Capítulo 15

1171 Palavras
Satan narrando Eu estava na boca, resolvendo um problema com uma carga de munição que veio extraviada, quando o Polegar encostou. Ele não disse nada de imediato, mas a cara dele não era de quem trazia boa notícia, ele me deu o papo, a mãe da Manuela tinha tido uma parada, e o postinho daqui não tinha estrutura e a garota estava lá fora, se debulhando em lágrimas, jurando que ia conseguir um empréstimo no banco para pagar a cirurgia. — No banco, Polegar? — dei uma risada curta, mas sem graça nenhuma. — Aquela baixinha é mesmo iludida. Banco nenhum olha na cara de quem vem da favela, a não ser que seja para chamar a segurança. Mas, por dentro, algo estalou, eu ainda sentia o gosto dela, a pressão daquela virgindade que eu tinha acabado de reivindicar. Eu disse que ela era minha, e eu não vou deixar a mãe dela morrer, montei na minha moto e ralei para o postinho estacionei de qualquer jeito e entrei com aquela cara de poucos amigos que faz até o vapor mais valente olhar para o chão, avistei a Manuela de longe, com a cabeça entre as mãos, os ombros sacudindo de tanto chorar, ela parecia tão pequena, tão destruída, que por um segundo um maldito segundo eu senti um incômodo no meu peito que não era t***o. Caminhei até ela e parei, fazendo a minha sombra sobre o seu corpo, e depois de trocar uma ideia ela finalmente engoliu seu orgulho e agora está a caminho do único lugar onde a sua mãe tem uma chance, fui na frente para ir abrindo caminho. O ronco da minha moto ainda ecoava pelas paredes de barro e tijolo aparente do Santa Marta, mas meus olhos não saíam daquela ambulância. Observei o veículo branco e moderno serpenteando as vielas, descendo o morro, Era o meu dinheiro que estava movendo aquelas rodas. Era o meu poder que estava garantindo que o coração daquela dela continuasse batendo. Pilotei devagar até a praça central, o coração do morro, estacionei a moto e vi o Polegar encostado num poste, atento a cada movimento, ele se aproximou assim que desliguei o motor. — A visão é total, Satan, a coroa já tá a caminho da clínica — disse ele, cruzando os braços. — Escuta aqui, Polegar — falei, tirando o capacete e fixando o olhar nele. — Quero que você desça agora, vai até essa clínica de luxo, não quero erro, garante que aquela mulher tenha tudo do melhor, o melhor quarto, os melhores remédios, os melhores médicos, se alguém lá tratar a Manuela ou a velha com desdém, você me liga que eu mesmo vou lá resolver, e assim que a cirurgia acabar e o médico der o ok, você traz a Manuela de volta, quero ela aqui, no meu pé, antes do sol se pôr. Polegar assentiu, mas antes que ele pudesse abrir a boca para responder, o clima mudou, o perfume barato e forte de Isadora chegou antes dela, vi a silhueta dela se aproximando, os passos duros, a cara de quem estava pronta para atear fogo no morro. — Que p***a é essa que eu tô ouvindo, Satan? — Isadora disparou, parando na minha frente com as mãos nos quadris, os olhos faiscando de ódio. — Tu mandou uma ambulância particular pra buscar a velha da mãe daquela morta de fome? Gastou uma nota preta com gente que não vale o que come? Eu a encarei em silêncio por cinco segundos, o silêncio era o meu aviso, mas a Isadora nunca foi muito boa em ler sinais. — Por que você ajudou a mãe daquela v***a da Manuela? — ela continuou gritando, a voz estridente atraindo a atenção de alguns vapores que fingiam não olhar. — Tá todo mundo comentando que o patrão agora virou assistente social daquela v***a! O tapa foi tão rápido que nem o Polegar viu o movimento, minha mão atingiu o rosto dela com força o suficiente para fazer sua cabeça virar e o som do estalo ecoar na praça, Isadora caiu sentada no chão, a mão no rosto, os olhos arregalados de choque. A raiva subiu quando ela xingo a Manuela — Desde quando eu devo satisfação dos meus corres para v***a? — perguntei, a minha voz baixa, num tom que faria qualquer homem tremer. — Quem manda nessa p***a sou eu, se eu quiser queimar o dinheiro ou usar pra salvar o d***o, o problema é meu. Você é só uma v***a, Isadora, não esquece o seu lugar. Ela soltou um soluço de raiva, o rímel começando a borrar com as lágrimas que nasciam do ódio, ela se levantou, cambaleante, mas a língua continuava afiada. — Se você tiver comendo a Manuela... se você tiver fazendo isso por causa daquela sonsa... eu juro que eu vou... Eu não deixei ela terminar, o segundo tapa foi mais forte que o primeiro, fazendo-a recuar e bater as costas numa mureta, segurei o rosto dela com uma mão só, apertando suas bochechas até que os lábios dela ficassem deformados. — Você vai o quê, Isadora? Termina a frase — desafiei, os meus olhos cravados nos dela. — Escuta bem, porque eu só vou falar uma vez: se você encostar em um único fio de cabelo da Manuela, se você olhar torto ou atravessar o caminho dela, você vai para o saco, eu te mando pro micro-ondas sem pensar duas vezes, a Manuela agora é posse minha, e ninguém toca no que é meu. Entendeu? Ela não conseguiu falar, apenas balançou a cabeça positivamente, tremendo de pavor, eu a soltei com desprezo, como quem joga um trapo fora, Polegar, que assistia a tudo de camarote, soltou uma risada debochada, achando graça da humilhação daquela v***a que sempre se achou a Patroa do morro. — Qual foi, Isadora? Perdeu o trono, foi? — Polegar zombou, ajeitando a jaqueta. — Ó, Satan, vou nessa cumprir o correr lá na clínica. Ele subiu na moto dele, dando um tchauzinho irônico para a Isadora enquanto arrancava, deixando ela ali, sozinha, desmoralizada na frente de quem quisesse ver, Isadora saiu dali pisando fundo, chorando de raiva, mas eu nem olhei para trás. Peguei meu radinho e dei a ordem para as contenções reforçarem a segurança na entrada da Rua 12. Manuela agora estava amarrada a mim por algo muito mais forte que o medo: ela estava amarrada pela gratidão e pela dívida de sangue, eu tinha salvo a mãe dela, e o preço disso era a sua liberdade, eu não me importava com o que a Isadora pensava, ou com o que o morro ia dizer, na favela, a minha vontade é a única lei que existe. Sentei na minha moto e olhei para o relógio, o tempo estava correndo, logo a Manuela estaria de volta, e dessa vez, eu não teria paciência para choros ou resistência, ela saberia que cada batida do coração da mãe dela tinha um custo, e eu ia cobrar em parcelas de prazer.
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