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Começara a chover quando a limusine preta cruzou os portões da Mansão Crowley. Dois utilitários esportivos blindados a escoltavam, um na frente e outro atrás. As luzes se apagaram quase assim que estacionaram em frente à entrada principal e, antes que o motorista pudesse sair, a porta foi aberta à força.
Albert Crowley desceu com a elegância de um rei e a tensão de um homem que não dormia há dias.
Seu terno escuro estava amassado devido à longa viagem da Austrália, mas sua postura permanecia impecável. Seu cabelo castanho-escuro, penteado para trás, brilhava com as gotas de chuva que m*al tocavam seu casaco de lã italiana. Seus olhos — de um azul penetrante e melancólico — perscrutavam a fachada da antiga casa com a mesma expressão que usava para ler contratos multimilionários.
A governanta correu para cumprimentá-lo, nervosa como sempre que ele voltava de viagem.
— Bem-vindo ao lar, Sr. Crowley.
Albert não respondeu ao cumprimento. Em vez disso, franziu a testa, parando abruptamente ao subir o primeiro degrau de mármore.
— Que barulho é esse?
A mulher hesitou. Era evidente que ela esperava que alguém fizesse a mesma pergunta há algum tempo.
— A música está vindo da ala leste, senhor. Do quarto da Srta. Emely.
Albert virou-se lentamente, como se não tivesse ouvido direito.
— Emely?
— Sim, senhor. Estamos batendo à sua porta há horas, mas a Srta. Emely não atendeu...
Albert levantou a mão, pedindo silêncio. Ela conhecia a sobrinha. Aquela menina não ouvia música àquela hora. Muito menos aquela música: estridente, aguda, irritante. Não era o seu estilo, não era a sua alma.
Desde pequena, Emely sempre preferira óperas, música suave.
O instinto, o instinto que nunca a falhava nos negócios, sussurrava no seu ouvido que algo não estava certo.
— Onde está Allegra? Ele pergunta à governanta.
— A sua filha e o seu pai foram ao baile dos Hawthorne.
— E por que Emely não foi com eles?
A governanta tinha medo do Sr. Albert, pois ele tinha um temperamento inf*ernal.
— Não sei, Sr. Albert. Sua filha disse que a prima dela não queria ir...
— Ligue para o meu pai e diga a ele para trazer Allegra aqui agora mesmo. Eu não lhe dei permissão para sair de casa. Ele ordenou a um dos seus homens com voz grave antes de começar a subir a escada de mármore branco.
E quando chegaram ao corredor, a música ficou mais alta. Vinha, como a governanta havia dito, do quarto de Emely.
Não era essa a música que ela ouviria.
Ele bateu na porta.
— Emely?
Nada.
Ele bateu com mais força.
— Emely, sou eu, tio Albert. Abra a porta.
Silêncio.
Ele não gostava de situações incomuns, detestava-as. A fúria subiu-lhe à garganta, mas era a preocupação que o movia. Agarrou a maçaneta com força.
Trancada.
Ele não hesitou um segundo. Deu um passo para trás e, com o peso do corpo, investiu contra a porta. A madeira rangeu e ela se abriu.
O quarto rosa e branco estava escuro. O abajur tremeluzia. A música continuava tocando no sss Echo Spot ao lado da cama. A cama estava impecavelmente arrumada, com um saquinho de glitter rosa-claro em cima.
Procurou-a no banheiro, mas não havia sinal da sobrinha em lugar nenhum.
Albert desligou a música, furioso.
— Emely... Chamou novamente, a voz perdendo o tom autoritário. — Onde você está, filha?
Ele aproximou-se do armário. Um impulso, um sentimento... ou talvez a lembrança dos antigos medos da sobrinha e dos erros da própria filha.
Ele abriu a porta.
O corpo de Emely jazia no chão, inconsciente, com as pernas dobradas de forma anormal. Ela usava um vestido rosa-claro, o mesmo que ela havia pedido com tanta ansiedade no mês anterior. O seu rosto estava pálido como um lençol. Os seus lábios estavam machucados. E o seu nariz... sangrava.
Isso só podia significar uma coisa: um ataque de pânico, um ataque grave.
Albert caiu de joelhos sem pensar.
— Não... não, não, não! Ele ofegou, com o coração batendo forte no peito. — Emely!
Ele a pegou cuidadosamente, com medo de quebrá-la, sem saber se ela estava machucada. A sua pele estava fria. As suas pálpebras não se moviam. Os seus cabelos cacheados, emaranhados e úmidos de suor, grudavam na sua testa.
— Acorde... por favor, acorde, criança. Ele murmurou, acariciando o seu rosto desesperadamente.
Ela não estava reagindo. O seu estado de ansiedade o lembrava da falecida Eva, mãe de Emely. A última vez que viu a mulher viva, ela estava deitada numa poça de sangue... Com um grito de cortar o coração, ela chamou os seus guarda-costas.
— Socorro, preparem o carro! Vamos para o hospital!
Um dos homens irrompeu no quarto, seguido por outro.
— Meu Deus! Murmurou um deles ao vê-la.
Albert os ignorou e a abraçou com mais força.
— Você está comigo, Emely... filha, eu estou aqui... eu estou aqui...
Ele desceu as escadas correndo com ela nos braços, correndo como se a vida dela estivesse se esvaindo a cada segundo. A governanta gritou ao vê-la. Todos os criados congelaram.
— Tragam o m*aldito carro! Agora!
A porta se abriu. O ar frio da manhã atingiu o rosto do empresário.
Albert entrou no veículo com ela, sem soltá-la, repetindo o seu nome constantemente.
— Ela teve alguma complicação médica nos últimos dias?
— Não, senhor. A jovem estava bem. Nós a monitoramos, assim como a sua filha.
— E como di*abos você explica o fato de ela estar trancada? Emely é claustrofóbica!
— Não acho lógico, senhor.
O empresário olhou para a sobrinha, a quem amava como uma filha.
E enquanto o carro acelerava em direção ao hospital, Albert fechou os olhos. Não há dor maior do que ver a filha da mulher que você mais ama... sofrer.
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Allegra deixou o salão principal da festa segurando a mão de Willian Hawthorne.
Aquele simples gesto, aquele contato de pele com pele, foi o suficiente para fazer a loira se sentir flutuando. Ela não se importava com os olhares invejosos, os comentários reprimidos ou os sorrisos falsos que cruzavam o seu caminho. Tudo o que lhe importava era ele. O homem mais inalcançável de Chicago, caminhando ao seu lado como se a tivesse escolhido.
— Você vai embora? Ele perguntou, com a voz grave, enquanto chegavam ao carro que esperava em frente ao pórtico.
— Estão me obrigando a ir. Ela respondeu com uma careta.
— Como a Cinderela, antes da meia-noite.
— É, até o vestido me cai bem, não é?
O advogado a encarou. Ele a achara frívola e boba, mas eles tiveram boas conversas durante a noite.
— Combina com você.
— Willian... antes de ir... eu quero uma coisa.
O advogado ergueu uma sobrancelha.
— E o que seria?
Ela baixou o olhar por um segundo, como se estivesse tímida, como se o que estava prestes a dizer realmente a pesasse.
— Um beijo. Ela murmurou. — Sempre sonhei que o meu primeiro beijo fosse com você.
— O seu primeiro beijo? Isso o surpreendeu demais. Ele a havia julgado m*al.
— Sim.
Mentira.
Ela já havia beijado outros, mas nenhum como ele. Nenhum que tivesse aquele poder brutal sobre o seu corpo, sobre os seus pensamentos. Nenhum que a fizesse se sentir como uma garotinha nervosa com apenas um toque dos seus dedos.
Willian estreitou os olhos e a estudou em silêncio.
— Quantos anos você tem? Ele perguntou em um tom calmo, mas direto.
— Sou maior de idade. Ela disse rapidamente, com firmeza, sem tremer. — Completei dezoito anos há duas semanas.
Ele assentiu com um sorriso torto, do tipo que m*al curvava os lábios, mas dizia tudo. Ela não era o tipo dele, mas a garota parecia decente, inteligente e fácil de conversar. Até onde ele sabia, Allegra tinha uma boa reputação, e para ele, a reputação de uma mulher era primordial. Isso e a sua sinceridade.
— Você mereceu o beijo por causa da pulseira.
E sem lhe dar mais tempo para reagir, ele se inclinou.
Os seus lábios tocaram os de Allegra com uma precisão requintada. No início, foi lento, gentil, como se ele a estivesse saboreando pacientemente. Mas levou apenas alguns segundos para o beijo se aprofundar. Mais exigente. Mais quente.
Allegra sentiu o coração disparar dentro do peito. A sua visão turvou, a suas pernas fraquejaram. O seu corpo reagiu instintivamente, como se tudo nela gritasse por ele.
Willian sabia beijar.
Deus, ele sabia beijar.
Os seus lábios eram firmes, a sua boca tinha gosto de uísque e algo mais... algo de perigo, de fogo contido. E o seu cheiro... o seu perfume era inebriante. Amadeirado, masculino, elegante.
A loira agarrou a sua camisa, puxando-o para mais perto. Ela o beijou novamente, desta vez assumindo o controle, acariciando o seu pescoço, roçando o seu peito com a ponta dos dedos.
— E então? Ela sussurrou, ainda ofegante. — Você vai me convidar para sair depois disso?
Willian sorriu, com aquela expressão de alguém que se diverte com uma criança excessivamente impulsiva.
— Talvez... embora eu ainda ache você jovem demais para mim. Sou doze anos mais velha que você.
— Me ligue amanhã. Disse ela, com a voz confiante.
— Talvez. Ele repetiu novamente.
— Você não encontrará uma mulher tão perfeita quanto eu. Somos perfeitos juntos.
Ele deu uma risadinha.
— Você está se precipitando em coisas que não deveria.
— E quem disse que eu gosto de ir devagar? Ela respondeu, beijando-o novamente.
E então, a voz grave do avô interrompeu o momento.
— Filha, vamos embora. Seu pai chegou.
Allegra congelou.
Ela se afastou de Willian, com os lábios ainda úmidos, as bochechas coradas e o coração acelerado.
— O quê? Ela perguntou, confusa. — Meu pai?
— Sim, vamos embora.
Seu plano de conquista fora interrompido. Mas ela conquistara algo mais valioso: a confiança do advogado, tudo graças ao fato de ter falado com ele do jeito que a idi*ota da Emely falava. Ela havia discutido assuntos que a idi*ota da Emely teria sugerido. Naquela noite, ela quase se passara pela prima em todos os sentidos.
— Você vai me ligar? Ela perguntou, com a voz fraca.
Willian assentiu.
— Talvez. Disse ele, contradizendo-se.
E Allegra entrou no carro, com o coração disparado... e a certeza de que, mesmo que aquele homem ainda não soubesse, ficaria obcecado por ela.