★ Lucy González ★
Carisi me gira pela quinta vez e eu vejo o teto da delegacia rodar e as luzes me cegarem. De onde estou, consigo ouvir pessoas atendendo denúncias, digitando em teclados de computadores, comendo batatinhas. O dia hoje está abafado e tedioso. Não há nada para resolver. Eu fico feliz por não ter nenhum caso. Sem caso, sem vítima. Sem vítima, sem vida destruída.
Mas o tédio está me matando e se Carisi me rodar mais uma vez, eu juro que vou vomitar.
— Eu já tô tonto de ver você rodando. — Carisi diz ao me rodar mais uma vez
— Vou vomitar em você. — resmungo e sinto a cadeira dar um tranco quando ele a segura, fazendo-a parar e eu ficar entre seus braços
— Não queremos isso. — ele diz e meu corpo balança, por causa do tranco
— Ops!
Minha testa bate violentamente contra seu ombro e eu levo a mão até a mesma, fazendo uma careta. Carisi ri.
— Você está bem?
— Me lembra de nunca mais embarcar nas suas loucuras. — acabo rindo — Awn. Eu tô enjoada. — coloco a mão no estômago
— Toma. — ele me dá seu copo d'água que estava em cima da minha mesa
— Valeu. — murmuro e bebo a água
— Sai fora da minha cadeira. — Fin diz se aproximando
— Tá. Fique com sua cadeira. — Sonny levanta — Ela nem é tão confortável assim. — senta em sua mesa
— Vocês estão parecendo duas crianças. — Fin resmunga ao se sentar — Droga. O acento tá quente.
— Eu só queria um mega hamburguer e muita batata frita. — murmuro e debruço sobre minha mesa
— Queria sorvete. — Carisi diz
— Preparem-se, crianças. — Amanda diz se aproximando com Olivia e se sentando em sua mesa
— Uma criança foi achada morta atrás de um restaurante em Manhattan. — Liv diz e eu endireito o corpo, ficando em alerta — A perícia está a caminho. Timão e Pumba — ela aponta para mim e para Carisi, respectivamente — vocês vão para o local comigo. Amanda e Fin, quero vocês no conjunto habitacional que o menino vivia. Recolham todo o tipo de informação que conseguirem.
— Ok. — Fin se levanta e eu também me levanto, vestindo a jaqueta
— Nem comento nada. — Amanda bufa digitando algo em seu computador
Encaro Amanda por um tempo e sei exatamente o que ela está querendo dizer. Eu estou no esquadrão há cerca de um mês e meio e vivo saindo atrás de pistas com seu parceiro. Ela é a única que não conversa tanto comigo e que parece sempre desconfiada.
Me desperto dos pensamentos com Carisi passando por mim ajeitando seu paletó. Eu desvio o olhar e sigo meu caminho atrás dele, em completo silêncio. No carro, Carisi dirige, Liv se senta no banco do carona e eu fico no banco de trás em silêncio. Meu olhar se cruza com o do Carisi pelo retrovisor e eu enrubesço, chegando mais pro canto da porta, atrás do banco de Olivia. Ela me olha pelo retrovisor lateral e eu baixo o olhar.
Não demora muito para chegarmos até o local do crime e eu sou a primeira a saltar do carro e passar por baixo da fita amarela, furando o bloqueio. Um dos soldados corre pra falar com Olivia enquanto eu me aproximo do corpo colocando as luvas azuis nas mãos.
— Sarah Parker. — a médica que examina o corpo diz para mim
— Detetive González, SVU. — me apresento e sinto Carisi e Benson atrás de mim
— Lucas Rogers, doze anos. — ela começa a falar — Sinais de engasgo, estupro e agressão. Farei exames para detectar sêmen ou outra pista orgânica.
— Quem faria isso a um menino? — murmuro
— Hora da morte? — Olivia pergunta
— Entre quatro e quatro e meia da manhã, eu acho. Preciso avaliar melhor.
Olho no relógio em meu pulso e vejo que já são quase duas da tarde. Franzo o cenho e olho para cima, encontrando os olhares de Carisi e de Benson, provavelmente pensando a mesma coisa que eu.
— Por que a família não reportou o desaparecimento? — Sonny pergunta
— É o que vamos descobrir. — Liv suspira
***
— Ele morreu às quatro e vinte da madrugada. Há sêmen na garganta e a mesma está seriamente ferida. Sexo oral forçado. — Carisi diz lendo o laudo que a doutora Parker fez — Mas ele não morreu engasgado, de fato. Foi asfixiado. Há marcas de enforcamento.
— Análise do sêmen? — Liv pergunta
— Está em andamento.
— Imagens de segurança? — ela me olha e eu analiso o depoimento dos policiais que chegaram primeiro
— Exatamente no ponto cego das câmeras. Ou foi premeditado ou o filho da p**a que fez isso teve sorte. — digo
— A família do garoto é surtada. — ouço a voz de Amanda e a vejo chegar na delegacia, caminhando para perto de nós — O pai sumiu, o tio assumiu a mãe, o menino e mais três crianças.
— E pela arrogância do sujeito e o olhar acuado da mãe, ela tem medo dele. — Fin diz chegando também
— Indícios de violência doméstica? — pergunto
— Com certeza. — Amanda confirma
— Bom, precisamos esperar o resultado dos exames para achar o culpado. — Liv diz — Eles explicaram o porquê de não prestarem queixa quando acordaram e não o viram?
— O tio esquisito disse que pensou que talvez ele estivesse na escola, já que ele sai cedo. — Fin diz
— Que desculpa esfarrapada. — Sonny resmunga
Lembro-me de quando eu estava no beco. Eu estava agachada quando senti algo pingar no meu ombro e então olhei para cima, vendo uma infiltração embaixo do ar condicionado de uma janela. No parapeito da janela, havia uma pequena bola preta. Achei o que precisávamos.
— Preciso de um mandado. — chamo atenção
— Pra quê? — Olivia me olha
— O crime ocorreu no ponto cego das câmeras dos estabelecimentos do local, mas eu vi uma pequena câmera numa janela daquele beco.
— Tem certeza disso? — Sonny me olha
— Tenho. — confirmo
— Vou ligar para o Barba. — Liv diz — Você vai conseguir as imagens.
— Certo. — concordo e pego meu celular na mesa, já me preparando pra sair
— Vou com você. — Amanda diz me seguindo
— Eu acompanho vocês. — Carisi se oferece
— Trabalho para mulheres, meu caro. — o dispenso
Eu dirijo com cautela e rapidez para o beco onde o menino foi morto. Meu coração palpita a cada vez que me lembro de como seu corpinho frágil estava quando eu cheguei. Infelizmente existem monstros capazes de realizar essas atrocidades contra crianças indefesas.
— Até que você está reagindo bem. — ouço Amanda comentar
— Hã? — a olho rapidamente para depois voltar a prestar atenção na rodovia
— Esse é seu primeiro caso com morte e você não está surtando com a situação do menino.
— Eu sei fingir bem. Faço isso há anos.
— Você é uma pessoa legal.
— Só faço meu trabalho. — dou de ombros
— Tô dizendo você como pessoa e não como policial. Como policial, você é excelente. — ela ri — Como pessoa você até que tá indo bem, considerando tudo que passou.
— É, eu tento.
— Gosto de você, Lucy. Você é leal, sensata, faz piadas legais e Jesse e Noah adoram você. Desculpe se pareço meio antipática as vezes.
— Tudo bem. — dou de ombros — É o seu jeito e eu respeito você.
Assim que eu estaciono, saímos do carro e entramos na espelunca que contém o apartamento com a janela vigiada. Rollins se resolve com o zelador m*l encarado e nós subimos para o apartamento correspondente. Quando batemos na porta, um branquelo surge assustado.
— Polícia de Nova York. — Amanda mostra seu distintivo
— Trevor. — sua voz oscila quando ele se apresenta
— Trevor, houve um homicídio no beco atrás deste prédio e eu reparei que, na sua janela, há uma câmera. Adivinhe só: é a única que pode ter o que precisamos. — sou direta
— Vocês têm um mandado pra isso? — ele franze o cenho
— Talvez. — Amanda murmura — Mas a minha amiga pode fazer você mostrar com ou sem um mandado.
O cara arregala os olhos e nos deixa entrar. Sem que ele perceba, eu solto um sorriso. É a primeira vez que trabalho sozinha com a Amanda e eu estou gostando disso.
Sem muita enrolação, Trevor nos mostra as imagens da noite anterior e então nós vemos a hora exata em que um cara bem mais velho entra no beco batendo no menino. Pauso as imagens, porque tenho certeza que vai mostrar todo o crime e eu não quero ver isso.
— Espera! Esse é o cara que me atendeu na casa do garoto. — Amanda se espanta
— Tá dizendo que... — arregalo os olhos
— É o tio dele.
Meu celular toca e eu vejo o número da Olivia na tela. Atendo sem hesitar.
— Sargento, não vai acreditar! — digo agitada
— O resultado do exame saiu. O sêmen bate com o de Scott Rogers, tio do menino.
— É o que aparece nas imagens.
— Certo. Fin e Carisi estão indo buscar o desgraçado. Voltem para cá agora! — ela ordena e desliga
— Pegamos o cara. — digo para Amanda
***
Encaro o vidro e observo Carisi quase perder a paciência com o tio do garoto durante o interrogatório. Respiro fundo vendo a frieza do cara.
— Quanto tempo ele pode ficar na cadeia? — ouço Olivia perguntar ao Barba
— Vai ter sorte se pegar perpétua.
— O Carisi vai perder a paciência e o filho da mãe não confessa. — Tutuola murmura
— Não precisamos da confissão dele. — digo
— Precisamos enrolá-lo enquanto o advogado não chega. — Liv diz — Lucy, apóie o Carisi.
Respiro fundo e entro na sala, chamando atenção de Carisi e do criminoso. Bato a porta e tiro minha jaqueta, apoiando-a no encosto da cadeira vazia. Dou um tapinha no ombro do Carisi e me sento ao seu lado.
— Você tá dando trabalho, hein? — murmuro
— Mandaram você aqui pra me seduzir? Gostei. — ele sorri
Carisi rosna e ameaça bater nele, mas por baixo da mesa, sem que o cara veja, eu aperto sua coxa, indicando que está tudo bem e que ele pode se acalmar.
— Escuta, nós temos imagens e seu DNA.
— Então querem que eu confesse mais o que?
— Quero saber o que te levou a isso. Por que você fez isso com uma criança? Seu próprio sobrinho?
— Eu devia ser o pai dele. Desde o início. — o cara solta — Eu gostava da v***a da mãe dele, mas ela se engraçou com o meu irmão, apareceu grávida e o filho da p**a fugiu, deixando isso pra mim. Aquele menino me lembrava minha perda todos os dias.
— E você agredia a mãe dele e estuprava ele? Que tipo de homem você é? — rosno me debruçando na mesa, ficando cara a cara com ele
— O homem que tem poder. O único.
— Não. Você não é um homem. — sorrio sarcástica
— Se quiser, eu te mostro, meu bem. — seu hálito bate contra meu rosto e eu sinto um calor subir por meu corpo. Um calor de raiva, ódio e repulsa
— Sou eu quem dita as regras aqui.
— Seu namorado pode ficar com ciúme. — ele se refere ao Sonny
— Ele não vai. Acredite. Todo mundo aqui sabe que eu jamais ficaria com você.
Sorrio vitoriosa quando ele fecha a cara com raiva. Com um único movimento, ele joga a cabeça contra mim e me dá uma cabeçada no olho. Eu caio pra trás, sendo amparada pelo encosto da cadeira e Carisi o golpeia com dois socos no rosto que o desmaiam.
— Chega. — Olivia entra por uma porta e os soldados pela outra — Levem-o para a cela.
***
Me olho no espelho assim que termino de espalhar a base em meu rosto e sorrio ao ver que consegui cobri o roxo na maçã do meu rosto. A cabeçada daquele i****a deixou uma marca feia que já está mais fraca, por causa dos dias.
— Escolha uma roupa legal! — ouço a voz de Luke vindo do lado de fora do closet
— O que acha de jeans e camiseta? — digo alto para que ele possa me ouvir
— Muito simples! — ele grita de volta
— Couro? — pergunto
— Hã, eu não sei. Quer que eu ligue pra Shaune?
Ligar para a Shaune faria isso se transformar num carnaval. Digo a ele que está tudo bem e que eu vou me virar. Visto uma meia-calça preta e um vestido preto de mangas longas e na altura das minhas coxas. Calço os coturnos femininos, jogo o cabelo para o lado e visto um sobretudo vermelho. Estou diferente do dia a dia. Está bom.
Saio do closet e vejo Luke amarrando os cadarços de seus sapatos. Ele me olha e pára por alguns segundos.
— É. Conseguiu. — comenta e sorri
— Sabe quanto tempo não uso um vestido? Esse, pra ser mais exata?
— Sei bem. É o que a Shaune te deu, não é? — ele termina e se levanta
— Esse mesmo. — sorrio
— Vamos. O jogo vai ser bom.
Combinamos de encontrar o Sonny na porta do estádio, o que nos fez esperar um pouco na saída 2. Hobbs me comprou um gorro dos Patriots e me fez usá-lo. Eu me achei ridícula, mas segundo ele eu tava bem.
— Olha, quase não reconheci. — ouço a voz de Carisi e me viro na direção — Cabelos soltos, né? Tá linda. — ele sorri
— Obrigada. — sorrio sem jeito
— Você deve ser o Dominick Carisi. — Hobbs ergue a mão para cumprimentá-lo — Eu sou Luke.
— Me chame de Sonny. — ele sorri ao apertar sua mão — Prontos para o jogo?
— Prontos. — sorrio
O jogo é sofrido, mas os Patriots ganham a rodada. Eu me divirto muito com as piadas de Luke e Carisi me compra um balde de pipoca enorme. Durante o jogo, alguns palavrões são soltos, gritos e silêncio absoluto. Foi um jogaço, confesso.
Dominick "Sonny" Carisi Jr.
— Tá indo bem na sua tática. — Luke diz enquanto vejo Lucy ao longe, brigando com a máquina de refrigerante
— Desculpe, o que disse? — olho para ele
— Sei que se interessou por ela.
— Eu só quero que ela saiba que eu a respeito e que pode confiar em mim.
— Foi uma boa ideia chamá-la para sair e dizer para ela me levar.
— Não achei que ela fosse querer ficar sozinha comigo.
— Você parece ser um cara legal, Sonny. Só tenha paciência, ok?
— Ok. — sorrio
— Aquela máquina i****a ficou com meus dois dólares. — Lucy se aproxima de nós brava e acabamos rindo — Não tem graça.
— Bom, eu tenho que ir. Meu vôo sai em breve. — Luke diz ao ouvir a chamada para Los Angeles — Se cuida, Lucy. — ele a abraça
— Você também, tio Luke. Te amo.
— Te amo também. — ele se afasta dela e aperta a minha mão — Foi bom te conhecer, Sonny.
— Igualmente. — sorrio
— Avise quando chegar. — Lucy o lembra
Ficamos um tempo parados, observando Luke sumir pela área de embarque. Respiro fundo e me preparo para levá-la para casa.
— Vamos. Eu te deixo em casa.
— Eu... — ela hesita — Conheço um restaurante que faz uns tacos incríveis. Vo-você quer comer? — ela diz sem jeito
— Tem certeza que não quer ir pra casa? — faço uma careta
— Depois.
— Certo. — sorrio — Vamos comer.