Manuela narrando
Continuação
O asfalto parecia queimar sob os meus pés enquanto eu corria em direção à agência bancária no pé do morro. Eu estava ofegante, o suor frio misturando-se às lágrimas que eu não conseguia conter. Entrei no banco com o coração na boca, implorando por uma audiência, por um minuto da atenção de qualquer gerente. Mas o mundo do asfalto não perdoa quem vem da favela.
— Senhora, sem comprovante de renda, sem garantias e com esse histórico... o banco não tem como liberar esse crédito, sinto muito — disse o gerente, sem sequer desviar os olhos da tela do computador.
— É a vida da minha mãe! — eu supliquei, as mãos postas sobre a mesa. — Eu trabalho, eu faço faxina, eu pago! Por favor!
— Próximo, por favor — foi a única resposta.
Saí dali sentindo o peso do mundo esmagar meus ombros, voltei para o postinho caminhando como se estivesse indo para o meu próprio funeral, quando cheguei àquela recepção e vi o movimento de enfermeiros correndo com aparelhos, entrei em colapso. Caí de joelhos no chão encardido, num canto qualquer, e fechei os meus olhos com força.
— Deus, por favor... eu nunca te pedi nada para mim, faz um milagre, não deixa ela ir embora agora, me mostra uma saída que não seja o inferno... — eu rezava, soluçando, com a testa encostada na parede fria.
Foi então que o barulho ao redor mudou, o burburinho de dor e espera deu lugar a um silêncio pesado, cortado apenas pelo som de passos pesados batendo no chão, o ar pareceu ficar mais denso. Eu conhecia aquela presença, eu sentir o cheiro dele e fumaça antes mesmo de abrir os olhos.
Uma sombra se projetou sobre mim, levantei o rosto lentamente e dei de cara com o Satan, ele estava lá, imponente, com a mão na cintura onde o ferro da arma brilhava discretamente sob a camisa. O olhar dele era uma mistura de triunfo e uma frieza que me fez estremecer.
— O banco te deu um "não" bem grande na cara, não foi, Manuela? — sua voz saiu fria. — O Polegar me deu a visão, sua coroa está morrendo por falta de dinheiro e você está aqui, perdendo tempo com rezas, enquanto o coração dela para de bater — ele seguro meu queixo com uma força possessiva, me obrigando a encarar o abismo dos seus olhos. — Eu já resolvi tudo, a ambulância da melhor clínica da Zona Sul está chegando, os médicos já foram pagos, ela vai ser transferida agora.
— Por que? — minha voz saiu como um rastro de agonia. — Por que você faz isso se me odeia tanto?
— Eu salvarei a vida da sua mãe, mas entenda bem o preço: a partir do momento em que ela entrar naquela ambulância, você deixa de ser dona de si mesma, você não vai mais às faxinas.
Eu olhei para a porta da emergência, onde minha mãe lutava pelo último suspiro, e depois olhei para o homem que era a personificação do meu pecado, a escolha era impossível, mas o amor de filha era maior que o meu medo do inferno.
— Salva ela... — sussurrei, sentindo minha alma se despedaçar. — Salva a minha mãe e eu faço o que você quiser, eu aceito, eu sou sua.
Satan deu um sorriso sombrio.
— Ótima escolha, diabinha.
Nesse momento, o som da sirene da ambulância particular ecoou no pátio. O milagre tinha chegado, mas ele tinha o rosto do d***o.
O barulho da sirene da ambulância particular não era como o das ambulâncias do morro; era um som limpo, potente, que parecia abrir caminho através da miséria do postinho, eu vi os paramédicos entrando com equipamentos que eu nunca tinha visto na vida, eles se moviam com uma precisão que me deixou tonta. Em questão de minutos, a maca com o corpo frágil da minha mãe estava sendo preparada para a transferência.
Eu estava em pé, no canto da recepção, sentindo o olhar do Satan cravado nas minhas costas como uma marca de brasa, ele não se aproximou mais, ficou apenas parado, com os braços cruzados, observando a cena
— Ela vai para a Clínica Corcovado — a voz dele ecoou, fria e direta. — O melhor centro de cardiologia do estado, se existe uma chance de ela sair dessa, é lá.
Eu não consegui responder, apenas assisti, com o coração na mão, enquanto os enfermeiros entubavam novamente minha mãe com aparelhos modernos, quando a maca passou por mim, eu toquei a mão dela por um segundo, ela estava gelada, mas o monitor agora emitia um bipe constante e firme.
— Vamos, senhora, não temos tempo a perder — disse um dos médicos, me olhando com o respeito que só o dinheiro ou o medo compra.
Fui guiada para fora, a ambulância era uma UTI móvel completa. Vi o brilho do sol refletido na lataria impecável do veículo, um contraste bizarro com o esgoto a céu aberto que corria ali perto. Satan caminhou até me e falou:
Ele segurou meu braço e, num instante, tirou um celular do bolso. Era o celular, aquele que o Léo tinha pegado... Ele tinha conseguido recuperar.
— Pega essa p***a, a partir de agora, se esse telefone tocar e você não atender, ou se você pensar em fugir, tu vai pagar muito caro ele foi para a sua moto, colocou o capacete e me encarou uma última vez através da viseira escura.
— Eu vou na frente abrindo o caminho, siga com eles, quando ela estiver estabilizada e operada, eu mando o Polegar te buscar. E Manuela... — ele deu uma pausa o motor da moto roncando alto. — Não esquece você é minha.
A moto dele disparou, cortando as vielas do Santa Marta como um raio n***o, a ambulância seguiu logo atrás, e eu fui dentro, segurando a mão da minha mãe, saímos do morro e, pela primeira vez na vida, eu não me senti apenas uma moradora da favela; eu me senti uma mercadoria de luxo.
A chegada à clínica foi um choque. O bairro era silencioso, cheio de árvores e prédios com fachadas de vidro. Assim que a ambulância parou, uma equipe de especialistas já estava à espera. Minha mãe foi levada direto para o centro cirúrgico.
Eu fiquei ali, no saguão de mármore, sentada num sofá de couro que parecia mais caro que a minha casa inteira. Eu estava suja, com a roupa da noite anterior, o cabelo desarrumado e o cheiro do medo ainda impregnado na pele. As pessoas que passavam por ali me olhavam com curiosidade e desdém.
Horas se passaram, o silêncio do hospital de luxo era mais ensurdecedor do que o barulho do morro, até que o cirurgião apareceu, retirando a máscara e a touca.
— A cirurgia foi um sucesso, Manuela — ele disse, com um sorriso calmo. — Tivemos que agir rápido, mas o coração dela respondeu bem às pontes. Ela está na UTI para observação, mas o perigo imediato passou. Ela vai viver.
Eu desabei no sofá, cobrindo o rosto com as mãos, o alívio foi tão grande que minhas entranhas doeram. "Ela vai viver".
O milagre estava feito. Minha mãe estava salva.
Olhei para o celular que Satan tinha me devolvido. Ele vibrou na minha mão. Uma mensagem curta, direta e sem espaço para discussão:
— "O Polegar está na porta. Sua mãe está viva”
Fechei os olhos, dei um último beijo no vidro da porta da UTI e caminhei em direção à saída. Eu tinha trocado a morte da minha mãe pela minha própria vida.