Coincidências

2216 Palavras
★ Lucy González ★ Carisi abriu a porta do meu apartamento e, no piloto automático, eu entrei caminhando devagar. Tirei a jaqueta, as botinas, larguei o revólver no sofá e segui para o banheiro, ouvindo Sonny dizer algo sobre comermos. Já passam das quatro da manhã e eu sinto o peso do mundo em minhas costas. Liv me deu três dias de folga, o que me faz voltar apenas na terça-feira. Já no banheiro, eu me livro das roupas e encho a banheira com água quente. Quando entro, sinto meu corpo protestar contra a temperatura, mas com o passar dos minutos, a água esfria. — Lucy! A voz de Sonny soa abafada e longe. Eu prendo a respiração e afundo na banheira, sentindo a água me cobrir por inteiro. Quanto tempo faz que eu estou aqui? Talvez muitos minutos. De olhos abertos sob a água, eu vejo as mãos do meu namorado tocarem meus ombros e me puxarem pra cima. Respiro fundo e me sento direito, sentindo as mãos de Sonny tirando o cabelo molhado do meu rosto. — Eu sei que não devia perguntar, mas você está bem? — ele olha em meus olhos e eu abraço meus joelhos — Exausta. — Eu fiz uns sanduíches. — Você ficaria chateado se eu não comesse agora? — eu o olho — Podemos comer quando acordarmos? Se conseguirmos dormir. — Tudo bem. — ele sorri compreensivo e acaricia meu rosto — Você quer que eu vá embora? — Não. Quero você comigo. Por favor. — peço com os olhos cheios — Ei, se acalme. — ele beija a minha testa — Vem. Sonny me ajuda a sair da banheira e eu me visto com um pijama de flanela xadrez azul. Enquanto ele entra pra tomar banho, eu seco os cabelos com o secador apenas por cima e empresto um dos meus pijamas pra ele. Juntos, nós nos deitamos abraçados na minha cama e ficamos observando o teto bem trabalhado do apartamento. — Quando eu tinha cinco anos, meu pai me deu uma fantasia de abelhinha. Com direito a asas e tudo. — quebro o silêncio — Todas as minhas fotos daquele ano eu estou vestida daquele jeito. Até que, um dia, ela sumiu. Meu pai disse que ela voou e foi embora. Quando eu tinha oito anos, achei ela escondida numa caixa da garagem. Acabo sorrindo com a lembrança. Quando eu tinha oito anos, descobri também que tudo que o papai precisava esconder ele dava um jeito de esconder ou na garagem ou na oficina. Ele não sabia que eu sabia. Ou talvez soubesse. “  — Olha o que o papai trouxe pra você, minha abelhinha. — ele sorri me mostrando uma fantasia nova — Pai, já tenho oito anos. Não posso sair fantasiada de abelha. — Mas você adorava quando era mais nova. — E o senhor escondeu porque não me aguentava mais usando isso em todos os lugares.  ” Suspiro nostálgica enquanto sorrio com a lembrança. Me agarro ao braço exposto de Sonny e apóio meu queixo em seu ombro, fechando os olhos. Por mais esquisito que pareça, estar assim com ele não é constrangedor. É inexplicavelmente confortável. — Dos meus oito aos dezessete anos eu quis ser padre. Abro os olhos na mesma hora em que escuto isso e ergo a cabeça o encarando séria. Ele me olha sorrindo e passa o braço por mim, me abraçando. Eu me apóio em seu peito. — Você tá falando sério? — franzo o cenho — Sim. — ele sorri — Eu sabia que você era religioso, mas não desse jeito. — digo chocada — Por que desistiu? — Descobri que não era a minha vocação. — ele dá de ombros — Mas continuo indo na igreja com frequência. — Assiste todas as missas? — Todas que posso. — Achei que você só fosse aos domingos. — No meio da semana, quando saio mais cedo e nós não estamos juntos, eu apareço na igreja. E você? Tem religião? — Todos os domingos eu estava na igreja com meu pai, os amigos dele e a Shaune. Depois a gente tinha um almoço. Eu fiz catequese, participava de grupos da igreja. Mas depois dos meus dezesseis, perdi o hábito. — Por conta do que aconteceu? — ele pergunta sério — Você disse hoje que Deus te abandonou. Acha mesmo isso? — Achava. Agora tenho minhas dúvidas. — sorrio — Uma benção como vocês só pode ter sido enviado por alguém muito especial. — Fico feliz que esteja disposta a tentar de novo. — ele sorri — Estar numa igreja ainda é complicado, me traz muitas lembranças. Acho que não piso numa igreja desde... — franzo o cenho pensativa — Não sei. Desde antes de sair do DSS. — Quando quiser ir, seria uma honra te levar onde minha família e eu vamos. — Será que eu sou digna da família Carisi? — Eles vão amar você. — Por que? — Porque você me faz feliz. E eu amo você. — ele me faz sorrir e eu lhe roubo um selinho — Você tá mais tranquila. — É porque me sinto confortável com você. Principalmente depois que... Bom, você sabe. — dou de ombros sem jeito — Quer conversar sobre isso? — Eu fiz isso por mim. Eu tenho tido... Sonhos assim com você há um tempo. Eu sinto minhas bochechas esquentarem, mas permaneço olhando Carisi nos olhos. Ele sorri e passa a mão em meu rosto, num gesto de carinho. — Eu te amo. — diz sorrindo — Obrigada por tudo. — sorrio e o beijo *** Foram quatro dias jogando videogame, assistindo séries e me enchendo de porcaria. A verdade é que eu já não aguentava mais ficar em casa. Liv me deu quinta, sexta e segunda-feira, mas na sexta mesmo eu já estava surtando. Segunda-feira o sol amanheceu mais fraco. Sinal de que o outono estava enfraquecendo e que logo o inverno chegaria. Eu me levantei junto com Sonny e, enquanto ele tomava banho e se ajeitava, eu fiz um café da manhã especial pra ele. Quer dizer, nem tão especial assim, mas ele disse que a salada de frutas, o iogurte e o café estavam ótimos. — Que merda eu vou fazer hoje? — resmungo lavando a louça — É só mais um dia, relaxa. — Sonny diz vestindo o paletó — Pode ir fazer compras. — Não. — reviro os olhos — Quer que eu ligue pra minha irmã e fale pra ela te chamar pra sair? — A gente nem se conhece, Sonny. — Por que não vai ao parque? Tomar um ar, observar as crianças. Sei lá. — Isso é tedioso. — faço birra e ele se aproxima — Existe vida fora do trabalho. Já vou indo. Se cuida. — me dá um selinho — Te amo. Eu fico parada, atrás do balcão da cozinha observando-o pegar o sobretudo marrom claro atrás da porta e sair do meu apartamento. De onde estou, olho pela janela e observo o céu azul com nuvens. Passo o olhar para a minha cama bagunçada, onde Sonny e eu nos amamos algumas vezes durante esses dias. Sorrio travessa e saio correndo para o meu closet. Dominick “Sonny” Carisi Jr. — Cara, eu sinto falta da Lucinda. — Fin murmura adoçando seu café — Dela ou dos cafés que ela traz? — Amanda implica rindo — Você sabe do que eu tô falando. — Fin se defende — Eu gosto dela. De verdade. — Sinto falta dela aqui na delegacia. — murmuro tomando meu café — Você tá praticamente morando com ela. — Rollins me encara de cenho franzido — Aliás, espero que essa paixão toda continue depois de um tempo. Vocês estão juntos o tempo todo. Literalmente. — Não jogue uruca no meu relacionamento, Rollins. — a olho feio — Certo. Vamos trabalhar. — Fin encerra a conversa — Já são oito e meia. Juntos, Amanda, Fin e eu saímos da copa e vamos para o salão principal da delegacia, onde vemos Olivia conversando com Dodds. Ela sorri e ergue o olhar para o elevador. Seu sorriso dá lugar a uma expressão surpresa. Eu olho na direção e vejo Lucy entrando na delegacia com um copo de café numa mão e segurando o celular na orelha com a outra. — Ela não deveria voltar amanhã? — Amanda questiona — Foi o que eu disse na sexta. — dou de ombros — Ela tá surtando. — C'mon, Ryan. — Lucy se aproxima revirando os olhos — Não dá pra eu sair de Nova York essa semana. Diferente dos outros dias, seus cabelos estavam soltos e jogados para o lado esquerdo. Dava a ela um ar ainda mais jovem e contrastava com o look durão que ela usava: jeans escuros, botas de cano curto pretas, blusa preta de gola V e sobretudo preto. Todo o esquadrão fica em silêncio observando-a. Ela pára diante de sua mesa, mas não nos olha. — Ok, Ryan. Estou na delegacia agora. A gente conversa depois. Mande um beijo pra Melanie e Lila. — ela fica em silêncio uns segundos — Tá bom, eu te amo também. — reviro os olhos — Tchau. — ela desliga a ligação e então nos olha — Bom dia, squad! — Você ainda tem um dia em casa. — Liv diz — Sou mais útil aqui do que em casa. — Eu quero que você fique bem pra voltar. — Liv vai até ela preocupada — Quer que eu fique bem? Então me deixa voltar agora. Por favor, tê. — ela apela para o apelido que eu dei para a patente da tenente — Lucy, existe vida fora desse esquadrão. — Liv diz sorrindo — Além do mais, a gente dá conta. — Eu apóio o retorno da novata. — Fin brinca — Faltam uns quatro meses pra eu fazer um ano aqui, Fin. Não sou mais novata. — Você e o Carisi ainda são. — Amanda implica — Lucy, pra casa. Por favor. — Liv diz firme — Chatos. — ela revira os olhos Ela joga beijos no ar e se vira pra sair. Eu fico observando suas pernas no jeans apertado, até que as portas do elevador se abrem e um menino de aparentemente quatorze anos surge assustado. Quando ele vê a Lucy, ele a abraça apertado chorando e ela franze o cenho olhando para trás, para nós. Olivia se aproxima dos dois. — Ei, querido. Ei. — Lucy diz mexendo em seus cabelos — O que aconteceu, querido? — Liv acaricia seu ombro — Levaram a minha irmã. — o menino diz desesperado — Por favor, me ajudem. *** — Aqui, Rafael. — digo lhe dando uma garrafinha de água e me sentando — Você me disse que estava indo deixá-la na escola e então...? — Lucy pergunta para ele, que só ficou à vontade com ela para falar, o que fez Olivia acabar aceitando-a aqui antes do prazo de descanso dela terminar — Sophie segurava minha mão e pulava animada. Deus! Ela sempre acorda muito animada. — ele diz com os olhos cheios de lágrimas e Lucy segura sua mão para confortá-lo — Ela me pediu bala, quando passamos em frente à banca aqui perto. Eu disse que compraria, mas que ela não poderia contar para a mamãe, porque não é bom comer doce de manhã. — Sabe dizer se a banca estava cheia? — eu pergunto — Tinham duas moças, mas elas saíram assim que eu me aproximei. Foi questão de segundos. Eu pedi as balas e ouvia Sophie cantarolando a música de Frozen, ao meu lado. De repente, ela parou de cantar. Quando me virei, um homem alto estava segurando ela. Ele a levou pra dentro de um furgão preto e arrancou com tudo. — Tinha outro no volante, então? — Sim. Quando o carro arrancou, ele ainda nem tinha batido a porta. Anoto os detalhes no meu bloco enquanto Lucy tenta acalmar o menino. — Você viu a placa? — ela pergunta — Não. Eu só comecei a chorar e vim correndo pra cá. — ele seca os olhos com a manga do moletom — Seu sotaque é diferente. — comento — Sou da República Dominicana. Minha família e eu estamos aqui há quatro anos. — Eu também sou da República Dominicana. — Lucy sorri — É minha culpa. — ele se lamenta choroso — Eu não devia ter soltado a mão dela. — Não, querido. — Lucy o conforta — Não pense assim, Rafael. — digo ao vê-lo em desespero — Nós já ligamos para sua mãe. Ela já está vindo. — Me desculpe pela forma que cheguei. — ele olha para minha namorada — Você é muito parecida com minha mãe. Os cabelos, os olhos. Foi bom ver um rosto familiar. Eu não pensei, só me joguei em você. — Não se desculpe. — Lucy sorri gentil — Usted es un muchacho muy valiente, Rafael. Le prometo que encontraremos a su hermana. Não tenho fluência em espanhol, mas tenho quase certeza de que ela o chamou de corajoso e prometeu que encontraremos Sophie. Respiro fundo e olho para o menino que volta a chorar, com a cabeça sobre a mesa. Lucy acaricia seus cabelos e me olha preocupada.
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