Escola Pública de Nova York — Manhattan, 09:40am
— Sua vagabunda! Quem você pensa que é? — Eva Lincoln quebra o vidro da janela do Jaguar e puxa os cabelos loiros e longos de Megan Fitzgerald
— O que? Me solta!
— Mamãe! — o pequeno Prince Fitzgerald grita apavorado
— v***a! Imunda! Você destruiu a vida do meu filho! — Eva bate com o rosto de Megan contra o volante e então o sangue começa a sair de seu nariz, manchando a camisa branca de seda
— Pára! Pára com isso! — Megan pede afogada em dor e sangue
— Senhora! Senhora, por favor! — o guarda escolar pede
A briga é separada graças aos guardas e algumas mães pacíficas. Uma ambulância é chamada e chega com rapidez e eficiência. Um dos guardas disca o número no celular e liga para o esquadrão especial.
— Unidade de Vítimas Especiais. — a voz do detetive Fin Tutuola soa na ligação
— Aconteceu uma coisa. Uma agressão.
★ Lucy González ★
Eu jogo meu copo vazio de café no lixo e ouço as solas das minhas botinas baterem contra o piso brilhante e bem lustrado do hospital. Na minha cintura, o rádio, a pistola e o distintivo pesam. Na minha cabeça, os dados do novo caso pesam.
Segundo Megan Fitzgerald, seu filho Prince Fitzgerald foi abusado pelo colega de turma, Paul Lincoln. Ambos de dez anos. Enquanto caminho, passo pelo quarto onde Amanda está conversando com Prince e sigo adiante, parando na porta do quarto onde Olivia conversa com o pequeno Paul. Os exames dele deram positivo para agressões anais e clamídia. Isso me arrepia e me deixa gelada. Um menino de 10 anos com clamídia.
Dou dois toques na superfície da porta e ouço a voz de Benson lá de dentro, liberando a minha entrada. Respiro fundo e entro no quarto, fechando a porta atrás de mim. O garoto está usando uma roupa de hospital e me encara sem entender muito bem.
— Paul, essa é a Lucy.
— Ela é sua amiga? — ele pergunta baixinho
— Sim.
— Então ela pode ficar com a gente.
— Você é um menino incrível, Paul. — eu forço um sorriso, pois sei que apesar da situação, ele merece o melhor de mim
— Paul, você pode continuar de onde paramos? — Olivia o questiona
— Sim. A gente só estava lutando. Golpes que eu aprendi com o treinador.
— Você luta com seu treinador assim, Paul? Sem roupas?
O pequeno se cala e não fala mais. Eu respiro fundo e Olivia manda eu deixar que a mãe do pequeno entre no quarto para prepará-lo para ir para casa. Em silêncio, eu volto para o corredor do hospital onde, dessa vez, encontro Amanda e Olivia.
— O treinador de luta livre da escola se chama Anthony Stan. — Amanda diz ao desligar o telefone — Carisi tem o mandado pronto.
— Ótimo. Você e eu vamos ficar por aqui até que os dois tenham alta. — Liv diz para Amanda — González, pegue o Carisi e vá para a escola.
— Vai ser uma honra pegar esse filho da p**a. — resmungo dando meia volta
— Controle, Lucy! — Benson diz alto quando eu já começo a caminhar
— Talvez o Sonny consiga me segurar. — retruco
Entro no carro da polícia e dirijo em velocidade alta, no começo, mas logo passo para a velocidade regular da via. Se isso for pra minha ficha com multa de trânsito, meu salário todo acaba sem nem chegar na minha mão.
Paro rapidamente na porta da delegacia apenas para Carisi subir e sigo o GPS para a escola do menino. Sonny tenta puxar assunto, mas eu não dou respostas longas, deixando claro que estou bem estressada com tudo isso.
— Anthony Stan? — pergunto para o cara agarrado ao menino de 15 anos no tatame do ginásio
— E você, quem é? — ele responde sem nem me olhar
— Polícia de Nova York. — Carisi diz e mostra o distintivo, roubando a atenção dele
— Em que posso ajudar?
— Primeiramente, solte o menino. — digo rude — Depois põe as mãos para trás. — Carisi lhe mostra as algemas e o cara levanta
— Ei, não podem chegar aqui assim. — ele protesta e Carisi torce seu braço para trás, para algemá-lo
— Você tem o direito de permanecer calado. — Carisi diz quando o imobiliza
— Isso é um absurdo. — continua protestando
— Mais uma palavra e eu perco meu distintivo hoje. — rosno quando começamos a andar
— Mas... — ele tenta
— Tá bom. Você quem pediu. — ameaço ir pra cima dele, mas Carisi o põe de lado e pára entre nós, colocando a mão em meu ombro
— Pára. Não estraga tudo.
***
— Ele não abre o bico. — Carisi diz quando Olivia, Amanda e Fin chegam na delegacia
— Já me ofereci para fazê-lo falar. — murmuro enquanto encaro o cara pelo vidro da sala de interrogatório
— É e eu já disse que não vou deixar você entrar lá e fazer uma besteira. — Sonny diz de volta
— Deixa ela entrar. — Amanda diz e eu cruzo os braços, ainda de costas para o esquadrão
— Tô com a Amanda. — ouço Fin dizer — Deixa ela entrar. Sabemos que ela é boa em persuasão.
— Ok. — Olivia suspira e eu olho pra ela sem acreditar no que sai da sua boca — Sem agressão.
— Se eu me descontrolar, manda alguém pra me conter. — digo caminhando para entrar na sala
— E isso é possível? — Amanda pergunta
— Não sei. Nunca precisei ser contida antes.
Abro a porta e entro na sala, logo fechando a porta atrás de mim. Caminho até o cara e me sento de frente para ele, apoiando os braços na mesa.
— Desculpe a demora.
— Isso é um absurdo. É um equívoco.
— Nós temos o relato de meninos que dizem que você os massageava.
— Eu sou profissional.
— É um animal, isso sim! — rosno
— Eu não fiz nada com esses meninos.
— Nós achamos sua ficha criminal. Você cumpriu dez anos pelo estupro de um menino de doze anos.
— É errado eu querer recomeçar em outro lugar? Vocês dizem que a penitenciária deveria funcionar como uma reabilitação. Que nós devemos mudar lá dentro.
— Sinceramente? Não acredito nisso. Não na Unidade de Vítimas Especiais. — perco a paciência e me levanto — Já me cansei de você. Você tá encrencado.
— Eu não fiz nada disso. — ele insiste
Eu o seguro pelo colarinho e o jogo contra a parede, apertando seu pescoço e o deixando vermelho e sem ar. Ouço a porta ser aberta.
— Lucinda! — ouço a voz brava de Olivia
— Eu juro. — o cara diz sem ar — Não encosto em um menino desde 1998.
— Solta ele agora. — Olivia continua brava
Eu rosno frustrada e o solto, caminhando a passos pesados pra fora dali. Passo pelo escritório e ignoro todos que fazem piadas sobre meu jeito explosivo. Vou até a área de descanso, tiro uma moeda do bolso e coloco na máquina, logo pegando uma garrafa de água com gás.
Olivia surge atrás de mim com uma cara não muito amigável.
— Desculpa. — bufo e bebo a água quase toda num único gole
— Fin e Carisi estão indo conversar com os pais do Paul.
— Hum. — murmuro terminando de beber a água e jogando a garrafa no lixo
— Lucy, senta aqui, por favor. — Benson puxa uma cadeira e se senta à mesa. Eu fico quieta e me sento também — Eu não culpo você. Você é uma mulher incrível que já passou por muitas coisas. Estresse nesse trabalho é normal e, vira e mexe, nós temos que impedir que um de nós faça uma besteira. Aqui um policia o outro. Hoje sou eu ajudando você, amanhã é você me tirando do pescoço de algum suspeito.
— Tudo bem. Não tô chateada com você.
— Ótimo. E eu espero que você não fique chateada consigo mesmo. É normal.
Ela sorri pra mim e segura uma de minhas mãos, por cima da mesa. Eu sorrio de volta para ela e beijo sua mão.
— De volta ao trabalho? — ela pergunta
— De volta ao trabalho. — respondo
Dominick "Sonny" Carisi Jr.
— Paul, querido, pode se abrir pra mim. — me abaixo na frente do menino — Nós prendemos o seu treinador.
— Ele não fez nada comigo, Sonny.
— Preciso que me diga a verdade. Quem tocou em você, Paul?
— Não foi o treinador Stan. — ele insiste
— Quem foi? Me conta.
— Filho! — o padrasto do menino entra no quarto — Filho, querido. — ele o abraça
— Por favor, senhor Lincoln, peço que nos deixe a sós. — peço
— Nem mais uma palavra com o meu menino. Se ele disse que ninguém o tocou, então ninguém o tocou. Ele não é mentiroso.
— Nos deixem em paz. — Eva pede
— Vamos, Carisi. — Fin dá dois tapinhas em meu ombro
— Paul, se precisar de mim, eu estarei de plantão lá embaixo, tudo bem? — olho para o menino
— T-tá. — o menino responde e endurece sob o toque do padrasto
Sob meus protestos, Fin e eu vamos para a portaria do local e eu encosto no meu carro, do outro lado da rua. Estou com raiva.
— O que o outro menino disse pra Rollins? — pergunto ao Fin
— Que Paul não o tocou. Eles apenas lutavam, sem malícia e sem roupa.
— Não foi o treinador, Fin. Você viu como ele negou, apesar das mãos da Lucy estarem em seu pescoço.
— Tá insinuando que foi o padrasto?
— Tô.
— Se foi ele mesmo, ele não vai fazer nada com você aqui embaixo.
— Não posso ficar aqui pra sempre.
As horas se passam e eu permaneço sozinho dentro do carro. Aos poucos, o movimento de pessoas e carros diminui e então a madrugada mais fria chega. Sobrevivo com café, aquecedor e fastfood.
De manhã, já com dores nas costas, me assusto quando alguém bate na minha janela do passageiro. É Lucy. Desço o vidro.
— Bom dia, herói americano. — ela sorri e passa uma bandeja com dois copos de café pela janela
— Bom dia. — murmuro ao pegar a bandeja e destravo a porta do carro
— E então? Novidades? — ela abre a porta e senta no banco do carona
— Tudo silencioso, por enquanto. Eva e Paul saíram há meia hora e o pilantra há cinco minutos.
A melodia do toque da Lucy ecoa no carro e então ela atende a ligação. Ela diz palavras curtas e tem susto em seu semblante. Quando desliga a ligação, ela me olha chocada.
— Benson conseguiu falar com a Eva e a Eva a deixou falar com o menino. Foi ele. Foi o filho da p**a.
— Eu sabia! — rosno e bato a mão contra o volante
— Fin e Amanda estão indo no trabalho do cara prendê-lo e apreender seu laptop. O cara filmava e tirava fotos do garoto.
— Vamos pra delegacia. — coloco a bandeja com os cafés no banco de trás e coloco o cinto
— Você está cansado, Sonny.
— Estou bem. — ligo o carro
— Deixa eu dirigir, pelo menos.
— Vamos pegar esse desgraçado, Lucy. — dou partida com o carro
Chegando na delegacia, graças a um trânsito de meia hora, o cara já está na sala de interrogatório com o Fin e a Amanda. Eu tiro o terno e o penduro na minha cadeira, arregaçando as mangas e me sentando. Sinto a mão de Lucy nos cabelos da minha nuca. Isso me relaxa.
— Precisa ir pra casa. — ela insiste — Anda, Dom. Amanda conseguiu tirar uma confissão do cara e as imagens do laptop o incriminam. Ele vai sair daqui direto pra prisão. Nem há como ele tentar um acordo.
Respiro fundo e sorrio fraco quando ela me chama de Dom. Ninguém nunca me chamou assim.
— Nessa madrugada, apenas uma coisa martelava na minha mente. — desabafo — Por que eu não saio desse carro, subo naquele apartamento e dou uma surra nele até ele confessar?
— Você não fez isso porque sabia que era errado. Sabia que isso poderia fazê-lo escapar. — ela aperta meus ombros e sinto um pouco de dor por conta da tensão muscular — Vai descansar, anda. Eu te aviso caso hajam novidades.
Me levanto, pego meu paletó e a olho. Ela sorri pra mim e me oferece sua garrafa de água. Eu pego de sua mão, beijo sua bochecha e caminho para fora da delegacia com uma pergunta martelando na minha mente:
Por que ainda tô nesse trabalho?
A resposta é simples: porque eu me importo e não irei descansar enquanto eu ver uma pessoa sofrendo. Enquanto houver alguém que se importa, crápulas como o Lincoln não vencerão.