★ Lucy González ★
— Nós temos uma denúncia de uma menina de quinze anos. — Rollins diz quando Carisi e eu nos aproximamos — Ao que tudo indica, ela sumiu por dois dias e apareceu num hospital. A médica que a examinou nos contactou.
— Indícios de estupro? — pergunto
— Com certeza. — ela responde
— Ela ainda está no hospital? — Olivia pergunta
— Sim. Os pais dela já chegaram no local. — Fin responde
— Eu sei que sou novato aqui, mas tem uma coisa que não se encaixa aí. — Carisi analisa coçando o lábio superior
— Abandonou o bigode, mas o bigode não abandonou você. — Amanda murmura e ri baixinho
— Se ela estava desaparecida há dois dias, por quê os pais não deram queixa? — volto a conversa para o tema importante
— É o que vamos descobrir. — Olivia murmura fechando o diálogo
***
No hospital, uma senhora baixinha com cabelos curtos está sentada com os cotovelos apoiados no joelho, enquanto um homem barrigudo de barba grande alisava seus ombros.
— Senhor e senhora Washington? — Olivia chama a atenção deles, que saltam do banco — Eu sou a sargento Olivia Benson, da Unidade de Vítimas Especiais. — ela mostra o distintivo — Estas são Lucinda González e Amanda Rollins, minhas detetives.
— Unidade de Vítimas Especiais? — a mulher franze o cenho
— Esquadrão especializado em crimes hediondos. — Amanda explica
— Estão aqui pelo que consta no exame da Erika, não estão? — senhor Washington nos olha com os olhos molhados
— Sim, senhor. Eu soube que a Erika vai ganhar alta essa tarde. Gostaria de saber se posso levá-los para a minha delegacia.
— Sim, claro! — o homem concorda com firmeza — Tudo que for necessário pra pegar o desgraçado que fez isso com ela.
— Podemos falar com ela?
— Sim. — a mãe da menina deixa
— Lucinda, venha comigo. Amanda, fique com eles.
Sigo Olivia pelo corredor e, antes de entrar na ala que a menina está, eu seguro o ombro de Olivia, fazendo-a parar e me encarar confusa.
— Algum problema? — ela parece preocupada
— Só Lucy, tudo bem? — digo sem jeito — Lucinda é... Esquisito. — coloco as mãos nos bolsos
— Te lembram dias difíceis?
— Não deveriam. Quer dizer, é o meu nome, não deveria, mas... — me engasgo com minhas próprias palavras
— Tudo bem. Eu te entendo. Também já me senti estranha ao ouvir meu próprio nome. — ela afaga meu braço carinhosamente — Só não deixe que domine você.
Faço um aceno positivo com a cabeça e então voltamos a caminhar. Dentro do quarto do hospital, a menina estava destruída. Tinha hematomas pelo rosto, um braço na tipóia e cara de quem escapou da morte. Ela me fez lembrar da Lucy de anos atrás. Coitada!
— Oi, Erika. — Olivia diz ao se aproximar dela — Eu sou a Olivia e essa é a Lucy. Nós queremos dar uma palavrinha com você.
— Vocês são a polícia? — a menina diz assustada
— Sim, querida. Nós somos.
Olivia se apóia na cama, ao lado dela e eu fico parada com as mãos nos bolsos perto da porta.
— Quer me contar o que aconteceu?
— Ele era horrível. — a menina começa a chorar
— Sh! Se acalma. — Olivia segura a mão da menina, passando apoio
— Ele é mediano, uns trinta e tantos anos, branco, cabelos e barba ruiva. — ela solta
— Certo. — Olivia olha pra mim como se dissesse para que eu me atentasse aos detalhes — Lembra de mais alguma coisa? Como podemos encontrá-lo.
— Eu ouvi um homem de uns vinte anos o chamar de Barth.
— Tinha mais de um?
— Eu só vi esses dois.
— Como o mais novo era?
— n***o, cabelos pintado de loiro. Usava uma camisa rasgada do Chicago Bulls.
— Lembra-se de mais alguma coisa?
— Estávamos num lugar sujo no Bronx. Era num hotel furreco. — ela faz uma careta — Número 743.
— Como você chegou ao Bronx?
Quando Olivia faz essa pergunta, a menina começa a chorar ainda mais e a se remexer na cama. Eu franzo o cenho por achar que ela está escondendo algo, mas permaneço calada.
— Ei, tudo bem. Uma coisa de cada vez. — Olivia a acalma e me olha — Lucy, encontra o Carisi e o Tutuola no local.
— Sim, senhora. — digo ao vê-la digitar algo no celular, provavelmente avisando os detetives para estarem lá
— É Liv. — ela sorri fraco para mim — Vai.
***
— A equipe forense revirou o quarto de hotel inteiro e nada foi achado. E, segundo os exames, o cara usou camisinha. — Fin diz quando Carisi, ele e eu chegamos à delegacia
— A equipe ainda está lá. — Carisi diz
— Já pedi câmeras de todo o quarteirão. — digo chegando ao covil e ligando a tela de plasma
— Bom trabalho, Lucy. — Benson elogia
— Tudo que a galera do TI achar, vai para essa tela. — digo tirando o celular do bolso traseiro
— Ótimo. Eu tô com os pais da garota na sala de interrogatório. — Amanda diz — Eles disseram que a filha é viciada em drogas e vive sumindo de casa. O cara que estava com ela é Bartholomeu Jones, quarenta e sete anos, traficante de drogas e de armas. Há registro de conexão dele com Johnny D.
— Merda! — Carisi murmura
— Esse cara de novo? — Fin franze o cenho
— Sei que sou nova nisso, mas... — ergo o dedo — Quem é Johnny D?
— Johnny Drake é um traficante de mulheres que escorrega por nossas mãos com mais facilidade que areia. — Olivia explica
— Merda! — murmuro — Achamos o que levou Erika ao Bronx.
— Não precisamos das imagens. — Carisi diz
— Precisamos para confirmar que ele encarcerou ela. — Olivia alerta e o saguão se agita
— Pegaram o comparsa dele. — Amanda diz e nós vemos o jovem ser arrastado pelos policiais para a cela
— Sargento. — um soldado se aproxima — Ele não é fácil.
— Precisamos fazê-lo falar. — Olivia passa a mão no rosto
— Dois minutos comigo e ele canta como um passarinho. — me ofereço
— Sem agressão, Lucy. — ela me olha
— Não tô falando de agressão. Levanta a ficha dele pra mim e me dá um tempo com ele, sargento.
Ela me olha e franze o cenho, mas logo solta um suspiro alto e acena positivamente com a cabeça.
Esse é meu momento.
***
— Oi. — entro na sala de interrogatório — Eu sou a Lucy e você?
— Eu não vou abrir o bico.
Me aproximo dele e puxo uma cadeira, ficando de frente para ele. Eu o observo por um tempo. Apesar dos cabelos pintados ridiculamente de loiro, ele é um rapaz bonito.
— Tudo bem, Tom. Eu só queria descontrair.
— Eu não vou abrir o bico. — repete
— Olha, Tom, nós temos uma menina aí que tá acusando o Barth de estupro. Ela diz que você também se aproveitou dela.
— Isso é mentira! — ele diz nervoso
— É o que ela diz.
— A palavra de uma viciada vale mais?
— Vale. — confirmo com a cabeça — Pra mim, vale muito. Eu tô me segurando pra não te dar uma surra.
— Vá em frente, boneca.
Eu respiro fundo e fecho os olhos. Essa palavra direcionada a mim me lembra de outros momentos.
Dominick Carisi Jr. — Sonny
Prendo a respiração quando o cara a chama de boneca e ela treme, parecendo se controlar ao se lembrar de alguma coisa.
— Péssima ideia. — Barba põe as mãos na cintura — Liv, tira ela de lá.
— Deixa ela lá. Eu confio nela. — Liv diz firme
— Vamos, Lucy. — murmuro
Ela abre os olhos e encara o cara.
— Olha, Tom, se você me disser como encontrar o Barth e o que aconteceu de verdade, podemos conseguir um acordo pra você. — graças a escuta, consigo ouví-la com detalhes e notar a oscilação de sua voz
— Eu não posso falar nada.
— Não pode por ser um sigilo entre pai e filho? — ela joga a primeira bomba com a voz mais firme
— Eu não sei do que você está falando. — ele abaixa a cabeça
— Como foi? Ele estuprou sua mãe também?
Um silêncio se faz dentro da sala e, do lado de fora, todos nos esprememos no vidro pra não perder nenhum detalhe do que acontece lá dentro.
— Vai com calma, Lucy. — Liv murmura — Você tá indo bem.
— O que você sabe sobre isso?
— Mais do que gostaria, acredite. — ela cruza as mãos em cima da mesa e lhe lança um olhar misterioso — Ele também estuprou sua mãe, Tom?
— Todos os dias durante esses vinte anos. E todos os dias anteriores também. — ele desabafa
— Ok. Já conseguimos alguma coisa. — Barba diz prestando atenção
— Essa menina é boa. — Amanda diz de braços cruzados
— Podemos denunciá-lo, Tom.
— Não podemos.
— Eu protejo sua mãe e sua irmã.
— Você não pode protegê-las dele.
— Eu não costumo prometer coisas que não posso cumprir. Sei que sua mãe está na clínica agora com sua irmã. Sei também que você deve ter dado o dinheiro pra ela, porque é uma clínica bem cara. — ele a olha confuso e acuado. Ela se mantém firme — Eu tenho dois dos meus melhores homens na porta da clínica.
— Isso é verdade? — Barba pergunta
— Não. — Fin responde
— Eu só sou aviãozinho dele. Faço as entregas. — o cara abre o bico — Eu fui dizer que um cara me deu o calote quando vi a menina jogada na cama.
— Não fez nada para ajudá-la?
— Se eu me metesse nisso, minha mãe ia sofrer depois.
Ela se debruça na mesa e o encara séria.
— Onde eu posso encontrá-lo, Tom?
— Vocês vão cuidar delas? — ele a olha
— Você tem a minha palavra.
— O apartamento dele fica na rua atrás do puleiro que vocês foram. Mas essa hora ele deve estar escolhendo sua próxima vítima. Ele vende perto de uma escola.
— Que escola?
Enquanto Lucy anota o endereço, eu escolho uma patrulha para ir de encontro à mãe do marginal. Liv dá o sinal e Lucy sai da sala prometendo que tudo está sob controle.
— Já enviaram a escolta pra clínica? — ela pergunta quando fecha a porta
— Sim. Você foi muito bem, Lucy. — Olivia diz
— Vamos pegar o desgraçado. — ela diz firme pra sargento
Enquanto demoro dez minutos pra me equipar, Lucy já está equipada e parecendo o Robocop de tanta coisa que carrega junto de si. Ela se aproxima de mim.
— Ajuda? — pergunta
— Claro. — paro de me ajeitar — Como coloca isso tão rápido?
— Na pressão, a gente tem que se virar. — ela aperta o colete em mim — Prontinho. — se afasta
— Obrigado. — sorrio para ela — Precisa mesmo de três pistolas?
— Queria mesmo carregar um fuzil. — ela dá de ombros rindo e eu acabo rindo também
Lucy vai dirigindo a viatura em que estou. Rollins e Fin estão no banco de trás. Ela costura as ruas de Nova York até o subúrbio com um misto de rapidez e segurança. Ela dirige muito bem.
Quando chegamos na ruela onde o tal Barth vende, ela derrapa e já sai do carro com uma pistola em mãos. Fin, Rollins e eu vamos juntos com ela e vemos a agitação se formar no lugar. Os soldados da polícia que nos acompanham começam a cercar o lugar.
— O filho da p**a está ali. — Lucy rosna apontando pra onde ele se encontra
— Bartholomeu Jones! — grito — Você está preso! — miro minha arma nele
— Nem fodendo! — ele grita e corre
Um tiroteio começa com os comparsas do meliante para encobrir sua fuga. Nós quatro nos escondemos atrás de um carro e então Lucy debruça no capô, atirando de volta.
— Ele deve estar indo pro beco sem saída. — Fin diz — O carro de fuga dele deve estar lá.
— Alguém mais aguenta correr até lá? — Lucy olha para nós e vejo a adrenalina em seus olhos
— Vai na frente, novata. — Fin diz pegando o rádio e ela sai correndo
— Ela vai ficar se gabando? — Amanda murmura
— Atenção! — Fin diz no rádio — No beco sem saída! Beco sem saída!
— Positivo, detetive. — um dos soldados responde
— Vamos. — eu vou pelo caminho que Lucy tomou
— Será que ela pega ele? — Amanda pergunta vindo atrás
— Aposto dez pratas. — Fin diz vindo também
Na entrada do beco eu vejo os soldados apontando suas armas na direção do carro onde Barth se encontra. Lucy está mais a frente parada na reta do motor potente.
— Você está cercado! — ela grita — Renda-se!
— O cara não tem pra onde ir. — digo quando ouço o barulho da aceleração do motor
— Ele vai querer passar por cima de todo mundo? — Amanda franze o cenho
— Isso não é bom. — Fin murmura
O cara solta a embreagem e então o carro acelera na direção de Lucy e então a louca tira uma pistola do coldre. Tudo acontece muito rápido. Lucy corre na direção em que o carro vem e dá impulso, subindo no capô do mesmo e disparando três tiros. Ela voa belo teto do carro e rola até cair no chão. O carro desvia e bate no poste, parando. Eu corro para Lucy enquanto os soldados vão ver o que aconteceu com Barth. Ele tem dois tiros no ombro.
— Você é doida? — Amanda pergunta ofegante quando chega até a mulher deitada no chão
— Me deve dez pratas. — Fin a lembra
★ Lucy González ★
Tou três batidinhas na porta e espero em silêncio, apertando meu sobretudo em meu corpo. Enquanto a porta não é aberta eu penso se fiz bem em aceitar esse convite. Olho para os meus pés e vejo os tênis brancos em destaque com a calça jeans de lavagem clara, a blusa branca de botões e o sobretudo preto. Ainda pareço alguém que vai trabalhar.
Dou um passo para trás, para me afastar e ir embora, mas então a porta se abre. A cena me assusta. Carisi está sorridente, usando jeans e camiseta e está com um bebê no colo.
— Oi. — ele sorri
— Desculpe a demora, Lucy! — ouço a voz de Liv de lá de dentro
— Foi m*l. Liv está cozinhando. — Carisi se desculpa — Entra. — ele dá espaço
Eu dou um sorriso simples e caminho para dentro do apartamento, parando no hall de entrada. A sala está cheia de brinquedos, garrafas de cerveja e um cara que não conheço sentado no sofá e passeando pelo menu de música.
— Oi! — Fin acena para mim de onde ele está, que é sentado numa banqueta na ilha da cozinha
— Olha ela aí. — Amanda sorri servindo uma menininha de provavelmente um aninho de suco
— Lucy, esse é o Nicky Amaro, nosso amigo. — Olivia diz — Ele era do nosso esquadrão também.
— Oi! É bom te conhecer. — o cara do sofá sorri para mim
— Oi. — aceno tímida
— Pendura seu casaco. — Liv diz mexendo em alguma coisa numa tigela
Com a mão livre, Carisi me ajuda a tirar o casaco e então eu o penduro no cabide onde os outros estão. Sinto uma mãozinha no meu cabelo.
— Ei, rapazinho. — Sonny diz tirando a mãozinha do menino dos meus fios — Sei que ela é bonita de cabelo solto, mas não pode. — ele ri — Esse aqui é o Noah.
— Oi, Noah. — sorrio para ele e ele bate palminhas sorrindo
— Oi, filho. — Liv se aproxima — Gostou da Lucy? Foi? — ela pega o menino do colo do Sonny — Que bom, porque ela faz parte da família agora.