Manuela narrando
A água gelada batendo no meu corpo não foi capaz de lavar a sensação de que a minha alma tinha sido arrancada de mim. Saí do banho vestindo qualquer roupa, tentando ignorar o vazio que se instalou no meu peito, desci para a cozinha com o meu coração pesado, eu precisava cozinhar, precisava focar no básico para não enlouquecer, mas o barulho da TV na sala me dava náuseas.
O Léo estava lá, largado no sofá, agindo como se não tivesse acabado de me vender para o dono do morro, ele bebia um copo de água e mudava os canais, a indiferença dele me irritava e me fazia sentir um ódio do jeito que eu nunca imaginei sentir pelo meu próprio irmão.
Eu estava picando um pouco de cebola quando a voz da minha mãe, rasgada pelo ódio e pelo sofrimento, ecoou pela casa.
— Como você teve coragem, Leonardo? — O som de um tapa estalado ecoou, minha mãe, doente e frágil, estava batendo nele com a força que lhe restava. — Como você foi capaz de fazer isso com a sua irmã? Entregar a Manuela para aquele monstro... para o Satan!
— Ai, mãe! Para com essa p***a! — Léo gritou, levantando-se e empurrando-a para longe, o rosto transformado pelo vício e pelo rancor. — Essa é a obrigação dela! Por culpa dessa garota, por causa dessa adotada, o meu pai foi embora e a nossa vida virou esse lixo! Ela tem mais é que pagar a minha dívida mesmo. Se deitar com o patrão é o mínimo que ela pode fazer por essa família.
Eu travei na cozinha, a faca tremendo na minha mão, o golpe doeu mais do que se o Satan tivesse me batido, Mamãe ia retrucar, ia avançar nele de novo, mas uma batida pesada e autoritária na porta fez o oxigênio sumir da sala.
O silêncio que se seguiu foi de morte.
— Satan? — Minha mãe perguntou, a voz saindo num fio, o corpo todo tremendo enquanto ela olhava para a porta entreaberta.
Ele não esperou convite, entrou com a imponência de quem é dono de cada grão de poeira daquele morro, o cheiro de fumaça e poder preencheu o ambiente, ele nem olhou para os lados, seus olhos escuros e gélidos foram direto em mim.
— Papo reto — ele disse, a sua voz num tom baixo que vibrava nas paredes. — Meu problema não é com a senhora, nem com esse noiado que não serve de nada. Meu assunto é com a sua filha.
Meu coração disparou tanto que eu achei que fosse desmaiar. Mamãe, num ímpeto de coragem desesperada, se colocou na frente dele, estendendo as mãos suplicantes.
— Senhor... por favor, se o senhor me der um prazo, apenas um prazo curto, eu prometo que trabalho junto com a Manuela no asfalto, a gente faz hora extra, a gente dá um jeito de pagar cada centavo da dívida do meu filho... mas por favor, libere a minha filha dessa vida!
Satan deu um passo à frente, a sombra dele cobrindo a minha mãe, ele exalava uma impaciência perigosa.
— Não tem a p***a do tempo, coroa — ele rosnou, a mão repousando casualmente no cabo da arma na cintura. — Eu já negociei com a sua filha e o acordo foi fechado, mas se ela quiser desfazer o trato agora, por mim tudo bem. Só que o seu filho morre aqui e agora, na frente da senhora.
— Não, não mate o meu filho, por favor! — Mamãe gritou, o desespero tomando conta dela.
— Não, por favor! — Eu me joguei aos pés dele, as lágrimas queimando meus olhos. — Satan, não faz nada! Mãe, por favor, sai daqui... leva o Léo pro quarto, agora!
Satan olhou para baixo, para mim, com um desprezo que camuflava algo muito mais sombrio. Ele deu uma risada curta e amarga, olhando para a minha mãe.
— Acho que seus filhos são o seu orgulho, hein? — Ele debochou, a voz carregada de veneno. — De um lado, um noia vagabundo dando prejuízo e vendendo a própria família, do outro, uma p**a que vai vender o corpo para pagar a dívida do irmão. Que bela família você criou.
Minha mãe o olhava com a dignidade ferida brilhando nos olhos cheios de água.
— Não chame a minha filha assim! — ela gritou, a voz firme apesar do medo. — A Manuela é um anjo, ela é a luz dessa casa! Ela está fazendo isso por amor, algo que um monstro como você nunca vai entender! Ela vale mais do que qualquer coisa que você tenha nesse morro!
Satan estreitou os olhos, a mandíbula travada, o clima ficou tão tenso que eu senti que um tiro seria disparado a qualquer segundo.
— Mãe, chega! — Eu me levantei, segurando o braço dela com força, tentando empurrá-la em direção ao corredor. — Por favor, vai para o quarto, eu vou ficar bem, eu fiz a minha escolha e vou honrar a minha palavra só vai, mãe e cuida do Léo.
— Manuela, não... — ela soluçava, o corpo perdendo as forças.
— Vai, mãe! Por favor! — Gritei, e ela, vendo que não havia mais saída, arrastou o Léo, que continuava com aquela cara de quem não se importava, para dentro.
Ficamos apenas eu e ele o silêncio na sala era cortante. Satan se aproximou, e eu senti o calor do corpo dele me envolver, ele segurou meu queixo com uma força que me obrigou a olhar para ele.
— Gostou da defesa da mamãe? — Ele sussurrou, a voz carregada de uma possessividade que me fez tremer. — Aproveita as últimas horas de "anjo", Manuela. Porque quando eu mandar te buscar, você vai esquecer o que é o céu.
Eu não disse nada. Apenas fechei os olhos, aceitando que a minha vida, a partir daquele momento, não me pertencia mais. Eu era o pagamento. Eu era a moeda de troca. E o dono do meu destino era o homem que o morro chamava de demônio.