Capítulo 17

1600 Palavras
Savannah — Eu realmente sinto muito por tudo aquilo ontem, Sah. Charlotte faz uma careta enquanto seguimos para a cozinha com a Mimi. Ela coloca na mesa os dois pratos de macarrão que preparou às pressas como um pedido de desculpas. — Está tudo bem — resmungo, sem convencer nenhuma de nós. — Só não sei o que diabos está acontecendo comigo ultimamente. Eu me jogo em uma das cadeiras de Suede, enquanto Charlotte nos serve taças de vinho branco. — O trabalho tem sido uma bagunça. Pela primeira vez na minha carreira, me sinto desequilibrada, como se não conseguisse lidar. Ela olha para mim com aqueles olhos grandes e preocupados. — Isso é tudo culpa minha, não é? — Não é. Bem, talvez só a parte do cocô. Mas sou eu que obviamente não tenho lidado bem com a pressão. Ficamos em silêncio, observando as estrelas no céu noturno enquanto tomamos nossos primeiros goles de vinho. É sábado à noite, e eu tive que me forçar a não trabalhar o dia todo. Tentar ter um fim de semana de verdade parece um conceito estranho. — Sah... — Charlotte diz depois de alguns momentos. — Eu acho que seu corpo e sua mente estão encenando uma rebelião. Você não pode continuar suportando tanto estresse sem eventualmente surtar. Reviro os olhos, mas não há nenhuma luta real por trás disso. — Eu quero te apoiar mais, Sah. Você esteve lá por mim na minha vida mais do que qualquer outra pessoa, até mesmo minha própria família. Você tem que deixar de lado todo esse estresse e ansiedade reprimidos antes que eles te devorem viva. Ela se senta. — Ok, vamos tentar fazer isso. Como exemplo, qual é seu maior medo? Eu dou de ombros. — Meus pais morrendo, eu acho? Charlotte bufa. — Além de todas as mortes e terrores de fim de vida padrão. — Tudo bem, tudo bem. Talvez... perder meu emprego? Charlotte assente, um brilho triunfante nos olhos. — Pronto. Esse é o problema, bem aí. Você está tão focada no trabalho e no sucesso que esqueceu como viver. Já fui demitida duas vezes e olhe para mim. Sou fabulosa. Um pouco quebrada, claro, mas fabulosa pra caramba. Esse não deveria ser seu maior medo na vida. Eu reflito sobre isso, tomando um gole de vinho. Sou chefe do RH em uma prestigiosa empresa de patrimônios privados na cidade, uma posição pela qual trabalhei duro. Meus pais, um humilde açougueiro e um assistente de loja, não poderiam estar mais orgulhosos. E eu também não. É uma parte significativa da minha identidade, então a ideia de perder isso... é assustadora, é o que é. — Então, qual deveria ser meu maior medo? Esclareça-me, ó sábia — pergunto, minha voz encharcada de sarcasmo. Charlotte se recosta na cadeira, um sorriso maroto estampado no rosto. — Não encontrar um grande amor. Não ver todos os lugares do mundo que você quer ver. Ficar doente de estresse e desmaiar na mesa antes mesmo de chegar aos quarenta. Sinto um aperto repentino no peito. — Ponto justo. — Pergunte a qualquer idosa. — Ela assente sabiamente. — Elas vão me apoiar. Vão dizer: "Eu queria passar mais tempo perseguindo picas do que me escravizando no meu escritório idiota." Eu bufo rindo, quase engasgando com meu vinho. — Tenho certeza de que não é exatamente assim que elas diriam. Mais como: "Eu queria passar mais tempo com meus entes queridos, cultivando relacionamentos profundos e significativos." — O ponto é que você precisa se soltar antes de se transformar em uma casca enrugada de mulher, assombrando o escritório com seus terninhos sensatos. E eu, sua fabulosa fada madrinha da diversão, estou aqui para ajudar você a fazer exatamente isso, quer você goste ou não. Eu rio enquanto ela se espreguiça confortavelmente e não consigo evitar sentir uma pontada de inveja. Aqui estou eu, tensa, enquanto ela parece estar em um retiro de ioga, embora esteja perpetuamente quebrada. A ideia de viver a vida de Charlotte — pulando de empregos temporários e cursos em universidades, agarrando-se à esperança de um trabalho aleatório como expectativa de salário — me deixa nervosa. Preciso de estrutura. Preciso saber que não vou acabar vivendo em uma caixa de papelão e falando com pombos embaixo da ponte. Inspiro profundamente, deixando o ar fresco da noite encher meus pulmões. Talvez ela esteja certa. Talvez seja hora de começar a viver minha vida em vez de apenas administrá-la. Uma coisa é certa: preciso parar de levar cocô de gato para o trabalho. É um bom lugar para começar. — Tenho minha cansativa rotina de trabalho na próxima quinta-feira à noite — digo, tentando reunir algum entusiasmo. — Pelo menos estarei por aí, me misturando com humanos de verdade, mesmo que sejam meus colegas moralmente falidos. Charlotte se ilumina. — Ooh, você pode trazer um convidado? Hesito. — Tecnicamente... sim. Mas eu geralmente vou sozinha. — Outras pessoas trazem acompanhantes? — Quase todo mundo. — admito. Charlotte bate palmas como uma foca enlouquecida, praticamente vibrando de alegria. — Então está combinado. Eu sou seu par! Eu gemo internamente com a ideia. — Tudo bem, mas você vai ir em uma coleira curta — sem se perder sozinha. Ela revira os olhos com um toque teatral. — Sim, mãe, prometo não envergonhar você na frente dos seus amigos de trabalho patéticos. — Nossa, eu sou tão má assim? — Às vezes, você realmente é. — Vou me comportar da melhor forma possível. O que você vai vestir? — Um terninho lindo que estou guardando para uma ocasião especial — respondo orgulhosamente, já me imaginando entrando no evento como uma chefe. Ela estreita os olhos. — Me mostra. Suspiro, caminhando até o quarto para pegar a roupa. Volto um momento depois, apresentando-a com a roupa. — Por que você está se vestindo como o primeiro-ministro em um funeral? — Com licença — eu balbucio indignada, apertando o terninho contra o peito, magoada. — Isso é de grife, para você saber. É perfeito para um evento de trabalho. Sou profissional, mas também sei como me soltar e me divertir. — Essas ombreiras discordam, querida. Elas gritam "Estou aqui para falar sobre seu plano de funeral". Eu bufo, colocando o terninho cuidadosamente sobre meu braço porque custou uma fortuna. — O que exatamente você sugere que eu use então? Aquele vestido vulgar que você me presenteou? — Encontraremos algo que mostre seu lado divertido. Ela aponta para o terninho com desdém, como se fosse um dos ratos mortos de Mimi que acabei de presentear a ela. — Esse é estritamente para segundas-feiras no escritório. — O RH não foi feito para ser divertido. Nós somos os confiáveis, a voz da razão. — Sou recompensada com um revirar de olhos. — Você não precisa usar sua farda de gerente do RH 24 horas por dia, 7 dias por semana, não é? Certamente sexy-mas-elegante-e-casual é o caminho a seguir. Solto um suspiro de resignação. — Talvez. Charlotte sorri. — Vamos às compras amanhã. Encontraremos algo mais para você. Sou divertida, sou sedutora e não tenho uma amostra de fezes de gato na bolsa. Seu sorriso se torna perverso. — Confie em mim, quando eu terminar, até mesmo seu chefe horrível Sr. Campbell não vai conseguir tirar os olhos de você. Reviro os olhos, mas meu estômago dá uma revirada com as palavras dela. — Como se eu quisesse os olhos do Sr. Campbell em mim. Tudo o que eu quero é que ele me veja como profissional. E agora, a opinião dele sobre mim não poderia ser pior. Certo? — Estou fazendo isso há anos e estou bem. Isso é só um contratempo. Vou voltar aos trilhos. — Você não é mais exatamente uma jovem garota, querida. Eu zombo. — Tenho trinta e nove anos, Charlotte. Não estou exatamente com um pé na cova. — Exatamente, pairando bem na beira da meia-idade. E você tem sua primeira gata. Quem sabe quantos terá no ano que vem. — Ah, vai se f***r. Vocês estão no mesmo barco. Ou você está convenientemente esquecendo que temos a mesma idade? — Sim, mas não sou eu que passo todas as horas acordada cercada por funcionários estressados. Tudo o que você faz é ouvir suas reclamações e gemidos, dia após dia. — Ela se inclina para frente, sua expressão se tornando estranhamente solene. — Mas quem é seu recurso humano, hm? Quem está cuidando de você para variar? Eu dou uma esfregada carinhosa em Mimi. — Você e Mimi. Ambos me encaram com um olhar nada impressionado. — Um gato não é uma rede de apoio, não importa quantos sininhos você coloque em volta dela. — Bem, a maioria dos meus outros supostos amigos está ocupada demais com suas próprias famílias e filhos para arranjar tempo — respondo com um encolher de ombros casual, como se isso não me incomodasse. — Eles sempre fazem todo aquele discurso de ‘ooh, faz uma eternidade que não te vejo!’ até que eu sugira datas e planos reais. Então é sempre de volta para ‘vamos improvisar’. E eu aprendi da maneira mais difícil que ‘improvisar’ significa ‘improvisar nunca’. Então, se eu não tivesse você e meus pais ligando, eu ficaria presa falando com um gato e cerca de cem pessoas da equipe de finanças, e isso não parece saudável, não é? Charlotte cantarola em contemplação. — Eu não tenho esse problema com a multidão de advogados — ela reflete. Eu contenho a vontade de revirar os olhos. Mimi apenas pisca lentamente. Ela também sabe.
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