O verdadeiro anti-cristo

1446 Palavras
Enquanto o mundo se afogava em uma pandemia, o deus do tempo estava calmamente saboreando uma xícara de chá em uma bela mansão no topo das montanhas suíças, em sua companhia um belo rapaz ruivo brincava com uma delicada taça preenchida por um aromatizante vinho. - Então vovô, é verdade que tio Hades tem agora um filho? – Dionísio mantinha uma postura relaxada na cadeira, sua taça se enchendo sozinha de vinho – Eu esperava um primo de qualquer um dos meus tios, menos dele. A risada debochada do neto não alterou o humo de Cronos. Era um fato que de todos os seus filhos Hades era o mais comportado, a coisa mais absurda que ele fez foram as guerras santas, no entanto fora provocado por Athena primeiro. Mais importante que isso, precisava de Dionísio, então obviamente não iria discutir com ele. - Sim, é verdade – O deus do tempo falou colocando a xícara de suas mãos de volta na mesa – E precisamente por isso preciso de sua ajuda! O deus do vinho ergueu as sobrancelhas, parecendo levemente surpreso. Todos do Olimpo sabiam que ele, Dionísio, era um deus ocioso. Nem mesmo o briguento Ares se importava com ele o suficiente para caçar confusão, então o confuso deus do vinho não sabia como poderia ser útil ao seu avô ou muito menos ao seu tio Hades, ele não entendia nada de crianças. - Continue por favor vovô – Curioso e confuso Dionísio incentivou Cronos a falar. - Seu tio quer dar uma festa em comemoração ao filho, mas você sabe como ele é – Cronos sem nenhum pingo de vergonha em mentir começou a falar – Os subordinados dele também não são melhores! Nenhum deles sabe como fazer uma comemoração sem envolver coisas mortas ou cadáveres! - Isso era de se esperar – Respondeu o jovem deus – Eles são todos do submundo, mas se tio Hades quer dar uma festa para seu herdeiro é mais do que provável que a temática tenha que ser meio macabra. Ao menos, é claro, que estejamos falando de uma menina. - É um menino! – Cronos falou rapidamente – Mas não seria triste demais para uma criança ter uma festa assim? - Tem crianças que gostam – Devolveu Dionísio dando de ombros – Além do mais estamos falando do filho do tio Hades. - Sim, mas deixe-me dizer, seu tio sempre gostou de coisas vivas. No entanto tanto tempo no mundo dos mortos mexeu com a cabeça dele, agora ele não sabe nem como fazer uma festa! – Cronos fez questão de mostrar toda a sua consternação pela personalidade do filho no rosto, fazendo com que Dionísio soltasse um pesado suspiro. - E como eu posso ajudar com isso? – Perguntou o deus ruivo, já tendo uma leve ideia do que seu avô lhe pediria – Eu só entendo de vinho! - Você também é o deus das festas! – Falou entusiasmado o deus do tempo. - Errado! – Dionísio cortou o barato do avô – Eu sou o deus das farras! Festa para crianças, ainda mais um bebê! Eu não entendo nada. - Tem uma primeira vez para tudo meu querido neto – Os olhos brilhantes do velho deus levaram Dionísio a conclusão de que anos em isolamento, mexeram com a cabeça de seu avô. -  Vai ser divertido! Seu primo é uma fofura! - Ok! O que você tem em mente? Nada no mundo faria o deus do vinho descobrir o motivo dele ter aceitado aquela proposta maluca, mas uma coisa seu avô estava certo, no final de tudo foi bastante divertido. Enquanto Cronos discutia entusiasticamente com o deus do vinho a festa de Shun, no submundo o clima era mais depressivo do que o normal. - Isso significa que o jovem mestre é filho de vossa excelência? – Inquiria um confuso Hypnos depois de ouvir toda a história do que se passou entre Hades e Cronos – Mas como isso é possível? - Meu pai disse que o medalhão é a prova de que ele é meu filho – O deus dos mortos falou com o semblante sério, enquanto dava mamadeira para o filho – Deve ser algo como os documentos de adoção do mundo humano. Além do mais, eu não tive tempo nesses milhões de anos para ter um filho. - O ponto é – Interrompeu Thanatos – O garoto tem poderes divinos! Isso significa que ele é filho de algum deus, e se os pais biológicos resolverem virem buscar ele, o que faremos? - Meu pai disse que o garoto lhe fora entregue por Nêmesis – Hades falou se levantando do trono com a criança ainda em seu colo e a entregando para Pandora que esperava para levar a criança para tomar um cochilo – De qualquer maneira, seja lá quem forem os pais, eles não são dignos de assim serem chamados se deixaram uma criança. Agora que ele é meu filho eu desafio quem quer que for a tomá-lo de mim! Seja deus ou mortal. Ali estava o olhar somado a aura demoníaca de Hades. Era muito assustador, mesmos para os gêmeos já acostumados com isso. Uma coisa para todos no salão era certa, o inferno conhecera seu príncipe e ele talvez fosse ser o mais poderoso dos deuses. Com o fim da reunião entre seus conselheiros, o deus dos mortos seguiu até um ponto isolado de seu reino, um lugar em que a menos centelha de luz não chegava e aonde nem mesmo as almas do tártaro ousavam se aproximar. Ali não tinha nada, ali era o nada. Com o medalhão entregue por seu pai em mãos, Hades começou a trabalhar na quebra do selo. Seu objetivo era ver a dimensão dos poderes do filho e descobrir quem eram seus verdadeiros pais. Hades sempre fora estrategista e não gostava de fazer nada estando no escuro, por mais irônico que isso possa soar. Os poderes armazenados no medalhão eram muito fortes, mas não deixavam indícios de quem quer que fossem os pais de Shun. Hades explorou cada centímetro da relíquia, mas fora a força exorbitante não encontrou mais nada. Cheio de dúvidas, o deus do submundo se transportou diretamente para o quarto de seu peque o bebê. Ali, observando enquanto a pequena criatura, que encheu seu coração de ternura, dormia, Hades chegou a conclusão que realmente não se importava com a origem do garoto e mesmo que no futuro isso causasse problemas, nada deixaria acontecer com seu filho. - Filho – Hades testou a palavra nos lábios e ela lhe pareceu realmente doce. Um fino sorriso se desenhou em sua face séria. Com cuidado colocou o medalhão na criança, lhe deu um beijo e se retirou do quarto. O artefato que Cronos dera a Hades fora forjado a partir de dois fragmentos, um da armadura de Hades e outro era um pedaço do coração do próprio deus do tempo. Purificado nas águas do Letes, banhado no sangue de Zeus e moldado pelas mãos de Hefesto. Cada parte e detalhe do artefato tinha algo de divino. A deusa da vingança tinha pegado o medalhão milênios atrás com sua mãe a deusa da noite primordial. Ninguém sabia a razão de Nix ter tão poderosa arma consigo, mas uma coisa era certa, à medida que o tempo passasse e o portador do medalhão lhe usasse, não haveria deus ou mortal que pudesse fazer frente ao seu poder. Cronos é claro não sabia nada disso. Para ele o medalhão era apenas algo que a deusa da vingança lhe dera para ganhar seu favor lhe ajudando a mascarar a origem mortal do garoto. Nunca lhe passara pela mente que Shun sendo o receptáculo de Hades já portava por si só imenso poder ou que a permanência dele no inferno em uma forma tão indefesa quanto a de um bebê, aos poucos fortaleceria seu poder inato direto da fonte ou que o corpo da criança, criado para suportar poderes divinos, fosse absorver o poder do medalhão podendo causar um colapso no equilíbrio das forças que regiam o mundo. Nada de catastrófico se passava pela mente do senhor tempo, que apenas pensava na enorme festa que daria, usando o nome de Hades. Quanto ao próprio Hades, este nem se preocupou em imaginar se ter entregado um poder tão grande a uma criança poderia trazer alguma consequência. Ele apenas pensava na fofura do filho e junto a Pandora escolhia roupas de bebê para serem confeccionadas pelas ninfas. No final da história filho de peixe, peixinho é. Ninguém se preocupava com nada, e a pessoa no centro de tudo, dormia tranquilamente agarrado a um boneco de demônio presenteado por Minos.
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