★ Lucy González ★
Carisi abriu a porta do meu apartamento e, no piloto automático, eu entrei caminhando devagar. Tirei a jaqueta, as botinas, larguei o revólver no sofá e segui para o banheiro, ouvindo Sonny dizer algo sobre comermos. Já passam das quatro da manhã e eu sinto o peso do mundo em minhas costas. Liv me deu três dias de folga, o que me faz voltar apenas na terça-feira.
Já no banheiro, eu me livro das roupas e encho a banheira com água quente. Quando entro, sinto meu corpo protestar contra a temperatura, mas com o passar dos minutos, a água esfria.
— Lucy!
A voz de Sonny soa abafada e longe. Eu prendo a respiração e afundo na banheira, sentindo a água me cobrir por inteiro. Quanto tempo faz que eu estou aqui? Talvez muitos minutos.
De olhos abertos sob a água, eu vejo as mãos do meu namorado tocarem meus ombros e me puxarem pra cima. Respiro fundo e me sento direito, sentindo as mãos de Sonny tirando o cabelo molhado do meu rosto.
— Eu sei que não devia perguntar, mas você está bem? — ele olha em meus olhos e eu abraço meus joelhos
— Exausta.
— Eu fiz uns sanduíches.
— Você ficaria chateado se eu não comesse agora? — eu o olho — Podemos comer quando acordarmos? Se conseguirmos dormir.
— Tudo bem. — ele sorri compreensivo e acaricia meu rosto — Você quer que eu vá embora?
— Não. Quero você comigo. Por favor. — peço com os olhos cheios
— Ei, se acalme. — ele beija a minha testa — Vem.
Sonny me ajuda a sair da banheira e eu me visto com um pijama de flanela xadrez azul. Enquanto ele entra pra tomar banho, eu seco os cabelos com o secador apenas por cima e empresto um dos meus pijamas pra ele. Juntos, nós nos deitamos abraçados na minha cama e ficamos observando o teto bem trabalhado do apartamento.
— Quando eu tinha cinco anos, meu pai me deu uma fantasia de abelhinha. Com direito a asas e tudo. — quebro o silêncio — Todas as minhas fotos daquele ano eu estou vestida daquele jeito. Até que, um dia, ela sumiu. Meu pai disse que ela voou e foi embora. Quando eu tinha oito anos, achei ela escondida numa caixa da garagem.
Acabo sorrindo com a lembrança. Quando eu tinha oito anos, descobri também que tudo que o papai precisava esconder ele dava um jeito de esconder ou na garagem ou na oficina. Ele não sabia que eu sabia. Ou talvez soubesse.
“ — Olha o que o papai trouxe pra você, minha abelhinha. — ele sorri me mostrando uma fantasia nova
— Pai, já tenho oito anos. Não posso sair fantasiada de abelha.
— Mas você adorava quando era mais nova.
— E o senhor escondeu porque não me aguentava mais usando isso em todos os lugares. ”
Suspiro nostálgica enquanto sorrio com a lembrança. Me agarro ao braço exposto de Sonny e apóio meu queixo em seu ombro, fechando os olhos. Por mais esquisito que pareça, estar assim com ele não é constrangedor. É inexplicavelmente confortável.
— Dos meus oito aos dezessete anos eu quis ser padre.
Abro os olhos na mesma hora em que escuto isso e ergo a cabeça o encarando séria. Ele me olha sorrindo e passa o braço por mim, me abraçando. Eu me apóio em seu peito.
— Você tá falando sério? — franzo o cenho
— Sim. — ele sorri
— Eu sabia que você era religioso, mas não desse jeito. — digo chocada — Por que desistiu?
— Descobri que não era a minha vocação. — ele dá de ombros — Mas continuo indo na igreja com frequência.
— Assiste todas as missas?
— Todas que posso.
— Achei que você só fosse aos domingos.
— No meio da semana, quando saio mais cedo e nós não estamos juntos, eu apareço na igreja. E você? Tem religião?
— Todos os domingos eu estava na igreja com meu pai, os amigos dele e a Shaune. Depois a gente tinha um almoço. Eu fiz catequese, participava de grupos da igreja. Mas depois dos meus dezesseis, perdi o hábito.
— Por conta do que aconteceu? — ele pergunta sério — Você disse hoje que Deus te abandonou. Acha mesmo isso?
— Achava. Agora tenho minhas dúvidas. — sorrio — Uma benção como vocês só pode ter sido enviado por alguém muito especial.
— Fico feliz que esteja disposta a tentar de novo. — ele sorri
— Estar numa igreja ainda é complicado, me traz muitas lembranças. Acho que não piso numa igreja desde... — franzo o cenho pensativa — Não sei. Desde antes de sair do DSS.
— Quando quiser ir, seria uma honra te levar onde minha família e eu vamos.
— Será que eu sou digna da família Carisi?
— Eles vão amar você.
— Por que?
— Porque você me faz feliz. E eu amo você. — ele me faz sorrir e eu lhe roubo um selinho — Você tá mais tranquila.
— É porque me sinto confortável com você. Principalmente depois que... Bom, você sabe. — dou de ombros sem jeito
— Quer conversar sobre isso?
— Eu fiz isso por mim. Eu tenho tido... Sonhos assim com você há um tempo.
Eu sinto minhas bochechas esquentarem, mas permaneço olhando Carisi nos olhos. Ele sorri e passa a mão em meu rosto, num gesto de carinho.
— Eu te amo. — diz sorrindo
— Obrigada por tudo. — sorrio e o beijo
***
Foram quatro dias jogando videogame, assistindo séries e me enchendo de porcaria. A verdade é que eu já não aguentava mais ficar em casa. Liv me deu quinta, sexta e segunda-feira, mas na sexta mesmo eu já estava surtando.
Segunda-feira o sol amanheceu mais fraco. Sinal de que o outono estava enfraquecendo e que logo o inverno chegaria. Eu me levantei junto com Sonny e, enquanto ele tomava banho e se ajeitava, eu fiz um café da manhã especial pra ele. Quer dizer, nem tão especial assim, mas ele disse que a salada de frutas, o iogurte e o café estavam ótimos.
— Que merda eu vou fazer hoje? — resmungo lavando a louça
— É só mais um dia, relaxa. — Sonny diz vestindo o paletó — Pode ir fazer compras.
— Não. — reviro os olhos
— Quer que eu ligue pra minha irmã e fale pra ela te chamar pra sair?
— A gente nem se conhece, Sonny.
— Por que não vai ao parque? Tomar um ar, observar as crianças. Sei lá.
— Isso é tedioso. — faço birra e ele se aproxima
— Existe vida fora do trabalho. Já vou indo. Se cuida. — me dá um selinho — Te amo.
Eu fico parada, atrás do balcão da cozinha observando-o pegar o sobretudo marrom claro atrás da porta e sair do meu apartamento. De onde estou, olho pela janela e observo o céu azul com nuvens. Passo o olhar para a minha cama bagunçada, onde Sonny e eu nos amamos algumas vezes durante esses dias. Sorrio travessa e saio correndo para o meu closet.
Dominick “Sonny” Carisi Jr.
— Cara, eu sinto falta da Lucinda. — Fin murmura adoçando seu café
— Dela ou dos cafés que ela traz? — Amanda implica rindo
— Você sabe do que eu tô falando. — Fin se defende — Eu gosto dela. De verdade.
— Sinto falta dela aqui na delegacia. — murmuro tomando meu café
— Você tá praticamente morando com ela. — Rollins me encara de cenho franzido — Aliás, espero que essa paixão toda continue depois de um tempo. Vocês estão juntos o tempo todo. Literalmente.
— Não jogue uruca no meu relacionamento, Rollins. — a olho feio
— Certo. Vamos trabalhar. — Fin encerra a conversa — Já são oito e meia.
Juntos, Amanda, Fin e eu saímos da copa e vamos para o salão principal da delegacia, onde vemos Olivia conversando com Dodds. Ela sorri e ergue o olhar para o elevador. Seu sorriso dá lugar a uma expressão surpresa. Eu olho na direção e vejo Lucy entrando na delegacia com um copo de café numa mão e segurando o celular na orelha com a outra.
— Ela não deveria voltar amanhã? — Amanda questiona
— Foi o que eu disse na sexta. — dou de ombros — Ela tá surtando.
— C'mon, Ryan. — Lucy se aproxima revirando os olhos — Não dá pra eu sair de Nova York essa semana.
Diferente dos outros dias, seus cabelos estavam soltos e jogados para o lado esquerdo. Dava a ela um ar ainda mais jovem e contrastava com o look durão que ela usava: jeans escuros, botas de cano curto pretas, blusa preta de gola V e sobretudo preto.
Todo o esquadrão fica em silêncio observando-a. Ela pára diante de sua mesa, mas não nos olha.
— Ok, Ryan. Estou na delegacia agora. A gente conversa depois. Mande um beijo pra Melanie e Lila. — ela fica em silêncio uns segundos — Tá bom, eu te amo também. — reviro os olhos — Tchau. — ela desliga a ligação e então nos olha — Bom dia, squad!
— Você ainda tem um dia em casa. — Liv diz
— Sou mais útil aqui do que em casa.
— Eu quero que você fique bem pra voltar. — Liv vai até ela preocupada
— Quer que eu fique bem? Então me deixa voltar agora. Por favor, tê. — ela apela para o apelido que eu dei para a patente da tenente
— Lucy, existe vida fora desse esquadrão. — Liv diz sorrindo — Além do mais, a gente dá conta.
— Eu apóio o retorno da novata. — Fin brinca
— Faltam uns quatro meses pra eu fazer um ano aqui, Fin. Não sou mais novata.
— Você e o Carisi ainda são. — Amanda implica
— Lucy, pra casa. Por favor. — Liv diz firme
— Chatos. — ela revira os olhos
Ela joga beijos no ar e se vira pra sair. Eu fico observando suas pernas no jeans apertado, até que as portas do elevador se abrem e um menino de aparentemente quatorze anos surge assustado. Quando ele vê a Lucy, ele a abraça apertado chorando e ela franze o cenho olhando para trás, para nós. Olivia se aproxima dos dois.
— Ei, querido. Ei. — Lucy diz mexendo em seus cabelos
— O que aconteceu, querido? — Liv acaricia seu ombro
— Levaram a minha irmã. — o menino diz desesperado — Por favor, me ajudem.
***
— Aqui, Rafael. — digo lhe dando uma garrafinha de água e me sentando
— Você me disse que estava indo deixá-la na escola e então...? — Lucy pergunta para ele, que só ficou à vontade com ela para falar, o que fez Olivia acabar aceitando-a aqui antes do prazo de descanso dela terminar
— Sophie segurava minha mão e pulava animada. Deus! Ela sempre acorda muito animada. — ele diz com os olhos cheios de lágrimas e Lucy segura sua mão para confortá-lo — Ela me pediu bala, quando passamos em frente à banca aqui perto. Eu disse que compraria, mas que ela não poderia contar para a mamãe, porque não é bom comer doce de manhã.
— Sabe dizer se a banca estava cheia? — eu pergunto
— Tinham duas moças, mas elas saíram assim que eu me aproximei. Foi questão de segundos. Eu pedi as balas e ouvia Sophie cantarolando a música de Frozen, ao meu lado. De repente, ela parou de cantar. Quando me virei, um homem alto estava segurando ela. Ele a levou pra dentro de um furgão preto e arrancou com tudo.
— Tinha outro no volante, então?
— Sim. Quando o carro arrancou, ele ainda nem tinha batido a porta.
Anoto os detalhes no meu bloco enquanto Lucy tenta acalmar o menino.
— Você viu a placa? — ela pergunta
— Não. Eu só comecei a chorar e vim correndo pra cá. — ele seca os olhos com a manga do moletom
— Seu sotaque é diferente. — comento
— Sou da República Dominicana. Minha família e eu estamos aqui há quatro anos.
— Eu também sou da República Dominicana. — Lucy sorri
— É minha culpa. — ele se lamenta choroso — Eu não devia ter soltado a mão dela.
— Não, querido. — Lucy o conforta
— Não pense assim, Rafael. — digo ao vê-lo em desespero — Nós já ligamos para sua mãe. Ela já está vindo.
— Me desculpe pela forma que cheguei. — ele olha para minha namorada — Você é muito parecida com minha mãe. Os cabelos, os olhos. Foi bom ver um rosto familiar. Eu não pensei, só me joguei em você.
— Não se desculpe. — Lucy sorri gentil — Usted es un muchacho muy valiente, Rafael. Le prometo que encontraremos a su hermana.
Não tenho fluência em espanhol, mas tenho quase certeza de que ela o chamou de corajoso e prometeu que encontraremos Sophie.
Respiro fundo e olho para o menino que volta a chorar, com a cabeça sobre a mesa. Lucy acaricia seus cabelos e me olha preocupada.