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Uma vez no carro, a loira tirou o celular da bolsa com as mãos trêmulas. O nome "Mamãe" apareceu na tela iluminada.
Ela respirou fundo e atendeu.
— Alô, mamãe?
A voz do outro lado explodiu como uma bomba.
— Que dia*bos você fez com aquela garota idi*ota? Gritou Vera Crowley, sua mãe, uma ex-modelo dos anos 90, agora socialite e especialista em casamentos fracassados e humilhação pública. — O que você fez com aquela garota id*iota?!
A loira virou o rosto para a janela, como se o seu reflexo pudesse defendê-la.
— Eu não fiz nada com ela. Ela mentiu em voz baixa, quase inocente.
— Não minta para mim, droga! Berrou Vera. — Você fez alguma coisa com aquela garota id*iota! Seu pai a encontrou morrendo no armário e está no hospital com ela! Ele já me ligou para me xi*ngar, para gritar que você tentou machucá-la! De novo! Você sabe muito bem que ele não acredita na história da queda do cavalo. Ele sempre suspeitou que foi você.
O coração de Allegra disparou. Não de culpa, mas de medo. Ela estava com muito medo do pai.
— Mamãe... eu não fiz nada. Ela repetiu, forçando um tom de vítima.
— MENTIROSA! Gritou Vera. — Minta para o seu avô patético, ele se deixa manipular pela sua cara de princesa... mas não minta para mim! Não para mim, Allegra! Eu te dei à luz!
— Mamãe... me ajuda com o papai. Por favor. Ela implorou num sussurro quase inaudível.
Vera soltou uma risada seca, tão oca que gelou a garganta da filha.
— Ajudar você? Você? Depois de me fazer parecer uma mãe pior de novo? Não, Allegra. Desta vez não. Seu pai me culpa por toda a sua estup*idez.
— Mamãe, por favor...
— Não vou te ajudar com nada. Disse ela, com a voz afiada como uma lâmina de barbear. — Resolva você.
E desligou.
A tela do telefone ficou preta.
Allegra olhou para ela como se alguém tivesse acabado de morrer. Ela bateu o telefone no joelho, uma, duas vezes. O seu coração estava num nó e a raiva pulsava na sua garganta. Ela não conseguia respirar. Ela não conseguia pensar.
Emely...
Emely...
M*aldita vagab*unda que deveria ter morrido ao lado dos pais.
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Emely Rogers abriu os olhos.
Levou vários segundos para perceber onde estava, piscou várias vezes, confusa. Então veio a queimação na garganta, a leve dor de cabeça, o desconforto de ter o braço perfurado pela intravenosa.
E então ela o viu.
Sentado ao lado dela, franzindo a testa e com as mãos entrelaçadas, estava Albert Crowley. O seu tio.
— T-tio... Ela murmurou com a voz rouca.
Albert ergueu os olhos imediatamente, como se estivesse esperando por aquele sussurro.
— Estou aqui, filha. Ele inclinou-se na sua direção, segurando a sua mão com firmeza. — Como você está se sentindo?
Emely demorou um momento para responder.
— M-m-minha cabeça dói... o-o-o-o que aconteceu?
Albert endireitou-se, mas seu rosto permaneceu sério.
— É isso que eu quero saber. Os médicos disseram que a sua pressão subiu... e que você desmaiou. Ele a estudou atentamente, como se tentasse ler além das palavras. — Eu não entendo o que você estava fazendo trancada.
— Eu... Emely engoliu em seco e então, como um raio, ela lembrou-se.
O confinamento, o riso de Allegra, a música abafando os seus gritos, as suas esperanças de uma dança destruídas.
— Emely? Insistiu seu tio. — O que aconteceu?
Ela baixou o olhar, culpada.
— E-E-E... eu não me lembro.
Albert soltou a mão dela e levantou-se abruptamente. Ele deu alguns passos, com as mãos na cintura, como se tentasse acalmar uma raiva interior.
— É isso que me decepciona em você, filha. Sua personalidade sem graça, sua insistência em se diminuir, em deixar que os outros a machuquem.
— N-ninguém me machucou...
— Pare de mentir para mim! Ele berrou de repente, virando-se para ela. — Allegra te trancou, não foi?
— N-n-não. Ela hesitou. — E-eu não me lembro...
— Eu não sou idi*ota, filha! Ela gemeu de dor. — E você sabe que eu não gosto que mintam para mim. Mentir não é bom, Emely. Eu sempre pedi para você ser honesta comigo.
Ela fechou os olhos com força, lágrimas se acumulando sob as pálpebras. O seu coração batia tão forte que ela achou que ia explodir do peito. Tio Albert nunca tinha levantado a voz daquele jeito. Nunca.
— S-s-sim, foi e-e-ela. ElA finalmente sussurrou. — M-mas... p-por favor, n-não faça...
— A sua doçura, sua gentileza... não são culpa sua. E se ela não aguenta, o problema é dela.
Emely se agarrou ao abraço dele com os olhos fechados, inalando o aroma de colônia e lar que o seu tio sempre carregava consigo.
Depois de alguns segundos, ele se afastou um pouco.
— T-t-tio...
— Sim?
— E-e-eu... m-mudei de ideia.
— Sobre o quê?
Ela olhou para cima, com os olhos ainda brilhando.
— E-e-eu q-quero f-f-fazer uma cirurgia no meu pé.
O empresário a encarou em silêncio. Não porque não entendesse. Mas, porque não conseguia expressar a emoção que o dominava.
— E-eu não q-q-quero mais a-a-adiar. Ela acrescentou suavemente, como se dizer isso em voz alta estivesse superando algo dentro dela.
— Você não tem medo?
— E-eu não quero ter medo.
Albert sentiu aquela mistura de emoções que um pai sente quando sua filha dá o primeiro passo em direção à liberdade, mesmo não sendo a sua filha.
— Depois de todo esse tempo, estou feliz que você tenha tomado essa decisão.
Ela assentiu, apertando a mão dele.
— M-m-eu também, tio.
Ele se inclinou e beijou a testa dela.
— Prometo que encontrarei o melhor especialista.
E desta vez, a garota sorriu, com lágrimas escorrendo pelo rosto.
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Os lençóis de linho egípcio ainda estavam amarrotados, testemunhas silenciosas de uma noite de prazer, mas Willian Hawthorne já estava de pé. O seu torso nu, esculpido como uma estátua grega, movia-se com precisão enquanto ele colocava o relógio e abotoava a camisa.
A mulher na cama, uma modelo de passarela com pernas infinitas e cabelos escuros, o observava com um sorriso sedutor.
— Gostei das suas tatuagens. Diz ela. — Onde você as fez?
— Na escola militar. Ele responde secamente.
— Eu adoro... poderíamos ter um programa matinal. Disse ela, espreguiçando-se provocativamente.
Willian nem se virou. Colocou o relógio, ajustou o colarinho e respondeu: eu não repito mulheres.
Ela franziu os lábios, surpresa.
— Como é?
— Foi uma boa noite. Admitiu ele sem emoção. — Mas é só isso. Eu não repito mulheres. Nunca.
— Nossa... Que cavalheiro!
Willian olhou para ela pela primeira vez desde que acordou. Os seus olhos estavam frios, imutáveis, como aço.
— Estou sendo. Deixei bem claro para você ontem à noite os termos sob os quais tra*nsaríamos.