Dia após dia

1003 Palavras
Renato narrando Os meses sem Giulia haviam sido uma tortura. Ela raramente aparecia nas missas e, quando aparecia, não se aproximava. Sentava no último banco e ia embora assim que encerrasse. Cada dia parecia mais longo que o anterior, cada oração um grito silencioso pedindo perdão a Deus, pedindo força para resistir aos próprios desejos. Eu tentava me concentrar nos sermões, nas missas, nos fiéis que vinham me procurar com confissões, mas, no fundo, cada palavra soava vazia diante da falta que ela me fazia. Cada lembrança da noite que havíamos passado me consumia, me deixava inquieto, e a culpa era um peso constante que eu carregava, esmagando meu peito. Eu me obrigava a rezar, pedindo perdão, tentando me convencer de que o que sentia por ela era pecado, mas a verdade era impossível de ignorar: eu ainda a desejava, ainda a amava de forma intensa e proibida. Cada oração terminava com mãos trêmulas e suor frio, cada Ave Maria soava como um eco de desejo reprimido que não podia cessar. E então, inevitavelmente, a via. Acompanhando Gabriel, sorrindo, abraçando-o, rindo com a leveza que eu nunca poderia proporcionar a ela. Meu corpo inteiro se enchia de uma raiva que eu não conseguia controlar. A dor da impotência, de não poder tê-la, de vê-la com outro, transformava minha paciência em fúria. Uma noite, sozinho em meu apartamento, não resisti. Fechei os punhos e sociei a parede. A dor na mão foi instantânea, o sangue escorrendo pelos dedos misturado à frustração que me consumia. Cada golpe era um grito silencioso, cada ferida uma lembrança c***l do que havia perdido. Mas mesmo assim, eu não podia fazer nada. Nada além de continuar rezando, de me torturar com os próprios sentimentos, de me convencer de que minha missão espiritual valia mais do que qualquer desejo carnal. Eu tentava me concentrar, estudar, preparar os sermões, orientar os fiéis, mas cada passo pelo corredor da igreja me lembrava dela, cada oração me lembrava do calor do seu corpo, do cheiro da pele, da voz sussurrando meu nome. A vida seguiu seu curso, silenciosa, dolorosa, e os meses se arrastaram. Eu via Giulia cada vez menos, mas bastava um simples olhar dela cruzando meu caminho para sentir o coração disparar e a raiva misturar-se à saudade. Cada sorriso dela, cada gesto de afeto com Gabriel, era um facão cortando meu peito. Eu me perguntava como Deus podia me testar com tanta intensidade, como podia permitir que o desejo por ela persistisse mesmo quando minha consciência gritava que tudo estava errado. E então, numa tarde comum, o padre que servia como meu confessor se aproximou. Ele sorriu, com aquela tranquilidade serena que sempre me irritou e acalmou ao mesmo tempo, e disse: -Renato, você terá que celebrar um casamento em dois meses. Prepare-se. No instante em que ouvi a notícia, meu corpo inteiro se tensionou. Casamentos não eram novidade para mim, claro que não. Eu adorava celebrá-los, sentia uma alegria quase sagrada em unir pessoas que se amavam, em abençoar vínculos, em transmitir esperança e fé. Mas, por algum motivo, meu estômago se contorceu com aquela frase. Um nó profundo se formou, uma mistura de expectativa e pressentimento que eu não consegui identificar imediatamente. Comecei a me preparar mentalmente, organizando as leituras, as orações, os ritos. Planejei cada detalhe, ensaiei cada palavra que deveria dizer, cada gesto que faria diante dos noivos. Tudo como de costume, tudo com perfeição. Mas havia algo estranho naquele ar, uma sensação que eu não conseguia definir. Eu não fazia ideia de quem seriam os noivos, e isso deveria me deixar alheio, mas algo dentro de mim se preparava para um impacto silencioso, uma surpresa que ainda não sabia que viria. Durante esses dois meses, mantive minha rotina rigorosa. Continuei rezando, ainda lutando contra meus sentimentos, ainda tentando apagar cada memória de Giulia, cada toque, cada gemido que ainda ecoava em minha mente. A raiva misturava-se à saudade, a frustração à culpa. Mas eu mantinha a disciplina. Eu precisava ser forte. Precisava ser Renato, o padre, o homem que se sacrificava pelo bem espiritual, e não pelo prazer ou desejo. Os dias se arrastavam, as missas continuavam, os fiéis vinham e iam, e eu apenas observava, me contendo, reprimindo cada reação. Mas dentro de mim, algo queimava, algo pulsava. Cada olhar em direção à sacristia, cada passo pelos corredores, cada cheiro de perfume que me lembrava Giulia me fazia tremer por dentro. Eu me culpava por sentir, por desejar, mas era impossível apagar. E, mesmo com toda a preparação para o casamento, mesmo com toda a serenidade aparente, havia uma tensão silenciosa dentro de mim. Algo me dizia que a vida tinha planos inesperados, que nada estava sob meu controle, e que, talvez, em breve, minha fé e minha força seriam testadas de uma maneira que eu ainda não podia imaginar. Eu continuei a me preparar, a ensaiar cada palavra, a estudar cada detalhe, mas meu coração permanecia inquieto. Algo dentro de mim dizia que aquele casamento seria diferente, que meus sentimentos seriam desafiados, e que, mais uma vez, a vida me colocaria frente a frente com a mulher que eu não podia ter. Enquanto observava os fiéis durante as missas, minha mente vagueava. Perguntava-me se eu teria forças para enfrentar o que estava por vir, se conseguiria manter a disciplina e a fé, ou se, novamente, seria consumido pelo desejo, pela raiva, pela lembrança de Giulia. O tempo seguia, impassível, e eu sabia que o dia do casamento se aproximava. Dois meses parecia uma eternidade e, ao mesmo tempo, um instante. Eu não sabia quem seriam os noivos, mas sentia que algo estava prestes a mudar, que a vida estava preparando um choque que eu não poderia evitar. E, mesmo com todo o sofrimento, toda a raiva, toda a luta interna, eu sabia que aquele dia definiria não apenas meu papel como padre, mas também meu coração, minha consciência e a maneira como eu lidaria com os sentimentos mais profundos que carregava há meses.
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