Lucy González
— Um brinde à Tenente Benson! — Fin ergue seu copo de café e nós fazemos o mesmo
— Um brinde! — digo sorrindo
— Precisamos fazer isso do jeito certo, mais tarde. — Rollins diz — Uma promoção dessas merece ser comemorada em grande estilo.
— Concordo com a Amanda. — digo afobada
— Você bebe? — Fin franze o cenho
— Precisa vê-la virando um canecão de chopp. — Sonny diz enquanto se senta e liga seu computador
— Você já viu? — Amanda o olha curiosa
— Já. — ele murmura
— Sério? — Olivia se senta em sua cadeira
— Uhum. Fomos ao jogo um dia desses. — me jogo no sofá, ao lado do Carisi e tomo um gole do meu café
— Por que não nos contaram? — Amanda franze o cenho
— Porque talvez não seja da nossa conta. — Barba diz apoiando-se na mesa
— O Barba tem razão. — Olivia concorda — Eu queria agradecer a todos pelo apoio e carinho e, gostaria de dizer que, as incrições pra prova de sargento estão abertas. Vai tentar, Fin? — ela o olha e todos olhamos para ele também
— Não sei não. — ele coça a nuca
— E você, Lucy? — Carisi me pergunta e é a minha vez de franzir o cenho
— Tá doido? Eu tô aqui há pouquíssimo tempo. Devem ter uns seis, talvez sete meses. Tô feliz de Detetive Júnior. Já tive responsabilidade demais no DSS. — tomo mais do meu café
— Por favor, Fin, diz que vai tentar. — Amanda o encara pidona — Se você não tentar, vão enviar outra pessoa.
— Eu já disse que vou pensar. — ele murmura
— Sargento Tutuola. Soa bem. — digo
— Sugere poder. — Barba brinca
— Tá legal, seus chatos. Eu já disse que vou pensar. — ele resmunga
— Bom, eu vou trabalhar. — Barba diz pegando sua pasta e se pondo de pé — Deviam fazer o mesmo.
— Eu merecia uma folga, isso sim. — resmungo tomando meu café
— Já tá cansada da unidade? — Liv me olha
— Me cansar de vocês? Acho que nunca. — sorrio
— Ótimo. — ela sorri — Vou levar o Barba até o elevador. Aproveitem para terminar seus cafés.
Observo Olivia sair com Barba e Amanda se sentar ao meu lado, deixando-me entre ela e o Carisi. Fin está sentado na cadeira à frente da mesa de Olivia. Ficamos em silêncio até Sonny e Fin começarem a falar de basquete. Amanda revira os olhos e bufa.
— Homens. — murmura tomando seu café
— Os Celtics estão bem nessa temporada. — Sonny comenta
— Os Nets também. — Fin comenta
— Falem o que quiser, bundões, mas nenhum deles vai passar pelo Cleveland. — termino meu café e ponho o copo vazio na mão livre do Carisi
— Até tu, Brutus. — Amanda murmura
— Não devia torcer pros Lakers? Você é de Los Angeles. — Sonny franze o cenho
— Eu tenho um coração dividido. — resmungo
— Carisi e González, comigo agora. — Olivia diz entrando na sala — Fin e Amanda, fiquem prontos na base.
— Missão? — Carisi a olha
— Menino de seis anos morto no carrossel de um parque.
***
Parte do Central Park estava isolada e eu precisei passar por baixo da fita amarela que indica área de crime.
— Era um dos meus brinquedos favoritos. — Carisi resmunga enquanto nos aproximamos
— Sempre odiei Carrossel. — resmungo
Lá estava o corpo do pequeno garotinho sendo avaliado pela médica legista. Olivia foi a primeira a chegar bem perto pra saber de tudo, mas eu congelei uns cinco metros atrás.
Isso é loucura. É meu segundo caso de homicídio infantil em cinco meses de esquadrão.
— Ei, você está bem? — Carisi põe sua mão em minha cintura e eu sinto um arrepio passar por meu corpo, mesmo tendo as roupas para me proteger de seu toque
— Estou. — me forço a dizer e então me aproximo
— Lucy vem comigo pro necrotério. Vão terminar de avaliá-lo e seus responsáveis estão indo reconhecê-lo. — Liv diz — Carisi, investigue esse local. — ela dá um papel ao Sonny — Parece que era um clube de luta infantil.
— O que? — minha voz soa estridente
— Sim, Tê. — Carisi murmura seu apelido curto para a nova patente de Liv
— Liv, não acha que eu sou mais útil com Carisi do que no necrotério? — protesto
— Carisi só vai checar o local.
— E se der merda?
— Lucy, eu quero você comigo. — ela diz firme e irredutível
Bufo sentindo minha pele formigar de raiva e então Carisi vai logo verificar o local. Em silêncio, sigo Olivia durante o resto do dia. Ela tá no meu pé e eu não sei o motivo.
***
— Ei, Tenente! — Carisi entra na sala eufórico — Pegamos o filho da p**a do dono do clube. Acabamos com o lugar.
— E Barba nos arrumou um mandado. Temos o desgraçado na sala de interrogatório. — Fin aparece logo atrás
— Filhos da p**a. — resmungo
— Mas temos um problema. — Carisi diz — A mulher dele tá ameaçando pôr a delegacia a baixo se ele não sair daqui. Amanda está tentando contê-la.
— Ela tem ligação com o clube? — Liv pergunta
— Não. — Fin responde
— Então livrem-se dela e foquem no desgraçado.
— Posso interrogá-lo? — pergunto
— Fin e Carisi farão isso, Lucy.
— Qual é. O. Problema? — pergunto pausadamente, claramente impaciente — Você tá me regulando o dia inteiro. — a confronto e percebo Carisi e Fin curiosos e surpresos
— É um caso delicado. Em um dos seus primeiros casos, você tentou bater no suspeito.
— Ele olhou na minha cara e disse que não se arrependia de ter estuprado uma criança. Uma criança, Olivia! — reforço
— Não é assim que fazemos as coisas aqui.
— Eu já pedi desculpas. Disse que iria me esforçar, prometi não fazer nada e******o e, sinceramente, achei que você tivesse gostando do meu trabalho. Você disse que estava orgulhosa.
— Eu sei, mas a polícia de Nova York está na mira de possíveis processos e me pediram pra ficar de olho em pessoas explosivas.
— Eu te dei a minha palavra, Olivia. Costumo honrar o que prometo.
Um silêncio se faz na sala e eu permaneço a encarando, sabendo que Fin e Carisi estão saindo de fininho da sala. Quase em câmera lenta. Seria cômico se eu não estivesse tão p**a da vida.
— Tudo bem, querida. Me desculpe. — Liv se aproxima e põe as mãos em meus ombros — Eu confio em você. É que...
— Você é Tenente à um dia e já estão te cobrando. — continuo sua frase
— É. Exatamente isso. — ela sorri sem jeito
— Eu te dou a minha palavra. Além do mais, todos vocês já me conhecem bem. Quando eu não conseguir me controlar, sei que vão conseguir me deter. — sorrio confiante para ela — Agora vamos. Temos um filho da p**a pra prender.
O cara é cínico e n**a todas as acusações possíveis, mesmo tendo sido pego no flagra. A louca da esposa, apesar de ser espancada por ele, segundo três queixas de agressão, insiste em defendê-lo.
Cansada de tentar tirar leite de pedra, eu saio da sala de interrogatório com Sonny e deixo a vez com Amanda e Fin. Carisi me acompanha em direção a sala de descanso para tomarmos um café, mas paro no meio do caminho observando um menino de uns 13 anos me olhando.
— Quem é ele? — pergunto com o cenho franzido
— Enteado do Troy Bolton. — Sonny responde
— Ele... — observo o menino — Tem alguma coisa nele.
— Do que está falando?
— Reconheço uma vítima reprimida quando vejo. Ele é como... Como eu era.
— Como era quando? — ele franze o cenho
— Você sabe do que estou falando. Sei que leu minha ficha. — desfaço seu fingimento — Chame-o pra tomar café com a gente. Ele sabe de alguma coisa.
— Certo. Vai indo.
Carisi vai na direção do jovem menino e eu sigo para a sala de descanso vazia, onde coloco os cafés para serem feitos na máquina e pego alguns cookies no armário. Tiro a jaqueta, estando seriamente incomodada e tiro também o coldre da cintura, me sentindo duas armas mais leve. Deixo tudo na cadeira distante, para que o menino não se assuste.
Não demora muito para que Sonny entre no local acompanhado do menino. Quando eles entram, eu estou pondo as duas canecas azuis — minha e de Carisi — na mesa.
— Nick, essa é a Lucy. — ele nos apresenta
— Ela é sua namorada? — ele pergunta e eu sinto meu rosto esquentar
— Não. Ela é minha grande amiga. — Sonny explica sorrindo gentil e o indicando uma cadeira para se sentar
— Eu fiz o seu café, Sonny. — digo apontando para sua caneca — Gosta de café, Nick?
— Prefiro suco. — ele responde sem jeito
— Pega um pra ele na máquina, Carisi. — digo me sentando do outro lado da mesa, ficando de frente para o menino
— Por conta da casa. — Carisi diz pegando o suco na máquina e colocando na mesa, para ele
— Obrigado. — ele agradece
Eu lhe ofereço cookies também e ele aceita, mesmo parecendo estar sem jeito. Meus olhos avaliativos se desfocam dele e acabam se focando em Sonny que, atrás dele, retira o paletó, ficando apenas de colete e camisa social com as mangas arregaçadas. Isso é... Sexy.
Sinto meu rosto esquentar de novo. Não me lembro de ter essa sensação desde meus quinze anos.
Carisi passa a mão no cabelo bem arrumado e puxa uma cadeira ao lado do menino, ficando também de frente para mim.
Volto a focar meu olhar no menino acanhado. O olhar dele é como o de um tigre enjaulado. Eu me vejo ali.
— Nick, você está bem? — pergunto cautelosa enquanto tomo meu café
— Quando vocês vão soltar o meu pai?
— O nosso promotor não conseguiu a prisão preventiva dele, então logo logo ele será solto. — Carisi explica
— Você deve estar ansioso pra ir pra casa com sua família. — jogo com sua mente
Ele não responde, apenas dá de ombros encarando a latinha de suco em sua frente. Me endireito na cadeira e como um cookie antes de continuar.
— Eu vi denúncias que fizeram contra ele. Ele agride sua mãe, não é?
— De que adianta a minha palavra? — ele me olha — Ninguém acredita.
— Por que diz isso? — Carisi ergue uma sobrancelha
— Os vizinhos chamam a polícia, eles vêm, minha mãe não dá queixa e eles se vão. É sempre assim. Troy sabe bater no lugar certo, pra não deixar marcas. — ele diz com revolta em sua voz
— Pouco me importa o que os outros policiais acreditam. — digo — Eu acredito em você.
Ele me olha duvidoso e então eu me debruço sobre a mesa, segurando suas duas mãos.
— Eu sei como você se sente. Acredite em mim, eu sei. — digo olhando em seus olhos — Eu reconheço uma fera enjaulada quando vejo uma.
O silêncio se faz por um minuto inteiro. Sinto o olhar de Carisi em mim, mas não o olho por não querer quebrar o contato visual com Nick.
Ele aperta minhas mãos e fecha os olhos momentaneamente. Quando os abre de novo, os vejo molhados de lágrimas que ele luta para segurar.
— Aquele menino que morreu. Eu o matei.
A revelação me traz o choque. Acho que não consigo disfarçar em minhas feições, mas ainda chocada eu não solto suas mãos. Quero estabelecer uma relação de confiança.
— Troy disse que eu tinha que lutar com ele. Eu não queria, eu juro. — suas lágrimas já não são seguradas mais — Troy disse pra eu nocautear ele. Eu não queria. Ele era tão pequeno. Isso não foi justo.
— Tudo bem, Nick. Não foi sua culpa. Você ainda é um menino. — Carisi põe sua mão no ombro dele, também lhe passando apoio
De repente, ele se levanta. Parece ter se dado conta de que falou demais. Pelo vidro que divide a sala, vemos sua mãe andando de um lado para o outro. Nick agradece pelo lanche, seca os olhos e sai da sala, indo de encontro a sua mãe.
Olho para Sonny que está vermelho como um tomate. Ele abre e fecha as mãos impacientemente enquanto respira como um animal raivoso. Estreito os olhos.
— Carisi? — o chamo, mas ele não me olha — Ei, sei que isso tá sendo f**a, mas não faça nada e******o, ok? Carisi? — ele novamente não me responde. Se levanta num rompante forte que derruba a cadeira e sai marchando pela delegacia — Carisi! — me exaspero e vou atrás dele
Dominick “Sonny” Carisi Jr.
Eu não sei dizer ao certo quando comecei a surtar nesse caso. Não sei se foi ao ver o corpo do menino de seis anos no carrossel, não sei se foi ao ver a quantidade de crianças machucadas naquele maldito clube ou se foi ao ouvir Nick, um menino de treze anos, amargurado por ter contribuído na morte de uma outra criança.
Eu sempre fui um cara muito pacífico, com poucos momentos de fúria e irracionalidade, mas quando eu entro em erupção, eu perco toda a razão que me resta. O ódio me deixa cego, surdo e irracional.
Quando saí marchando por aquela delegacia em direção à sala de interrogatório, por exemplo, eu sabia que Lucy vinha bem atrás de mim tentando disfarçar a minha loucura e me segurar antes que alguém percebesse o que eu estava prestes a fazer. Mas eu acho que a peguei tão de surpresa com meu ato impensado, que ela não conseguiu me alcançar a tempo.
— Então você é machão com mulheres e criancinhas, não é? — digo ao entrar na sala e ver o cara sozinho ali
— Sou homem suficiente pra acabar com você, mané! — ele retruca
— Então vem, seu monte de merda!
Ele se levantou e eu o peguei pelo pescoço, jogando-o contra a parede num ato de reflexo. Ouço a outra porta — que dá para o escritório de Olívia — se abrir e ela berrar palavras de ordem para mim. Sinto então mãos em meus ombros. Elas não me seguram e nem me afastam. Elas me afagam. Como se quisessem passar tranquilidade.
— Dom, não vale a pena.
Minha mente reconhece a voz de Lucy ao meu lado e, quando ela percebe que minha mão não relaxa no pescoço do filho da p**a, suas mãos apertam meus ombros e me puxam pra trás. Eu saio do transe da raiva irracional e então tudo começa a pesar na minha consciência.
— Sorte sua que sua namoradinha veio te salvar. — o cara debocha quando eu o solto
— Sorte a sua, que eu cheguei a tempo. — Lucy devolve a tirada e me vira pelos ombros — Vamos, Carisi. Anda!
Sinto suas mãos em minhas costas me guiando de volta para a sala de descanso, onde eu me sento sobre o aparador, ao lado da máquina de café e ponho mais café pra fazer. Preciso de cafeína.
— Olívia vai surtar, Sonny. Você precisa se controlar. — Lucy diz fechando a porta de vidro
— Você ouviu o menino, Lucy? Aquele filho da p**a é um monstro. — eu rebato
— Eu sei, Carisi! Eu adoraria bater nele até que meu braço caísse, mas não dá. Qualquer passo em falso, qualquer falha nossa, ele ganha. E se ele ganha, olha quantas crianças perdem.
Eu me calo, culpado. Sei que vou receber uma p**a bronca da Benson e que meu momento de deslize pode ser usado pela advogada de defesa do cara. Isso me faz ter ainda mais raiva. Se ele ganhar, a culpa é minha.
Como se sentisse minha confusão interna, Lucy se aproxima de mim e, me surpreendendo, seus braços me envolvem e então ela deita minha cabeça na curvatura de seu pescoço. Essa proximidade toda me deixa seguro. Eu agarro seu corpo com meus braços e então ficamos em silêncio. Sua mão acaricia os cabelos da minha nuca relaxando-me e eu respiro fundo, fazendo com que minha respiração vá contra o seu pescoço.
— Tá tudo bem. — ela diz em meu ouvido — Não precisa ser bonzinho o tempo todo.
Levanto minha cabeça, percebendo que mesmo estando parcialmente sentado sobre o aparador de madeira, continuo poucos centímetros maior que ela.
— Obrigado. Por tudo.
Minha voz vai de encontro ao seu ouvido e então percebo sua pele se arrepiar no braço livre da manga curta da camiseta preta que usa. Ela sorri sem jeito e se afasta do abraço, mantendo uma curta distância entre nós. Minhas mãos ainda estão em suas costelas.
— Ei! — Amanda surge na porta, roubando nossa atenção — Eles estão indo. E você — ela olha pra mim — tá proibido de se aproximar deles. — ela sai de novo
— Rápido, me dá um cartão seu. — Lucy diz apressada
— Hã? — digo atordoado
Ela mete a mão no bolso frontal da minha calça e puxa um cartão com meu número. Com rapidez, tira uma caneta de seu bolso traseiro e anota seu número ali também, para logo depois amassar o pequeno cartão entre os dedos. Quando ela sai, eu vou atrás dela, mas paro na porta, observando-a ir até a família destruída.
— Espera! — ela diz fazendo os três pararem
— O que você quer, v***a? — a mãe do garoto a olha com raiva
— Me despedir do Nick. Ele é um garoto incrível. — ela lhe oferece a mão para um aperto firme, onde sorrateiramente, passa o cartão pra ele — Foi bom te conhecer.
— Eu... Hã... — ele parece nervoso ao sentir o cartão em sua mão — Obrigado, Lucy.
Sem jeito, ele sorri e esconde o cartão no bolso do moletom. Os três se vão e então a delegacia toda se volta para mim.
— Vamos conversar, mocinho. — Olivia diz séria