Capítulo 18

1431 Palavras
Manuela narrando Continuação — A culpa é sua! — ele berrou, apontando o dedo na minha cara. — Tudo isso é culpa sua! Se a minha mãe tivesse te deixado na rua quando o meu pai mandou, se ela não tivesse insistido em criar você sua bastarda, eu nunca teria me perdido! Eu seria o dono de tudo aqui! Você é a maldição dessa casa! — Que gritaria é essa? o que está acontecendo aqui? — A voz da minha mãe surgiu fraca, mas carregada de angústia. Ela estava parada no corredor, se segurando na parede descascada, com o rosto pálido e os olhos cheios de lágrimas. Tinha acabado de chegar do hospital e já estava sendo recebida pelo caos que o próprio filho plantava. Léo nem se abalou, olhou para ela e depois para mim, os olhos injetados de fissura. — Me dá a grana, Manuela! Me dá a grana pra eu pagar essa p***a logo e sumir daqui! Minha mãe soltou um soluço alto, entrando em choque, ela acabou de sair de uma cirurgia cardíaca e o filho estava ali, criando novas dívidas de sangue. — Eu não tenho dinheiro, Leonardo! — gritei de volta, sentindo as lágrimas de frustração queimarem nos meus olhos. — Tudo o que eu tinha, e o que eu não tinha, foi pra salvar a vida da nossa mãe! — Então pede pro Satan! — ele sugeriu, com um sorriso cínico. — Pede pro teu dono! Ele nada no dinheiro, três mil pra ele é troco de pão! — Eu não vou pedir nada pra ele! — respondi com firmeza, embora estivesse tremendo por dentro. — Eu já devo a minha alma pra aquele homem, eu não vou me enterrar mais por causa dos seus erros! Leonardo soltou uma risada seca, maligna, ele caminhou até mim, parando a centímetros do meu rosto, o hálito dele fedia a podridão e vício. — Ah, é? Não vai pedir pro teu macho? Então já que você não tem a grana e não quer incomodar o patrão, você vai ter que ir se deitar com o chefe da Pedreira, o JJ disse que se eu levasse uma novinha de qualidade, ele limpava a minha barra. O estalo do tapa ecoou pela sala. Minha mãe, tirando forças de onde não tinha, avançou e acertou a cara do Léo com toda a sua indignação. — Você está tratando a sua irmã, a menina que salvou a nossa vida, como uma v***a! — ela gritou, a voz trêmula. — Ela não é isso, Leonardo! Ela é o que sobrou de bom nessa família! Léo passou a mão no rosto, rindo como um louco. — Ela não é v***a, mãe? se ela não fosse, não teria se entregado com tanta facilidade pro Satan! Ela já deu pro d***o, o que custa dar pro JJ também? Eu não vou morrer por causa do orgulho dela! Nesse momento, o ar da sala pareceu congelar, um frio sobrenatural entrou pela porta que o Léo tinha deixado aberta. Uma sombra imensa se projetou no chão da sala. — Repete essa p***a, c*****o. Todos nós congelamos, o tempo parou, parado na porta, com o fuzil atravessado no peito e um olhar que era mais escuro que o próprio inferno, estava o Satan, ele não parecia um homem; parecia a própria morte esperando para colher uma alma, ele deu um passo para dentro, e o peso da sua presença fez o Léo recuar até bater na parede, perdendo toda a cor que ainda tinha no rosto. Satan não olhou para mim, não olhou para a minha mãe, seus olhos estavam cravados no Léo, como um predador que acaba de encontrar a presa mais desprezível da floresta. O silêncio que se instalou na sala era tão pesado que eu m*l conseguia ouvir as batidas do meu próprio coração, o Satan parado na porta não era o homem que tinha me tocado com desejo dias atrás; era o dono do morro, o carrasco, a autoridade máxima que não aceita ser desafiada, o brilho do fuzil sob a luz fraca da sala parecia um aviso de que o dia do juízo tinha chegado. O Léo estava branco, os lábios roxos, e as pernas tremiam tanto que ele parecia prestes a desabar, mesmo assim, o vício e o desespero o faziam falar asneira, cavando a própria cova. — Sa... Satan! — Léo começou a gaguejar, as mãos erguidas em sinal de defesa. — Eu tenho certeza que você não vai se importar... o senhor é o dono de tudo, mas a Manuela... ela vai ter que se deitar com o chefe da Pedreira, é negócio, patrão! Três mil reais! é só uma noite... Satan deu um passo para dentro, e o som da sua bota no chão de cimento pareceu um tiro, ele deu um sorriso de lado, mas não havia alegria ali, apenas uma crueldade gelada. — Pelo que eu estou vendo, a surra que eu te dei não adiantou de nada, né, moleque? — Satan falou, a voz saindo num tom baixo que cortava a alma. — Você continua um rato, um verme que não respeita nem o sangue do próprio sangue, mas agora a brincadeira acabou, eu te dei uma chance de aprender, mas você escolheu o lado errado, agora você não vai mais levar uma surra... você vai morrer para ficar de exemplo, no meu morro, traidor e agenciador de irmã não tem lugar. O desespero atingiu o Léo como um soco, ele caiu de joelhos, as lágrimas escorrendo pelo rosto sujo. — Não! Por favor, Satan! Eu não quero morrer! — Ele virou o rosto para a nossa mãe, que continuava pálida, encostada na parede. — Mãe! Me ajuda! Pelo amor de Deus, fala com ele! Sou seu filho, mãe! Me salva! Minha mãe olhou para ele com uma dor que eu nunca vou esquecer, ela apertou o peito, onde a cicatriz da cirurgia ainda queimava, e balançou a cabeça devagar. — Eu te dei a vida, te dei amor, e você me deu desgosto e dívida de sangue, eu não tenho mais forças para te salvar de você mesmo. Ele então se virou para mim, tentando segurar meus pés, mas eu recuei. — Manu! Minha irmã! Pede pra ele! Você tem poder sobre ele! Salva o seu irmão! Olhei para ele e não senti nada além de uma tristeza profunda e um cansaço que me consumia. — Eu já me entreguei ao d***o uma vez para salvar a sua vida da morte, Leonardo, outra para salvar a nossa mãe, e você não aprendeu nada, agora você quer que eu me comporte como uma p**a para pagar suas pedras na mão de um rival? Eu não sou isso. Você me vendeu antes mesmo de eu poder me defender. A sua escolha foi feita faz tempo. Satan deu um passo à frente, encostando o cano do fuzil no ombro do Léo. — Chega de despedida. Já falou demais, e cada palavra sua me dá mais nojo, agora você vai aprender como a gente trata rato no Santa Marta. Satan assoviou para a porta e dois vapores, armados até os dentes, entraram na sala imediatamente. — Leva esse lixo pro Micro-ondas — Satan ordenou, a voz seca, sem um pingo de hesitação. — Ele não aprendeu da primeira vez, achou que o meu morro era bagunça. Agora vai morrer e vai aprender que meu Morro não é bagunça. Léo começou a gritar, um som agudo de puro terror, enquanto os homens o arrastavam pelos braços para fora da casa, ele lutava, chutava e implorava, mas o destino já estava selado, eu e minha mãe nos abraçamos com força, fechando os olhos para não ver o fim do pouco que restava da nossa família, o choro dela era um lamento baixo e sofrido que cortava o meu peito. Satan ficou ali, observando os homens sumirem com o Léo, ele então se virou para nós, o olhar dele caiu sobre mim, agora com uma intensidade diferente, possessiva e dominante. — Eu vou resolver essa pendência — ele disse, ajeitando o fuzil no ombro. — Mas eu volto, vou almoçar aqui hoje, então prepara um rango de responsa. Quando eu chegar, eu quero comer. Ele não esperou resposta. Virou as costas e saiu, deixando o rastro de fumaça de cigarro e o cheiro de morte para trás. Eu fiquei ali, segurando minha mãe, sabendo que a vida do meu irmão estava acabando e a minha... a minha estava apenas começando a ser devorada pelo homem que agora era o meu único dono.
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