Mano, o tempo passou e a imagem daquela mina não saiu da minha mente tá ligado! Linda de verdade, mesmo carregando no corpo todos aqueles machucados.
Coloquei o Neto pra ficar de olho nela, trazer notícias. Já faz uma semana desde que a encontrei. Passei lá duas vezes, vi de perto, mas ela continua na mesma, apagada naquela cama. Então decidi focar no morro, segurar as pontas, por aqui, enquanto o Neto desenrola as paradas por lá.
No mesmo dia em que trombei com a galega, quando cheguei no morro e peguei meu celular, vi duas chamadas perdidas da Kátia — Minha secretária do lar, babá e guardiã da minha irmã.
Na hora parti pra casa. Quando cheguei, o clima era de caos, total. Minha irmã chorava sem parar, e, mano, aquilo me quebrou por dentro.
Assim que me viu, veio correndo pro meu colo. Segurei firmemente, sentindo seu corpinho tremer, e aspirei aquele cheiro infantil que só ela tem, o único capaz de acalmar meus demônios.
— Posso saber o que aconteceu pra minha princesa tá chorando? — Perguntei, enxugando as lágrimas dela com cuidado. Mas ela nem abriu a boca. Antes mesmo que pudesse insistir, uma gritaria estourou na cozinha.
Me levantei decidido, mas nem cheguei na metade do caminho e já dei de cara com a Serena, arrastando a Kátia pelo braço.
— Que porräh é essa, Serena? — Rosnei. — O que você tá fazendo aqui? — E por que tá arrastando a Kátia?
Ela largou o braço da Kátia como se não fosse nada e veio na minha direção com aquele falso sorriso.
— Caio, meu querido!
— Me responde, Serena! — Cortei seco.
— Eu só vim saber como tinha sido a missão e ficar com você. Mas quando cheguei, encontrei essa casa, uma bagunça, e essa empregada não respeita os patrões.
Arqueei a sobrancelha, cruzando os braços.
— Kátia, tu desrespeitou a Karen? — Perguntei, firme, sem desviar o olhar.
Kátia, mais branca que a neve, arregalou os olhos e disparou:
— Não, menino! — Foi a Serena que entrou aqui sem ser convidada! — A Karen só perguntou o que ela estava fazendo e, do nada, ela gritou com a menina! — Depois veio atrás de mim, me chamando de relaxada, dizendo que a casa estava uma bagunça e que, quando fosse dona, me colocaria pra fora!
Senti o sangue ferver. Me virei para Serena, com um olhar carregado de fúria.
— Acho que você esqueceu quem manda aqui, Serena!
Ela tentou se defender, com lágrimas brotando dos olhos:
— Eu posso explicar, Caio!
— Já chega! — Gritei, minha voz ecoando pela sala. — Você precisa colocar uma coisa nessa cabeça de uma vez por todas: os donos dessa casa sou eu e a Karen! — E já deixei bem claro que não quero ninguém aqui dentro quando eu não estiver!
Serena abriu a boca para retrucar, mas ergui a mão num gesto firme, cortando qualquer palavra.
— Não é porque eu transö com você e temos uma amizade antiga que vai fazer o que bem entende dentro da minha casa. — Minha voz saiu seca, e afiada. — Então, se retire. Depois, a gente conversa.
— Mas, Caio, eu vim pra ficar com você. — Disse, deslizando a mão pelo meu braço como se isso fosse me fazer mudar de ideia. Me Afasto, firme.
— Já mandei você sair, Serena! — Eu quero ficar com a Karen.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Ela me lançou um olhar ferido, misturado com orgulho, e então virou-se, encarando Kátia com desprezo antes de bater à porta com força.
Kátia respirou fundo, visivelmente sem jeito.
— Menino, me desculpe, mas essa não é a primeira vez que ela faz isso. Principalmente com a menina Karen, Ela vive destratando a Karen.
— A Serena tá precisando de um gelo, Kátia. — Falei firme. — Não permita que ela chegue perto da Karen, quando eu não estiver. Ela se acostumou porque, de vez em quando, eu ficava com ela, e agora tá querendo colocar as unhas de fora.
Kátia assentiu, séria, entendendo o recado.
Fiquei um instante em silêncio, só ouvindo meu próprio pensamento latejar: Era só o que me faltava, o que será que essa mulher tá pensando?
Aos poucos senti a raiva tomar conta do meu peito. Serena estava confundindo as coisas mas comigo não tem essa.
Fiquei com a Karen até depois do almoço, mas precisava ver como estavam as coisas no morro. Saí e deixei a Kátia de olho nela. Assim que cheguei no QG, dei de cara com o Bruninho. Fizemos o toque de sempre, mas antes mesmo de eu chegar na minha sala ele largou:
— Mano, o que tu fez com a Serena? — Tu é meu brother, mas não vou admitir que tu faça ela sofrer.
Virei pra ele com a cara fechada:
— Tá maluco? — Do que tu tá falando?
— Ela veio aqui dizendo que você humilhou ela, mano. Já falei, não vou permitir isso.
Dei dois passos na direção dele e encarei firme, olho no olho:
— Primeiro: se liga, porque quem manda nessa porräh aqui sou eu. Segundo: eu não humilhei ninguém. Só mandei ela vazar da minha casa. Já avisei que não quero mulher nenhuma lá dentro quando eu não tiver. E outra: além de destratar minha irmã, ela teve a ousadia de humilhar a pessoa que me ajuda. E não foi fofoca, não. Eu ouvi com esses ouvidos aqui.
Encarei ele firme, e Bruninho não desviou o olhar.
— Mano, a Serena é louca por tu, tá ligado? — Ela faz de tudo pra te agradar.
Respirei fundo, cerrei a mandíbula e soltei sem rodeio:
— Já avisei pra ela: entre a gente é só amizade e sexö dos bons. Fora isso, nada mais.
Digo isso e entro na minha sala. Não tocamos mais no assunto. A semana passou e nada — Nenhuma notícia sobre quem era a galega que encontrei, nenhum sinal de quem a deixou, ela jogada na entrada do Morro. Nem um zunzunzum dos moradores, parecia até que só eu e Neto tínhamos nos deparado com aquela situação.
Estava resolvendo as paradas no QG quando decidi ligar pro Neto. Ele me atende dizendo que a mina continua dormindo, mas no fundo escuto uma voz rouca falando com ele. Na hora sinto um arrepio estranho, meu corpo inteiro reage. Fico em silêncio, prestando atenção, até que Neto percebe que ainda tô na linha e solta:
— Mano, a mina acordou.
Me levantei num pulo. — Eu preciso saber quem ela é! — Quem fez isso? — De onde ela veio? — Murmurei pra mim mesmo.
Perguntas demais, respostas de menos. E isso não era coisa pra resolver por telefone. Esses assuntos só davam pra tratar cara a cara. Peguei minhas coisas, desliguei sem nem me despedir de Neto e parti decidido a resolver essa parada pessoalmente.