POV Lily
O quarto de Clarie Davis era um verdadeiro reflexo da riqueza e mistério que envolvia aquela família. Assim que entrei, meus olhos percorreram o espaço, absorvendo cada detalhe.
As paredes eram revestidas de um tom escuro de azul, quase preto, e contrastavam perfeitamente com os móveis de madeira nobre e acabamentos dourados. Um enorme lustre de cristal pendia do teto, espalhando uma luz suave e sofisticada pelo ambiente. Grandes janelas iam do chão ao teto, cobertas por cortinas pesadas de veludo azul-marinho, permitindo apenas uma pequena fresta de luz natural entrar.
No centro do quarto, lado a lado, estavam duas camas. Uma delas, maior e luxuosa, parecia pouco usada, com lençóis de seda impecavelmente arrumados. A outra, mais simples, mas ainda assim luxuosa, era onde Clarie Davis estava deitado, cercado por monitores e equipamentos médicos. A cabeceira de couro escuro dava um ar ainda mais intimidador ao espaço.
Havia um enorme tapete persa no chão, e uma lareira imponente na parede oposta à cama, acima da qual repousava um grande quadro, uma pintura a óleo de um homem que se parecia muito com Clarie, mas com um olhar penetrante e sério.
No canto do quarto, uma mesa de madeira maciça estava organizada com alguns papéis e livros, ao lado de uma poltrona de couro que parecia bem utilizada. Próximo à cama de Clarie, um pequeno sofá e uma mesa auxiliar com medicamentos e uma jarra de água demonstravam que alguém passava bastante tempo ali.
O ambiente, apesar de luxuoso, tinha um ar frio e solene, como se aquele quarto guardasse segredos que ninguém ousava revelar. E agora, aquele espaço também era meu.
A sensação de estar sendo arrastada para algo muito maior do que eu podia entender me sufocava. Meu coração batia descompassado, e minha mente tentava processar tudo. Clarie Davis, meu marido, estava em coma. E eu não fazia ideia do motivo pelo qual Amélia insistiu nesse casamento.
Bill ainda me olhava de forma enigmática, como se soubesse mais do que dizia. Ele ficava apenas algumas horas e me deixava no quarto sozinha com Clarie.
— Bom, se precisar de algo ou tiver alguma dúvida, pode me ligar a qualquer hora, meu telefone está na agenda, já tenho o seu que a Amélia me passou. — Ele sorriu novamente, aquele mesmo sorriso calculado que me deixou inquieta.
— Bill, onde eu vou dormir? — digo nervosa, não querendo dormir na mesma que meu marido.
— Por enquanto você pode dormir na cama maior, quando ele acordamos vocês decidem como será o casamento de vocês.
Assim que ele saiu, fechei a porta do quarto e me virei lentamente para Clarie. Aquele homem era um completo mistério. Apesar dos meses em coma, seu rosto parecia sereno, a pele bem-cuidada, os músculos definidos por baixo do lençol. Havia algo nele, algo que me fazia querer chegar mais perto… mas ao mesmo tempo me mandava fugir.
Aproximei-me da cama hesitante, sentindo a respiração pesada no ambiente silencioso. Toquei de leve a mão dele, e um arrepio percorreu meu corpo.
Foi quando ouvi um barulho.
Um ruído baixo, como um sussurro.
Gelei.
Virei-me para trás, mas não havia ninguém no quarto. Apenas eu e Clarie.
O barulho veio de novo.
— Quem está aí? — minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia.
Silêncio.
Respirei fundo, me convencendo de que era apenas minha imaginação pregando peças. Mas então, de repente, vi algo que me fez dar um passo para trás.
Os dedos de Clarie… eles se mexeram.
O ar fugiu dos meus pulmões.
Aproximei-me mais uma vez, observando-o atentamente. Talvez tenha sido um espasmo involuntário, algo normal em pacientes nessa condição.
Mas então, senti.
Uma leve pressão na minha mão.
Meu coração disparou.
Ele estava tentando acordar?
Eu deveria chamar Bill? Ou Amélia?
O que quer que estivesse acontecendo, eu sabia de uma coisa: aquela casa escondia segredos. Segredos que, de alguma forma, agora faziam parte da minha vida.
Uma empregada, bate na porta e eu autorizo ela entrar. — A senhora Amélia está solicitando sua presença para o café da manhã. — confirmo com a cabeça e mulher fecha a porta rapidamente.
Respiro fundo e saio, rumo a cozinha, sem saber o que me espera.
Minhas mãos ainda tremiam levemente enquanto eu caminhava pelos corredores da mansão. A cena de Clarie mexendo os dedos e apertando minha mão ainda estava gravada na minha mente. Foi real ou apenas minha imaginação me pregando uma peça? Talvez eu esteja apenas nervosa porque cheguei agora.
A mansão Davis parecia ainda maior e mais intimidadora agora que eu caminhava por ela sozinha. O silêncio dos corredores era estranho, quase antinatural. Os tapetes luxuosos abafavam o som dos meus passos, e os enormes quadros nas paredes me faziam sentir observada.
Quando cheguei ao salão principal, a grande mesa de jantar estava impecavelmente arrumada, com uma variedade absurda de pratos e frutas dispostos de forma elegante. Amélia Davis estava sentada à cabeceira, seu olhar analisando cada um dos meus movimentos.
— Bom dia, minha querida. — Ela sorriu de maneira calculada, indicando a cadeira ao seu lado.
Sentei-me, tentando ignorar a sensação de que estava sendo testada.
— Como está sendo seu primeiro dia na casa dos Davis? Não como faxineira, mas como esposa do meu filho? — Amélia perguntou casualmente, levando a xícara de chá aos lábios.
Meu coração acelerou. Por um instante, pensei mil coisas, principalmente porque ela estava enfatizando a palavras faxineira, não tenho nenhum problema em trabalhar para ganhar a vida.
— Está sendo… tranquila. Como estamos iniciando o dia, tenho muitas coisas para aprender — respondi, forçando um sorriso.
Amélia me encarou por alguns segundos a mais do que o necessário, como se estivesse esperando que eu dissesse mais alguma coisa. Então, inclinou-se levemente para frente.
— Que bom. Espero que esteja se sentindo em casa. — Sua voz era suave, mas havia algo na forma como ela disse aquilo que me fez engolir em seco.
Tentei mudar de assunto.
— Eu percebi que as empregadas são novas. O que aconteceu com as antigas?
O sorriso de Amélia não vacilou, mas seus olhos se estreitaram levemente.
— Elas não eram… confiáveis. Então precisei tomar algumas providências.
Uma pontada de nervosismo percorreu minha espinha.
— Entendo…
O silêncio que se seguiu foi longo e desconfortável.
— Lily… — Amélia começou, mexendo delicadamente a colher em seu chá. — Agora que é oficialmente uma Davis, espero que cumpra seu papel.
— Meu papel? — repeti, sentindo um nó se formar no meu estômago.
Ela assentiu, com um sorriso quase maternal.
— Você deve cuidar de Clarie. Mas, acima de tudo, deve manter a família unida. — Sua voz baixou um tom. — Preciso confiar em você, Lily.
O jeito como ela disse aquilo não parecia um pedido. Parecia uma ordem.
— Claro, senhora Davis. — respondi automaticamente.
— Ótimo. — Ela pousou a xícara sobre o pires com um leve tilintar. — Porque nesta casa, segredos devem ser guardados, tudo que acontece aqui, deve ser mantido aqui, inclusive o estado de Clarie. Algumas vezes trarei alguns documentos da empresa, nada importante para você assinar, já que Clarie não pode.
Meu sangue gelou.
Engoli em seco e tentei manter a expressão neutra, mas sabia que Amélia estava me analisando.
— Agora vá descansar, minha querida. A partir de hoje, sua nova vida começa. E não se preocupe a cirurgia da sua mãe está agendada para daqui a dois dias, o hospital disse que precisam providenciar algumas materiais importantes. Precise que comprei algumas roupas pra você também, roupas em nosso padrão. - ela me entrar um cartão back.
— Agora vá descansar, minha querida. A partir de hoje, sua nova vida começa.
Levantei-me e saí do salão, sentindo os olhos dela me seguirem até o último segundo.
Ao subir as escadas de volta para o quarto, meu coração martelava no peito.
O que exatamente estava acontecendo naquela casa?
E, mais importante…
O que Amélia Davis esperava de mim?