★ Lucy González ★
Após analisar imagens das câmeras de segurança da esquina onde a banca de doces fica, falar com o dono e com qualquer outra pessoa que estivesse por perto, não conseguimos chegar a lugar nenhum. A placa do furgão era falsa, mas a câmera conseguiu, pelo menos, captar parte do rosto do sequestrador. Ele estava todo de preto com direito a luvas e touca, mas seu rosto ela largo e tinha uma barba imensa. Deve medir um metro e noventa e pesar uns noventa quilos, talvez. Foi de partir o coração vê-lo carregando a pequena Sophie Hernandez de oito anos.
— O sistema identificou o rosto do sequestrador. — Liv diz para todos nós que estamos na sala de evidências, revendo pistas
— Isso é bom, né? — Carisi pergunta
— Ele tem passagem no México por tráfico de drogas, tráfico de armas e estupro. — Liv termina de dizer
— Seu nome é Afonso Guerrero. — Fin diz
— O que um cara como ele iria querer com Sophie? — Amanda franze o cenho
— Tráfico infantil. — digo roubando a atenção — O que foi? É uma possibilidade.
— Faz sentido. — Olivia comenta
— Fin tem olhos e ouvidos nas ruas. — Dodds comenta
— Vou ver o que consigo nas ruas. — Fin diz se levantando
— Vou com você. — Sonny diz o seguindo
— Se cuidem. — peço
— Com licença. A detetive González se encontra?
A voz suave faz com que eu desperte dos meus pensamentos e conclusões próprias. Parada na entrada do nosso ambiente de evidências, uma mulher mais baixa que eu, com longos cabelos enrolados no que suponho serem dreads, está nos olhando com o rosto assustado.
— Senhora Hernandez. — Olivia a cumprimenta
— Eu sou a detetive González. — me apresento jogando uma pasta de arquivo na mesa — Lucinda. Lucy. — forço um sorriso gentil
— Lucy, essa é Laura Hernandez, mãe de Rafael e Sophie. — Amanda nos apresenta
— Vocês não tiveram tempo de se conhecerem formalmente. — Liv diz
— Claro. Posso ajudá-la em algo?
— Encontrar a minha filha basta. — ela diz e eu respiro fundo
— Eu posso afirmar com toda certeza do mundo que estamos movendo céus e terras para isso. — digo olhando em seus olhos fundos e cansados
— Eu sei, eu só... Queria agradecer a mulher que acalentou meu filho enquanto eu não estava. — ela diz já transbordando os olhos de lágrimas
— Não precisa agradecer. — digo sem jeito — Hã, tenente, posso me ausentar uns minutos? — olho para Liv lhe transmitindo uma mensagem silenciosa
— Claro. — Liv me libera
— Por favor, querida, me acompanhe.
Toco o ombro da mulher mais baixa e a guio até a copa, onde nos sirvo com café e alguns biscoitos da máquina. Ela se senta e eu me sento de frente para ela.
— Eu nem sei o que dizer a senhora, senhora Hernandez. — sou sincera
— Me chame de Laura, por favor. — ela pede — Me desculpe. É que tá tão difícil.
— Eu nem consigo imaginar. — tiro um lencinho que Carisi me deu do bolso da calça e dou para ela — A senhora é tão forte.
— Obrigada. — agradece pegando o lenço e secando o rosto — Eu não tô conseguindo dormir. Eu passo a noite toda do lado do Rafael o observando dormir. Tenho medo que o tirem de mim também.
— Nós conseguimos um grande avanço para o primeiro dia de investigação. Em breve teremos Sophie de volta.
Ela me olha com seus olhos lacrimejantes e tristes. Aquilo corta meu coração em milhares de pedacinhos. Se fizermos silêncio, é possível ouvir o som do meu coração se partindo.
— Será? — ela pergunta hesitante e eu seguro suas mãos entre as minhas
— Eu te prometo, Laura. Eu vou colocar a sua filha nos seus braços de novo. Nem que seja a última coisa que eu faça. — lhe prometo sentindo meus olhos marejarem
— Sua mãe deve ter muito orgulho de você. — ela sorri para mim
Apesar de eu não saber se o que ela diz é verdade, eu sorrio de volta para ela, pois suas intenções são boas. Eu beijo suas mãos e depois as solto, deixando que ela tome seu café. O jeito que ela me olha é tão terno, tão afetuoso que eu, pela primeira vez desde a infância, me pergunto como seria se eu tivesse uma mãe pra se preocupar caso eu sumisse.
***
— Você tá se envolvendo demais nesse caso. — Sonny diz me servindo uma fatia de pizza
— Eu fiz uma promessa para aquela família. Não consigo nem imaginar a agonia que é pra uma mãe não ter seu filho ao seu lado. — mordo a ponta da pizza
— Isso me lembra uma coisa. Nós nunca falamos sobre a sua mãe.
— Você leu minha ficha. — digo ainda mastigando — Não conheci minha mãe e nem mesmo tenho o sobrenome dela.
— Você nunca perguntou ao seu pai? — ele pergunta comendo seu pedaço de pizza
— Uma vez. — dou de ombros — Ele me disse que ela era uma mulher muito gentil, doce e bonita. Ele queria muito ser pai e ela se ofereceu para me gerar. Eles tentaram, ela engravidou, eu nasci, ele me pegou pra ele. Não perguntei mais.
— História de doido. — Carisi murmura — Acha que é a verdade?
— Não sei, mas não vejo motivos pra mentir. — digo pensativa — Ele sorriu quando contou a história e seus olhinhos brilharam. Ele realmente gostou dela. Talvez a história não esteja completa, mas eu não ligo.
— Você tem raiva dela? — ele me olha
— Por que eu teria? — franzo o cenho — Ela me deu a vida. Não ficou comigo por alguma razão forte. Tá tudo bem.
— Jura? Não tem nem curiosidade de conhecer?
— Não sei dizer. — curvo os lábios pensativa — Se a gente se esbarrar, tudo bem. Mas procurar não está nos meus planos. — dou de ombros — Eu fui tão amada, tão bem cuidada. Não guardo magoas nem dela e nem do meu pai.
— Essa é minha garota evoluída. — ele ri
— Ha ha! — rio — Come logo, que nosso tempo de almoço já vai acabar.
Após quinze minutos, Carisi e eu caminhamos de mãos dadas até o carro e, após uma aposta de par ou ímpar, deu que eu deveria dirigir de volta pra delegacia. Antes que eu fosse para o lado do motorista, ele me roubou um beijo e eu ri ao beliscar sua barriga de leve.
Meu celular tocou e era um número desconhecido. Com o cenho franzido e vendo Carisi me observar, eu atendo a ligação com uma mão na maçaneta, pronta pra abrir a porta do carro.
— González.
— Sophie Hernandez foi vendida e está sendo levada para fora da cidade.
— Quem está falando? — pergunto ao ouvir a voz abafada
— Estão em um SUV prata tomando a rota para a saída principal para Nova Jersey. Encontrem-na!
— Alô? — pergunto ao ouvir a linha muda — Alô? — grito, mas não obtenho resposta
— O que foi? — Sonny pergunta
— Liga pra Olivia agora. — digo entrando no carro e ele entra também
Enquanto dirijo para a saída de forma rápida, explico para a Olivia por telefone o que aconteceu. Ela diz que está enviando reforços para averiguar a denúncia e vai tentar rastrear o número, mas provavelmente era um celular descartável.
Apreensiva, eu piso fundo no acelerador e, meia hora depois, encontro com as duas viaturas que Olivia mandou de reforço. Ela está no carona da SUV preta, igual a que eu dirijo, que emparelha comigo. Fin está no volante e Amanda está com Dodds no banco de trás. O semáforo fecha para veículos e eu paro bem em frente a faixa de trânsito. Do outro lado do cruzamento, uma SUV prata está parada exatamente na minha frente.
— É ele, Carisi. — digo hipnotizada
— Merda! É sim. — ele diz ao olhar e pega o rádio do carro — O suspeito está do outro lado do cruzamento e vai virar para a nossa esquerda.
— Unidades fechem o cruzamento. Suspeito na SUV prata em frente a viatura do meu esquadrão. — ouço a voz de Olivia no rádio
Do outro lado do cruzamento, o cara parece notar algo errado e eu ouço o ronco do motor de seu carro. Aperto o volante com força até que meus dedos fiquem brancos. Sinto toda a adrenalina no meu corpo.
— Sai do carro, Carisi. — minha voz soa séria, baixa e sombria
— O que você vai fazer? — ele me encara
— Sai do carro.
— Não! — diz firme
— Falta menos de um minuto pro sinal abrir. Sai do carro.
— Tenente, a Lucy tá tramando alguma coisa. — ele diz no rádio
— O que? — Olivia pergunta e eu tomo o rádio da mão dele
— Você mandou cercar o cruzamento, é o que eu vou fazer. — digo apertando o botão do rádio que permite que minha fala seja transmitida — Confie em mim, Liv. Eu fazia isso o tempo todo.
— Tenha juízo, Lucy. — ela pede
— Você ouviu, agora desce.
Me debruço sobre meu namorado e parceiro de polícia e abro a porta, o empurrando pra fora do veículo. Fecho a porta e piso fundo no acelerador, certificando-me de prender o cinto de segurança que, no calor do momento, não tinha colocado ainda. Surpreendendo, ele solta a embreagem e as viaturas vão para os lados, bloqueando sua passagem. Solto a embreagem e meu carro avança na direção do dele, o pegando de surpresa e destruindo seu plano de fuga. O capô dos nossos carros colidem e então meu corpo é jogado pra frente, fazendo com que minha cabeça bata forte contra o volante.
Com rapidez, eu tiro o cinto, puxo a pistola da minha cintura e desço do carro.
— Polícia de Nova York! — grito apontando a arma para o parabrisa dele
Ele começa a atirar contra mim e eu me abaixo ao sentir a ardência em meu ombro esquerdo. Enquanto meus colegas buscam um jeito seguro de cercá-lo, eu caminho abaixada para o outro lado do meu carro e então miro na janela dele, o acertando no ombro.
— Desce do carro! — grito de longe, tentando estar segura caso ele volte a atirar
Ele abre a porta do carro com a arma na mão e Carisi surge atrás dele, mirando sua arma nele. Ele parece furioso.
— Solte a arma agora! — Sonny grita
Cercado, o cara solta a arma e Amanda vasculha o carro enquanto Fin o algema.
— Cadê a garota? — Olivia pergunta
— Que garota? — o cara rosna
Me ponho inteiramente de pé e vou até a traseira do carro dele. Dou um tiro na fechadura e abro o porta malas, vendo a pequena Sophie de cabelos castanhos com cachos lisos me olhando assustada. Ela está deitada ali, ao lado de um cachorro morto. Ela arregala os olhos ao me ver e logo Liv e Carisi estão ao meu lado, com os soldados das outras duas viaturas. Eu sinto meu estômago embrulhar.
— Querida, está tudo bem agora. — Liv diz se abaixando e a pegando no colo
— Você tá sangrando. — Carisi diz ao olhar minha testa
Minha pistola cai da minha mão e eu sinto minha mente rodar. A ardência do tiro de raspão em meu ombro não são nada comparado ao enjôo. Eu me curvo e vomito no chão, ao lado do carro. Sonny se aproxima e segura meus cabelos na nuca.
— Me leva pra casa. — peço ofegante
— Você precisa de um médico. — ele rebate
— Eu preciso de...
Tudo parece se apagar e eu perco o controle do meu corpo antes mesmo de fechar os olhos.
Dominick “Sonny” Carisi Jr.
Com a prisão de Afonso Guerrero, Liv se viu decidida a espremer toda e qualquer informação dele sobre essa suposta quadrilha que vendeu Sophie para alguém. Com o vômito seguido de desmaio de Lucy, eu acabei ficando com ela no hospital enquanto Liv, Fin e Dodds fazem as honras com o canalha. Apesar de não aparentar machucados, Sophie foi trazida para o mesmo hospital para exames. Amanda está acompanhando a menina que está com a mãe. Seu irmão, Rafael, está sentado comigo nas cadeiras da sala de espera.
No meio do caminho, recebi uma ligação de Hobbs dizendo que chegou há poucas horas de uma missão e viu uma ligação de Lucy no histórico. Eu expliquei mais ou menos o que aconteceu até aqui e ele disse que estava vindo. Não antes de dizer o quão estranho era o que tinha acontecido.
— Você é namorado dela, não é? — ouço a voz de Rafael e olho para ele
— Como sabe?
— Os olhos dela brilham quando olham pra você. — ele ri e eu acabo rindo também — E os seus parecem luzes de natal ao olhar para ela.
— Lucy é especial. — limito-me a dizer
— Ela está grávida?
Franzo o cenho e desvio o olhar dele, encarando minhas mãos cruzadas no meio das minhas pernas. Por mais que não hajam possibilidades disso ser verdade, o frio na barriga existe.
— Não. — olho para ele — Ela não está.
— Espero que ela acorde logo. — ele diz observando o relógio na parede
— Sua família ficou bem próxima dela. Sua mãe também gostou bastante dela. — comento — Lucy também gostou muito de vocês.
— Ela trouxe a minha irmãzinha de volta. Nós nunca teremos como agradecer. Nem a ela, nem a vocês todos.
— Não precisa agradecer. — sorrio pra ele — Mas se você quiser ir naquela máquina do outro corredor e me trazer um expresso, eu vou curtir.
— Tudo bem. — ele ri também se levantando
— Aqui o dinheiro. — digo mexendo no bolso interno do meu terno
— Eu pago. — ele diz se afastando
Fico observando Rafael se afastar e então uma teoria esquisita surge na minha mente. Laura é da República Dominicana, Lucy também. Laura tem algumas características físicas similares a algumas de Lucy. Seria o mundo tão pequeno assim?
— Detetive Carisi.
A voz de Laura preenche meus ouvidos e eu a vejo se aproximar de mim com a feição preocupada.
Laura Hernandez tem 51 anos, deve ter menos de 1,60 de altura, pele morena, olhos castanhos. Era uma mulher bonita.
— Senhora Hernandez. — a olho esfregando uma mão na outra, entediado esperando notícias de Lucy — E Sophie?
— Dormiu um pouco. A detetive Rollins está com ela. Sua tenente chegou agora e passou lá. — ela diz em tom baixo — Posso me sentar?
— Claro.
Ela se senta ao meu lado, onde seu filho estava e, timidamente, acaricia meu ombro me passando suporte.
— Ela vai ficar bem. — me diz
— Eu sei. É só que, já faz um tempo que ela tá la dentro desacordada.
— Vocês estão esperando um bebê? — ela pergunta apoiando as mãos nas coxas
— Não. A senhora é a segunda pessoa que pergunta isso. — acabo sorrindo — Lucy está se livrando de antidepressivos e remédios pra dormir. Ela deve ter tido uma reação.
Laura fica em silêncio observando o nada de forma pensativa. Um rebuliço é ouvido no corredor e eu reconheço Hobbs com mais dois brutamontes. Me levanto para recebê-lo e o mesmo me abraça.
— E aí? — ele pergunta
— Ela ainda tá lá dentro.
— Ela não está grávida, está? — ele me olha ao desfazer o abraço e franze o cenho
— Qual o problema das pessoas? — quem franze o cenho sou eu — Uma mulher não pode vomitar sem estar grávida?
— Era só uma dúvida que o Logan ficou falando durante toda a viagem. — ele revira os olhos — Aliás, esses são Logan Xavier e Ian Ellis. Também viram Lucy crescer. São da família.
— Você deve ser o Sonny. — o mais alto diz apertando minha mão — Eu sou o Logan.
— Satisfação. — digo educado
— Então você é o namorado da nossa menina? — o mais baixo, Ian, diz ao me cumprimentar — Fomos amigos de Arthur, pai dela, desde antes dela nascer.
— Laura? — Luke questiona
Os três homens encaram Laura Hernandez e ela os olha com surpresa no olhar. Ela se põe de pé e um silêncio um pouco constrangedor surge.
— Eu sabia. — ela murmura
— Vocês se conhecem? — pergunto perdido
— Ela é a mãe da Lucy. — Logan diz