Não se apavore

1573 Palavras
★ Lucy González ★ Acordo num sobressalto após sentir meu corpo caindo. Ao abrir os olhos, noto que estou na cama e que foi apenas um sonho. Coço os olhos preguiçosamente e estico as pernas, sentindo o lençol e o edredom macio em meu corpo. Quando me mexo, um perfume masculino preenche meu olfato. Abro os olhos no susto. É o perfume do Sonny! Me sento na cama e percebo que estou em um quarto que nunca vi antes, sozinha. Ainda visto o vestido de Shaune. Olho para a janela larga e noto os raios solares tentando passar pela cortina blackout. O quarto está parcialmente escuro, a não ser pela porta semiaberta que deixa que a luz do cômodo ao lado entre. Chuto as cobertas e me ponho de pé ao notar que há um papel colado com durex na maçaneta. Caminho até a porta e puxo o papel, reconhecendo a letra de Carisi. “Por favor, não se assuste!” Passo pela porta e noto que o cômodo ao lado é o banheiro, que tem a porta aberta e a luz acesa. Mais cinco passos e estou na sala, onde vejo Carisi deitado no sofá, enrolado em uma manta e com um travesseiro sob a cabeça, deixando claro que passara a noite ali. Ele dorme tranquilamente, apesar de ser relativamente um pouco grande para o sofá. Olho o relógio no aparador da janela e vejo que são nove da manhã. Meu celular está em cima do balcão, ao lado do dele. Volto alguns passos e entro no banheiro, para minha higiene matinal. Ao me olhar no espelho, quase caio pra trás. A pouca maquiagem que passei está grudando meus cílios e meus cabelos estão uma bagunça sem fim. Lavo o rosto com o sabão líquido da pia e tiro todos os resíduos de maquiagem do mesmo, ficando de cara limpa e mais apresentável. Encontro uma escova de cabelo no armário, o que me ajuda a pôr os cabelos para trás e amarrá-los em um coque desajeitado. Coloco um pouco de pasta de dente na boca e bochecho com água, pra ter certeza que o bafo matinal não será um problema. Quando tenho certeza de que estou um pouco mais apresentável, volto para a sala e vejo que Carisi nem mesmo se mexeu. Penso em me sentar e ficar observando-o dormir, mas meu estômago me trai quando começa a dar sinais de fome. Tenho a ideia, então, de fazer o café da manhã. É o mínimo que posso fazer por ele. Dominick “Sonny” Carisi Jr. Eu sabia que Lucy não teria condições de voltar para casa dirigindo após uma garrafa de vinho e dois engradados de cerveja. O que eu não sabia, é que ela era do tipo que bebia e apagava. Talvez fosse o cansaço pelo trabalho extremo da semana. Tenho que confessar que quase entrei em pânico quando ela dormiu. Eu não sabia o que ia pensar quando acordasse. Sei que Lucy confia em mim e que temos uma amizade sólida e uma relação evoluída, mas sei também que ela luta contra as consequências do que sofreu até hoje. Liguei para minha irmã mais velha, Theresa. Ela saberia o que dizer pra me acalmar. Mas quando Theresa disse alô, eu congelei e então só disse que havia ligado pra saber como estava Mia, minha sobrinha. Após desligar a ligação, respirei fundo e mexi em Lucy, tendo certeza de que ela não acordaria. A peguei no colo devagar e caminhei até meu quarto, onde a coloquei em minha cama e a cobri de corpo inteiro. Peguei um dos travesseiros da cama e uma manta no closet, logo retornando para a sala, onde deitei no sofá e fiquei pensando na mulher deitada em minha cama. E se ela acordar, surtar e me der uma surra? Volto ao quarto tão silencioso quanto o James Bond e deixo um bilhete colado na porta. Apesar de também estar alto pela bebida, não consigo dormir de imediato. Procuro algum filme na TV, mas nada me atrai. Minha cabeça fica pensando na Lucy e em como ela vai reagir quando perceber que está na minha cama. Desligo a televisão e fecho os olhos, tentando dormir de alguma forma. Minha mente me trai trazendo lembranças da Lucy. O dia em que nos conhecemos, como ela foi corajosa em seu primeiro caso, como sorriu pra mim ontem. Nas primeiras duas vezes que saímos, eu precisei chamar Hobbs também — o que não foi nenhum sacrifício, o cara é legal —, mas depois daquele domingo em que maratonamos Game Of Thrones, nada foi do mesmo jeito. Eu conquistei sua confiança e ela me conquistou. Foi com esse tipo de pensamento que acabei pegando no sono. Senti cheiro de bacon frito, o que fez com que meu estômago desse sinal antes mesmo que meus olhos pudessem abrir. Uma vez de olhos abertos, a primeira coisa que vi foi o chão e minha mesinha de centro. Na mesinha, um papel estava colado com durex. Letra da Lucy logo abaixo da minha frase. “Por favor, não se assuste!” “Digo o mesmo! L.” Franzi o cenho e virei de barriga para cima, notando que a luz do dia já iluminava o apartamento. Me sentei no sofá e olhei pra cozinha, onde vi apenas a bancada com panquecas, ovos e bacon arrumados em dois pratos. Nada de Lucy. Me levantei coçando os olhos e ajeitando o short, notando se não estava indecente. Caminhei devagar e sonolento até o quarto e, antes mesmo de passar pela porta, esbarrei nela saindo do banheiro. — Au! — ela resmunga indo de encontro a parede — Ei, foi m*l. — digo rouco de sono e a olho — Bom dia, senhor. — ela sorri — Bom dia, senhorita. — sorrio de volta — O café está pronto há dez minutos. Pensei que fosse ter que acordá-lo com água. — Não seria capaz disso. — duvido — Seria sim. — ela diz brincalhona — Vou deixá-lo com seu ritual matinal. Dito isso, ela vai pra sala e eu entro no banheiro ainda assimilando tudo o que acontece. Ela não surtou. Deus, ela não surtou! Isso é ótimo, né? Após minha rotina matinal, volto para a sala e a encontro enchendo dois copos de suco de laranja. Sento-me em um dos bancos do balcão da cozinha, ficando de frente para ela. — Espero que esteja aos pés do melhor cozinheiro do mundo. — ela brica se referindo ao que cozinhou — Acho meio difícil, mas não custa provar. — brinco pegando o garfo e levando uma generosa quantidade de panqueca e ovos à boca — Uau! Está ótimo. — Não fale essas coisas só pra me agradar. — ela diz tomando um gole de suco — É sério. Está ótimo. — digo comendo mais um pouco — O bom cozinheiro aqui é você. Aliás, sendo tão gentil, sabendo cozinhar tão bem e sendo tão organizado, por que não está casado? Sua pergunta me pega desprevenido e, assim que termina de falar, Lucy parece se arrepender de imediato. Ela leva o garfo com comida até a boca e mastiga observando seu prato. — Estive muito tempo procurando a pessoa certa. — digo num tom leve, tentando descontrair — Não vai achá-la andando com pessoas como eu. — ela brinca, mas ainda não me olha — Parei de procurar depois que encontrei você. Eu sei, sei que parece uma shade, mas saiu sem pensar. Eu disse isso e fiquei observando-a. Ela pareceu surpresa, mas então um pequeno sorriso surgiu no canto de seus lábios enquanto ela mirava seu prato como se fosse a coisa mais importante do mundo. — Bom, já que o grande chef aprovou meu simples desjejum, vamos aproveitar. — ela muda de assunto Passado o desconforto momentâneo do café da manhã, ela me proibiu de lavar a louça, mas assim como ela fez ontem, eu roubei o pano de prato e comecei a secar o que ela lavava. Eu expliquei o que aconteceu após ela apagar e ela pediu desculpas por isso e por eu ter dormido no sofá. Depois foi minha vez de tentar convencê-la a ficar até o almoço, já que havia sobrado comida do nosso jantar de ontem. Ela resistiu, mas eu pressionei fazendo com que ela acabasse aceitando. Escolhi um short quadriculado e uma blusa cinza pra ela, que pôde tomar um banho e se sentir mais leve. Ela ficou engraçada com a minha roupa e levemente envergonhada. Coloquei seu vestido na lavadora com a promessa de que, até a hora de ir embora, estaria limpo e seco. Até a hora do almoço chegar, jogamos dominó e eu a venci três vezes. Depois, assistimos um filme que passava com a Jennifer Lopez e então almoçamos sentados no sofá enquanto ela se emocionava com as cenas finais do filme. Acabei rindo. Era um ótimo filme, preciso admitir. Depois de duas horas, mais ou menos, ela se trocou e disse que precisava ir pra casa. Eu a levei até seu carro e ela me agradeceu por tudo. Disse que estava muito feliz. Então ela entrou em seu carro com a promessa de que nos veríamos amanhã, no trabalho, e que marcaríamos para terminar de beber as cervejas que sobraram. Voltei para o meu apartamento feliz e com as imagens do dia se reprisando na minha mente. Eu gosto dela. Gosto muito dela.
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