O relógio de ouro no seu pulso marcava 21h47. Fazia apenas 47 minutos desde que entrara naquele infe*rno, e ele já estava exausto.
— Irmão... A voz de London interrompeu com a leveza de alguém que nunca leva nada a sério. — A loira de vestido azul está te comendo com os olhos já faz um tempo.
Willian não virou a cabeça. Apenas tomou outro gole e deixou o silêncio responder.
London soltou uma risada baixa.
— Vamos lá, você sabe de quem estou falando. Allegra Crowley. Ela está te seguindo como uma sombra desde o último baile. E agora ela parece algum tipo de predador pronto para te montar.
— Não estou interessado. Respondeu Willian, sem mover um único músculo do rosto.
— Por que não? Ela é bonita, é rica e tem aquelas pernas longas que fazem metade da sala ficar olhando.
— É exatamente por isso. Disse Willlian, m*al virando o rosto para o irmão mais novo, que o observava com uma sobrancelha erguida e um copo idêntico na mão. — Muito magra...
London ergueu as duas sobrancelhas dessa vez, surpreso.
— Desde quando mulheres magras te incomodam?
— Não é isso. É o jeito como ela anda como se estivesse numa passarela, mesmo quando vai ao banheiro. É o jeito como ela ri quando ninguém disse nada engraçado. É o perfume que chega antes dela e permanece depois que ela vai embora, mas não é um aroma sutil, é espalhafatoso. É a necessidade desesperada dela de ser vista... e fingir que não quer.
London soltou uma risada.
— Você é um ba*baca, Willian.
— Eu sou observador.
— Você é cr*uel.
— E você é ingênuo. Disse Willian, voltando o olhar para a janela. — Mulheres como Allegra são cascas vazias. Elas brilham por fora, mas não há nada por dentro. É tudo estratégia. Sobrevivência social. Expectativas familiares. Não há alma... só barulho.
— Talvez ela só queira que você goste dela.
— E esse é o problema.
London o observou por mais um segundo, depois se virou para Allegra, que, do outro lado da sala, ria com doçura fingida enquanto cumprimentava conhecidos. O seu vestido era justo o suficiente para parecer um uniforme de caça. O seu sorriso era cortante o suficiente para cortar a atenção de todos.
— Você tem razão. Admitiu London. — Ela parece alguém que aprendeu a fingir antes de aprender a falar.
— Exatamente.
— Então, de que tipo de mulher você gosta, Mestre do Gelo?
Willian manteve o olhar fixo na noite atrás do vidro. A lua pairava sobre os jardins como uma lanterna fria. Sua voz, quando respondeu, era um sussurro seco: aquelas de quem eu não quero gostar.
— E isso existe?
— Sim. Ele afirmou, sem pestanejar. — Mas já foram tomadas... ou quebradas.
London ficou em silêncio.
Por um instante, seu irmão mais velho pareceu mais humano. Mais triste, até, mas o efeito durou pouco.
Willian se virou, colocou o copo vazio na bandeja de um garçom que passava e alisou o punho da camisa.
— De qualquer forma, não estou com cabeça para mulheres esta noite.
— Então, por que você veio?
— Porque se eu não viesse, o velho me ameaçaria me tirar do testamento.
— E você sabe que essa ameaça se renova a cada ano. Brincou London.
— Sim. Mas a fortuna continua crescendo.
London sorriu resignado. Ele admirava muito o irmão. Às vezes, sentia-se tão próximo dele e, ao mesmo tempo, tão distante que às vezes duvidava que eles compartilhassem realmente o mesmo sangue.
Então Allegra se aproximou.
Ele a viu vindo do meio da sala, caminhando com aquele andar estudado, como se soubesse que cada passo continha uma promessa. Seus calcanhares m*al tocavam o chão. O seu cabelo perfeitamente penteado se movia como uma onda dourada atrás dela. Ela estava sorrindo.
— Ela está vindo na sua direção. Murmurou London com um sorriso torto. — E ela está segurando alguma coisa.
— Fantástico. Disse Willian, sem um único traço de emoção.
— Devo deixá-lo sozinho com a sua fã número um?
— Ela não é minha fã. Respondeu ele friamente. — Só mais uma irritante.
London caiu na gargalhada e foi embora no momento em que Allegra chegou.
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Ela tentou se aproximar dele uma, duas, três vezes. Primeiro, com um "Oi, Willian, você está incrível esta noite", que ele ignorou completamente. Depois, com uma pergunta sobre o seu escritório de advocacia, à qual respondeu com um monossílabo e um olhar de advertência.
E, finalmente, com um toque inocente no braço dele enquanto ela lhe oferecia uma bebida, que ele rejeitou com uma frieza que arrepiou até mesmo o garçom que passava.
Mas Allegra não desistiria, não naquela noite.
Ela caminhou em direção à sacada onde ele se refugiara e respirou fundo antes de tirar a caixinha de veludo da bolsa. Era uma pulseira simples, feita de fios pretos e vermelhos cuidadosamente trançados.
Ela entregou a ele com um sorriso doce e ensaiado.
— Fiz isso para você.
Willian virou a cabeça lentamente. Ele a olhou de cima a baixo, como se calculasse por quanto tempo mais deveria tolerá-la.
— O que é isso?
— Uma pulseira. Eu a teci nas cores da sua banda favorita... Os Rolling Stones.
O seu olhar se estreitou.
— Como você sabe que eu gosto dessa banda?
Ela engoliu em seco. O seu sorriso congelou por um segundo.
— Você disse isso anos atrás... quando foi entrevistado pela revista Time como o jovem prodígio de Stanford.
Willian franziu a testa.
— Isso foi há mais de dez anos.
O coração de Allegra batia forte contra as costelas. Ela rezou para que ele não fizesse mais perguntas. Aquela pulseira tinha sido costurada por aquela idi*ota da Emely com as mãos trêmulas de uma to*la apaixonada. Mas se tudo desse certo... ela levaria o crédito.
— Sim... desde então, aprendi um pouco sobre a sua família. Ela mentiu suavemente.
Willian olhou para a pulseira. Ele a segurou entre os dedos, os lábios se contorcendo de irritação.
— Essa coisa cafona é para adolescentes. E você e eu não somos adolescentes, Allegra. O que você está procurando com isso?
Seu lábio inferior tremeu. O olhar dele era como um bisturi, afiado.
Por um segundo, ela se sentiu exposta.
Por um segundo... ela não sabia o que dizer.
Então ela pensou em Emely. O que aquela pirralha diria?
— Não estou procurando nada. Ela disse, com uma voz falsa, baixa e doce. — Eu só queria te dar porque sei o quanto é importante para você.
Willian olhou para ela em silêncio. Ele não esperava uma resposta tão genuína. Algo na sua expressão mudou. Não muito, mas o suficiente para a bruxa ganhar alguns pontos com ele.
— Obrigado. Disse ele secamente.
Estava funcionando, uma parede rachando. E Allegra sentiu.
— Pelo menos... Ela sussurrou, inclinando-se para mais perto. — Pelo esforço de fazer isso para você... você poderia me pedir para dançar uma música, certo?
Ele olhou para ela novamente. Cada célula do seu corpo queria dizer não, mas seus olhos pousaram na pulseira. E algo — uma sombra, uma lembrança — cruzou o seu olhar. Ninguém antes havia prestado atenção àqueles detalhes que o tornavam frágil para o mundo.
— Uma música, apenas uma. Disse ele finalmente.
Allegra sorriu, vitoriosa.
Ela estendeu a mão, e ele a aceitou com relutância. Eles entraram na sala e todos os olhares se voltaram para aquele casal, que aos olhos da sociedade... era perfeito.