A Escolha

1061 Palavras
POV Lily O telefone tremia em minhas mãos. — Alô? — minha voz saiu vacilante, carregada de medo. — Senhorita Lily? — a voz do outro lado soava firme, mas havia uma urgência contida. — Sou a enfermeira Carla, do hospital. Precisamos que venha imediatamente. O quadro da sua mãe piorou. Meu coração parou. — O quê?! O que aconteceu? Ela… ela está bem? — A condição dela se agravou repentinamente. O doutor explicará melhor assim que chegar, mas é importante que venha o quanto antes. O chão desapareceu sob meus pés. Meu corpo se moveu antes que minha mente pudesse processar. Peguei a bolsa com as mãos trêmulas, quase derrubei as chaves ao tentar trancar a porta. Cada segundo parecia uma eternidade enquanto chamava um táxi. No caminho, minha mente girava. Não podia ser. Minha mãe estava fraca, sim, mas estável. Como algo poderia piorar tão rápido? Cada batida do meu coração ecoava nos ouvidos, abafando até mesmo o barulho da cidade lá fora. Quando o carro finalmente parou na frente do hospital, saí tão depressa que quase tropecei. Atravessei as portas de vidro como um furacão, ignorando as vozes ao meu redor. Meu único foco era encontrar minha mãe. Uma enfermeira me viu e veio ao meu encontro. — Lily, venha comigo. Ela andava rápido, e eu tentava acompanhá-la, mas minhas pernas pareciam fracas. Quando dobramos o corredor e chegamos à UTI, o cheiro forte de desinfetante me atingiu, e um frio percorreu minha espinha. O quarto era pequeno, iluminado por uma luz pálida e fria. E então, eu a vi. Minha mãe parecia ainda menor naquela cama, afundada nos lençóis brancos. Seu rosto estava mais pálido do que nunca, seus lábios ressecados, e o peito subia e descia de forma irregular. Os fios do monitor cardíaco se entrelaçavam ao seu corpo, e o som dos batimentos cardíacos fracos ecoava na sala, um som que me apavorava. Meus olhos encheram de lágrimas. — Mãe… Segurei sua mão com força, sentindo sua pele gelada contra a minha. Ela abriu os olhos devagar, piscando algumas vezes como se precisasse de forças para focar em mim. — Minha menina… — sua voz era apenas um sopro de vida. — Você não precisa carregar esse fardo sozinha… Engoli em seco, sentindo um nó na garganta. Atrás de mim, o doutor pigarreou, e eu me virei com um aperto no peito. — O estado dela se agravou mais rápido do que esperávamos, Lily. O coração está fraco e o coágulo em sua cabeça está aumentando. — Ele respirou fundo antes de continuar. — Ela precisa da cirurgia com urgência. Se não for operada logo… infelizmente os materiais que preciso para realizar a cirurgia ainda não achegaram, não já solicitei urgência, temo que não tenhamos muito tempo. As palavras dele me atingiram como uma lâmina afiada. O mundo girou ao meu redor, e eu precisei me segurar na beirada da cama para não cair. Não… não podia ser. A cirurgia. A bendita cirurgia que poderia salvá-la. Mas eu não tinha dinheiro. E o hospital público já havia me dito que a espera poderia levar meses. Meses que minha mãe não tinha. Fechei os olhos, sentindo o desespero me consumir. Havia um jeito. Um único jeito. Minha mão tremia enquanto pegava o celular no bolso. Respirei fundo, meus dedos hesitaram sobre a tela. Eu sabia o que aquilo significava. Sabia o que estava prestes a fazer. O número de Amélia brilhava diante dos meus olhos. Por um instante, me permiti lembrar do sonho estranho que tive antes da ligação do hospital. O vestido de noiva, o anel pesado em meu dedo, o homem desconhecido de costas para mim. Seria esse meu futuro? Meu peito apertou, mas não havia outra escolha. Engoli o medo e apertei o botão para discar. O telefone chamou três vezes antes que a voz dela surgisse do outro lado da linha. — Senhorita Lily? — Amélia soava levemente surpresa. Fechei os olhos com força, como se pudesse apagar tudo. — Eu aceito o casamento. Do outro lado, houve um breve silêncio. E então, o tom satisfeito na voz dela quando respondeu: — Ótima escolha. — Mas, tenho uma condição! A cirurgia deve ser realizada hoje! — digo de maneira firme e decidida. — Já estou providenciando. E assim, meu casamento arranjando está feito. ... O papel tremia em minhas mãos. — É só assinar aqui, senhorita Lily. A voz do homem à minha frente era fria e profissional. O escritório onde eu estava era grande, imponente, e cheirava a couro e madeira polida. Eu me sentia pequena ali dentro, como se tivesse acabado de entrar em um mundo que não me pertencia. Minha garganta estava seca. Assinar meu nome naquele papel significava que eu não era mais apenas Lily. Eu agora seria esposa de um homem que eu nunca vira. Meu noivo não estava presente. Não houve cerimônia, nem votos, nem vestido branco. Apenas documentos sendo empilhados na minha frente e um advogado que parecia entediado. — O senhor… Ele não virá? — minha voz saiu mais fraca do que eu gostaria. O advogado me olhou por cima dos óculos. — O senhor está ocupado. Ele pediu que cuidássemos de tudo por aqui. Minha mão apertou a caneta. Aquilo estava errado. Tudo errado. Mas, ao mesmo tempo, eu não tinha escolha. Minha mãe estava internada, seu estado piorava a cada hora. E Amélia havia prometido que, se eu assinasse esses papéis, minha mãe seria operada imediatamente. Fechei os olhos por um instante, tentando afastar a sensação de que estava vendendo minha alma. E então, assinei. O advogado recolheu os documentos sem sequer me dar um olhar. — Ótimo. Agora, assine esses também. Ele empurrou outro monte de papéis na minha direção. Franzi a testa. — O que são esses? — Formalidades. Contratos de sigilo, documentos sobre seu novo sobrenome… Nada que precise se preocupar. Meu estômago revirou. Mas minha mãe… minha mãe precisava de mim. Com os dedos trêmulos, assinei. O advogado recolheu tudo rapidamente, como se não quisesse me dar tempo para mudar de ideia nem ler qualquer coisa. — Parabéns, senhora... — ele olhou para a última página antes de continuar — senhora Davis. Seu casamento está oficializado. Senti um frio na espinha. Casada. Com um homem que eu nunca vira. E sem ter ideia do que acabara de assinar.
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