— Lucy, acorda! — ouço a voz de Fin e sinto seus dedos cutucando minhas costelas, o que faz com que eu me encolha
— Eu não tô dormindo. — murmuro debruçada sobre a mesa, com a testa sobre os braços
— Ahã, sei. — ele ri
— O resultado do exame da Ordem já saiu? — ouço Amanda perguntar ao Sonny
— Houve um problema. O resultado só vai sair em duas semanas. — ouço Sonny responder
— Não dormiu de noite, Lucy? — ouço a voz de Mike Dodds
Respiro fundo, reviro os olhos e levanto o corpo, me endireitando na minha cadeira. Tem sido uma longa segunda-feira e a hora parece estar se arrastando de propósito. Dodds me mantendo presa na base não tá me ajudando a ficar acordada.
— Não é da sua conta, sargento. — respondo m*l humorada
— É quando você começa a cochilar no trabalho. — ele rebate
— Ei, vocês dois. — Liv diz se aproximando — Sem farpas. Os que não vão fazer plantão noturno estão liberados. — a tenente libera Fin e eu
— Finalmente. — resmungo me levantando e vestindo meu casaco
— Tê, posso falar com a Lucy antes dela ir? — Carisi pergunta
— Claro. O expediente dela já acabou. — Liv sorri — Lucy, quer uma carona pra casa?
— Eu vou aceitar sim. Estou exausta.
Me afasto com Sonny e ele me olha preocupado. Tenho certeza que está pensando no fato de eu não ter dormido e ter deixado escapar que voltei a deixar a Magnum sob meu travesseiro.
— Sei o que vai perguntar, mas eu juro que estou bem. — digo antes que ele fale algo — Hoje de manhã eu liguei pra minha terapeuta e, apesar dela ter me dado alta, a gente conversou e ela disse que é normal porque eu estou feliz.
— Você dormiu bem no fim de semana. — ele diz
— É, mas... — respiro fundo — Henry me disse coisas tão horríveis, sabe? — seguro o choro — Que eu não seria feliz, que não conseguiria me entregar a ninguém, que ninguém iria me...
— Sh! — ele me abraça me interrompendo e esmaga meu rosto contra seu peito — Ele estava errado.
— Eu sei. — murmuro respirando fundo e sentindo seu cheiro misturado ao da roupa limpa — Ficar perto de você o dia inteiro e não te dar um beijo é torturador. — comento e ele ri
— Pensei que fosse poder ver você dormir hoje, mas fui escalado pra noite com Dodds e Rollins. — ele diz beijando minha testa e me soltando do abraço
— Tudo bem, eu vou ficar bem. Boa sorte com o filhote de cão. — reviro os olhos e ele ri do apelido que dei ao Dodds
— Lucy, ele é um cara legal.
— Pra você. — digo saindo
***
Era uma quarta-feira típica do outono novaiorquino. A brisa leve beijava Manhattan e bagunçava meus cabelos enquanto eu caminhava com a bandeja de café nas mãos.
Assim de o elevador se abriu, eu entrei na delegacia e vi meus amigos ali. Pelo jeito em que estavam, acabaram de chegar.
— Bom dia, squad. — dei minha saudação rotineira e eles sorriram pra mim
— Temos alguém de bom humor. — Fin comenta quando eu distribuo café
— Trouxe café para todos, menos pro Dodds porque eu me esqueci e, quando lembrei, não quis voltar e pegar outro. — sou direta e todos prendem o riso
— Tá legal, Lucy. Começamos com o pé esquerdo. Me perdoe por isso. — Dodds diz se aproximando
— Eu comprei um café enquanto vinha. — Liv diz — Mike pode ficar com o meu. — ela passa o copo que entreguei a ela para ele
— Mesmo? Obrigado. — ele agradece
— Você é muito implicante. — Carisi ri e eu lhe dou língua
— Certo. Todos começando seus devidos trabalhos. — Olivia diz indo para seu escritório
— Mais um dia. — Amanda comenta e suspira
Com a minha indisposição de segunda e com Carisi tendo a terça-feira de folga enquanto eu trabalhava, ainda não tivemos tempo para conversar sobre tudo o que vivemos no final de semana. A nossa transa, a boa relação dele com a minha família. Particularmente, eu agradeço, pois só de pensar em encará-lo, já fico com vergonha. Eu tive um ato de coragem e me entreguei a ele, mas falar sobre isso seria um pouco complicado. O fato era que eu queria que aquilo se repetisse. Meu corpo quer sentir o corpo de Sonny outra vez.
— Atenção! — Liv diz voltando de seu escritório — Um corpo foi encontrado no Central Park. Eu quero Lucy e Dodds na rua comigo agora.
— Nem terminei meu café. — resmungo já me levantando da minha cadeira
Era uma cena terrível. Uma mulher de cabelos castanho-claro, alta, bonita e jogada em um canteiro com um vestido rosa simples de gola fechada, mangas longas e comprimento longo. Seu pescoço tem marcas roxas, o que deixa evidente que foi asfixiada.
Visto as luvas médicas e me abaixo ao lado de Dodds para checar se há algo nela que possa ajudar na investigação. Benson está conversando com o casal que a achou enquanto corria.
— Eu estava doido pra te perguntar sobre sua vida de agente e como foi no serviço diplomático. — Dodds diz e eu o olho — Meu pai disse que o ritmo na unidade era diferente e que eu devia ajudar Olivia a te manter fora de confusão.
— Fiquei sabendo que ela estava sendo pressionada. — digo — Eu dei a minha palavra pra Olivia e estou evoluindo mais a cada dia. Se tivesse me dado uma chance, ao invés de me manter presa no departamento, você saberia.
— Vamos só recomeçar, ok? — ele me olha sorrindo — Meu erro foi deixar meu pai me influenciar.
— Não deixe mais. — sorrio para ele — Agora vamos resolver este caso. — digo apalpando o cadáver
— Ei, ela tem uma pulseira gravada. — Mike diz olhando o pulso dela — Diz Rosalie Frank.
— Vou mandar Amanda analisar. — me levanto pegando o celular e discando pra Rollins
***
— Rosalie Frank, trinta e cinco anos, professora do jardim de infância. Morava sozinha em um conjugado em cima do apartamento do pai, no Brooklyn. — Amanda diz quando nos reunimos na sala de investigação
— Ele ficou arrasado quando soube da morte da filha. — Fin murmura
— E o corpo de delito? — Carisi pergunta
— Ela foi espancada e estuprada com algo similar a um taco de baseball. — Olivia suspira — Provavelmente, um taco de baseball mesmo. Sem fluidos, sem digitais. Nada.
— p***a, um taco de baseball? — franzo o cenho — Quem fez isso é muito alucinado.
— Tenente, outro corpo encontrado. — Mike diz entrando — Mesmo modus operandi desse caso e do outro lado do Central Park.
— Carisi e Rollins me acompanham, Mike e Lucy vão falar com o pai da Rosalie.
— Ok. — Dodds se aproxima de mim
— Mike! — Liv o chama — Deixe que a Lucy fale.
Dodds dirigiu até o Brooklyn com eficiência e, rapidamente, sem infringir nenhuma lei de trânsito, chegamos em frente ao prédio onde ela e o pai moravam.
Toquei a campainha e ele atendeu logo, nos convidando para entrar. Ele estava arrasado.
— Senhor Frank, gostaria de agradecer por nos receber nesse momento difícil. — Mike diz ao ficar paradão de pé na sala do cara, visivelmente incomodado
— Nós sentimos muito pelo que aconteceu. — eu retomo a fala — Eu sou a Lucinda e esse é meu colega, Mike.
— Joseph. — ele diz seu primeiro nome — Vocês vão achar quem fez isso, não vão?
— Estamos trabalhando pra isso. — o respondo — Sabe se a Rosalie teve alguma briga com alguém? Algum namorado, talvez?
— Ela deu um fora num rapaz há um ano. Ainda não estava pronta pra ter uma relação. — ele responde tristonho — Ele era um bom rapaz, está de casamento marcado. Droga! Eu jurei que isso nunca mais aconteceria com a minha menina! — ele desaba em choro
Respiro fundo tentando não entrar em pânico. Olivia confiou em mim, não posso desapontá-la.
Tento agir como Olivia age nessas horas.
— Do que o senhor está falando? — pergunto
— Quando ela tinha dezessete anos ela... Oh, meu Deus! — ele diz entre as lágrimas — Ela foi estuprada. Eu achava que ele era meu amigo, eu confiei nele. Ele viu Rosalie crescer.
Fico estatelada no sofá, ao lado do senhor choroso. A história dela é tão parecida com a minha. A diferença é que seu pai ainda está aqui e ela não conseguiu nem mesmo um segundo de superação.
— O... — pigarreio — O senhor não teve culpa. Esse tipo de gente doentia faz isso. Entra no seu círculo familiar, rouba sua confiança e apronta. Não é sua culpa.
— O que aconteceu com o cara? — Mike pergunta
— Ele está preso ainda. Pegou vinte e cinco anos.
— Tudo bem. O senhor se importa em ir na delegacia conosco? — tento soar gentil, apesar da convocação
— Não. — ele se levanta secando as lágrimas — Vamos.
O clima no carro, de volta pra delegacia, é pesado. Não consigo tirar a história dela da minha cabeça. Por que alguém faria isso com ela? Será que o assassino sabia da história dela?
Assim que chegamos na delegacia eu coloco o pai dela no escritório da Olivia e vou para a sala de investigação.
— Ela era uma boa pessoa, não teve discussões recentes. — digo me jogando em uma das cadeiras, evitando o olhar de todos
— A nossa nova vítima é Stela Scott. — Olivia diz — Vinte e sete anos, ruiva.
— Nada a ver com a Rosalie. — Fin observa
— No entanto, mesmo modus operandi. — Amanda comenta
— A mãe de Stela chegou ao local e nos contou que ela foi estuprada quando adolescente.
— Isso bate com o que o pai da Rosalie nos contou. — me levanto exaltada
— É. Ele disse que ela foi estuprada por um amigo da família que a viu crescer. — Dodds confirma
— Onde está o estuprador? — Carisi pergunta
— Rikers. — eu digo o nome do presídio de segurança máxima na ilha de Rikers
— Achamos um ponto de ligação. — Olivia diz — Stela foi estuprada pelo irmão da mãe dela.
— Então o assassino está assassinando vítimas de estupro em ambiente familiar. — Carisi observa
— Como ele está descobrindo isso? — Amanda pergunta — Tem que ser alguém que as duas conheciam.
— Elas moravam há quinze quadras, uma da outra. — Fin comenta
— Ambos os casos foram registrados na delegacia do Brooklyn. — comento observando o mural de pistas
— É alguém de dentro do departamento. — Amanda constata
— Ele tem acesso a outros? — Olivia questiona — Precisamos descobrir. Até lá, eu não quero a Lucy sozinha nesse caso.
— O que? — me viro para encará-la
— Você me entendeu. — ela diz
— Eu não estou em perigo.
— Se há mesmo envolvimento do assassino com a polícia de Nova York, então não sabemos. — Mike diz
— Eu fico com ela. — Carisi diz já se preocupando
— Não. — digo — Eu não vou conseguir agir com alguém tão ligado a mim sendo meu parceiro nisso.
— Eu fico com ela. — Mike diz — Fica tranquilo, Carisi. Não vou deixá-la fazer nada de e******o.
— Como se alguém pudesse segurá-la. — Carisi bufa
— Ei! — resmungo
— Vamos lembrar que Lucy não é uma possível vítima. Só estamos nos precavendo. — Olivia chama a atenção
— Tenente! — Fin chama atenção ao receber um alerta no celular — Uma mulher de trinta anos foi encontrada do outro lado do Central Park com hematomas iguais aos das outras.
— Mais uma morte. — rosno socando a mesa com as duas mãos
— Ela não morreu. — Fin diz — Conseguiram salvá-la a tempo.
— Então essa vítima é recente. Ele acabou de atacar na nossa fuça. — Amanda comenta
— Lucy e Amanda vão pro hospital comigo. Vamos esperar ela acordar. — Olivia delega
Dominick “Sonny” Carisi Jr.
— Vai ficar tudo bem, Carisi. Lucy está protegida e não tem como o cara ter acesso ao arquivo dela. — Fin comenta enquanto esperamos as meninas voltarem do hospital com alguma notícia
— É, eu sei. — murmuro sentado na mesa da Lucy, observando o faxineiro retirar o lixo da sala da Liv
— Fico tentando descobrir o que se passa na cabeça desse cara pra fazer isso. — Mike comenta — Se alguém tem que morrer, são os agressores delas e não elas.
— De uma coisa nós já sabemos: ele é doente. — Fin resmunga
— Ela ficou dez minutos acordada, mas depois dormiu de novo. — Lucy diz surgindo feito um furacão na delegacia
— Onde estão Benson e Rollins? — Mike pergunta
— Indo falar com a família dela. — ela diz tirando a jaqueta e a jogando em cima da minha mesa
— Diga que conseguiu alguma coisa. — Fin pede
— Ela também já foi uma vítima dentro de casa, se chama Alice Cooper e não conseguiu descrever o filho da p**a.
— Droga! — resmungo
— Mas, Liv me disse pra mandar você e Fin para o apartamento dela. Ela tem câmeras na porta de entrada. — ela diz pra mim e eu já me levanto, vestindo o paletó pra sair — Ela foi procurada por um cara de uns cinquenta anos que se dizia psicólogo da polícia e que estava averiguando o estado de evolução emocional de vítimas antigas.
— Nós realmente temos isso? — Fin franze o cenho
— Não. — Mike diz
— Mas seria uma boa. — Lucy responde — Vão!
Olho para Dodds como num pedido silencioso para que ele cuide de Lucy. Ele acena discretamente com a cabeça e eu saio junto com Fin.
***
Já passavam da meia-noite quando voltamos da caçada ao cara que o vídeo da câmera de segurança nos mostrou. Seu nome é Elliot Decker e ele é faxineiro do departamento do Brooklyn. Olivia emitiu um alerta e o estado inteiro o está procurando. Ele virou fumaça.
— Eu vou tomar um café antes que a Liv me mande embora. — Lucy diz se levantando — Alguém quer um?
— Não, querida. Obrigada. — Rollins dispensa
— Já tomei muito café hoje. Valeu, Lucy. — Fin agradece
— Agora eu mereço um café seu? — Dodds brinca
— Você foi legal essa semana. — Lucy sorri
— Eu acompanho você. — ele ri
— Quer um, Sonny? — ela me olha
— Sim, por favor. — digo cansado
Observo ela e Mike irem para a copa e fico pensando em tudo o que eu vi nessa semana de investigação intensa.
— Pode colocar a imagem do cara no apartamento da última vítima, por favor? — peço a Amanda
— Tudo bem. — ela diz colocando a imagem na TV
— Pausa! — me levanto pedindo pra pausar no momento em que a câmera pega o cara de perfil
— O que foi? — Fin pergunta
— Eu vi esse cara aqui. — digo analisando a imagem
— Quando? — Rollins arregala os olhos
— Tem certeza disso, Carisi? — Fin pergunta de novo
— Ontem. — respondo a Rollins — Sim, eu tenho absoluta certeza. Estava tirando o lixo da sala da Liv.
— Onde está a Lucy? — Olivia surge na sala de investigação
— Na copa com o Dodds. — Fin responde — Carisi viu o cara aqui.
— Quando? — ela me olha com as mãos na cintura
— Ontem, tirando o lixo da sua sala.
— Bom. — ela ofega — O arquivo da Lucy sumiu.
— O que? — me exalto
— Eu vou botar uma viatura disfarçada na porta do prédio dela. Ninguém aqui vai abrir o bico sobre isso.
— Mas Liv... — Rollins tenta argumentar
— Isso é uma ordem!
— Ei, pessoas. — Lucy diz ao voltar — Aqui, querido. — se aproxima de mim, deixando o copo de café em minha frente, na mesa — Aconteceu alguma coisa? — pergunta ao sentir o clima tenso
— Não, Lucy. — Olivia toma a palavra — Aliás, você já pode ir pra casa.
— Tem certeza? Carisi já fez plantão noturno essa semana e o Fin chegou aqui bem cedo. Eu posso ficar e... — se oferece, mas Olivia a interrompe
— Você, Rollins e Dodds irão para casa agora.
— Eu fiz alguma coisa? — questiona ao notar o tom rude de Olivia
— Só vai pra casa, Lucy.
Lucy não discute. Guarda suas duas pistolas, veste sua jaqueta e termina de tomar seu café.
— Quer uma carona? — Dodds pergunta notando que tem algo errado
— Não. — ela responde — É contramão pra você.
— Não esquece a Magnum. — a lembro de seu revólver — Quando chegar, me avisa. Por favor. — digo preocupado e ela me olha com o cenho franzido — Eu te amo.
— Eu te amo. — ela diz e sai