Dominick "Sonny" Carisi Jr.
Enquanto eu esperava que a porta fosse aberta, repassava mentalmente os ítens que comprei. Espero não ter me esquecido do que ela pediu e que valha a pena ter dirigido até Astoria para comprar algumas coisas que só vendem em mercados estrangeiros por lá.
A porta se abre e uma Lucy sorridente surge. Ela usa um short listrado azul e branco, uma blusa de manga longa leve e tem os pés descalços no carpete. Não consigo não sorrir diante dessa visão.
— Bem pontual, detetive. — ela brinca e dá passagem para que eu passe
— Não sei bem o motivo de estar aqui tão cedo, mas obedeci. — entro no apartamento estilo studio e percebo que tudo está bem arrumado
— Pode deixar aí no balcão. — ela se refere às sacolas e fecha a porta — Tem que vir cedo porquê cada episódio tem uma hora, eu acho. Talvez nem dê para ver tudo hoje, mas você pode continuar em casa.
— Isso se eu gostar disso. — resmungo pondo as bolsas na ilha da cozinha
— Você vai gostar. Olha, na TV já está o primeiro episódio. Vá se sentar para começar a ver, não se assuste e tenha mente aberta, ok? Lembre-se de que essa série é dos tempos medievais onde não haviam direitos e nem deveres para todos.
— Tem certeza que vou gostar disso? — faço uma careta enquanto tiro a jaqueta
— Só cala a boca e assiste, Sonny. Eu vou preparar um doce que aprendi no Brasil. — ela diz pegando a jaqueta da minha mão e pendurando no gancho atrás da porta
— Brasil, é? Aquele país da América do Sul com nome de árvore?
— Exatamente. — ela ri — Vê se não se perde no meu grandioso apartamento. — debocha — Ali é meu quarto. — aponta para a cama — Naquele corredorzinho temos banheiro e closet e aqui temos a sala. — aponta para o quadrado demarcado pelo chão mais alto, sofá e televisão grande na parede
— Certo. — me sento no sofá — Seja o que Deus quiser. — dou de ombros dando play no episódio
Eu não sei exatamente quando, mas vidrei meus olhos e minha atenção na televisão. Acho que foi logo na primeira cena, onde milhares de corpos despedaçados surgiram do nada e atacaram três homens. É como se eu tivesse assistindo um filme. Excelente produção, tenho que concordar.
Na metade do episódio, Lucy sentou-se ao meu lado no sofá, deixando uma bacia de pipoca entre nós e um pote com o que parecia ser chocolate derretido. Apesar da curiosidade, eu não toquei nem na pipoca e nem no doce. Queria saber o que aconteceria a cada minuto seguinte do episódio.
— Espera! Eles são irmãos. — faço careta quando vejo o irmão da menina de cabelos prateados tocando-lhe o seio
— Incesto é comum na família Targaryen. Ajuda a manter a linhagem pura. Além do mais, bebês misturados não vivem. Nascem fracos. Só um sobreviveu.
— E onde ele tá? — olho rapidamente para ela, que sorri presunçosa
— Está gostando da série, detetive?
— Curiosidade, apenas. — volto a prestar atenção — Esse Ned Stark é um bom homem. Meu favorito até agora.
— Coitado. — ela resmunga baixinho
Quando o primeiro episódio termina, já emendamos no segundo. Eu finalmente provo o doce de chocolate derretido e percebo que o gosto desse é mais acentuado, mais gostoso. Faço uma careta de nojo quando Lucy mistura a pipoca no doce e come. Ela ri e me desafia a fazer o mesmo. Sabendo que vou me arrepender, eu passo a pipoca no chocolate.
Puta merda! É uma delícia!
— Esse rei é um fanfarrão. — comento sobre o rei Baratheon
— Sem sombra de dúvidas. — ela concorda
— Uou! — arregalo os olhos — Ela vai casar com ele? Esse homem deve ter o que? Dois metros?
— Acho que um e noventa e seis. — Lucy diz e eu a olho contrariado — Que foi? Gosto do ator. Pesquisei. — dá de ombros
— Tadinha. Tá na cara que ela não quer. — digo quando a Targaryen perdida diz que não quer casar
— Eu deixaria todos aqueles homens foderem você, até mesmo seus cavalos para ter o trono que é meu por direito. — o irmão dela diz e depois beija sua testa
— Que cara escroto! — digo indignado — Tomara que morra!
Lucy cai na gargalhada e eu a olho franzindo a testa.
— Tá se envolvendo. — diz rindo
— Não é tão r**m assim. — dou de ombros voltando a prestar atenção
O tempo passa e os episódios também. Lucy me conta que ama Drogo e Daenerys e que não superou a morte dele até hoje, dando-me um spoiler sobre o que acontecerá com ele antes mesmo da temporada terminar. Eu não entendo direito. Drogo estuprou Daenerys, mas depois um amor inabalável cresceu entre os dois. Eu sei que isso é muito errado, mas é o que Lucy disse: os tempos eram outros. Mulheres eram usadas como moeda de troca. Posse passada do pai para o marido. Isso me enoja.
— Não! — grito quando a cabeça de Ned Stark é arrancada — Por quê?
— Eu também não sei. — Lucy se assusta com meu grito
— Ah, qual é! O melhor personagem da série. Mindinho filho da p**a! — esmurro a almofada
— Okay! Agora você é um fã da série. — Lucy ri
— Como você ousa rir da minha dor? — olho para ela quando o episódio termina e os créditos começam — Ele era o meu favorito.
— Era o meu favorito também. Ei, qual é, eu perdi dois personagens favoritos em uma mesma temporada. Três, se contar o bebê de Dronerys.
— Essa série é c***l. — reviro os olhos — Tudo bem. Meu favorito agora é o Robb Stark.
Fico sem entender quando Lucy solta uma gargalhada alta e gostosa de se ouvir. Por mais que ela não diga o motivo de seu riso, já posso imaginar que vem desgraça por aí.
Game of Thrones é desgraça atrás de desgraça. Eu aqui, torcendo pra cabeça do Joffrey ir parar numa estaca e o filho da mãe brincando de ser o rei temido. Merda!
Quando o último episódio da quarta temporada termina, já são oito horas da noite e Lucy está de pé lavando a louça na cozinha. Posso vê-la de onde estou. Fico um tempo admirando-a e repassando o dia de hoje. Lucy esteve muito mais a vontade do que eu pensei que estaria, com um homem sob seu teto. Nossa aproximação tem sido boa para os dois lados. Ela não parece ter amigos e eu confesso estar começando a me enrolar nessa pegajosa teia da atração. Dentre todas as mulheres, eu sei que Lucy é a última que me olharia diferente e se permitiria embarcar numa aventura comigo. Lucy é forte, porém machucada e torturada.
— E então? — ouço sua voz e ela surge, me pegando no flagra — Por que me encara tanto?
Noto que seus braços estão atrás de seu corpo e seu olhar foge do meu. Já a vi assim antes, quando estava nervosa e se sentindo acuada. Não posso ver suas mãos, mas tenho certeza que ambas estão se apertando.
Droga! Ela ficou m*l por eu a estar olhando muito.
— Tô aqui só pensando que devo deixá-la me obrigar a assistir séries mais vezes. Essa dos tronos é maravilhosa. — tento quebrar o clima esquisito
— Fico feliz que tenha gostado. — ela sorri nervosa e olha para o relógio em seu pulso
— Melhor eu ir. — entendo seu recado involuntário e me levanto, catando o meu balde de pipoca e meu copo de suco
— Eu vou... Arrumar as coisas pro trabalho amanhã. — vou até a pia e então começo a lavar as coisas — Ei, o que está fazendo?
— Lavando o que eu sujei. — respondo óbvio
— Não precisa. — ela protesta e se aproxima
— Na minha terra, homens lavam a louça. Viu só? Foi rápido. Já terminei. — desligo a torneira e coloco a louça limpa no escorredor
— Obrigada. — ela sorri — Pelo dia incrível.
— Eu fiquei tão embasbacado pela série que a gente nem trocou muita ideia.
— Que bom, porquê meu objetivo era te viciar nisso.
— Conseguiu. — digo rindo — Chegando em casa, vou baixar a quinta temporada e começar a assistir.
— Queria ver sua reação ao ver o que está por vir. — ela comenta
— Espero que sejam coisas boas.
Um silêncio se faz. Ela continua me olhando e eu a olho também. Seus olhos se assemelham ao olhos de um leão livre enjaulado. Apesar de não estar mais sob as garras do homem que desgraçou sua vida, ela ainda vive presa em grades sentimentais e marcas que o canalha deixou. Isso faz com que eu dê um passo a frente, querendo trazê-la para os meus braços e dar-lhe o meu mais sincero e demorado abraço. Mas eu fico parado, pois sei que ela precisa de tempo.
Aperto sua mão e ela, timidamente, beija minha bochecha. Pego minha jaqueta atrás da porta e nos despedimos com a promessa de que nos veremos amanhã, na delegacia. Ela continua na porta do apartamento esperando que eu pegue o elevador e, quando o mesmo chega, lhe dou um último sorriso e, mesmo quando as portas da caixa metálica se fecham, eu sei que ela ainda está parada ali com seu mais lindo sorriso. Eu sorrio. Acho que tô me apaixonando pela mulher proibida.