Manuela narrando
Continuação
Depois de limpar o sangue do rosto do Léo e dar uns remédios para ele apagar na sala mesmo, subi as escadas com o corpo pedindo arrego, entrei no banheiro, tranquei a porta e arranquei aquela roupa que parecia pesar uma tonelada, só ali, debaixo do chuveiro, eu me permiti desabar, as lágrimas se misturavam com a água gelada, lavando o sangue dele que ainda estava em mim, mas não lavavam a marca que ele deixou na minha alma.
O que mais doía era o Satan agir como se eu fosse um anjo; ele me deu prazer, foi cuidadoso no começo, me fez sentir viva para, no fim, me jogar no lixo, me tratou como uma prostituta, como um objeto que ele comprou e agora podia descartar, Mas eu prometo para mim mesma, olhando para o azulejo encardido: eu não vou me vitimizar, eu nunca fui de chorar pelos cantos e não vai ser agora que vou começar enxuguei o rosto, vesti uma roupa limpa e me joguei na cama, o cansaço venceu o trauma e eu apaguei.
Despertei no dia seguinte com a claridade invadindo o quarto. Levantei num pulo; meu único pensamento era o hospital, precisava saber da minha mãe, enquanto descia as escadas, o silêncio na sala me avisou: o Léo não estava em lugar nenhum. Aquele moleque não aprendia nunca.
Batidas fortes na porta me fizeram travar, abri com o coração na boca e dei de cara com a Viviane e o Polegar.
— Amiga, trouxe um bolo pra gente tomar café — disse a Vivi, entrando sem pedir licença. — E o Polegar veio junto porque ele precisa te dar o papo reto sobre umas coisas.
— Qual foi, Manu? — Polegar cumprimentou, com o rosto sério.
— Entra aí, Polegar! — Vivi puxou ele pra dentro. — A minha amiga precisa saber como sobreviver àquele demônio do teu chefe, ela tá perdida nessa história.
Polegar tirou o boné, encostou na parede da cozinha e suspirou pesado.
— Olha, Manu, o papo é reto, o Satan é complicado, ele não acredita em sentimento, acha que amor deixa homem como nós vulnerável, fraco, o padrão dele é outro, geralmente, ele costuma dividir as putas dele com os aliados, a Isadora, por exemplo... ele come, nós comemos, a favela toda come, e ele não tá nem aí, não se importa de ver ela sentando pra outros, mas ninguém pode tocar no corpo dele, ele odeia carinho, odeia essa melação de casal.
Senti um frio na minha espinha que me fez perder o equilíbrio.
— Ele... ele vai querer que eu saia me entregando pra todo mundo? — perguntei, a minha voz saindo falha, carregada de pavor.
— Não sei, Manu. Não posso te dizer que sim, nem que não. Com o Satan, a regra muda conforme o humor dele.
— Ele vai ter que me matar, então — disparei, sentindo o sangue ferver de indignação. — Eu não vou fazer isso. Não vou me tornar carne de mercado pra esses bandidos. Não vou!
— Se eu fosse você, eu fugia pra bem longe, morena — Polegar falou, num tom de aviso quase fraternal. — O Satan é impulsivo e ele tá fissurado na sua beleza. Tenta não contrariar ele, porque ele não vai se importar nem um pouco de te machucar se você bater de frente.
Polegar olhou pro rádio na cintura, que não parava de chiar.
— Agora eu tenho que ir pra boca, o plantão tá chamando.
Notei que a Vivi estava num silêncio estranho, olhando pro chão.
— O que foi, Vivi? — perguntei, sentindo que tinha mais b.o vindo por aí.
— Amiga... o problema não é só o Satan. É a Isadora. Ela não aguenta te ver passar, já te odiava de graça. Ela quer te matar, Manu. Imagina quando ela descobrir que você tá ficando com o homem dela ?
— Eu estou perdida... — cobri o rosto com as mãos. — De um lado um psicopata, do outro uma maluca querendo meu pescoço.
— Tenta ser discreta, evita bater de frente com ela. Bom, meninas, eu já vou puxar meu carro — Polegar se despediu e saiu da casa, deixando um rastro de tensão no ar.
Ficamos ali, eu e a Vivi, comendo aquele bolo que parecia ter gosto de areia, o tempo passou, a exaustão da noite anterior me pegou de novo e eu acabei adormecendo no sofá, despertei horas depois com o toque estridente do meu telefone, atendi sem nem olhar o número, achando que era o Satan.
— Alô? Manuela?
— Sim, sou eu. Quem fala?
— Aqui é do Postinho Geral, precisamos que a senhora venha até aqui urgentemente, o estado da sua mãe teve uma alteração grave. O coração dela parou, Manuela, estamos tentando estabilizar, mas você precisa vir agora o meu mundo parou e o celular escorregou da minha mão e o grito ficou entalado na minha garganta, minha mãe estava partindo, e eu estava presa no meio de uma guerra que eu nunca pedi para lutar.
O trajeto até o hospital foi um borrão. Eu não sentia minhas pernas, não ouvia o som do morro, apenas a batida frenética do meu próprio coração, que parecia querer saltar pela boca, quando cheguei à recepção, o cheiro de desinfetante e morte me atingiu com força, eu estava ofegante, o suor frio escorrendo pelas minhas costas.
— Minha mãe... Maria Silva... o médico me ligou! — gritei para a enfermeira, batendo as mãos no balcão de vidro.
Não demorou muito para o mesmo médico de ontem aparecer no corredor, ele não precisou dizer uma palavra; o modo como ele tirou os óculos e suspirou já me rasgou por dentro.
— Senhora Manuela... — ele começou, a voz carregada daquela compaixão profissional que não cura nada. — O coração dela parou por três minutos, conseguimos reanimá-la, mas o quadro agora é de extrema urgência, ela não tem mais dias, ela tem horas. Se essa cirurgia não for feita agora, em uma unidade especializada, ela não vai resistir à próxima crise.
— Mas o SUS... a fila... — eu solucei, sentindo o meu chão sumir.
— Pelo sistema público, ela não sai daqui a tempo, você precisa de uma vaga particular, e o custo é alto. Muito alto.
Saí dali tonta, cambaleando pelo pátio do hospital, eu sentia que ia desmaiar a qualquer momento quando alguém segurou meu braço, olhei para o lado e vi o Polegar, ele devia estar resolvendo algum corre por ali e me viu naquele estado.
— Manu? Que houve, garota? Tu tá branca como papel! — ele perguntou, preocupado.
Eu desabei no choro, agarrando a camisa dele como se fosse minha última âncora.
— Minha mãe, Polegar... ela tá morrendo, o médico disse que ela precisa de uma cirurgia agora, senão ela não passa de hoje, mas é uma fortuna, eu não tenho esse dinheiro, eu não tenho nada!
Polegar olhou em volta, conferindo se alguém ouvia, e baixou o tom de voz.
— Escuta aqui, Manu... papo reto, o único cara que tem esse poder agora, que pode estalar os dedos e mandar ela pro melhor hospital do Rio, é o Satan. Pede pra ele, morena, agora que tu ta se deitando com ele, ele vai te fortalecer, ele é o único capaz de fazer alguma coisa por ela nesse tempo.
Aquelas palavras entraram em mim como navalhas, eu fechei os olhos e vi o rosto frio do Satan, ouvi ele me chamando de v***a e jogando as notas na minha cara, a humilhação ainda queimava em me.
— Não! — gritei, limpando as minhas lágrimas com força e me afastando do Polegar. — Eu não vou pedir nada pra ele, eu já entreguei minha dignidade, minha virgindade, minha paz... eu não vou entregar o resto da minha alma praquele demônio! Eu vou no banco, vou tentar um empréstimo, vou vender meus órgãos se for preciso, mas não vou ficar na mão dele mais do que já estou!
— Manu, tu tá sendo orgulhosa demais, banco nenhum vai dar crédito pra quem mora no morro sem garantia, e tua mãe não tem tempo! — Polegar tentou me alertar, mas eu já estava de costas.
— Eu prefiro morrer tentando do que virar escrava dele pra sempre! — gritei sem olhar para trás, saindo em disparada em direção ao asfalto.
Tinha que haver um jeito, deus não podia ser tão c***l a ponto de me dar apenas o d***o como saída.