Episódio 5

1787 Palavras
Após aquele encontro urgente na mesa, Sebastián e Victoria transformaram seu desejo em uma rotina clandestina e febril. Aproveitavam cada desculpa, cada intervalo entre audiências ou supostas visitas a clientes, para dar rédea solta ao seu papel de amantes. Tornaram-se especialistas na arte da fuga, e cada saída era uma oportunidade para se perderem na pele um do outro, alimentando um fogo que devorava suas agendas e seus escrúpulos. Naquela tarde, enquanto o sol começava a se pôr sobre a cidade, estavam em um motel discreto nos arredores, ali, entre lençóis com cheiro de detergente industrial e o som abafado dos carros passando na rodovia. Ambos se entregaram a uma paixão sem limites. Naquele refúgio temporário, não eram mais os advogados prestigiosos que um dia foram. Eram duas almas famintas devorando-se nas sombras. Sebastián explorava a pele de Victoria com uma urgência que parecia insaciável, enquanto ela o marcava com a ferocidade de quem sabe que guarda um segredo proibido. Contudo, a bolha de impunidade em que viviam estava prestes a estourar contra a parede da mais ingênua realidade doméstica. Para eles, isso continuaria até que se saciassem um com o outro, se é que isso algum dia aconteceria, independentemente de quem estivessem enganando. Elizabeth caminhava pela calçada em frente ao escritório de advocacia com um sorriso que iluminava seu rosto. Passara a manhã avaliando um imóvel próximo para seu próximo projeto arquitetônico e, por um capricho, decidiu passar no escritório para surpreender o marido com seu café favorito: um latte duplo com um toque de canela. Ao entrar, Clara, a secretária, ergueu os olhos e cumprimentou Elizabeth com seu profissionalismo habitual e aquele sorriso familiar. — O Sebastián está no escritório, Clara? Perguntou Elizabeth com sua gentileza de sempre. — Não, senhora... O doutor saiu para uma audiência há algumas horas. Respondeu Clara, evitando seu olhar. — Esperávamos que ele voltasse há algumas horas, mas imagino que o caso deva ser muito complicado. Você sabe como essas coisas são. Geralmente demoram uma eternidade. Antes mesmo que Elizabeth pudesse se sentir decepcionada, as portas do elevador se abriram e Nathaniel Sinclair apareceu com sua habitual elegância descontraída, mas quando viu Elizabeth, seus olhos brilharam de uma maneira que ele nunca reservava para seus clientes. Era como encontrar ouro no bolso. — Mas o que meus olhos veem? É uma aparição divina ou você realmente trouxe café para esta pobre advogado explorado? Ele perguntou, aproximando-se com um sorriso travesso. Elizabeth riu, acostumada ao estilo brincalhão e galante de Nathan. Ela não se importava que ele usasse seu humor com ela. Sempre o considerou um brincalhão, inofensivo. — Oi, Nathan. Sinto muito em te decepcionar, mas é para o Sebastian. Ela respondeu, ainda rindo das piadas sem graça dele. — Mas como ele parece ter esquecido o caminho de volta, você pode ficar com ele por sorte. — Não me diga isso, Eli, consigo ouvir meu coração se partindo daqui. Disse ele, colocando a mão no peito e massageando os músculos peitorais por baixo da camisa. — Vamos, não fique aí parada como uma estranha, entre no meu escritório. Prometo que minha conversa é muito mais estimulante do que ficar olhando para o relógio na recepção, e tenho uma visão melhor, principalmente porque tenho você bem na minha frente. Elizabeth concordou, divertida. Assim que entrou, Nathan sentou-se na beirada da mesa, balançando uma perna e olhando para ela com uma devoção que ela sempre confundia com mera amizade. — Sabe, Eli… Sebastian é um ótimo advogado, mas como marido, é um péssimo estrategista. Se eu tivesse uma mulher como você me trazendo café para o trabalho, eu não me atrasaria nem para o meu próprio funeral. Na verdade, eu inventaria desculpas só para você vir me resgatar. — Nathan, pelo amor de Deus... Ela respondeu, corando levemente enquanto se sentava e cruzava os tornozelos. — Você sabe muito bem que sou casada com seu sócio e que sou muito feliz, aliás. Nathaniel inclinou a cabeça, mantendo aquele sorriso magnético que o caracterizava e aquela doçura que só demonstrava com ela. — Bem, sempre existe a opção de se divorciar dele e ficar comigo. Ele disparou sem rodeios. — Garanto que sou uma opção muito melhor. Cozinho pratos com nomes franceses que você não consegue pronunciar, reclamo menos dos juízes e, acima de tudo, jamais a faria esperar com um café na mão. Pense bem, Sinclair & Associados parece bom, mas Sinclair & Elizabeth soa como o paraíso. Elizabeth balançou a cabeça, rindo. — Você é incorrigível. De repente, o tom de Nathan mudou. Ele ficou sério, embora seus olhos ainda mantivessem aquele brilho especial. Nathan era um homem que se movia pelos corredores como água em um rio. Era um homem que via e ouvia muitas coisas; coisas que poderiam virar o mundo de um de seus sócios de cabeça para baixo para o resto da vida. — Falando em assuntos importantes, Eli... Quero comprar um terreno na praia Algo reservado, para construir uma casa de férias, ou talvez um abrigo nuclear. Gostaria de saber se o melhor arquiteto da costa poderia me ajudar a escolher o local ideal. Não confio no gosto de ninguém além do seu. Elizabeth era uma mulher ocupada, mas amava seu trabalho. Ver o sorriso de seus clientes quando entregava as propriedades devia ser mais emocionante do que qualquer outra coisa. orgasm*o. — Adoraria! Exclamou ela, o rosto iluminando-se ao falar de sua paixão e da alegria de compartilhá-la com alguém. — Você sabe que amo meu trabalho. Mostre-me o que você viu. Elizabeth se levantou e aproximou-se da mesa. Nathan virou a tela do computador e ela se inclinou para examinar os planos. Ela estava cativada pelas propostas dele, e Nathan pelo perfume do cabelo dela. Naquele momento, estavam tão perto que Nathaniel podia sentir a fragrância floral dela, aquele perfume que o desarmava. Enquanto uma faísca de ternura contida se acendia naquela mesa, o corredor lá fora ecoava com passos que carregavam consigo o cheiro de traição. Sebastian e Victoria entraram no escritório, ainda envoltos na aura do encontro recente. Chegaram rindo baixinho, compartilhando uma piada interna sobre o que havia acontecido no motel, até que Clara os interceptou, a voz trêmula, os saltos fazendo-a tropeçar. — Doutor… sua esposa está aqui. Ela está esperando por você há um tempo. Disse ela. — Ela está no escritório do advogado Sinclair. O rosto de Sebastian se contraiu instantaneamente, enquanto Victoria, por sua vez, se afastou um pouco dele e cruzou os braços, os lábios comprimidos em uma fina linha de pura irritação. Ela odiava as intromissões de Elizabeth. Detestava que a esposa perfeita viesse lembrá-lo de que ele tinha uma vida jurídica e pública fora do quarto dela. Victoria viu o maxilar de Sebastian se contrair ao ouvir o sobrenome de Nathan e soube o que estava acontecendo. Não importava o quanto ela o marcasse na cama, Sebastian sempre pertenceria a Elizabeth. Sebastian se enfurecia só de ouvir falar que sua esposa estava em outro escritório. Ela não conseguia imaginá-lo com mais nada. Dominado por um impulso possessivo que nem mesmo o peso da própria culpa conseguia conter, Sebastian caminhou pelo corredor e abriu a porta da sala de Nathan com um estrondo. A cena que o recebeu foi como ácido para o seu orgulho. Elizabeth e Nathan estavam tão próximos que seus ombros se tocavam, rindo, sendo íntim*os como melhores amigos, e isso desencadeou a fúria de Sebastian. — O que está acontecendo aqui? Do que você está rindo tanto que nem percebe quando alguém chega? Sebastian disparou em tom gélido. Elizabeth se levantou rapidamente, alisando a saia, enquanto Nathaniel fechava a porta com uma calma exasperante. — Nada, Sebastian. Não seja tão dramático. Respondeu Nathan com um sorriso irônico. — Eli só estava me ajudando com a propriedade na praia. Você deveria se orgulhar de ter uma esposa tão talentosa, em vez de invadir como se fosse o FBI. O comentário de Nathan, carregado de ironia, só alimentou a raiva de Sebastian, que ignorou a provocação e simplesmente encarou a esposa. — Venha comigo até meu escritório, Elizabeth. Precisamos conversar. Declarou Sebastian, segurando seu braço com uma possessividade que Elizabeth nunca vira nele antes. Antes de sair, ela se virou para se desculpar com o olhar. Nathan, ignorando a fúria de Sebastian, lançou uma última farpa que atingiu o ego de Sebastian: sabe, Eli... minha oferta ainda está de pé. Você sempre pode trocar e experimentar a comida francesa. Sebastian se virou para olhá-lo. — É Elizabeth, não Eli. Corrigiu Sebastian. Assim que ficou sozinho em seu escritório, Sebastian bateu a porta e tentou suavizar a expressão, mas o nó de ciúme e a adrenalina de Victoria ainda o consumiam por dentro. — Aconteceu alguma coisa ru*im que a fez vir aqui assim? Ele perguntou, sentando-se atrás da mesa, enquanto ela o olhava curiosa. — Precisa acontecer alguma coisa rui*m para eu querer trazer um café para você? Ela respondeu, tristemente. — Pensei que isso te faria feliz. — Desculpe, meu amor. Disse ele, enxugando o rosto suado com as mãos. — É que o caso de hoje foi exaustivo, e ver o Nathan tão perto de você… Você sabe como ele é com você, ele não se segura. Me perdoe. Elizabeth, tentando quebrar a tensão, aproximou-se e o abraçou pelo pescoço. Inclinou-se para beijá-lo e, ao afundar o rosto na curva do pescoço dele, seu mundo parou. Foi como um tapa na cara. Ele se afastou apenas alguns centímetros, franzindo a testa. — Sebastian… que cheiro é esse? Perguntou ela, com o coração acelerado, mas sem deixar o ciúme tomar conta. — Você cheira a perfume feminino, e é um perfume muito forte, não o meu. Sebastian não se abalou. Sua máscara de advogado, forjada em mil mentiras, surgiu instantaneamente. Ele mente, e mente muito bem, o desgraçado. — Ah, isso… Disse ele, descartando a ideia com um gesto leve e se afastando para que ela não sentisse o cheiro. — Minha cliente ficou muito emocionada quando ganhamos. Ela me abraçou e chorou no meu ombro por um bom tempo. Deve ser o perfume dela. Você sabe como alguns clientes podem ser intensos quando estão agradecidos. Elizabeth o encarou. Ela queria acreditar nele, precisava acreditar nele, mas aquela fragrância estranha persistia em sua mente como a primeira rachadura em uma janela prestes a se estilhaçar. ‍​‌‌​​‌​​​‌​​​​​​​​​​​​​​​‌​​​‌‌​​​‌​​​‌​​​‌​​​‌​​‌​‌‌‍
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