Manuela narrando
O asfalto liso da Zona Sul ficou para trás, substituído pelo sacolejo da subida e pelo cheiro de pólvora e esgoto que impregna o ar da favela, já era noite quando o Polegar parou o carro na porta da minha casa, meu corpo parecia feito de chumbo, e minha mente era um turbilhão de imagens: o rosto pálido da minha mãe, o luxo silencioso da clínica e a sombra aterrorizante do homem que tinha pagado por tudo aquilo.
— Entregue em casa, morena — disse o Polegar, desligando o motor e me olhando pelo retrovisor.
— Obrigada, Polegar, de verdade... por ter ido me buscar.
Ele deu um sorriso curto, batendo os dedos no volante.
— Não agradece a mim não, Manu, o papo é reto: o Satan que deu a ordem, ele fez questão que eu garantisse que você e sua coroa tivessem o melhor atendimento, os melhores médicos, tudo do bom e do melhor, o homem não economizou um centavo.
Aquelas palavras me deixaram sem chão, por que ele faria isso? por que um monstro que mata sem piscar teria esse tipo de cuidado? O silêncio tomou conta do carro, eu não tinha o que responder, desci, entrei em casa e o vazio do barraco parecia gritar, o Léo não estava; provavelmente estaria em algum buraco, se escondendo ou se drogando com o dinheiro que não tinha, eu estava tão exausta que fiz tudo no automático, tomei um banho frio, nem senti a água tocar minha pele, e desabei na cama, o sono foi um abismo sem sonhos.
Despertei no dia seguinte com a claridade batendo no meu rosto. Tomei um banho rápido, vesti a primeira roupa limpa que vi e fui para o hospital.
Os sete dias seguintes foram os mais intensos da minha vida, eu não saí do lado da minha mãe nem por um segundo, a recuperação dela foi um milagre da medicina que o dinheiro do crime comprou, foram dois dias de tensão na UTI e cinco dias num quarto particular que parecia hotel de cinco estrelas. Eu dormia numa poltrona confortável, comia comida de verdade e cuidava dela com todo o amor que eu tinha guardado.
Na manhã da alta, eu estava arrumando as malas, o sol entrava pela janela ampla do quarto, iluminando o rosto da minha mãe, que já tinha uma cor mais saudável, mas os olhos dela, ah, aqueles olhos me conheciam como ninguém.
— Manu... para um pouco — ela pediu, a voz ainda fraca, mas carregada de mágoa.
— Oi, mãe. Tá sentindo dor? Quer que eu chame a enfermeira?
Ela segurou minha mão e começou a chorar, um choro doído, de quem carrega uma culpa que não é sua.
— Eu sei o que você fez, minha filha, eu vi o luxo desse lugar, vi como os médicos te tratam, você está se sacrificando por mim, não está? Se entregando àquele demônio do Satan... tudo por causa desse meu coração velho e por causa do vício do Leonardo. Aquele moleque acabou com a nossa família e agora você está pagando o preço com a sua vida.
Senti um nó na minha garganta, mas forcei um sorriso, abracei ela com cuidado, sentindo o cheiro de sabonete e hospital.
— Não pensa nisso, mãe, o que importa é que a senhora está viva. O resto... o resto a gente resolve, e quer saber? Eu acho que ele já até esqueceu de mim, nesses sete dias o Satan não me procurou, não mandou mensagem, não ligou, acho que o capricho dele passou, ele deve ter achado outra diversão e me deixou de lado.
Ela limpou as lágrimas, me olhando com uma ponta de esperança.
— Deus te ouça, minha filha. Deus te ouça.
Com tudo pronto, saímos do hospital, para minha sorte, a Vivi já estava lá fora nos esperando com um carro de aplicativo, o trajeto de volta foi silencioso, quando chegamos na barreira, o motorista do app parou, ele estava trêmulo, morrendo de medo dos fuzis que brilhavam sob os reflexo do sol.
— Eu não subo, moça, sinto muito — ele disse, com a voz falhando.
— Tudo bem, a gente desce aqui — respondi, ajudando minha mãe a sair.
O sol estava castigando e o caminho até o nosso barraco era uma subida ingrime, eu estava preocupada se ela ia aguentar, foi quando um carro preto, com os vidros totalmente escuros, parou do nosso lado, o vidro baixou e lá estava o Polegar.
— Coé, Manu! Precisando de um resgate? — ele perguntou, com o radinho chiando no ombro.
— Polegar! Minha mãe acabou de ter alta, não sei se ela aguenta subir esse morro a pé.
— Entra aí, pô, o Satan deu a ordem pra ficar de olho em vocês. Vou levar vocês até a porta de casa no conforto.
Eu hesitei por um segundo, mas olhei para o rosto cansado da minha mãe e aceitei, Polegar nos ajudou com as sacolas e começou a subir a ladeira, o morro estava agitado, vi vapores novos nas contenções, o clima parecia mais pesado que o normal.
— Tá tudo bem por aqui, Polegar? — perguntei, sentindo uma vibração estranha no ar.
— O clima tá meio tenso, Manu, o Satan andou fazendo uma limpeza na praça uns dias atrás, uns moleques falaram o que não deviam e o Satan mandou a conta, mas pra vocês a visão é tranquila ninguém encosta.
Minha mãe apertou minha mão, aterrorizada com a conversa, eu apenas olhei pela janela, vendo as vielas passarem, o Polegar nos deixou na porta de casa, exatamente onde tudo tinha começado.
— Valeu, Polegar — agradeci, ajudando minha mãe a descer.
— De nada, morena. Fica esperta aí, qualquer coisa dá o grito.
Entramos em casa, o barraco estava do mesmo jeito: empoeirado, vazio e triste, mas estávamos vivas, eu coloquei minha mãe na cama dela, dei os remédios e preparei uma sopa, enquanto ela dormia, eu me sentei na sala, olhando para o celular.
A paz de sete dias estava prestes a acabar, eu sentia isso em cada poro do meu corpo, o Satan não era homem de esquecer uma dívida, ele só estava dando tempo para a mercadoria se recuperar. E o silêncio dele era o que mais me dava medo, fui arrancada dos meus pensamentos pelo estrondo da porta da frente batendo contra a parede, o Léo entrou como um furacão desgovernado. Ele estava com as pupilas dilatadas, o suor escorrendo pelo rosto sujo e as mãos trêmulas, começou a andar de um lado para o outro na sala, chutando o ar, roendo as unhas até sangrar.
— O que está acontecendo, Leonardo? — perguntei, levantando num pulo, meu coração já disparando de nervoso. — Que agitação é essa?
— Eu vou morrer, Manuela! — ele gritou, a voz esganiçada. — Eu vou morrer se não pagar uma dívida de três mil agora! Os caras do Morro da Pedreira não brincam, eles vão me picar se eu não levar essa grana pro chefe de lá!
Minha visão ficou turva de ódio, três mil reais? no morro rival?
— Você o quê? — Parti para cima dele, segurando-o pela gola da camisa encardida. — O que você está fazendo com a minha vida e com a vida da nossa mãe? Como você tem a coragem de ir buscar droga na Pedreira, sabendo da guerra que existe? Você quer o quê? Que a gente seja fuzilada junto com você?
Léo me olhou com um desprezo que me deu náuseas, com um movimento brusco, ele me empurrou com força, me fazendo cambalear até bater as costas na mesa.