'A menina Lena não está destinada à isso'
'Destinado à quê?' Kara pensava, então lembrou-se da quantidade de sangue que manchou sua camisa, e do estado em que se encontrava o senhor Justin. Kara estremeceu-se ao lembrar o restante da conversa, onde madame Prescott disse algo que agora parecia clarear sua mente.
'o sangue que corre naquelas veias é amaldiçoado. O demônio encarregou-se de cuidar de toda aquela família'
Demônio, a garota de olhos azuis rapidamente lembrou do fazendeiro gritando algo sobre o demônio. Sangue amaldiçoado.
Os cabelos que Kara havia visto, as palavras da madame Prescott, o sangue e o senhor Justin sendo atacado. O dia no sótão. Os olhos negros. Lena não parecer Lena.
Kara levou as mãos até os lábios, paralisada pela conclusão que havia chegado. Ignorava o falatório em sua volta e apertava a cabeça em torno dos braços.
Era Lena? E Lena era um... demônio?! Kara riria dessa bobagem há dois dias atrás, mas seu coração e mente estavam confusos demais para achar graça em qualquer coisa mínima que fosse.
— Kara? – Alex tocou seu ombro em preocupação, e Kara levantou o rosto rapidamente, buscando palavras para contar o que acabara de descobrir.
— Lena é um demônio – disse tudo de uma vez, fazendo com que Cat piscasse confusa e soltasse um riso nervoso logo depois.
— Não é hora para brincadeirinhas – Maggie murmurou, levantando-se do tronco da árvore e olhando para o céu.
— Eu não estou com brincadeirinhas – Kara disse com os dentes trincados – Eu a vi... E-eu acho, eu cabelos negros e...
— Como assim viu? – Cat aproximou-se mais, e Kara mordeu o polegar antes de dizer. Estava nervosa com a reação de suas amigas.
— Eu não sei direito, eu levei uma sopa ao senhor Justin e ele me disse que tinham lobos rondando por ali, eu corri para a cerca assustada, e alguma coisa me atacou. Estava escuro, eu estava apavorada, e o ser que me atacou sujou toda minha camisa e meu pescoço de sangue. Por isso o sangue seco em minha pele. Eu deveria ter avisado minha mãe sobre o ataque, talvez o senhor Justin estivesse bem... E os cabelos... eram de Lena, eu sei que eram, ela é um demônio...
Kara resolveu não dar detalhes sobre a tarde no sótão ou a lambida em seu rosto.
— Hey! Calma! – Alex tentou tranquilizar Kara, sem sucesso. A garota já chorava tentando tapar o rosto. As bochechas quentes e vermelhas sendo molhadas pelas lágrimas insistentes – Fique calma, Kaa.
— Você está perturbada por conta de tudo o que está acontecendo – Maggie disse baixo – Não existe demônios, Kaa. E eu não faço ideia do que te atacou ontem, mas como você mesmo disse, a única coisa que viu foi cabelos negros. Lena não é a única ser humana com cabelos negros grandes. Acho que sua mente precisa de um pouquinho de descanso, foram dias difíceis para todas nós.
Kara negava com a cabeça, soluçando.
— Vai ficar tudo bem, Kaa – Cat apoiou-se em seu ombro, os olhos azuis cristalinos também se enchendo de lágrimas pela amiga.
— Eu quero achar Lena e acabar com esse assassino que está andando por nosso vilarejo – Maggie fechou os pulsos – Eu não sei vocês, mas amanhã irei naquela mansão dos Luthor.
— Pra que Maggie? – Alex perguntou cansada, suspirando tristemente.
— Eu quero tentar achar alguma pista, eu não sei, só não irei ficar aqui sentada enquanto uma das minhas melhores amigas está desaparecida – disse confiante – Vocês irão comigo?
— Que pista você acha que podemos encontrar? A polícia mesmo já foi alertada. Quatro garotas não farão a menor diferença – Cat completou, bufando logo em seguida. Todas pareciam frustradas, mas Maggie ainda estava otimista.
— Eu irei, e se quiserem podem me acompanhar – respirou fundo – Amanhã à noite nós olharemos toda a casa. Juro por Deus que encontraremos Lena.
E Maggie jamais suspeitaria do poder das próprias palavras.
CONTINUA...