Gatilho

2410 Palavras
★ Lucy González ★ Tiro a lasanha do microondas e pego um refrigerante na máquina. Deixo tudo na mesa e, cansada, suspiro pesado retirando o coldre da cintura e jogando em cima da mesa, sentindo o peso do cansaço diminuir. Me jogo na cadeira e dou a primeira garfada, sentindo meu estômago festejar por receber alimento pela primeira vez em oito horas. Fecho os olhos enquanto mastigo e desfruto do silêncio. - Achei que já tivesse ido embora. Adeus, silêncio. Abro os olhos e vejo Sonny entrando, indo até a máquina de café e pegando um expresso. Respiro fundo sentindo alguns estalos em meu ouvido esquerdo. - Eu precisava comer alguma coisa antes de ir pra casa. Estava pestes a cair dura no chão. - abro a minha latinha e tomo um gole do refrigerante. Carisi se senta de frente para mim - Soube que a prisão de hoje foi pesada. - ele bebe seu café - Estalaram a merda de um 38 no meu ombro. Meu ouvido ainda está zumbindo. - murmuro m*l humorada e dou mais uma garfada, levando a lasanha a boca - Você está bem? - Estou. - balbucio ainda mastigando - E você? - Precisei resolver uns problemas com minhas irmãs. Folga diurna, plantão noturno. - ele dá de ombros - Liv me deixou chegar uma hora mais tarde amanhã. - Você merece. Tem dado duro. Parece que, desde que você chegou, a adrenalina aumentou. - ele comenta e eu acabo rindo ainda comendo - Eu atraio o caos. - dou de ombros rindo - O que vai fazer no domingo? - Comer, dormir e torcer pro meu celular não tocar. - O que acha de... - ele pigarreia - Chiefs e Patriots, final da conferência? Paro de mastigar em silêncio. Tudo o que consigo ouvir é o zumbido em meu ouvido e o café que desce pela garganta de Sonny. Sinto meu corpo tensionar, mas estranhamente não me sinto acuada. Sinto as palmas das mãos começarem a suar e o estômago revirar, mas dessa vez não é de fome. - Ouvi você falando com o Fin que curte os Patriots. - Meu pai curtia os Patriots. - comento - Aliás, curtia qualquer time que tivesse indo bem. - Eu tenho três ingressos. Podemos ir? - eu o olho e ele me olha de volta - Pode levar aquele seu amigo careca também. Ele curte futebol, não é? Peso os acontecimentos na balança da consciência. Estou nesse esquadrão há quase um mês e todos estão sendo muito receptivos comigo. Eu frequento suas casas, às vezes, escuto seus problemas familiares. Sonny sempre pareceu muito compreensivo comigo. Com minha situação de ex-vítima. É diferente. Não é pena e nem cuidado excessivo. Ele apenas parece se importar. Tento pensar no que Luke diria se estivesse aqui. Tenho certeza que se eu disser que vou sair com um cara, ele dá um jeito de chegar em Nova York. Engulo o bolo de comida em minha boca. - É, ele curte. Vou ligar pra ele e te dou uma resposta em breve. - prometo - Certo. - ele sorri e puxa seu celular do bolso - Com licença. Ainda comendo, eu o vejo sair da sala e atender o telefone. Eu termino de comer pensando no que acabou de acontecer aqui. Jogo a vasilha vazia da lasanha no lixo junto com a lata do refrigerante e disco o número do Luke. - Alô. - sua voz soa abafada quando ele atende no quarto toque - Luke? - Você me acordou, Lucy. - ele resmunga e parece fazer força para se levantar - Que bom, porque acho que meu filme acabou. - ouço sua risada - Muito trabalho? - Ganhei quatro dias de folga. Estive pensando em ir ver Shaune em Chicago e passar aí no domingo pra gente almoçar. - Então, eu te liguei pra fazer um convite. - Manda. - Vamos ver os Patriots no domingo? - Você tem ingressos? - Um amigo do trabalho tem. Ele me chamou e disse que eu podia chamar você. A ligação fica muda por alguns segundos. Prendo a respiração e mordo o lábio inferior esperando Hobbs dizer alguma coisa. Bato as unhas na mesa, impaciente. - Luke! - o chamo - Estou aqui. É só que... É aquele loiro alto que você diz ser compreensivo com você? - Sim. Mais segundos de silêncio absoluto na ligação. Meus dedos tamborilam com mais firmeza na mesa. - Tudo bem. Eu vou pra sua casa no sábado e embarco depois do jogo, no domingo. Abro um sorriso tão largo que acho que seria capaz de ver até de costas. - Então te vejo no sábado. E dê um beijo na Shaune por mim. - Eu dou. Fica com Deus, menina. - Eu te amo. - Eu te amo também. Desligo o celular e me levanto, pegando meu coldre com as armas penduradas. Vou até os armários e pego minha mochila. Jogo as armas no armário vazio e ponho a mochila nas costas. Pego minha Magnum 22 e coloco na cintura, presa no cós da calça, onde a blusa e a jaqueta escondem. Saio da área de descanso e vejo Fin de pé, desligando seu computador. Carisi está digitando algo. - Ainda está aí. - Fin diz ao me ver - Tô saindo agora. Quer carona? - Claro. - sorrio - Tchau, Carisi. Bom plantão. - ele diz dando um tapinha no ombro do loiro e indo para o elevador - Tudo certo pra domingo. - eu digo e ele me olha - A gente combina com mais calma no sábado, ok? - Ok. - ele sorri - Tchau. - sorrio sem jeito *** O elevador se abre e então eu entro na delegacia. Alguns soldados me cumprimentam e eu aceno de volta enquanto caminho para a minha mesa com meu copo de café na mão. Quando chego, noto que as mesas a minha volta estão vazias e a porta da sala da Liv está aberta. Franzo o cenho e vejo que todos estão lá dentro com caras não muito boas. Me aproximo. — Com licença. — dou dois toques na porta, chamando atenção — Alguma super reunião que não me avisaram? — olho o relógio em meu pulso, vendo que o mesmo marca oito horas em ponto — Entra aí, Lucy. Bom dia. — Benson diz após suspirar pesado e se sentar em sua cadeira — Bom dia. — murmuro ao entrar devagar — Lembra do Barth? — Liv me pergunta — Claro. Meu primeiro caso. — Ele foi morto na cadeia logo após fechar um contrato com o Barba pra entregar o Johnny D. — Rollins diz — Uau! — arregalo os olhos — E agora? — Bom, agora a gente volta pra estaca zero. — Amanda comenta e o telefone da Liv toca. Um silêncio se faz na sala e só podemos ouvir suas curtas respostas Tomo alguns goles do meu café e encosto na soleira da porta, ajeitando a alça da mochila no ombro direito. Liv está tensa e desliga a ligação. O silêncio continua até que ela comece a falar. — Nick prendeu uma prostituta menor de idade. — ela avisa e eu franzo o cenho, não sabendo quem é Nick — Vão passar o caso pra gente. — Carisi suspira — Vão, mas não para por aí. Ela diz que testemunhou a morte de Ellie Porter. Uma nuvem n***a paira sobre todos. Eu fico confusa e perdida no meio de olhares chocados. É uma boa hora pra eu perguntar quem é Ellie Porter e o que ela tem a ver com o Johnny D? — Temos uma operação secreta pra essa noite. Se preparem. — ela avisa — Por favor, me deixem a sós com a Lucy. Um a um, todos vão passando por mim e saindo da sala. Carisi, quando passa, sorri e eu sorrio de volta. Sinto seu perfume inebriante e fecho os olhos por alguns segundos. Quando os abro, estou sozinha na soleira da porta e Olivia está me olhando com um sorriso escondido. Eu franzo o cenho e caminho pra dentro da sala, encostando a porta. — Eu fiz alguma coisa? — pergunto me sentando — Acha que fez? — ela rebate — Hã, sinceramente? — inclino a cabeça para o lado — Não sei. Tenho feito o possível para não agir como agente e sim como detetive. — Tem feito um excelente trabalho, Lucy. De verdade. E Fin adora quando tem perseguição porque gosta de te ver correndo atrás de alguém. — ela ri e eu acabo rindo também — Eu tô adorando todo mundo aqui. Eles são engraçados. Só a Rollins que... Sei lá. É mais fechada. — É, Amanda é desconfiada. Escuta, Lucy, você é da família agora. Você frequenta a minha casa, o Noah adora você. Eu preciso que saiba que... — ela suspira — Johnny D é traficante de mulheres e ele traficou a Ellie Porter. Quando eu a encontrei, descobri sobre Noah. Ela morreu queimada. Tento não parecer tão chocada com a história de Noah. — Nossa, Liv. Eu nem sei o que te dizer. — Tudo bem, eu só queria que... Que você soubesse. Esse caso é importante pra mim. — Eu te prometo fazer tudo o que estiver ao meu alcance. E, se houver operação, eu quero estar presente. — Lucy, você é nova aqui. Será disfarce. — Posso fingir ser outra pessoa. Eu faço isso desde os dezesseis anos. *** Me olhei no espelho e senti vontade de chorar. Eu nunca — nunca — me imaginei vestindo isso. Saia de couro preta tão curta que, se eu me abaixar, minha b***a aparece e tão apertada que pode rasgar. O croped de paetê prateado mostra o sutiã de renda preto. Uso um salto tão alto que estou quase maior que o Carisi. Quase. — Eu disse que não precisava fazer isso. — ouço a voz do outro lado da porta do banheiro — Lucy? Engulo o choro e coloco os brincos de argola enormes. Eles pesam em minhas orelhas. O batom vermelho em minha boca faz com que eu tenha repulsa. — Lucy, por favor. Saio da frente do espelho e abro a porta do banheiro, vendo Olivia me encarar. Ela também não está em seu jeito normal. Ela usa uma camisa florida de botões, argolas nas orelhas, maquiagem forte. Mas usa calças. — Tem certeza que vai conseguir? — pergunta de novo — Tenho. — E como pode ter certeza disso? — Porque eu me prometi. Quando chegamos na casa que serve para prostituição, os verdadeiros bandidos garantem que irão colaborar e agir como se fizéssemos parte do bando dele. Carisi está diferente, também. Normal. Ele se passará por cliente. Minhas bochechas esquentam quando seus olhos passam por meu corpo pouco coberto. — Ok. Circulando. — Liv manda Eu respiro fundo e então ouço a música começar. Caminho até o bar improvisado do local e o cheiro de whisky toma conta do meu nariz e da minha mente, lembrando-me de dias que quero esquecer. “   — Meu anjo, você está tão cheirosa hoje. Seu nariz passeia por meu pescoço e seu corpo pesado fede a whisky barato. Eu me encolho ao sentir seus dedos invadirem minha saia e me acariciarem entre as pernas. Sinto nojo.   ” Pego uma cerveja e então me sento na banqueta e cruzo as pernas. Carisi está no sofá e seus olhos atentos prestam atenção em cada homem que passa por mim me comendo com os olhos. Vejo o suspeito de ser chegado ao Johnny D chegar e então me levanto, deixando a cerveja de lado. Todos já prestaram atenção nele e parece que todos, menos eu — novamente —, conhecem o cara. — Eu quero aquela. — ele aponta pra mim — Essa já é minha. — Carisi se pronuncia e se levanta. Ele, assim como eu, parece não conhecer o cara — E você pode pagar por ela, borra botas? — ele ergue uma sobrancelha — Posso pagar da melhor forma. — Ei, se aquietem. Quem manda aqui sou eu. — Olivia diz — Quanto você oferece? — ela olha pro suspeito — Quanto ela vale? Uma discussão por preços começa e eu tenho que me controlar para não vomitar. A discussão fica quente e então vejo a hora em que o suspeito dá uma coronhada em Carisi, que desmaia. — Ei! — grito e me aproximo — Todo mundo parado! — a porta é arrombada e a polícia entra Dominick "Sonny" Carisi Jr. Quando abro os olhos, sinto uma dor de cabeça esmagadora. Olho para o lado e percebo estar dentro de uma ambulância. Vejo pernas cruzadas e, ao subir o olhar, encontro Lucy ao meu lado. Ela ainda usa a roupa do disfarce, mas agora não tem mais o batom na boca e seus cabelos estão presos num coque bagunçado. Seus braços estão cruzados na frente de seu corpo. — Oi, bela adormecida. — ela sorri — Apaguei por quanto tempo? — murmuro e me sento — Dez minutos. — O que eu perdi? — O cara que te bateu é policial e também está disfarçado, atrás do Johnny D. — Estaca zero de novo? — ergo uma sobrancelha — Exatamente. Tudo isso por nada, no final das contas. — Onde estão todos? — Lá fora. Foram todos presos. Eu vim ter certeza de que você estava bem. — Certo. — sorrio Pulo da ambulância e dou a mão para que Lucy pule também. Ela agora está descalça e um vento frio faz com que sua pele se arrepie. Eu passo meu braço por seus ombros e, juntos, caminhamos até onde Fin, Benson, Liv e Nick estão. Sinto os ombros de Lucy tensos sob meu toque. — Ele acordou. — Fin diz e todos prestam atenção em nós — Lucy! — Olivia pega um casaco grande no carro e a ajuda a se vestir — Você está bem, Carisi? — Só um pouco de dor de cabeça. — Tudo bem. — ela diz — Nick, lembra da Lucy, não é? Nossa detetive Júnior. — É claro. — Nick sorri ao apertar a mão dela — Oi. — ela sorri gentil de volta — Bom, o que vamos fazer agora? — pergunto — No momento, tudo o que podemos fazer é esperar. — Fin diz — Esperar? Pelo que? — Lucy franze o cenho — Vocês logo vão ver.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR