Capítulo 12

1254 Palavras
Manuela narrando As ruas do Santa Marta nunca pareceram tão íngremes, meus pés pesavam como se eu estivesse arrastando correntes invisíveis e cada passo era uma agonia que subia pelas minhas pernas, lembrando-me do que tinha acabado de acontecer naquela casa, o ar frio da noite batia no meu rosto, mas não conseguia levar embora a sensação das mãos dele na minha pele, nem o gosto amargo da humilhação que ele jogou em cima de mim junto com aquelas notas de cem reais. Eu me sentia suja, não era apenas o sangue entre as minhas coxas ou o suor dele impregnado em mim; era a minha alma que parecia ter ficado pelo caminho, jogada num canto escuro daquela sala. Caminhei como um zumbi pelas vielas, ignorando os olhares dos vapores eu era a "escolhida" do patrão agora, e o respeito que eles me davam tinha um gosto de vômito. — Deus, me ajuda... — sussurrei, mas minha voz se perdeu no som dos estalar dos radinhos. Minha mente voou para o hospital, minha mãe, entubada, lutando por cada batida de um coração cansado de sofrer, a culpa me corroía por dentro, eu tinha me vendido, tinha deixado um monstro me possuir, e a primeira coisa que ele fez depois de me tirar a inocência foi me chamar de v***a, ele queria que eu acreditasse que eu não valia nada, que eu era apenas um objeto para o seu prazer. Mas ele estava errado. — Você pode ter o meu corpo, Satan — murmurei para o vento, apertando o dinheiro amassado no bolso do short. — Mas eu vou resistir a esse inferno que você quer fazer da minha vida. Eu vou salvar a minha mãe e, um dia, eu vou sair desse buraco, você não vai me quebrar. Conforme me aproximava do meu barraco, notei um silêncio estranho na rua 12. As luzes de alguns vizinhos estavam apagadas, mas um vulto na frente da minha porta fez meu coração parar, no começo, achei que era o Satan me esperando para mais uma rodada de humilhação, mas conforme cheguei perto, o cheiro de ferro de sangue fresco me atingiu em cheio. — Léo? — gritei, correndo os últimos metros. Meu irmão estava jogado no chão, um amontoado de carne e trapos, ele não parecia mais um ser humano, o rosto estava tão inchado que os olhos eram apenas fendas roxas, o nariz estava torto, e sangue escuro escorria de um corte profundo na testa, empapando a camisa suja que ele usava. — Léo! Pelo amor de Deus, fala comigo! — Me joguei ao lado dele, ignorando a dor no meu próprio corpo. Ele soltou um gemido que parecia vir do fundo de um poço, ele tentou tossir, mas acabou cuspindo sangue no asfalto. — Ma... Manu... — ele balbuciou, a voz saindo falha, entrecortada pela dor. — O que fizeram com você, meu irmão? quem fez isso? — Eu sabia a resposta, eu sabia de onde vinha aquela crueldade, mas parte de mim se recusava a acreditar que o Satan tinha sido capaz de tanto, logo depois de eu ter me entregado a ele. — O... o patrão... — Léo tentou levantar a mão, mas ela caiu sem forças. — Os moleques... eles me pegaram... o celular... Tirei o cabelo do rosto dele e vi o estrago, ele tinha sido moído. Costelas provavelmente quebradas, dentes faltando. Era o "esculacho" do morro, a marca da disciplina que o Satan impunha com mãos de ferro. Ele tinha recuperado o celular e, como bônus, tinha destruído o que restava do meu irmão. Olhei para o Léo e, por um segundo, o ódio que eu sentia por ele ter me vendido quase superou a piedade, ele era o culpado de tudo, se não fosse pelo vício dele, se não fosse pela ganância de roubar o próprio presente que o demônio me deu, minha mãe não estaria no hospital e eu não teria passado pelas mãos daquele homem, ele não era meu sangue mais era meu irmão o sangue dele estava sujando as minhas mãos enquanto eu tentava estancar a ferida na cabeça dele. — Você é um i****a, Leonardo! — eu gritava entre soluços, tentando levantá-lo. — Por que você não parou? Por que tinha que roubar o celular? Olha o que ele fez com você! Olha o que ele está fazendo com a gente! — Me ajuda... Manu... dói... dói muito... — ele chorava como uma criança, a arrogância de antes totalmente esmagada pela dor física. Com um esforço sobre-humano, consegui arrastá-lo para dentro do nosso barraco, o ambiente estava escuro e vazio, o cheiro de mofo parecia mais forte sem a presença da minha mãe, Coloquei-o sentado no sofá velho e fui buscar água e um pano limpo. Enquanto limpava o rosto dele, cada gemido que ele dava era uma facada no meu peito, eu estava vivendo um pesadelo sem fim. Minha mãe morrendo num postinho de favela, meu irmão desfigurado na minha frente, e eu... eu agora era a "p**a particular" de um psicopata que mandava bater e matar com a mesma facilidade com que acendia um baseado. Olhei para as notas de cem reais que o Satan tinha jogado em mim, elas estavam ali, em cima da mesa, brilhando sob a luz fraca da lâmpada da sala, aquele dinheiro era o preço da minha dor, o valor da minha virgindade e, agora, talvez fosse o que compraria os remédios para o Léo e ajudaria nos custos que o hospital não cobria, eu odiava aquele dinheiro, odiava o homem que o deu. Mas eu precisava dele. — Escuta aqui, Leonardo — falei, segurando o rosto dele com força, obrigando-o a me "olhar" através do inchaço. — O Satan recuperou o celular, ele me marcou, ele disse que agora eu sou dele, e tudo isso por causa da sua fraqueza. Léo fechou os olhos, as lágrimas limpando trilhas no sangue seco do rosto. — Se você encostar em qualquer coisa que não seja sua de novo... se você fizer mais um corre que coloque a gente em perigo, eu juro por Deus, Léo, eu mesma entrego você para os homens dele. Você me ouviu? Ele assentiu levemente, tremendo. — Eu vou cuidar de você agora porque você é meu irmão, mas a Manuela que aceitava tudo morreu naquela casa hoje, eu vou salvar a mamãe, eu vou conseguir o dinheiro para essa cirurgia, nem que eu tenha que enfrentar o Satan todos os dias no inferno dele. Levantei-me e fui até a janela, olhando para o alto do morro, onde as luzes da casa do patrão brilhavam como olhos de um predador. Ele achava que tinha me vencido, achava que, ao destruir meu irmão e me humilhar, ele tinha garantido a minha submissão. Mas ele não conhecia a força de uma mulher que não tem mais nada a perder. Eu ia usar o jogo dele, ia aceitar o dinheiro, ia atender as ligações e ia dar o que ele queria — o meu corpo, mas enquanto ele se perdia no prazer, eu estaria planejando, eu ia resistir, ea manter meu coração blindado e minha mente afiada. — Pode vir, Satan — sussurrei, sentindo uma frieza nova tomar conta do meu peito. — Pode me chamar de v***a, de p**a, do que você quiser, mas no final, você vai descobrir que o seu erro foi achar que podia comprar uma alma que nunca esteve à venda. dessa vez, eu não seria apenas uma vítima. Eu seria a sobrevivente.
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