Capítulo 8

1653 Palavras
Manuela narrando Continuação Saí do postinho com a Viviane me amparando, eu me sentia devastada, um trapo humano jogado ao vento, o corredor gelado do hospital ainda ecoava na minha mente, junto com o som daquele aparelho que dizia que o coração da minha mãe estava por um fio, como eu ia resolver isso? Onde eu arranjaria forças ou dinheiro para salvar a única pessoa que realmente me amava? As minhas lágrimas não paravam de cair, borrando tudo ao meu redor, o medo de perder minha mãe me sufocava mais do que qualquer mão no meu pescoço, assim que chegamos em casa, entrei de vez, sentindo o vazio da casa me dar um soco no estômago. — Calma, Manu. Vai dar tudo certo, amiga... — Viviane falou, segurando meus ombros e tentando me olhar nos olhos. — A tia é forte, ela já aguentou tanta coisa nesse morro, deus não vai levar ela agora. — Não sei, Vivi... parece que o mundo resolveu desabar de uma vez só na minha cabeça — respondi, soluçando. — Eu só queria que tudo isso fosse um pesadelo. — Respira, tenta se acalmar. Amanhã a gente volta lá e tenta falar com o médico de novo. — Amiga... vou tentar dormir um pouco, minha cabeça parece que vai explodir — murmurei, exausta. Viviane me deu um abraço apertado, daqueles que tentam juntar os pedaços da gente, e saiu em silêncio, me joguei na cama, mas o sono era um luxo que eu não tinha, cada vez que eu fechava os olhos, via o rosto do Satan, o Léo correndo com o celular e a imagem da minha mãe. Acordei com o sol batendo na fresta da janela, mas pra mim o dia estava escuro, percebi logo de cara que o Léo não tinha voltado. Aquele desgraçado provavelmente estava se drogando em alguma boca por aí, ou tentando vender o iPhone que o Satan me deu. Como eu não tinha faxina hoje, comecei a organizar a casa obsessivamente, tentando ocupar a mente para não enlouquecer. Lavei a louça, limpei o chão, fiz um almoço que nem consegui tocar. À tarde, segui direto para o postinho, meu coração palpitava na esperança de uma notícia boa, mas a recepção continuava a mesma desgraça e a enfermeira disse que o quadro era o mesmo: estável, porém crítico sem visita, sem abraço. Saí dali arrasada. Enquanto caminhava de volta pelas vielas, senti um calafrio, o ronco de um motor se aproximou, lento, me seguindo, olhei de soslaio e vi a moto do Polegar, ele parou do meu lado, o semblante sério, nada daquele deboche de sempre. — Onde tu estava, Manuela? — ele perguntou, tirando o capacete. — O Satan tá te esperando e o bagulho tá osso, o homem tá virado no cão! — O que eu fiz agora? — perguntei, sentindo minhas pernas tremerem na hora. — Sobe aí, ele tá te esperando na casa da principal. E ó, é bom tu ficar na tua, não retruca, que ele tá no ódio puro! — Mas, Polegar, eu não fiz nada! Estava no hospital com a minha mãe! — Tu não atendeu as chamadas dele, Manu, o cara ficou possesso porque tu deixou ele no vácuo. — O celular novo... — sussurrei, lembrando que o Léo tinha roubado. — Sobe aqui vamos logo antes que ele mande alguém descer o morro metendo o louco — ele disse, estendendo a mão. Subi na garupa, segurando na cintura dele, eu estava tremendo tanto que o Polegar sentiu. — Tá tremendo ? — ele perguntou pelo retrovisor. — Estou com medo, Polegar. Muito medo. Ele soltou um suspiro pesado, acelerando a moto pelas subidas íngremes. — Tu não merece isso, Manu... tinha que ter deixado o Satan matar aquele merda do teu irmão de uma vez, aquele moleque acabou com a tua vida. Polegar parou na frente de uma casa de dois andares na rua principal, não era a mansão onde o Satan morava, mas uma "casinha" que ele usava para trazer as suas putas. Respirei fundo, sentindo o ar faltar, caminhei pela sala m*l iluminada, o cheiro de maconha e perfume caro me atingindo em cheio, encontrei ele sentado em uma cadeira no centro da sala, as pernas abertas, segurando um baseado, ele não se mexeu quando eu entrei, apenas me olhou com uma frieza que congelou meu sangue. — Onde você estava? — ele perguntou, a voz saindo baixa e perigosa, como o rosnado de um bicho. — Minha... minha mãe não passou bem, Satan — respondi, as lágrimas voltando a arder. — Ela teve um troço no coração e está no hospital, entubada, eu passei o tempo todo lá tentando notícias. — E cadê a p***a do celular que eu te dei? — Ele se levantou devagar, caminhando na minha direção. — Eu liguei dez vezes, Manuela, ninguém deixa o Satan esperando. — Eu não sei... eu acho que descarregou — menti por um segundo, mas o olhar dele me atravessou. — O novo, Manuela, o que eu te dei cadê ele? Abaixei a cabeça, a minha voz saindo num sussurro desesperado. — O Léo... o Léo pegou ele de mim e sumiu, eu tentei pegar de volta, mas ele saiu correndo, minha mãe passou m*l por causa disso, Satan, eu juro. Satan parou na minha frente, senti a pressão da presença dele, de repente, a mão dele disparou e fechou no meu pescoço, me obrigando a olhar para cima, para o abismo dos olhos dele. — Eu vou averiguar essa p***a, Manuela, vou mandar meus homens atrás do teu irmão agora mesmo, e se eu descobrir que você está brincando comigo, que está me fazendo de otário... você vai morrer. — O que você quer de mim, Satan? — perguntei, a minha voz sufocada, minhas mãos agarrando os pulsos fortes dele. — Por que não me deixa em paz? — Eu já te disse o que eu quero — ele rosnou, aproximando o rosto do meu, o cheiro da maconha misturado ao hálito quente. — Eu quero o seu corpo, eu quero que você me dê prazer e pague cada centavo da dor de cabeça que aquele teu irmão me deu. Eu fechei os olhos, sentindo as lágrimas escorrerem pelos dedos dele, o desespero da minha mãe no hospital e a minha dívida com esse homem se misturaram numa massa de dor. — Agora? — perguntei, com o meu coração só faltando sair pela boca. — Você quer isso... agora? Ele soltou meu pescoço, mas só para deslizar a mão para a minha nuca, puxando meu cabelo com força e colando meu corpo ao dele. Eu sentia a dureza dele contra o meu ventre, um lembrete brutal de que meu tempo tinha acabado. — Agora, Manuela. Eu cansei de esperar. Tira a roupa. Olhei para o rosto dele, para os olhos que já tinham visto tanta morte, e a ficha caiu de um jeito doloroso. — Eu... eu tô muito nervosa, Satan — confessei, as minhas mãos espalmadas no peito dele, sentindo os batimentos fortes e constantes de um coração que não parecia conhecer o medo. — Eu não sei nada sobre isso, nunca fiz... eu nunca esperei perder a minha virgindade desse jeito, numa casa qualquer, por causa de uma dívida de droga. Ele parou por um segundo, o olhar me percorrendo com uma intensidade que parecia queimar minha pele. — É papo reto mesmo, Manuela? — ele perguntou, a voz rouca, num tom que eu nunca tinha ouvido. — Você é virgem de verdade? Ninguém nunca chegou junto? Nenhum moleque do morro, nenhum playboy do asfalto? — Nunca — confirmei, e uma lágrima solitária escorreu. — Eu me guardei a vida toda para alguém que eu amasse, para um momento que fosse especial. Mas agora o "especial" morreu junto com a saúde da minha mãe. Satan soltou um riso curto, mas não foi um riso de deboche. Foi algo carregado de um desejo — Minha diabinha... — ele sussurrou, e o apelido arrepiou até os fios de cabelo da minha nuca. — Tira a roupa para mim. Hoje... vou ser carinhoso, mas escuta bem o que eu vou te falar, não se apaixona por mim, minha vida é o crime, o sangue e a guerra, eu não vou te amar nunca, Manuela. Coloca isso na sua cabeça. Aquelas palavras me atingiram como um soco, mas serviram para despertar o que ainda restava do meu orgulho. — Não se preocupa — respondi, sustentando o olhar dele. — Eu não vou te amar. Eu sei quem você é, Satan. Eu sei que você não presta. Você é o homem que destruiu a paz da minha família. Não se preocupa com o meu coração, porque ele não tá no contrato. Ele deu um sorriso de lado, mordendo o lábio inferior enquanto me devorava com os olhos. O brilho de satisfação nele era evidente. — Essa sua inocência misturada com essa marra me enlouquece, baixinha... — ele disse, a voz vibrando. — Tu não tem noção do que eu vou fazer com você. Ele soltou meu rosto e deu um passo para trás, sentando-se novamente naquela cadeira de madeira, me observando como um rei observa uma oferenda. — Tira a roupa, Manuela, me mostra esse corpo que tá me deixando sem sono. Só tira a roupa e deixa que o resto eu resolvo. Minhas mãos tremiam tanto que eu quase não conseguia segurar o tecido. Comecei a levantar a blusa devagar, sentindo o ar gelado da sala bater na minha barriga. Cada centímetro de pele revelado parecia um grito de socorro que ninguém ia ouvir. O silêncio da casa era absoluto, quebrado apenas pelo som da minha respiração curta e pelo estalar do baseado que ele fumava. Eu estava ali, nua na alma e prestes a ficar nua de corpo diante do demônio do morro. O sacrifício estava pronto para ser consumado.
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