CAPÍTULO 06

1786 Palavras
♡SERENA ♡ Passei para a última marcha, e só diminuí meu pé no acelerador quando vi a placa avisando que faltava 55 km para chegar na rota 66. Relaxei no banco, soltando a respiração que nem imaginava estar segurando até agora. Eu podia sentir o banco do carro encharcado de sangue, mas não iria correr o risco de parar e ser pega por algum envolvido. Afinal, ao que parece, todos nessa maldita cidade são complôs do maluco que uiva para o nada. Pela primeira vez olhei para além do volante e para-brisa, percebendo que o carro estava ficando sem gasolina. Esse era um carro de luxo na época, mas conhecido por gastar o dobro de um econômico. Se estiver fazendo 6km/l como já ouvi falar na internet isso indicava que o carro entraria na reserva muito antes de eu alcançá-la. Soquei o volante com raiva, eu não podia parar. Não aqui, pelo menos a mercearia! Me lembrei. Ela era no início da cidade, e a garota de lá, Ellen. Isso! Ela parecia preocupada em me ajudar. Se estivesse com o meu celular, eu poderia pedir sua ajuda. Mas sem ele, teria de escolher entre ir direto para a rota 66 e acabar parada no meioda estrada ou colocar gasolina naquela mercearia e seguir viagem até uma delegacia longe daqui. Então escolhi a segunda opção, parando em frente à bomba de combustível quando o marcador do carro estava acesso ao invés de apenas piscando. Ótimo, eu não teria chegado nem à estrada se isso era um aviso. Abri o porta-luvas em busca de algo, já que a minha carteira e celular tinha ficado naquela trilha. E convenhamos, isso não é um filme de terror, eu jamais colocaria os pés lá de novo. Se as minhas coisas estava lá, continuariam lá. Eu já assisti filmes demais para saber, que quando alguém volta sempre morre e não acha o que queria. Por fim, havia uma nota de 50 reais no fundo do porta-malas junto com um maço de cigarro amassado. Peguei a nota e corri em direção ao caixa, Ellen arregalou os olhos quando me viu entrar. — Por favor, só coloque isso logo pedi. Ellen olhou o carro, e houve a nítida percepção que ela deveria conhecer o dono. — Por favor, eu só preciso sair daqui pedi novamente, temendo que ela chamasse o desgraçado que me sequestrou. A garota asiática olhou para mim, e então novamente para o carro com visível dúvida sobre o que deveria fazer. — Por favor, Ellen me ajude, só essa vez e nunca mais me verá na sua frente supliquei, colocando a nota sobre a mão dela. — Eu só preciso voltar pra minha casa, a minha vida antes de tudo isso. Ela passou a mão pelo rosto, parecendo realmente preocupada com tudo isso. Por fim respirou fundo, enfiou a nota no caixa e colocou o código da bomba para liberar. — Tudo bem, mas você não me conhece e nunca fiz isso, entendeu? ela perguntou, e havia uma nota de medo no fundo da sua voz, Tudo bem confirmei. Estava saindo pela porta, quando ela gritou com uma voz realmente preocupada. — Hey, Serena me virei, temendo que ela tivesse mudado de ideia, sim. — Pegue todas as estradas secundárias, eles sabem que você vai pela principal avisou. E senti um calafrio passar por todo o meu corpo. Quem eram eles? Os sequestradores iniciais ou os seguintes? Minha cabeça parecia girar, obrigada, novamente disse. Ela deu de ombros, tensa as garotas ajudam garotas, certo? Seu sorriso não alcançou os olhos. Concordo de imediato, sim, nós ajudamos. Os segundos para encher aquele tanque pareciam eternos, o medo me fazia olhar de um lado a outro apreensiva, temendo que alguém fosse aparecer e me levar dali. Até mesmo o silêncio era perturbador, como se algo estivesse prestes a acontecer. Assim que a bomba terminou, entrei no carro e sai cantando pneu. Focada apenas em entrar na rota 66 e seguir para casa. E não vou mentir, a cada metro de distância que me colocava daquela maldita cidade o terror só parecia aumentar. Até que me visse entrando na primeira estrada secundária, com o aviso que Ellen havia me dado. A estrada era horrível, esburacada e cheia de curvas fechadas. Mas se ela havia dito para fazer, era porque sabia de algo que eu não. O ponteiro de gasolina começou a baixar, e me vi parando em um posto secundário para pedir informações. Quem sabe aqui, eu poderia ter contato. Procurei novamente no carro por algo mais do que um maço de cigarros amassado, mas só havia seis moedas de 50 centavos no carpete e uma embalagem de camisinha. — Só espero não achar uma camisinha usada, sério falei, com nojo. Por sorte não achei, então fui até o posto com o maço e as seis moedas, contabilizando três reais. — Oi, boa noite falei os homens olharam as minhas roupas, e pude notar a troca de olhar de um a outro, o que fez todo o pelo do meu corpo se arrepiar. — É ela, falou o segundo homem, com o rosto sujo de terra. — Quer saber, eu acho que já tenho tudo, mas obrigada disse recuando. Eles avançaram, mas já havia me jogado dentro do carro. Um deles puxou a maçaneta da porta, porém eu já havia trancado a trava por dentro. Liguei o carro e engatei a primeira, avançando. Um dos frentistas começou a rosnar do capô do carro, e isso me levou a outro nível de adrenalina. Sem pensar, engatei a ré e finquei o pé no acelerador. O carro cantou pneu e foi para trás com tudo, foi só quando escutei o barulho de algo ou melhor algum animal gemendo de dor que parei. Merda, eu atropelei um cachorro? Pelo jeito que o carro pulou, aquilo com certeza era algo embaixo do carro agora. Para o meu espanto, o barulho era de um dos frentistas que por azar ficou atrás do carro. Ele se levantou do chão de concreto com as marcas dos pneus na sua blusa e calça como se não tivesse acontecido nada. O barulho dos seus ossos partidos voltando rapidamente ao lugar, seu braço que estava virado para um lado de forma tão estranha voltou ao natural sem qualquer esforço, como se ele não tivesse sido atropelado segundos atrás. Engatei a primeira novamente, e virei o volante em direção à pista. Sem pensar apenas avancei, tremendo enquanto passava a segunda marcha. Foda-se a suspensão do carro, um homem acabou de se levantar como se nada tivesse acontecido. Andei por mais algum tempo, até que houvesse outra passagem. Uma parada de caminheiros, ótimo de manhã pediria uma ficha a algum trabalhador, e pediria ajuda a minha amiga Valery. Eu podia sentir meus olhos pesados, já fazia algum tempo que não dormia direito. Se eu parasse em algum lugar iluminado poderia descansar. Então fiz, parando no início o ponteiro de gasolina estava ficando perto da reserva, o que indicava que agora realmente não era hora de pegar estrada. Pelo menos de manhã poderia pedir ajuda, de noite as pessoas se recusariam achando que é uma emboscada ou algo assim. Desliguei o carro e reclinei o banco, talvez descansar algumas horas embaixo dessa luz ajudasse. Fechei os olhos e deixei meu corpo descansar um pouco, percebendo só agora o quanto o havia levado além do limite. Mesmo medicada, completamente machucada e exausta. Acordei com o barulho de ferro sendo torcido, e pulei para o banco do passageiro perplexa. A porta do motorista havia sido retirada, ou melhor, arrancada. Minha perna doeu com o movimento, e gritei de dor. Meu tornozelo estava inchado sob a tala e a outra perna parecia do mesmo jeito. Mas isso não foi o que me chamou mais a atenção, e sim um monstro que bufava do lado de fora. Uma fera, aquela mesma fera da floresta. Com olhos negros intensos da cor da noite, observando-me com visível ódio no olhar. Ele salivava, rosnando mas que p***a falei, sentindo meu coração bater no peito. O enorme lobo tentou avançar, mas o carro era pequeno demais para comportá-lo. Ainda assim, me vi recuar o máximo que dava para a porta do passageiro. Torcendo para que ele não conseguisse entrar. Olhei a trava do banco do motorista e o empurrei, o que fez o banco ser jogado para frente no volante. Colocando uma barreira entre mim e a fera. E ele não gostou nada disso, recuando e batendo contra o encosto. O barulho das garras e dentes dele dilacerando o acento me fez gritar alto. O que o fez ficar ainda mais selvagem para arrancar o banco do lugar. O barulho de ferro se partindo, deixou claro que o monstro iria conseguir arrancar. Então esperei, até que ele estivesse quase conseguindo e abri a porta do carro tentando fugir dali. Mas céus, aquilo estava pior do que imaginava. No momento em que coloquei meus pés para fora do carro, meu corpo cedeu à dor. Eu tinha abusado demais, e agora a conta estava lá. A dor alucinante, o inchaço nas pernas. Me arrastei para baixo do carro o lobo finalmente arrancou do banco, e percebeu que eu havia saído pela porta do passageiro. Ele foi até lá, cheirou o assento que estava e começou a correr em direção aos caminhões estacionados. Tampei minha boca e me encolhi contra o chão, torcendo para que o lobo achasse que fugi e apenas fosse embora. Fechei os olhos, orando para qualquer entidade que me ajudasse. Mas ninguém veio ao meu socorro, não enquanto sentia as patas daquele lobo voltando para o carro. Ele parou bem em frente à porta do passageiro e cheirou uma segunda vez, engoli a respiração em seco. E então o terror começou, aquele monstro selvagem começou a se chocar contra o carro. Uma visível tentativa de fazê-lo virar não, não, não gemi. O monstro começou a pegar distância para empurrar, mas o carro apenas pulava em suas molas e continuava no lugar. Respirei agora, percebendo que ele não conseguiria. Não sem mãos humanas para isso e como se pedisse pelo azar, aquele monstro de quatro patas começou a se transformar bem diante dos meus olhos. O barulho de ossos se partindo, as quatro patas dando lugar a dois pés humanos os pelos grossos de lobo se afinando e sumindo diante dos meus olhos. Sua pata se tornando um pé largo e achatado com cinco dedos. Engoli em seco, quando duas mãos apertando o fundo do carro, e vi o automóvel virar como se não pesasse nada. E lá estava, o rosto do meu sequestrador com olhos negros, brilhando com o mesmo ódio do lobo.
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