Manuela narrando
O silêncio que ficou no barraco depois que o Satan saiu era pior do que qualquer tiroteio, era um silêncio que pesava, que sufocava, como se as paredes estivessem se fechando em cima de mim, olhei para a sacola em cima da mesa e senti um asco profundo, meu deus, o que vai ser da minha vida? Eu, que sempre ralei, que sempre andei na linha, agora estava marcada pelo dono do morro.
Ele não me queria apenas como pagamento; ele queria o controle. Aquele celular era uma coleira de vidro e metal, meus sonhos de terminar os estudos, de ter uma vida digna longe dessa violência, pareciam estar sendo enterrados ali mesmo, sob o asfalto quente e o sangue que aquele homem carregava nas mãos, eu sabia que ele não ia me dar paz, um bandido daquele calibre não aceita nada menos que a alma de quem ele cobiça.
Eu estava ali, encolhida, sentindo o medo serpentear pela minha espinha, quando batidas frenéticas na porta me deram um susto.
— Amiga, sou eu, abre aqui! — Era a voz da Viviane, estridente e carregada de preocupação.
Enxuguei as lágrimas com as costas da mão, respirei fundo e abri a porta, Vivi entrou como um furacão, os olhos arregalados, quase sem fôlego.
— Manuela, pelo amor de Deus! Eu vi o Satan saindo daqui agora há pouco na moto dele, o que aquele bicho r**m queria? O que ele te fez? — Ela parou no meio da frase, notando o meu rosto inchado e o estado dos meus nervos. — Amiga, por que você está chorando desse jeito? Ele te encostou a mão?
— Não, Vivi... — respondi, a minha voz falhando. — Ele veio deixar isso aqui.
Apontei para a mesa, Viviane se aproximou, curiosa, e abriu a sacola, vi o momento exato em que a expressão dela mudou de pavor para choque total.
— Amiga... ele te deu um iPhone? — Ela pegou a caixa, maravilhada com o brilho do aparelho. — Do último! Isso aqui custa uma fortuna, Manuela!
— Eu não quero nada dele, Vivi! — gritei, sentindo a histeria subir pela minha garganta. — Ele trouxe isso para poder me controlar, para eu estar disponível quando ele bem entender, eu não quero essa p***a na minha casa!
— Mas, amiga... é o Satan. Tu não pode simplesmente devolver um presente dele assim sem mais nem menos. Isso é afronta — Vivi sussurrou, o medo voltando a brilhar nos olhos dela.
Nesse momento, minha mãe apareceu no corredor, amparada pelo Léo, o rosto dela era puro sofrimento, a palidez da doença misturada com a angústia de saber o que eu tinha feito.
— Ele já foi, minha filha? — mamãe perguntou, a voz trêmula. — O que aquele homem queria aqui dentro?
— Ele foi, mãe, não falou nada demais, só veio trazer uma coisa — respondi, tentando manter a voz firme para não desestabilizar ela ainda mais.
O Léo, que até então estava calado, fixou os olhos no telefone que a Viviane segurava, vi o brilho da ganância atravessar as pupilas dele, aquele brilho sujo.
— Que p***a é essa? — Léo se aproximou, arrancando a caixa da mão da Vivi. — Um iPhone? c*****o, a Manuela tá podendo mesmo! O patrão caprichou no presente da novinha.
— Me dá isso aqui, Leonardo! — avancei nele, mas ele desviou. — Ele trouxe para mim, mas eu vou devolver. Não quero nada que venha dele!
— Devolver? Tu é burra ou o quê, Manuela? — Léo riu, uma risada cínica que me deu nojo. — Se tu não quer, eu quero. Isso aqui vale muito dinheiro nas mãos certas, eu posso muito bem passar pra frente.
— Leonardo, não! — minha mãe gritou, tentando segurar o braço dele. — Deixa a sua irmã em paz! Você já arruinou a nossa vida o suficiente! Por sua causa ela está nessa situação, por sua causa aquele homem está cercando a nossa casa!
— Sai, velha! — Léo empurrou a mão dela com brutalidade e saiu correndo pela porta, levando o celular com ele.
— LEONARDO! — Minha mãe soltou um grito dilacerante, um som que parecia rasgar o resto de vida que ela ainda tinha no peito.
Ela levou a mão ao coração, os olhos reviraram e, antes que eu pudesse segurá-la, ela desabou no chão de casa.
— MÃE! — Me joguei ao lado dela, o pânico tomando conta de tudo. — Vivi, me ajuda! Ela não está respirando direito!
Viviane, apesar de estar em choque, agiu rápido, correu para a rua gritando por ajuda, uns rapazes que passavam ali perto nos ajudaram a carregar o corpo frágil da minha mãe até o postinho da favela, o trajeto foi um borrão de choro, rezas desesperadas e o peso de saber que o meu mundo estava desmoronando de vez.
O postinho estava lotado, como sempre, o cheiro de éter e desespero impregnava o ar, fiquei ali, na recepção de azulejos encardidos, andando de um lado para o outro, minhas mãos não paravam de tremer, eu rezava, implorava a Deus que não levasse a única pessoa que me amou de verdade.
Viviane estava sentada num banco, em silêncio, apenas me observando com pena, eu odiava aquela pena.
Depois de o que pareceu uma eternidade, a porta dos fundos se abriu e um médico de jaleco amassado e olheiras profundas apareceu com uma prancheta na mão.
— Senhora Manuela Silva? — chamou ele, a voz cansada.
— Sou eu! — corri até ele, o meu coração quase saindo pela boca. — Como ela está, doutor? Pelo amor de Deus, me diz que ela está bem!
O médico suspirou, e aquele suspiro foi como uma sentença de morte para mim.
— Senhora, a sua mãe sofreu um infarto agudo do miocárdio, o estado dela é gravíssimo, tivemos que entubá-la agora há pouco. Estamos lutando pela vida dela, mas o quadro é instável.
Senti minhas pernas fraquejarem. Viviane se levantou e me segurou por trás.
— Entubada? — sussurrei, as lágrimas voltando a inundar meu rosto.
— Sim, e tem mais, os exames mostram que ela precisa de uma cirurgia cardíaca urgentemente, o coração dela está muito fraco, não vai aguentar muito tempo sem essa intervenção.
— Posso ver ela? Só um minuto, doutor... por favor — supliquei, agarrando a manga do jaleco dele.
— Infelizmente não, hoje não, ela está em observação intensiva e qualquer esforço ou emoção pode ser fatal, o melhor que você pode fazer agora é esperar e rezar.
— Salva a minha mãe, doutor... por favor, eu só tenho ela — desabei, chorando no ombro dele.
— Estou fazendo o possível, senhora, o possível! Mas o caso é complexo e o tempo é nosso inimigo.
Ele se virou e voltou para dentro, deixando-me ali, no meio daquele corredor gelado, com a alma em pedaços, eu olhei para a Viviane e a ficha caiu, o Léo tinha levado o celular, o Satan ia me procurar, minha mãe estava morrendo e eu não tinha um centavo para uma cirurgia, caso o sistema público demorasse e no morro, tudo sempre demorava.
Senti um frio cortante, eu estava sozinha, o único homem que tinha poder para mudar qualquer coisa naquele lugar era o mesmo que me queria como p**a e agora, com a minha mãe entre a vida e a morte, eu percebi que o d***o não tinha apenas me comprado. Ele tinha me encurralado de um jeito que eu nunca conseguiria escapar.