Seja Corajosa

1796 Palavras
★ Lucy González ★ — Au! — resmunguei e levei a mão à testa, sentindo a dor aguda no local — É o que acontece quando se põe uma colher enorme de sorvete na boca. — Carisi ri de mim enquanto come seu sorvete — Não ria, i****a! — digo rindo — Meu cérebro congelou. — Tudo bem. Vou ajudá-la. — ele diz sujando sua colher de calda — Aqui! Ajudei. — passa a colher suja na minha testa — Ei! — resmungo passando minha colher suja na mão dele — Delícia. — ele diz rindo após lamber o dedo que eu sujei — Ha ha! Não tem graça, mocinho. — digo molhando o guardanapo na garrafa d'água e passando na testa — Na verdade, tem sim. Após um dia exaustivo de trabalho, não pude recusar o convite de Carisi para uma taça de sorvete na melhor sorveteria do quarteirão. Carisi fazia eu me sentir bem e eu não podia evitar sua companhia. Estávamos juntos no almoço, nos intervalos do cafézinho, após o expediente. Até éramos mandados juntos nas investigações. — Escuta, se lembra do dia em que eu quase perdi a cabeça? — ele pergunta me olhando e eu aceno com a cabeça concordando — Você disse que sabia que eu havia lido seu arquivo. — Quando eu cheguei no esquadrão, já sabia que todos vocês sabiam dos meus registros. Mas você se entregou quando não riu de uma piada que o Fin fez sobre adolescentes e seus daddys e depois deu um puxão de orelha nele. Somente alguém que soubesse do meu caso a fundo lembraria disso. Fin não sabe tudo, só por alto, então é normal ter alguns deslizes. — Me desculpe por isso. Olivia ficou brava quando peguei seu arquivo escondido. — No começo, eu pensei que não fosse conseguir olhar na sua cara. Mas depois eu percebi que, mesmo sabendo de tudo, não me olhava com pena e nem me protegia de nada. Eram só você, suas piadas fora de hora e eu. Sem passado. — ele respira fundo e estica seu braço por cima da mesa, tocando minha mão. Sinto um arrepio porque o toque me faz lembrar dos sonhos que tenho tido com ele e suas mãos ousadas — Você é o primeiro homem de fora que eu consigo interagir. Você e Fin, mas você, em especial. Eu não tenho medo quando me abraça, não tive medo quando acordei na sua cama. Por algum motivo, você faz eu me sentir viva de novo. E eu não me sinto assim desde os meus quinze anos. — Lucy... — ele tenta dizer algo, mas eu continuo — Eu vou ser eternamente grata por você. Você me fez perceber que eu ainda estou viva e que ainda posso tentar. Eu gosto de você, Sonny, mas eu não posso deixar que isso vá longe demais. — sua feição facial se fecha, mostrando sua confusão ao me ouvir — Ainda há muita coisa que não superei, muitos demônios que eu ainda não exorcisei. Não há um futuro comigo. Eu não sei se algum dia vou poder ter uma relação normal com beijos e sexo e... — me atrapalho com as palavras — Você ainda pode tentar. — Mas não posso arriscar a sua felicidade. — retomo a voz da conversa — Carisi, você é um homem tão incrível. Merece alguém normal. — Eu não quero alguém normal. Eu quero você. Você e todas as merdas que vierem. Estou pronto pra enfrentar isso. — ele diz exasperado — Não há futuro comigo, Dominick. — digo firme sentindo meus olhos arderem em lágrimas — Você disse que gosta de mim. — Gosto. E é por isso que não posso jogar você na merda toda que há na minha vida. — aperto sua mão entre as minhas e fecho os olhos, porque não consigo lidar com seu olhar agora. Respiro fundo e beijo sua mão, para logo depois abrir os olhos — Obrigada. Ignorando seu olhar e seu pedido para que eu fique, eu me levanto deixando dinheiro na mesa e indo pra casa. Não consigo segurar as lágrimas durante todo o caminho. *** — Temos um caso. — Fin diz enquanto estou sentada digitando um e-mail — Garota drogada, encontrada na lata de lixo de um prédio. Vinte e poucos anos, latina. Os médicos estão fazendo os exames. — Alguma testemunha? — ouço Olivia perguntar e ergo o olhar vendo Carisi sentado em sua cadeira, girando uma caneta em sua mesa — O porteiro do prédio e uma babá que trabalha para uma família que mora lá. — Amanda diz — Ótimo. Amanda e eu vamos pro hospital, Carisi e González vão ver as testemunhas. Fin, você fica de base. — Olivia delega — Tenente! — chamo sua atenção — Não posso ficar na base hoje? Envia Fin com Carisi. — Sente-se m*l? — ela ergue uma das sobrancelhas — Não, mas... — ela me interrompe — Ótimo. Então você e Carisi vão falar com as testemunhas. O caso era difícil e estar ao lado do Carisi era ainda mais complicado. Eu só conseguia pensar na nossa conversa há dois dias atrás que o deixou mais sério e calado no ambiente de trabalho. Ele tem parecido bem pensativo. Após falar com as testemunhas, voltamos para a base, onde Fin tinha mais pistas e um DNA para analisarmos. Por sorte nossa, o DNA já estava registrado no sistema, o que faz com que procuremos por uma figurinha repetida. Novamente, Carisi e eu somos enviados juntos. — Leonardo MacRae? — Carisi pergunta quando esbarramos com o suspeito — Quem são vocês? — ele se assusta — Polícia de Nova York. — Carisi diz mostrando o distintivo e então ele sai correndo — Merda! — Eu vou dar a volta! — aviso quando Sonny corre atrás dele Corro até o carro e acelero pelas ruas, observando Sonny e o suspeito correndo feito dois malucos pela rua. Entro numa rua paralela, afim de pegar um atalho e cercar o cara. Consigo fazer exatamente o que planejo e paro o carro bruscamente na frente do suspeito, fazendo os pneus derraparem e o cara bater contra o carro. — Mãos pro alto! — grito saindo do carro e apontando minha arma pra ele — Eu não fiz nada! — ele grita de volta parando entre Sonny e eu — Então por que fugiu? — Sonny grita também apontando sua arma pra ele — Não vão me pegar. — Nós já te pegamos. Quando Carisi se aproxima dele para algemá-lo, ele puxa um canivete da cintura. Sonny segura sua mão com força, tentando impedir o ataque e eu o ataco por trás, aplicando o golpe gravata. Nós caímos no chão, ele por cima de mim, mas eu não afrouxo o golpe. Logo ele para de se debater e solta o canivete se rendendo. *** — Lucy e Carisi, verifiquem se o que ele diz sobre a gangue é verdade. — Olivia delega e eu bufo baixinho — Liv, eu, hã... Estou com o ombro bastante dolorido, acho que é pelo golpe de ontem. Amanda não pode ir no meu lugar? — Tudo bem. — Olivia diz me encarando — Amanda e Carisi vão checar a gangue. Fin vai verificar a vítima. Todos começam a sair da sala e, antes que eu possa sair, Liv manda que eu espere, feche a porta e me sente. Sinto o suor frio brotar na minha testa e faço o que ela manda. Me sento em uma das cadeiras de sua mesa, ficando de frente para ela. — O que tá acontecendo? — ela pergunta — Do que está falando? — Ontem, após a prisão do desgraçado, você e Fin fizeram uma competição de poli chinelos. Não sentiu dor ao erguer os braços. Carisi e você eram como unha e carne. Ganharam o apelido de Timão e Pumba. Você nunca n**a um pedido de ir pra rua e, de repente, você tem sempre alguma desculpa pra tentar evitar o Carisi. Se ele tá na base, você quer ir pra rua, se ele tá na rua você quer ficar na base. O que aconteceu entre vocês dois? Sinto como se eu estivesse exposta. É como se Olivia pudesse enxergar dentro da minha alma. Todas as minhas inseguranças, as minhas dores, minhas amarguras. Não consigo me controlar. Começo a chorar sem controle, lembrando do quão magoado Carisi pareceu após eu dizer tantas coisas duras para ele. — Ô, querida. — Olivia se levanta e vem até mim, me abraçando — Pode me contar tudo, ok? Eu estou aqui pra você. — diz beijando minha têmpora Juntas, caminhamos até o sofá de sua sala e nos sentamos lado a lado. Ela me acalma com abraços, carícias no cabelo e palavras de carinho. Respiro fundo secando o rosto e olhando pra ela. — Vocês se gostam tanto, meu amor. É tão notável. — ela diz mexendo em meu cabelo, ajeitando uma mexa rebelde que foge do r**o de cavalo — Eu não posso deixá-lo sofrer junto comigo. Ele não merece isso. — Acha que foi por acaso que vocês se encontraram, Lucy? — ela pergunta me olhando nos olhos — Carisi abriu seu coração, seus olhos. Ele libertou sua alma. Você chegou aqui introvertida e olhe como está agora. Noah ama você, Jesse adora você. Você frequenta nossas casas, faz parte da nossa família. Lucy, você evoluiu tanto em tão pouco tempo. — Ainda assim eu não posso passar esse fardo pra ele. — digo relutante — Ele quer tentar com você? — Quer. — Será que você não quer mesmo dividir esse fardo com ele ou está apenas com medo? — ela pergunta segurando minhas mãos — Já se fez essa pergunta? Seja corajosa, querida. Você consegue. Não precisa terminar isso sozinha. *** Aperto o sobretudo em meu corpo sentindo o frio e o nervosismo me arrepiarem. As pontas dos meus dedos estão frias dentro dos bolsos do casaco. Demoram alguns segundos para que eu ouça barulho na porta. Isso faz com que meu coração se aperte ainda mais. Quando a porta é aberta, eu vejo Carisi ainda usando parte de seu terno. Pelas minhas contas da hora em que largamos, ele deve ter chegado em casa há pouco tempo. — Oi. — digo sem jeito — Aconteceu alguma coisa? Vi você sair abalada da sala da Olivia. — apesar da surpresa, ele demonstra preocupação Eu fico em silêncio, por não saber como agir agora. Respiro fundo, sentindo seu olhar no meu e então solto os braços, lançando-me contra ele. Eu o abraço forte e sinto seus braços me apertarem também. — Me desculpe. — digo com a voz embargada de choro — Eu tenho medo. — Vamos superar isso juntos.
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