Capítulo 16

1386 Palavras
Isadora narrando O asfalto fervia, mas nada queimava mais do que a minha face. Eu caminhava pelas vielas estreitas da favela e sentia os olhares cravados em mim como lâminas, onde a mão do Satan tinha atingido a minha pele latejava, um lembrete brutal da humilhação que ele me fez passar, mas o pior não era a dor física; era o deboche. — Ih, ó lá... a primeira-dama levou um corretivo do homem! — ouvi um vapor sussurrar na entrada do beco, rindo baixo. — O império caiu, parceiro, a novinha chegou atropelando tudo. A Isadora agora é ex v***a de luxo — o outro completou, soltando uma baforada de fumaça na minha direção. Passei por eles de cabeça erguida, mas por dentro eu queria rasgar a garganta de cada um, aquele sorrisinho de canto, aquele olhar de "a rainha caiu", estava em cada esquina, eu, que sempre fui a mulher do brabo, a que mandava e desmandava nas piranhas do morro, agora era motivo de piada por causa de uma santinha de merda. Entrei no meu barraco o mais luxuoso daquela parte, cheio de mimos que o Satan me deu durante meses de f**a e bati a porta com tanta força que o som ecoou, subi as escadas bufando e me tranquei no quarto, joguei a bolsa na penteadeira com ódio, fazendo os frascos de cristais balançarem, um dos meus perfumes franceses, o preferido dele, caiu e estilhaçou no chão, o cheiro doce e caro inundou o quarto, mas para mim, aquela p***a fedia a derrota. — Aquela santinha de merda... do r**o quente! — gritei para o espelho, vendo o reflexo da minha bochecha inchada e o rímel escorrendo como tinta preta. — Ela acha que ganhou? Ela acha que pode entrar no meu morro, roubar o meu homem e sair ilesa? Me sentei na cama, as minhas mãos tremendo, o tapa de hoje não foi disciplina, foi proteção, ele me agrediu para a defender, eu sabia que não podia bater de frente com o patrão, Satan não ameaça em vão se eu encostasse na Manuela agora, ele me manda para o "micro-ondas" sem piscar, mas eu não entrei nessa vida ontem. — Ele disse que se eu encostar nela, eu morro... — murmurei, um sorriso sinistro surgindo nos meus lábios borrados. — Mas ele não disse nada sobre os outros encostarem. Peguei o meu celular e disquei o número do Coringa, um vapor da contenção que sempre foi louco por mim, ele é o tipo de cara que faz qualquer sujeira por uma noite entre as minhas pernas, e eu sempre soube usar isso a meu favor. — Fala, minha deusa. Vi o b.o lá na praça, o homem tá virado no cão, hein? — a voz do Coringa saiu rouca. — Cala a boca e escuta, Coringa, quero que você faça um serviço para mim, sabe a Manuela, da rua doze? quero saber de cada passo daquela sonsa, quero saber onde o irmão dela, o Léo ainda deve para os caras do Comando lá fora. — O Léo é um rato, Isadora, se eu apertar, ele entrega até a sombra, mas o Satan deu o papo que a garota é intocável... — Duvido que ele compre guerra por uma p**a por isso quero que você espalhe na favela inteira que ela abriu as pernas para o patrão em troca de luxo enquanto a mãe estava morrendo, faz a fama dela ser pior que a de uma p**a de beira de estrada. Se você fizer isso direito, hoje à noite eu te deixo fazer o que quiser comigo naquela casinha do setor quatro. — Já é, morena, por um prêmio desse, eu transformo a vida dessa santinha num inferno, vou plantar o veneno agora mesmo. Ele desligou e eu fiquei ali pensando. — Eu vou acabar com você, sua vagabunda — sibilei, retocando o batom com as mãos agora firmes. — O Satan pode até te comer, mas ele vai te cuspir quando descobrir que você é a maldição da vida dele. Vou fazer ele mesmo te dar o tiro de misericórdia. Saí de casa novamente, escondendo o rosto inchado com meus óculos de grife, eu ia plantar a semente da discórdia, ia fazer a notícia da "protegida do patrão" chegar aos ouvidos dos inimigos lá da outra facção, se o Comando rival soubesse que o Satan tem um ponto fraco uma mulher por quem ele paga clínicas de luxo e perde a cabeça a Manuela viraria o alvo número um. — Aproveita seu momento, Manuela — disse para o nada. — Porque o seu "anjo da guarda" tem chifres, e eu vou garantir que ele te leve direto para o inferno. O Santa Marta ainda é meu, e você vai sair daqui num saco preto. Eu estava, cercada pelas minhas "amigas" um bando de urubus de batom que adoram ver a carniça alheia, o Coringa, fiel ao nosso trato, já tinha começado o serviço, ele circulava entre as rodas de vapores, soltando o veneno como quem não quer nada. — Pô, a santinha da rua Doze não perdeu tempo, né? — o Coringa dizia, rindo e limpando o suor da testa. — Pagando de direita, mas foi só a velha dela ameaçar dar o último suspiro que ela correu pro colo do patrão, abriu as pernas rápido demais pro Satan salvar a vida da coroa, é o preço, né? A b****a em troca da cirurgia. Eu bebi um gole da minha cerveja, sentindo o gosto da vitória começando a se formar, logo, um grupo de vapores da contenção, já alterados pelo álcool e pela ousadia, começou a entrar na pilha. — Ah, então a tabela de preço da novinha é essa? — um deles, um moleque novo chamado Tico, debochou alto, rindo com os parceiros. — Se for assim, a gente libera umas pedras pro noia do irmão dela e ela paga pra nós também, né? Pode liberar a b****a pros amigos, já que o caminho tá aberto. A "b*******a dela" agora é pública! As gargalhadas ecoaram pela praça, eu sorri, era exatamente isso que eu queria: transformar a Manuela em carne de mercado, tirar a aura de santa dela. Mas o riso morreu num estalo seco. O som do tiro de fuzil cortou o ar o silêncio que se seguiu foi absoluto, interrompido apenas pelo baque seco do corpo do Tico caindo no chão, o sangue começou a empoçar rapidamente no cimento da praça, saindo de um buraco perfeito no meio da testa dele. Todo mundo congelou, as minhas amigas deram um pulo, algumas soltando gritos sufocados, eu olhei para a direção do disparo e meu coração quase parou Satan estava ali, parado no início da ladeira, com o fuzil nas mãos e o olhar de um demônio. Ele caminhou devagar até o centro da praça, as botas pisando no sangue que escorria, e parou diante dos vapores que ainda tremiam de pavor. Ele percorreu o olhar por cada um deles, demorando-se um segundo a mais em mim. — Mais alguém? — ele perguntou, a voz saindo num tom baixo, calmo e mortal. — Mais algum arrombado aqui vai abrir a boca para falar da Manuela? Ninguém ousou respirar, os moleques da contenção baixaram a cabeça, as mãos longe das armas. Satan deu um passo à frente, chutando o corpo do morto para o lado como se fosse um lixo qualquer. — Eu vou deixar o aviso de uma vez por todas para quem não entendeu: a Manuela é minha, e quem falar o nome, quem pensar em encostar nela, vai terminar igual a esse verme aqui, eu não dou segunda chance. Ele virou as costas e começou a subir em direção à mansão, sem olhar para trás, eu senti um ódio tão grande que minha visão ficou turva, ele matou um dos seus melhores soldados por causa daquela garota, ele estava limpando o caminho para ela, transformando a "santinha" numa intocável enquanto eu era humilhada em público. Apertei a latinha de cerveja na minha mão até ela amassar e explodir. — Filho de uma p**a desgraçado! — sibilei entre dentes, vendo a silhueta dele sumir no alto. — Você vai cair, Satan. E eu vou estar lá para chutar sua cabeça quando aquela v***a for a causa da sua morte.
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