CAPÍTULO 04

1860 Palavras
♡SERENA ♡ Acordei com o barulho dos pássaros bicando uma janela, abri os olhos e fui inundada pela luz clara da janela invadindo o cômodo iluminado. Virei para o outro lado, passando a mão no rosto, permitindo que meus olhos se adaptassem à luz. E quando finalmente consegui enxergar, o que vi me surpreendeu. Estava deitada sob uma cama de casal, em um quarto branco demais e estéril. O cheiro de álcool e desinfetante me lembrava o quarto particular de um hospital, até mesmo a TV de 42 polegadas na parede em frente à cama deixava claro isso. Me sentei na cama, e senti algo grudado no braço. Olhei para baixo, percebendo que haviam duas bolsas do que parecia soro grudadas a mim. Arranquei o esparadrapo que estava em cima da agulha, puxando-a em seguida. Levantei, me apoiando na perna direita, meu pé esquerdo estava enfaixado e com uma tala até a altura da panturrilha. Comecei a usar a perna boa para me locomover, indo em direção à porta do quarto. A imagem de ontem à noite, as memórias de tudo que aconteceu. Os gritos, os tiros e principalmente o uivo perigosamente selvagem, aquela matilha de lobos. Neguei com a cabeça, abrindo a porta e saindo para o corredor. Eu realmente estava em algum tipo de hospital, as paredes de branco gelo e placas informando os quartos e alas deixavam claro isso. Uma enfermeira olhou para mim, em seguida virou o rosto para o outro lado em busca de alguém. Quando não encontrou o que queria, pegou o telefone do outro lado do balcão para avisar. Não iria pagar para ver, e comecei a correr para o lado contrário ao que ela estava. Sabe, não me leve a m*l, mas quando você vê o homem que se fingiu ser decente e agradável, a perseguindo na floresta com mais dois caras estranhos, você começa a desconfiar de tudo e todos à sua volta, por um motivo. Os passos no azulejo deixavam claro que eles estavam se aproximando, então entrei na primeira sala que achei ao virar o corredor seguinte. Foi só quando fechei a porta que percebi, era a sala de manutenção do hospital. Peguei a vassoura jogada na parede contrária à minha, decidida a lutar se precisasse. Os passos se aproximavam, e foi uma voz masculina que me deixou em alerta. — Eu tenho certeza que ela foi por aqui disse o homem. — O cheiro dela está bem forte nesse corredor. Engoli em seco, colocando a mão sobre a boca sentindo meu coração acelerar descompassado, fechei os olhos. Torcendo para que tudo isso fosse um maldito pesadelo, mas não era. — Encontrou algo? perguntou uma voz feminina. Os passos voltaram e pararam em frente à porta do quartinho. — O cheiro dela acaba aqui e foi como se soubessem, podia sentir os olhos deles sobre a porta. Me preparei para o que viesse, para o momento que a porta se abriria em um movimento rápido e clínico de certeza. O enfermeiro enfiou os braços para dentro do quartinho, tentando me conter. Mas já estava preparada para eles, e bati com o cabo da vassoura na primeira oportunidade. Ele recuou e bateu contra a parede do corredor, o que me deu a chance de correr dali. Hey, volte aqui! gritou a enfermeira, atrás da porta, f**a-se respondi, correndo. Não estava preocupada com a minha perna contida pela tala, não quando a minha vida dependia disso. Uma dor lenta começou a se projetar na sola do meu pé, mas eu não podia parar. Então, quando os enfermeiros que estavam na porta de saída me viram. Tive de recuar para entrar em outra ala, uma que não tinha enfermeiros ou seguranças vindo na minha direção. Essa parecia uma sala de recepção para visitantes, mas não tive tempo para dar uma segunda olhada. Comecei a correr, empurrando os bancos e cadeiras que estivesse na minha frente. Colocando o máximo de distância em tudo isso, fugindo de qualquer um que viesse atrás de mim. Foi quando aconteceu, puxei a porta e tentei sair. Mas havia alguém do outro lado esperando. Um homem de maxilar quadrado, boca estreita e barba por fazer. De olhos n***o profundo, uma cor que nunca havia visto. Lente, talvez? O cabelo em um castanho-claro dourado cortado curto que deixava ele com um ar quase militar com os seus prováveis 1,97 m de altura e músculos aparentes. O homem mantinha o rosto sério e imparcial, medindo-me de cima a baixo como se procurasse por algo a mais. Como se me faltasse algo, como se estivesse desarrumada demais. Bufei, é óbvio que não estou no meu melhor momento. Eu estava na p***a de um lugar desconhecido e completamente acabada depois de fugir de homens armados no meio da floresta. — Dá licença falei, dando um passo à frente. O homem se manteve parado no meio da porta, seu olhar finalmente alcançando meu rosto. — Não, respondeu, com uma voz ríspida. — Merda, murmurei olhando ao redor e percebendo uma janela grande o suficiente para passar recuei, indo em direção a ela. Mas uma mão áspera segurou o meu pulso, mantendo-me paralisada no lugar. — Mas, o quê... Pisquei. — Quem deixou você sair do quarto? rosnou o homem, com a voz baixa. — Me solta, p***a! respondi, chacoalhando o braço. Senti meu ombro latejar, o que tivessem me dado para a dor estava acabando de passar. — Olha como fala, mulher repreendeu, aproximando seu rosto do meu. Eu podia sentir sua respiração perto demais, seus lábios quase sob os meus. Ele estava tentando me intimidar com a proximidade, apertando meu pulso com força. Me solta! — pedi, seus olhos permaneceram duros, frios sobre mim. — Ela está aqui disse o primeiro guarda, parando na recepção. — Alfa, Ela passou rápido e o enfermeiro falou, parando também. — Alfa, por que eles pareciam estar chamando esse homem à minha frente de alfa? O que isso significava? E por que pareciam tão respeitosos, se ajoelhando diante dele como se fosse um rei? Seus olhos permaneceram nos meus. Até que a enfermeira apareceu, se ajoelhando também. — Alfa! Nos perdoe, ela, quem a deixou sair do quarto? perguntou, cortando a mulher. — Ela fugiu, só vimos quando já estava no corredor. — Não tinha ninguém vigiando? questionou, voltando seu olhar para mim. — Ela estava tomando morfina, não iria acordar cedo a mulher tentou explicar, sua voz vacilando. — Não importa mais, avise o Dr. Léo que a estou levando — informou, puxando me pelo braço machucado. Gritei de dor, sentindo os músculos arderem. Ele parou, fitando-me por alguns segundos antes de olhar o meu braço. — Peça que ele leve morfina e os medicamentos para casa ordenou. Obedeça, mulher ele indicou para a porta de saída, e o segui. Precisei piscar algumas vezes vendo o sol ardente, deveria ser pelo menos meio dia pelo visto. Só agora, percebendo que estava usando um avental hospitalar e que estava sem nada por baixo. — Onde está me levando? perguntei. — Para a minha casa. Pisquei, confusa.— Por quê? Ele parou na frente de um Jeep, parecendo irritado com as minhas perguntas. — Você vai morar comigo agora entre mandou, soltando meu braço e abrindo a porta do carro. Aproveitei o movimento dele, e tentei correr. Mas o desgraçado já estava me segurando pela cintura, me levantando do chão e me enfiando no banco do passageiro de forma brusca. Seu rosto a centímetro do meu, um rosnado gutural emanava da garganta, enquanto seus olhos brilhavam com raiva. — Da próxima vez que tentar fugir de mim, não serei tão cavalheiro falou lentamente, se aproximando. Mordi o lábio, ficando em silêncio, fechei os olhos, tremendo o que o homem desconhecido faria. E só os abri quando escutei o click seco do cinto de segurança sendo travado perto do meu quadril. Ficamos alguns segundos assim, e podia sentir seu olhar frio focado em minha boca. Engoli em seco, percebendo que ele se afastou bruscamente. O tal “Alfa” bateu a porta do carro com força, o que me fez piscar e perceber que estava esse tempo todo paralisada no banco com a mesma expressão de surpresa. Queria abrir a porta e correr no momento que ele entrasse no carro, mais o maldito moreno de olhos negros permanecia focado em mim sob o para-brisa enquanto dava a volta no carro para o banco do motorista. Assim que ele entrou e ligou o carro, foi impossível não me sentir pressionada em um ambiente tão pequeno com esse desconhecido. Um completo estranho, que havia me tirado daquele hospital e me queria em sua casa como se isso não significasse nada. Como se fosse algo cotidiano ele entrou na estrada, e meu pé começou a bater contra o assoalho do carro de forma rítmica. A única coisa que me mantinha sã no momento. — Olha, eu agradeço a sua ajuda... Mas não precisa me levar para a sua casa. — Ele permaneceu em silêncio, me ignorando. — Sério, obrigado por tudo, mas pode me deixar em alguma delegacia, eu peço para eles me levarem para casa. — O homem não disse nada respirei fundo. — Você nem me conhece, é loucura levar um estranho para casa. — Tentei convencê-lo a me liberar. — Você vai ficar na minha casa, quanto mais rápido entender isso, melhor será. — Foi sua única resposta. Pisquei, Isso é sequestro! — falei. — Eu tenho família, tenho alguém me esperando em casa! Ele apertou o volante, ao ponto dos seus dedos se tornarem brancos. Um rosnado gutural surgiu da sua garganta, e pude jurar que vi algo a nadar por baixo da sua pele. Algo dentro de mim congelou, e me vi paralisada no lugar. Torcendo para que tudo isso fosse loucura. Que fosse apenas algum tipo de pós-trauma. — Serena Vasconcelos, nascida no dia 20 de fevereiro de 1996. Vai fazer 23 anos semana que vem, alugou seu primeiro apartamento aos 19 e trabalha com designer digital em casa a dois informou. Arregalei os olhos, isso era informação demais. O que indicava que aquele homem havia me investigado. E ele continuou, sequer se importando com o meu medo visível agora. — Perdeu a mãe há três anos e o pai ano passado, o parente mais próximo é um notebook usado. É brasileira, se matriculou em duas academias no último ano. Ajuda em uma ONG de animais resgatados. Engoli em seco. — Seu cabelo é n***o natural, mais alguma coisa? Ele permaneceu com o rosto focado na estrada. Fiquei em silêncio, tremendo de medo com a ideia de quantas informações a mais que esse desconhecido havia adquirido. Ele pareceu satisfeito agora, e ligou o rádio do carro em uma estação de música eletrônica indie. Olhei para a trava de segurança da porta, percebendo que não tinha chances. Mesmo se conseguisse destravá-la, seria um perigo me jogar para fora do carro nessa velocidade. Foquei minha atenção para fora da janela do passageiro, olhando a estrada, eu precisava manter minha atenção nisso. Precisava aprender onde estava, para onde ia e só então encontrar uma maneira de fugir.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR