Satan narrando
A porta bateu, e o eco do desespero da Manuela ainda vibrava nas paredes daquela casa, eu fiquei ali, parado, sentindo o rastro do cheiro dela se misturar com a fumaça do meu baseado, meu corpo ainda estava quente, a adrenalina pulsando nas minhas veias, mas minha mente já tinha mudado o momento de prazer tinha acabado; agora era hora de botar a ordem na casa, no meu morro, Eu não aceito que morador seja roubado e a Manuela é uma moradora.
Vesti minha roupa devagar, peguei meu fuzil e coloquei a pistola na minha cintura, cada movimento era um lembrete de quem eu era, "Satan" o dono dessa p***a toda dono do trono de espinhos do Santa Marta.
Saí da casa e a noite estava carregada, o morro estava vivo, o som dos radinhos estalando por todos os lados, montei na minha moto, dei a partida, peguei meu rádio que estava na minha cintura e apertei o botão do rádio.
— Polegar, na escuta? — minha voz saiu fria, cortante.
— Fala, irmão to na esculta.
— Reúne os moleques da contenção, quero o cabeça, aquele noia desgraçado roubou a Manuela, levou o celular que eu dei pra ela. Quero esse moleque na minha frente em dez minutos, ou vai ter vapor mofando na salinha hoje.
— Já é, Satan, o pessoal viu ele descendo pro lado da Baixada, tentando trocar o aparelho por pedra, vou cercar as saídas.
Desliguei o rádio, o meu ódio estava subindo pela minha espinha. Roubar no meu morro já era sentença de morte ou um esculacho que o cara nunca esquecia, mas roubar algo que eu dei, era um insulto pessoal, era como se o cabeça tivesse cuspido na minha cara.
Pilotei pelas vielas, cortando caminho, eu conhecia cada buraco desse lugar, e sabia exatamente onde um rato como o cabeça se esconderia.
Cheguei na Baixada, uma área onde o vício domina e avistei de longe a movimentação, três motos da minha contenção já tinham cercado um beco sem saída, o brilho dos faróis iluminava a figura miserável que tentava se encolher entre sacos de lixo, desci da moto sem pressa, meus homens abriram caminho. Polegar estava lá, segurando um pedaço de madeira, o olhar fixo no verme.
— Olha só quem a gente achou tentando passar a mercadoria pra frente por preço de banana — Polegar disse, chutando o pé desse verme. — O rato estava quase fechando negócio.
Cabeça levantou o rosto, estava suado, os olhos arregalados de pavor, a boca tremendo, ele segurava o iPhone contra o peito como se fosse um escudo, mas era só a prova do seu crime.
— Satan... por favor... — ele gaguejou, a voz sumindo. — Eu ia devolver, eu juro! Eu só... eu precisava de um pouco, a fissura tava demais, irmão...
Caminhei até ele e me agachei, sentindo o cheiro do medo dele e tirei o celular da mão trêmula dele com um movimento brusco, o aparelho estava intacto, mas a minha paciência tinha não.
— Irmão? — perguntei, num sussurro perigoso. — Eu não sou teu irmão, seu merda, você roubou na minha favela você roubou a Manuela, você sabe o que acontece com quem faz isso na minha favela?
— Eu achei que... — cabeça começou a chorar um choro de quem não vale o prato que come.
Levantei-me e guardei o celular no bolso, olhei para os meus vapores, que estavam ali, só esperando o sinal para mostrar serviço.
— Polegar — chamei, sem tirar os olhos desse lixo.
— Fala, irmão.
— Esse moleque acha que o Santa Marta é casa de mãe Joana. Acha que pode roubar a própria irmã, que tá se sacrificando pra manter ele vivo, ele precisa de uma lição que nem a droga vai fazer ele esquecer.
Cabeça tentou levantar, mas um dos meus soldados deu um chute nas costelas dele, fazendo-o se dobrar novamente no chão.
— Dá uma surra nele — ordenei, a minha voz fria como o aço. — Mas não mata, não quero dar esse descanso pra ele agora, quero que ele sinta cada centímetro de osso quebrado, quero que ele entenda que, no meu morro, a disciplina é a única lei, e quem rouba, paga com o couro.
Polegar sorriu, um sorriso sombrio, e fez um sinal para os outros dois, o que se seguiu foi o som abafado de socos, chutes e o estalo da madeira batendo no cabeça gritava que pedia clemência, chamava pela mãe, pela Manuela..., mas ninguém ali tinha ouvidos para um traidor, encostado na moto, acendi outro baseado, curtindo cada trago, a fumaça se misturava com os gritos do cabeça, no nosso mundo, errar tem um preço, e ele estava pagando caro, no crime, se você não pune o erro, você vira o alvo, e o cabeça tinha errado feio.
Depois de alguns minutos, o corpo dele era apenas um amontoado de carne roxa e sangue no chão sujo do beco, ele m*l conseguia gemer.
— Chega — eu disse, e os golpes pararam na hora.
Caminhei até ele e chutei levemente seu ombro.
— Escuta aqui, seu verme. Se eu souber que você pegou esse celular da Manuela de novo, ou se você roubar uma agulha que seja dentro desse morro, eu mesmo te jogo no micro-ondas e assisto você virar cinza, você só tá vivo porque a sua irmã tem um coração que vale ouro e que é grande demais pra ser egoísta, mas a minha paciência tem limite.
Olhei para o Polegar.
— Joga esse lixo na porta da casa dele.
Montei na minha moto e saí dali, deixando o rastro de sangue para trás, o celular pesava no meu bolso, voltei para a minha casa no alto do morro, entrei no meu quarto, joguei o celular em cima da cômoda e me olhei no espelho, eu estava suado e com um pouco do sangue do cabeça que espirrou na minha bota.
Pensei na Manuela, ela ia sofrer quando visse o irmão naquele estado, mas ela precisava entender as regras do jogo, no inferno, não existe espaço para os fracos, eu a tinha possuído, tinha marcado seu corpo, e agora tinha recuperado o que era dela por direito. Deitei na cama e fechei os meus olhos, a imagem dela gemendo sob o meu corpo voltou a me a minha mente o cheiro de sua pureza, eu não a amaria, nunca, mas eu a possuiria para mim.